recomeça o futuro sem esquecer o passado

12 de agosto de 2026

Meus caros, acabou-se o combustível

Declaro oficialmente falência técnica no departamento da escrita. Foram 50 anos, isso mesmo, meio século, leram bem! a gastar tinta, a queimar pestana e a arrancar os últimos cabelos à procura de assuntos para estas crónicas da adolescência, minhas ou da vizinho. Para estes textos que deram livros, que ficaram armazenadas numa qualquer pasta do computador ou que simplesmente desbotaram da memória.

Neste momento, a minha imaginação assemelha-se a uma praia em maré baixa: só restam umas conchinhas velhas, duas algas secas e um caranguejo desorientado, para além do pica-pica da praia da imaginação. Já escrevi sobre tudo. Já comentei a meteorologia, a política, os vizinhos, os cães dos vizinhos, o preço do pão, o sentido da vida e até a maneira correta de caminhar no deserto, coisa que não me lembro de ter feito.

Ao fim de cinco décadas a alinhar letras, cheguei àquele ponto crítico em que corro o risco sério de me começar a repetir num resumo resumida da minha cidade, cada vez mais pequena. Se continuasse, na próxima semana estava a contar-vos pela quarta vez aquela história extraordinária do dia em que me perdi a caminho da Quipola. E ninguém merece isso, porque ninguém mais se perde na Quipola, nem caminha até aos Morros Azuis, nem vai ver Zebras no aeroporto velho. 

Portanto, arrumo a caneta e fecho o estojo. O tinto está a aquecer, a reforma da crónica é merecida e os meus dedos agradecem do fundo do coração, pois isto de martelar um teclado faz desaparecer o calo da BIC no dedo médio mas faz engrossar a ponta de dois dedos, um de cada mão, de tanto martelar o teclado. Se sentirem saudades, releiam as antigas; se forem iguais às de há dez anos, finjam que não notaram ou descubram se há pormenores que não estavam, ou não estão. 

As frases simples complicaram-se, os olhos deixaram de ver tantas memórias e a vossa paciência tem limites.

Calar-me-ei? Não! Simplesmente deixarei de ser o cronista da minha cidade, aquele que calcorreou todas as ruas, foi a todos os bairros, falou de tanta gente, com tanta gente, e que agora vai pregar para outra qualquer altura da vida, incluindo os silêncios barulhentos das noites de insónia.

Manter-me-ei por aqui, desmemoriado ou não, com piada ou sem ela, mas com a certeza que o que escreverei é do meu gosto e não com o objectivo de fazer-vos gostar.


Sanzalando

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