Monte Estoril, 1976. Sublinhado e escrito em letras legíveis para nunca mais esquecer. Ou seria para hoje me lembrar? Não sei, pois o tempo passa e o neurónio dessa memória deve estar gasto ou foi-se no vendaval da vida.
Em 1976, eu tinha aquela idade em que um rapaz acredita que está preparado para enfrentar todos os desafios da vida, desde que nenhum deles implique falar directamente com a rapariga de quem gosta. 20 anos. Lindos anos e bem vividos, já com estória para um dia contar. Mas esse dia não é hoje, porque hoje eu quero recordar o adolescente vindo de Angola, com algumas experiências de vida, uma certa confiança no andar e uma enorme incompetência na arte de namorar. Treino muito, mas prática nenhuma.
Naquele dia, início de outono ou final de verão, porque até o tempo meteorológico também tinha dúvidas, tínhamos ido passear pelo Monte Estoril. O cenário era perfeito: o mar ali perto, as árvores, o ar romântico da paisagem e uma juventude cheia de sonhos. Pelo menos da minha parte. Ela, aparentemente, tinha ido apenas passear. Eu tinha preparado o momento com o cuidado de um cirurgião antes de uma operação delicada. Ensaiara mentalmente o discurso, escolhera as palavras, treinara o olhar e até estudara a melhor maneira de colocar as mãos nos bolsos sem parecer que estava à procura de alguma coisa. O objectivo era simples: pedir-lhe namoro. Simples, digo agora. Na altura, parecia uma intervenção cirúrgica de alto risco com possibilidade de morte social. Tínhamos almoçado no restaurante de um amigo da família dela, que também era meu, mas por mero acaso ou vizinhança. Acabado o almoço caminhámos um bom bocado. Falámos de coisas banais, do tempo, dos estudos que íamos fazer, dos amigos e de outras matérias absolutamente inúteis para quem tinha um pedido de namoro atravessado na garganta. Até que chegou o momento. Parei. Ela parou. Olhei para o mar, respirei fundo e pensei:
«É agora, pá! Ou é hoje ou vais passar o resto da vida a passear sem destino.»
E avancei:
- Olha, queria perguntar-te uma coisa...
Ela olhou para mim.
- Diz.
O coração começou a bater como um batuque numa festa na Torre do Tombo. Tentei manter a dignidade.
- Gosto muito de ti e gostava que namorássemos. - todos os rodriguinhos ensaiados não saíram da boca, ficaram só entalados na confusão mental, num engarrafamento de palavras entre o cérebro, o coração e a boca.
Silêncio. Um silêncio daqueles que, numa sala de operações, nos obrigariam a pedir imediatamente um desfibrilhador, acordar o anestesista ou sair aos gritos para calar o silêncio.
Ela olhou para mim, sorriu com uma tranquilidade quase ofensiva e respondeu:
- Sabes uma coisa? Daqui a seis anos a gente volta a falar nisso.
Fiquei parado. Seis anos?!
Eu tinha-lhe pedido namoro, não tinha apresentado uma candidatura a qualquer lugar que precisasse de apreciação superior!
Seis anos era uma eternidade. Em 1976, seis anos significavam passar de adolescente a adulto, deixar as calças à boca de sino a talvez passasse a usar gravata, deixar de ouvir música em cassetes a ter uma colecção de discos sinfónicos. E, sobretudo, significavam esperar por uma decisão amorosa mais tempo do que o país demorara a ter uma constituição nova.
Tentei negociar:
- Seis anos? Não achas que é um bocadinho exagerado? Seis minutos já considero uma indecisão ou mesmo um não...
Ela voltou a sorrir.
- Não. Daqui a seis anos falamos sobre isso.
E continuámos o passeio. Eu, por fora mantinha uma postura serena, oor dentro, estava a fazer contas. 1976 mais seis, 1982. Teria 1982 para preparar uma nova abordagem. Talvez com mais experiência, mais maturidade e, quem sabe, uma camisa menos amarrotada. Talvez uma lábia mais bem ensaiada. Talvez mais experiência nessa coisa de namorar, pois estava a imaginar-me estar sentado à espera desses seis anos... Irrequieto e ansioso é uma mistura explosiva de coração aberto. Na despedida, ainda procurei uma última oportunidade:
- Então fica combinado? - disse como que conformado e mostrando a solidez do meu amor.
- Fica.
Deixei-a no restaurante onde estavam os pais e lá fui eu, Monte Estoril abaixo, com a dignidade de quem tinha acabado de receber uma sentença judicial com prazo de recurso de seis anos apanhar o comboio para Lisboa..
Durante algum tempo, fiquei a pensar naquela resposta. Seria um não delicado? Um talvez com prazo de validade? Ou estaria ela simplesmente a testar a minha capacidade de resistência? Nunca descobri.
Mas aprendi uma coisa importante naquele passeio: há mulheres que não dizem não. Preferem criar uma comissão de avaliação, estabelecer um período experimental e marcar uma reunião para o quinquénio seguinte. E eu, que julgava ter jeito para a vida, descobri que o amor também tinha burocracia.
Hoje, olhando para trás, acho muita graça àquele episódio. Em 1976, no Monte Estoril, aprendi que nem todos os pedidos têm resposta imediata. Há pedidos que ficam em carteira e há amores que começam com uma promessa muito peculiar:
«Daqui a seis anos a gente volta a falar nisso.» Já estamos com 45 anos de atraso! E desta vez, por favor, que não me peça para esperar até 2031. É que aos 70 anos já não tenho tempo para mais cinco anos de estágio!