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Programas K'arranca às Quartas no Blog

3 de novembro de 2026

e ao Porto fui parar

Ano de 1977. O comboio arrancava da Estação de Santa Apolónia com um ruído esforçado e dramático de filme a preto e branco, e eu, com 20 anos completos e um buço que tentava desesperadamente passar por bigode revolucionário, encostava a testa ao vidro frio da carruagem. Deixava para trás a luz de Lisboa, o cheiro do Tejo e, acima de tudo, ela, a rapariga que me tinha dito que faltavam seis anos para conversar, faz conta era a validade de uma promessa de amor eterno. 

A minha bagagem consistia numa mala vulgar que tinha três pares de calças à boca de sino, dois discos do José Afonso e uma quantia em escudos tão reduzida que fazia um frade franciscano sentir-se o rei do petróleo na terra de onde eu tinha vindo. O objetivo? Estudar no Porto. O problema? Não conhecia rigorosamente nada nem ninguém acima dos passeios a Cascais. Para mim, o Norte era uma terra mítica onde, dizia-se, chovia nove meses por ano e as pessoas comiam francesinhas ao pequeno-almoço.

Quando desci na Campanhã, o Porto acolheu-me com uma névoa cinzenta e húmida que parecia ter saído diretamente de um romance do século XIX. Juro que tinha pensado que estava em Londres ou na China. Não conhecia nem uma nem outra e não estava preparado para aquele cinzento arquitectónico e atmosférico. 

- Ó moço, queres um táxi? - perguntou-me um senhor com um boné e um cigarro pendurado no canto da boca. Olhei para as moedas no meu bolso, engoli em seco e respondi com a maior dignidade que consegui arranjar:

- Não, obrigado, prefiro vou a pé que é já ali. - na verdade, não tinha dinheiro nem para o bilhete do elétrico nem tinha noção para onde ia.

Tirei um bilhete escrito pela minha mãe e perguntei a uma senhora simpática que me disse que era uma morada da Areosa. Fernão Magalhães sempre para cima. Esclarecido. Mas onde raio é a Fernão Magalhães? E ainda não tinham inventado as rodas nas malas pelo que o ter trazido pouca coisa foi uma grande ajuda. E lá fui eu a pé, perguntando aqui e ali e fui-me aproximando da tal Areosa. A minha mãe tinha falado com uma conhecida que tinha uma conhecida que alugava um quarto. Posso dizer que nesta caminhada eu ouvi mais vernáculo que nos meus vinte anos de vida antes de chegar a Campanhã. Qualquer indicação que me davam tinha três ou quatro na sua constituição. Não na Rua, que essa eu cruzei.

Lá encontrei a casa da D. Odete, a senhoria que pelos vistos fazia o favor ou frete de me alugar o quarto e logo me informou com firmeza: 

- Aqui não há cá balbúrdias de rapazes de Lisboa! Banho quente é só às quartas-feiras e a porta da rua fecho-a às 8 da noite. -  o quarto tinha uma cama de ferro que rangia como um portão enferrujado e uma janela.

Nos primeiros dias, a minha vida académica era resumida a duas coisas: tentar perceber o sotaque na faculdade, nos primeiros três dias pensei genuinamente que «carago» era um termo técnico de Filosofia e calcular quantas refeições conseguia fazer com o orçamento semanal. Andei uma semana a beber café de saco porque não sabia dizer «cimbalino». Visitar Lisboa? Impossível. O bilhete de comboio custava uma fortuna astronómica.  A minha única ligação ao sul eram as cartas apaixonadas que escrevia a uma outra ela, que fora minha vizinha e me aturava, ria e conseguia querer ver-me sem eu a procurar. 

A vida académica de 1977 no Porto era viva, intensa e cheia de discussões políticas acesas nos cafés da Praça dos Leões, no Piolho ou perto do Marquês. Enquanto todos debatiam o futuro do país, a minha maior revolução diária era conseguir que o meu único par de sapatos sobrevivesse ao empedrado molhado da Rua das Flores sem ficar completamente encharcado.

Ao fim de um mês fiquei de rastos e pronto para abandonar um sonho. O banho quente de quarta-feira era quase cronometrado e o banho frio era demasiado gelado para cada dia. De boca em boca os que me rodeavam ficaram a saber que o meu destino não ia passar mais pelo Porto. Sentei-me berma da Ribeira, a olhar para o Douro, sentindo-me a pessoa mais miserável e solitária de Portugal inteiro. O segundo sonho ia ter que ser também adiado. Um fora-o por seis anos e este seria por quanto?

Foi nesse preciso momento que o PêPê, um colega de curso, anos mais velho, que eu mal conhecia, me deu uma palmada nas costas: 

- Ó puto de Lisboa, que cara de frete é essa? Traz lá esse corpo à vida que ficas a dormir no nosso lar. Nem fui à casa da D. Odete. Fui directamente para o lar. Havia camas vazias. Eu já havia concorrido mas não havia maneira daquilo andar para a frente. Alojaram-me:

- Ficas com esta cama e esta é a tua secretária. Amanhã vamos aos Serviços Sociais saber como estão as coisas. - o lar eram quase todos angolanos desamparados e solitários. Quer dizer, os mais velhos tinham namorada que passavam muito tempo lá. Assim sem saber ler nem escrever tinha-me saído a lotaria. Ia adiar a desistência por uns tempos.

E assim, entre uma fatia de chouriço caseiro que um ou outro trazia da ida a casa ao fim de semana, um copo de vinho que manchava os dentes e gargalhadas ruidosas que ecoavam pelas ruelas que iam dar à Praça da República, percebi que podia não ter um tacho, podia ter o coração partido e nem um escudo para voltar a Santa Apolónia, mas o Porto já me tinha adotado. E, carago, a vida até nem estava nada má.

Ah, ela estuda em Lisboa e por acaso éramos do mesmo curso. Também ia-me custar estar seis anos à espera e olhar para ela todos os dias. Exilado no Porto, com uma outra ela, minha vizinha a me aquecer a alma com cartas quentes e cheias de força eu não ia pensar em mais nada senão em estudar. Pelo menos era o que eu pensava. 

Pelo menos um dos sonhos que tinha sonhado ia ser realidade já que o maior estava adiado por seis anos.  


Sanzalando

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