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25 de junho de 2026

eu e o futebol de rua

Na minha rua havia uma regra sagrada, escrita em lugar nenhum, mas respeitada por toda a gente: quem fosse o dono da bola jogava sempre.

Era uma espécie de Constituição da República do Futebol de Rua, ainda a gente nem sabia havia Constituição

Não interessava se o rapaz corria como um armário ou avestruz, não interessava se confundia um passe com um remate ou se tinha medo de cabecear porque despenteava. O dono da bola era titular absoluto.

E esse dono, às vezes era eu.

O problema é que Deus distribuiu talento futebolístico pelos meus amigos todos e, quando chegou à minha vez, já devia estar na pausa para café ou tinha ido à casa de banho. Tinha bola mas faltava-me o tal de jeito. Era assim um tipo mais de uma verdadeira queda vertical no gráfico da eficácia chutativa.

Os outros faziam fintas. Eu fazia acidentes em que o acidentado quase sempre era eu.

Eles dominavam a bola com o peito. Eu dominava-a com a testa, com as costas ou canela e sempre sem querer.

Quando me gritavam:
— Passa!

Eu passava, quase sempre ao adversário.

Era uma visão democrática do futebol, quando esta palavra era altamente proibida. Eu acreditava que todos tinham direito a tocar na bola, incluindo a equipa contrária.

Mas ninguém se atrevia a dizer:
— Não jogas.

Porque a resposta era imediata:
— Então a bola também não joga.

Seguia-se um silêncio dramático.

A bola debaixo do braço tinha um poder que nem o melhor árbitro do munndo possuía.

Começavam logo as negociações.

— Está bem jogas à defesa.

Cinco minutos depois alguém da minha equipa dizia:

— Se calhar ficas melhor a guarda-redes.

Outros cinco minutos depois:

— Sabes que mais? Fica ali no meio-campo mas sem mexer muito, para ver se não atrapalhas o Zé.

No fundo, tinham acabado de inventara a posição de obstáculo humano. Eu não marcava ninguém, mas ocupava espaço. Havia dias em que nem tocava na bola. Ainda assim, era considerado um jogador importante, porque, sem mim, não havia jogo.

A minha carreira futebolística viveu sempre desse paradoxo extraordinário: era o pior jogador em campo e, simultaneamente, o mais indispensável.

Nunca marquei um grande golo e só por acaso também não me lembro de nenhum pequeno.

Marquei, isso sim, muitos postes de iluminação já que ficávamos muitas vezes lado a lado e só não à conversa porque ele era o candeeiro e eu não sou parvo.

Uma vez rematei com tanta força que a bola foi parar ao quintal da Dona Teodora. A bola voltou três dias depois. Eu ainda hoje desconfio que ela lhe deu um castigo por mau comportamento ou estava com pensa da minha fraca evolução desportiva.

Quando os meus amigos gritavam:
— Chuta para a baliza!

E eu obedecia... desde que a baliza estivesse aproximadamente na direção para onde a bola saía, naquele acaso.

As balizas também eram um espetáculo. Dois tijolos, duas pedra, duas mochilas, às vezes dois chinelos. O problema começava quando alguém chutava para fora e aparecia um génio a perguntar:
— Mas foi dentro ou foi ao lado do chinelo?

Discutia-se meia hora.

Se existisse VAR naquela rua, ainda hoje estávamos a analisar o lance.

O mais curioso é que ninguém queria saber de contratos milionários, chuteiras de última geração ou relvados perfeitos.

A bola já tinha perdido a cor original, levava remendos, parecia ter sobrevivido a três guerras e dois carnavais. Mas era a melhor bola do mundo, porque era a minha e era a única maneira de eu jogar.

Hoje, vejo crianças com equipamentos iguais aos dos grandes clubes, bolas oficiais, aplicações que contam os quilómetros percorridos e relógios que medem o ritmo cardíaco.

Nós medíamos outra coisa: quantas vezes a mãe chamava da janela até decidirmos ir jantar.

E esse era o verdadeiro apito final.

Nunca tive jeito para jogar à bola.

Mas tive o privilégio de ser dono da bola.

E, olhando para trás, percebo que, na infância, ter a bola era muito mais importante do que saber jogar.

Porque o talento fazia ganhar partidas. Mas a bola fazia nascer amizades que ainda hoje continuam a vigorar, como aquelas tardes intermináveis em que o campeonato só acabava quando desaparecia a luz do dia ou quando alguém levava a bola para casa debaixo do braço, lembrando a todos quem era, afinal, o verdadeiro presidente da federação da rua.



Sanzalando

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