Quando voltei a Lisboa, dois ou três meses depois do Carnaval. Isto é, depois de ter poupado nalgumas refeições para vir de camionete até Lisboa e desta vez sozinho, achei que estava finalmente em condições de resolver alguns assuntos sentimentais que, por razões de calendário e económicas, por distância e alguma cobardia juvenil, tinham ficado pendentes por um fio mais fino que um cabelo, de quando eu tinha-os forte e fartos
Entre esses assuntos havia uma namorada que me esperava ansiosa pelo que lhe lia nas cartas diárias, ou, pelo menos, era essa a interpretação que eu fazia da realidade, apesar dela me mandar dinheiro para eu ir até Lisboa, em vales de correio que eu ia prontamente levantar aos CTT, mas tinha muito que estudar e não dava. Tantas desculpas que eram até correspondidas nas notas, entenda-se.
Mas havia também a menina dos seis anos de curso cívico. Já tinha passado um mas ainda faltavam cinco para termos a tal conversa em continuação àquela que, em 1976, no Monte Estoril, perante o meu pedido de namoro, me tinha respondido com uma sentença que ainda hoje me ecoa nos ouvidos:
- Daqui a seis anos a gente volta a falar nisso.
Ora, eu, que era um jovem cheio de esperança e com uma capacidade de interpretação emocional bastante limitada, tinha levado aquilo a sério. Cinco anos! Na minha cabeça, era quase um compromisso sentimental com prazo de validade. Quando cheguei a Lisboa, pensei que seria prudente visitar a namorada que cá tinha. Afinal, um homem não pode viver eternamente de promessas feitas à beira-mar. E lá fui eu, sozinho, com a confiança de quem acredita que a vida amorosa ainda lhe deve algumas indemnizações. A visita correu menos mal. Não me recordo se a namorada estava de mau humor, se eu disse alguma coisa inconveniente ou se, simplesmente, o meu currículo sentimental já não inspirava confiança. O que sei é que levei uma rabecada monumental. Daquelas que começam num tom civilizado e acabam com o cidadão a reconsiderar toda a sua existência. Fiquei ali, a ouvir, sem saber se devia responder, pedir desculpa ou fingir que tinha sido convocado para uma urgência médica. E foi então que percebi que, afinal, a vida não era uma sucessão de romances. Era uma sucessão de chamadas de atenção. Ela tinha toda a razão do mundo. Eu tinha as minhas, algumas dizíveis e outras tão secretas que nem eu sabia como poderia justificar ser um pinga amor. Mas lá as pazes caíram por aquelas bandas, a compreensão feminina sobrepôs-se à masculinidade intrasigente de que tudo é desculpável desde que seja para o bem do meu lado. Sorrimos e pareceu que não tinha havido intervalos maiores que o desejado.
Mas o pior ainda estava para vir. Porque a menina dos agora cinco anos, aquela que me tinha mandado esperar seis, voltou a saber que eu andava por Lisboa.
E fui novamente visto e desta vez eu vi que o tinha sido.
Não sei se por acaso, se por espionagem rival ou apenas intervenção divina. O certo é que o destino, que até então tinha sido bastante discreto, resolveu assumir funções de fiscal de comportamento. Imagino o que lhe terá passado pela cabeça:
- Este gajo não só não esperou os seis anos como ainda anda por Lisboa sem vir até cá a casa! Está visto que precisa de formação cívica e sentimental. - isto é o meu pensamento brando a defender-me. A realidade desconheço. Porque se houve julgamento, fui condenado sem direito a recurso.
Ao fim da tarde, como quem não quer a coisa fui lá a casa. Peguei no carro da velhota, senhora minha mãe, e fui até lá. Os pais receberam-me, a irmã também mas ela, ela quase podia dizer-se que mandou dizer que não estava. Os pais deram-me um sermão. Era a segunda vez que me sabiam em Lisboa e coisa e tal, era desonesto da minha parte, não parecia o mesmo menino tímido e bem comportado que conheciam de outras eras e terras.
Como é que me terão visto no Carnaval, era uma das minhas grandes intrigas. Pois bem, ela estava no baile de Carnaval, mascarada e mal entrou deu comigo e desapareceu de volta para a casa. Ah, eu estava tal e qual eu era. Bonito serviço arranjei.
Meia-hora depois, que para mim demorou um julgamento no purgatório, fui diplomaticamente convidado a desaparecer dali, de agora em diante. Pensei, daqui a uns meses passa. O amor sobrepõe-se a pequenos desvarios adolescentes, pensei.
E assim saí da capital em direcção ao norte com duas certezas: uma rabecada bem levada e a convicção de que o amor, quando se mistura com promessas antigas, pode ser mais perigoso do que uma operação cirúrgica sem anestesia e ainda não tinha decidido qual a especialidade eu iria tirar.
A verdade é que ao longo dos anos seguintes, tomei muito juízo na cabeça. Ou melhor, deram-me, em doses industriais. Algumas pessoas fizeram questão de me endireitar, outras de me corrigir, e houve até quem acreditasse que eu ainda tinha salvação. A namorada do norte, hoje ainda minha amiga, dava-me conselhos, chamava-me a atenção, dava-me na cabeça a cada comportamento mau. A que mandava dinheiro para o comboio ia ela lá aos fins de semana, pelo menos uma vez por mês. Na verdade, as mulheres da minha vida, que começara na minha mãe, irmã e avó, e depois nas outras todas, foram o meu guia, estrada e quem sabe, o motor da revolução que se deu em mim.
Bem, bem. Mas a verdade é que, apesar de tanta rabecada, tanto conselho e tanto juízo administrado à força, nunca me endireitei completamente. Continuo a ser aquele rapaz que, em 1976, ouviu um «daqui a seis anos» e julgou que tinha recebido uma promessa de amor. A diferença é que agora tenho setenta anos. E continuo sem saber se aqueles cinco anos já passaram… ou se ela ainda está a contar porque há amores que não nos endireitam, pelo contrário, deixam-nos definitivamente tortos., com aquela sensação de que falta qualquer coisa na minha vida que ainda não está concluída.
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