Nos anos de 1970 corria a tranquilidade como se fosse um disco de vinil ligeiramente riscado, com saltinhos e algum chiar, talvez de paixão, talvez de hormonas efervescentes, mas organizar um simples encontro com a malta amiga exigia um nível de planeamento digno de uma missão espacial. Não havia telemóveis, notificações nem mensagens de última hora. Havia apenas o telefone de ligar aos CTT, e nem todas as casas o tinham.
Num sábado à tarde, o objetivo era de uma simplicidade enganadora: ligar para a casa da Maria e combinar ir ao cinema. O processo, no entanto, era um autêntico teste aos nervos. Primeiro, era preciso memorizar o número ou saber em nome de quem é que o telefone estava, já que a lista telefónica em papel era, na cidade do deserto, uma miragem. Depois, vinha a cerimónia levantar o auscultador e esperar que do outro lado a voz simpática disse que estava ali. Cada segundo parecia uma eternidade, enquanto o coração batia ao ritmo de uma bateria desgovernada. Lá expliquei com quem eu queria falar e a senhora simpaticamente fez a ligação.
Ao terceiro toque, a voz que atendeu não era a da Maria. Era o pai, com uma sonoridade grave e solene que parecia sair de um altifalante de tribunal:
-Está lá? Quem fala?!
Uê! O suor frio foi instantâneo. A gaguez típica dos quinze anos tomava conta da garganta:
-Boa... boa tarde, Senhor pai da Maria! Daqui é... hum... um colega da escola. A Maria pode vir ao telefone, por favor?
Enquanto isso, a minha mãe passava no corredor com a vassoura, fazendo uma pausa estratégica para assistir ao drama com um sorriso divertido e os olhos curiosos, na tentativa de provocar um ataque de riso fatal.
Lá consegui combinar o encontro para as cinco e meia, junto à praça. E foi aí que começou a verdadeira roleta-russa da era mais antiga que o pré-digital: o desencontro inevitável.
Às cinco e meia em ponto, nem sinal da Maria. Às cinco e quarenta e cinco, o pânico instalava-se.
Hoje serias fácil mas naquela altura não tinha possibilidade de enviar um texto a perguntar “onde estás?”. A mente de um adolescente criava os cenários mais catastróficos ou ela tinha sido castigada pelo pai, ou tinha sido raptada ou apenasmente tinha se lembrado que eu era novinho para sair comigo assim num fim de tarde. Ou simplesmente tinha percebido que aquele corte de cabelo novo era um erro trágico, que a saia não condizia com o tempo. Às seis e dez, debaixo de cacimbo de agosto e com os sapatos a ficarem avermelhados, a minha figura na praça parecia um monumento à desolação.
O regresso a casa, a pé e de cabeça baixa, terminou com o telefone a tocar ruidosamente assim que a porta se abriu. Era a Maria, do outro lado da linha, gritava:
-Fiquei quase uma hora à tua espera à porta do cinema! Não tínhamos combinado no cinema?!
- No cinema?! Eu disse na da praça! - porque eu disse praça se a gente só tinha uma e era a de Taxis?
Sem mapas no bolso nem chamadas rápidas, a tarde tinha sido perdida por uns cem metros de distância. Mas no sábado seguinte, lá estávamos nós outra vez, prontos para enfrentar a senhora do telefone com a coragem imprudente dos quinze anos.
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