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4 de novembro de 2026

Lisboa, a cidade onde até os namoros tinham vigilância

Não me lembro se foi no segundo ano da faculdade ou se já andava a caminho de me tornar um estudante com mais experiência do que juízo. Sei que, num belo fim de semana de carnaval, resolvi ir a Lisboa com uma namorada. Uma viagem perfeitamente inocente, pelo menos na versão oficial dos acontecimentos.

Lisboa, naquela época, era uma cidade cheia de encantos, monumentos, cafés e, no meu caso, tinha também perigos sentimentais.

Porque eu tinha por lá uma namorada com quem me correspondia por carta diáriamente. E tinha também a outra, que não era bem namorada, mas que ocupava um lugar especial no complicado organigrama amoroso da minha juventude. Era aquela que, em 1976, no Monte Estoril, me tinha deixado com uma sentença que ainda hoje me provoca arrepios:

- Daqui a seis anos a gente volta a falar nisso.

Seis anos! Uma eternidade para um adolescente apaixonado. Um prazo mais longo do que muitos cursos universitários e quase tão difícil de cumprir como uma promessa eleitoral.

Ora, naquele dia, vim a Lisboa acompanhado de uma namorada. E, por uma questão de prudência, de gestão de riscos e talvez de alguma falta de vergonha, decidi não visitar nem a namorada lisboeta nem a menina dos seis anos. A estratégia parecia-me brilhante. Lisboa era suficientemente grande para esconder um estudante universitário mas suficientemente pequena para lhe estragar os planos. Passeámos, conversámos, namorámos. Eu estava convencido de que tinha tudo sob controlo. O meu lado romântico funcionava em pleno, enquanto o meu lado estratégico, que nunca foi particularmente desenvolvido, descansava à sombra. Mas o destino, esse grande argumentista de comédias sentimentais, tinha outros planos.

A menina dos seis anos viu-me! Não sei se foi por acaso, se por obra do Espírito Santo, se por uma qualquer conspiração dos transportes da Carris. O certo é que me viu acompanhado. E não acompanhado de um amigo, de um primo ou de um colega da faculdade. Não. Acompanhado de uma namorada! Se calhar até ia de mão dada. Imagino o que lhe terá passado pela cabeça.

Talvez tenha pensado que o rapaz que devia esperar seis anos tinha encontrado uma solução provisória para a longa espera. Eu, que não a tinha procurado, fui encontrado.

E de repente, aquela Lisboa que me parecia tão vasta transformou-se num pequeno tribunal sentimental, onde eu era simultaneamente o arguido, a testemunha e o advogado de defesa, este último, infelizmente, sem grande preparação jurídica. A minha namorada daquele dia não sabia de nada. A namorada lisboeta também não sabia que eu não a tinha visitado. E a menina dos seis anos, essa, tinha agora motivos para rever o calendário. Arrumou-me num canto com uma precisão geográfica assustadora. Tão assustadora que ela ainda hoje não sabe em que canto fui arrumado.

Julgamos que somos donos dos nossos segredos, quando na verdade eles andam pelas ruas de Lisboa à nossa procura, de olhos bem abertos. A juventude tem destas coisas, mania que sabe e controla tudo.  Hoje, passados tantos anos, penso que aquele episódio foi uma lição importante, já que aprendi que, na vida sentimental, não basta saber para onde se vai, é fundamental saber quem pode estar a olhar. E sobretudo aprendi que, quando uma mulher nos diz «daqui a seis anos a gente volta a falar nisso», não devemos interpretar a frase como uma autorização para passear livremente por Lisboa com outra. Porque ela pode não estar à nossa espera. Mas pode estar a ver-nos. E, convenhamos, para um estudante do segundo ano da faculdade, já havia exames suficientes sem ter de fazer também uma prova oral de fidelidade.

Mas o baile de carnaval na cantina foi divinal e abrilhantado pelos Vapores do Rego.


Sanzalando

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