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Conversas à Mesa
24 de março de 2026
eu fui às salinas
23 de março de 2026
andar de bicicleta
Na cidade que adotei como minha, andar de bicicleta não é um desporto… deveria ser um direito constitucional. Aqui não há subidas, não há descidas, há sequer aquela ondulação tímida que nos faz levantar do selim com dignidade e pensar que estamos a subir à Foia. É tudo plano, mesmo que às vezes inclinado. Há zonas que é tão plana que, se deixarmos cair uma moeda, ela não rola, fica a pensar na vida.
Foi com esta confiança topográfica que decidi, um belo dia, faz por esta altura uns 20 anos, tornar-me ciclista urbano. Comprei uma bicicleta que, segundo o vendedor, era “perfeita para cidade”. Eu desconfiei. Parecia-me uma categoria demasiado específica. Mas levei-a.
No primeiro passeio, senti-me invencível. Pedalava com uma elegância que faria inveja ao pelotão inteiro da Volta a Portugal, se a Volta a Portugal tivesse uma etapa chamada “Volta ao Quarteirão Sem Inclinação” e não tivesse mais que 5 km. Sem esforço, sem suor, sem drama. Até me dei ao luxo de tirar uma mão do guiador. Depois a outra. Depois quase tirei os pés, mas achei que não era altura de me candidatar ao prémio de pelo menos um dente partido.
Tudo corria lindamente até descobrir o verdadeiro inimigo do ciclista numa cidade plana: o vento e alguns pouco condutores de veículos com chapa a toda a volta e, possivelmente, com azia gástrica e diarreia mental..
Mas comecemos pelo vento… esse traidor invisível. Porque numa cidade com subidas, sabemos com o que contamos. Mas numa cidade plana, o vento decide ser montanha mais inclinada que o nosso cérebro fica tipo baralhado com um nó no pensamento e uma montanha de mau feitio.
Num instante, passei de herói do asfalto a figurante num documentário sobre resistência humana. Pedalava, pedalava… e parecia que ficava no mesmo sítio. Um senhor a passear o cão quase me ultrapassava e até acho que o cão olhou para mim com uns olhos de pena. Tenho quase a certeza!
Tentei manter a dignidade. Inclinei o corpo para a frente, fiz cara de quem está a participar numa prova olímpica, mas na verdade estava a lutar contra uma brisa que, noutras circunstâncias, serviria apenas para refrescar uma sopa.
E depois há os semáforos. Numa cidade plana, os semáforos são o equivalente a montanhas-russas cerebrais. Verde e lá vou eu, leve como uma pena. Vermelho e lá fico, parado, a fingir que não estou a recuperar o fôlego que, teoricamente, não devia cansar.
Mas o auge foi quando descobri que, mesmo numa cidade plana, há “subidas”. Não no chão, claro. Na nossa cabeça. Aquela rua onde o vento bate sempre de frente. Aquela avenida interminável onde parece que alguém ligou a ventoinha só para nos testar a paciência.
Depois aqueles condutores apressados, com pressa de chegar a lugar nenhum. Têm complexo de bola de bowling, imagino eu. Rua estreia, um ciclista à frente e mão na buzina como que a dizer sai da frente. Abrando se isso fosse possível, encosto-me o mais possível à parede e apesar da buzinadela e do meu gesto de boa vontade sou insultado até à terceira ou quarta geração. Mais à frente vejo-o parado e a ser multado por uso indevido do claxon, perturbação da ordem pública e falta de respeito à autoridade. O ego sorriu-me e o pedal até parece ficou menos pesado de pisar.
Cheguei a casa com a sensação de ter atravessado os Alpes, as Montanhas Rochosas ou os Morros Azuis… mas no Google Maps continuava a aparecer escrito “Percurso fácil”.
Desde então, continuo a andar de bicicleta. Porque, no fundo, numa cidade plana, todos somos campeões… até o vento decidir que hoje é dia de etapa de montanha e o perigo obrigar-me a estar atento nos 360 graus que me circundam. Ah... e relembrar que gosto da minha família que às vezes eles lembram-se de me recordar.
22 de março de 2026
Conversas à Mesa 5 - Florestas e Biodiversidade
Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 21 de março
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Bom dia Mercado 13 - Rádio Portimão
21 de março de 2026
se hoje começou a Primavera...
19 de março de 2026
corridas de fim de semana
Na casa do Bitacaia os carros eram verdadeiros heróis. Não tinha fim-de-semana sem carros a correr. Houve até as 24 horas da esquina do liceu. O que vale é que à frente havia o Cábula onde podia comer sorvete ou beber coca-cola. Eram corridas a sério.
Não é a sua típica corrida de Formula 1, onde tudo é perfeitamente calibrado e os pilotos são milionários. Não, esta corrida acontece no chão garagem, onde a pista é pintada no chão, e os carros são, bem, de metal, com beata de cigarro e adesivo para andarem direitos. O que contava era o peso e a mão de quem atirava. Tinha de ter mestria. Mão treinada para não ter que fazer a curva em duas ou três vezes. Era a era da precisão manual.
Conheces os Dinky Toys? E o Corgi Toys?
Num canto da pista e um pouco enferrujado, o lendário Mini Cooper de 1968, que, sejamos honestos, parece mais um brinquedo de morder do que um carro de corrida por tanta pintura que já levou. Ele foi rebatizado de "Mini Bala", o que é irônico, já que a sua velocidade máxima é um pouco mais rápida do que uma lesma com pressa, a contar com a minha imprecisão manual.
No outro canto da pistal com um adesivo de um dragão o robusto Saab de 1971. Ele é tão lento que até a direito ele desvia para a esquerda.
Eram assim os fins de semana. Quem ganhou? A adolescência de certeza
18 de março de 2026
Programa K'arranca às Quartas 110
POEMA - Ana Paula Tavares - O
Cercado
Eu e as rádios
O estúdio do RCM parecia o interior de uma oficina comparada com os novos estúdios. Agora tudo aquilo parece uma nave espacial, luzes led em tons que nem sei dizer as cores, têm câmaras 4K para o «streaming» em direto e microfones tão sensíveis que conseguiam captar o som de um estagiário a ter uma crise de ansiedade no corredor.
É que para além da tecnologia propriamente dita, ainda lhe inventaram nomes que até parece estamos num país distante. Hoje já ninguém faz um directo. Hoje faz-se uma live.
Mas continuemos que o tempo corre e o silêncio fica mal nas ondas hertzianas ou no éter, como a gente dizia.
O locutor hoje ajusta o boné para o ângulo perfeito da câmara 2, e ainda diz para o técnico "Puto, o engagement está a cair 0,2%. Precisamos de algo disruptivo". O produtor, que usa uns fones tão grandes que pareciam dois pratos de sopa nas orelhas que não deixa ouvir uma trovoada que se aproxima.
"O algoritmo da rádio está a sugerir um remix de EDM com sons de baleias em 8D", responde o produtor, sem tirar os olhos dos sete monitores à sua frente. "Diz que é a tendência para a Geração Z nas próximas 12 horas."
De repente, o ecrã tátil gigante da consola principal — o "Cérebro" — começou a piscar em cor-de-rosa choque.
"... o que é que o Cérebro está a fazer?", perguntou alguém com ar apavorado que se aproxima com cautela.
"Não sei! Ele entrou em modo 'Auto-Curadoria Viral'!", gritou outro teclando furiosamente.
No monitor de transmissão, o título da música que estava prestes a passar mudou de "Top Hit 2026" para: "AS MELHORES CANTIGAS DE FOCLORE DO SÉCULO XIX.
"Não! Isso vai matar o nosso branding!", gritou o locutor que pôs a pala do boné para trás.
- Corta o sinal! Passa para o intervalo! - disse alguém que deve ser dono pelo vestir.
"Não consigo! O sistema bloqueou-me! Ele diz que 'os dados demográficos indicam que o público sente nostalgia por tempos que nunca viveu'!", diz um mais velho em pânico, porém sorrindo.
Nesse momento, as colunas de alta fidelidade do estúdio explodiram com uma batida de rap pesadíssima, acompanhada por uma voz autotunada ao extremo cantando: "Atirei o pau ao ga-ga-ga-gato-to-to... mas o gato não morre-re-re-reu!"
Tiago olhou para a câmara de streaming. O chat estava a explodir.
@User404: "Isto é arte!"
@TrendSetter: "Finalmente algo autêntico."
@VovóDigital: "A minha infância, mas com graves!"
- Olhem os números!", gritou o mais velho como se a sentir em casa. - Estamos a subir! 50 mil pessoas a ver o direto! O algoritmo é um génio!
O locutor sentindo o instinto de sobrevivência de um influenciador, não hesitou. Retirou o boné ligou o microfone e gritou: "É ISSO AÍ, FAMÍLIA! FOCLORE EM DIRETO! QUEM QUER O REMIX DA 'BARATA DIZ QUE TEM' COM BEAT DE TECHNO BERLINENSE? DEIXEM O VOSSO LIKE!"
O estúdio tornou-se um caos de luzes. Os técnicos já não tentavam recuperar o controlo, estavam em cima da mesa a fazer uma dança que provavelmente se tornaria viral no TikTok em dez minutos. O Cérebro, a inteligência artificial da rádio, parecia estar a divertir-se, mudando as luzes do estúdio para acompanhar o ritmo da "Machadinha".
A meio da manhã, o diretor da rádio, o tal home bem vestido e que ainda usava relógio analógico e não entendia o conceito de "meme", olhou para o locutor a fazer o "moonwalk" enquanto o "Coelhinho" tocava a 150 BPM.
- O que é isto?! gritou o Diretor.
O técnico apontou para o monitor de faturação de publicidade. O gráfico subia de forma quase vertical.
O Diretor olhou para os números. Olhou para o locutor. Olhou para o gráfico novamente.
- Moços" - disse o Diretor, com uma voz calma e gélida.
- Sim, senhor Diretor? - respondeu um coro
- Conseguem arranjar um remix do 'Guitarra toca baixinho' com influências de Pop para o Natal?
E foi assim que a RCM de outrora virou moda e na minha imaginação se tornou a rádio número 1 do país, provando que, no mundo moderno, o bom gosto é opcional, mas o algoritmo é sagrado.
17 de março de 2026
às vezes sutura-se
Esta é uma história de coragem, astúcia e, acima de tudo, do poder da imaginação no mundo da medicina com crianças.
Eu era conhecido nos corredores do hospital não apenas pela minha habilidade cirúrgica, mas também pelo meu feitio tipo segurança de boate. Eu cirurgião, um paradoxo ambulante que combinava mãos delicadas com um visual facial e comportamental de não se metam comigo. Eu achava ser exigente, eles, todos os outros, pensavam em mau feitio. Opiniões.
Do outro lado, tínhamos Leonardo, um menino de sete anos, com olhos expressivos e uma imaginação que o transportava para outros mundos. Naquele dia, ele estava no hospital com uma ferida na perna esquerda, resultado de uma batalha heroica contra os dragões mutantes que vim a descobrir que eram mais conhecidos como a roseira do quintal.
Leonardo estava sentado na marquesa, a sua perna balançava nervosamente como se estivesse a convulsivar e o resto do corpo não.. A ferida estava coberta por trapo improvisado pela mãe, que tentava acalmá-lo, mas Leonardo estava cético pois só ouvia o barulho da ferida.
Entrei na sala e ele olhou-me como que a tirar medidas.
- Olá, campeão. - atirei para acalmar o ambiente. - Quem foi que te fez essa ferida?
- Não quero ser cosido. Foi um dragão do meu quintal. - e a perna não parava quieta.
- Esse dragão tinha alguma doença dançarina?
Leonardo arregalou os olhos. "
- Como sabes? - respondeu-me. Logo repreendido pela mãe
- Eu tenho minhas fontes, deixa-me dar uma olhadela no teu troféu de guerra.
Aproximei o foco de luz, examinei a ferida com o olhar e a precisão de um especialista em desarmamento de bombas.
- Ah, sim. Uma clássica ferida de espinho de dragão. Muito perigosa, se não for tratada corretamente.
Peguei na Iodopovidona e disse:
- Isto não é uma coisa qualquer é o líquido Elixir do Dragão que impede que essa ferida espinhosa infecte. Era bem pior que se essa ferida fosse feita por uma escama de dinossauro. Não tenho cá desinfectante para eles.
Leonardo observava-me fascínado.
- Olha, vou ter que dar aqui dois pontos, para curar mais depressa.
O barulho da ferida foi abafado pelo grito.
- Calma, pá! Depois eu faço um penso que te vai fazer saltar sobre o Dragão do teu quintal com segurança.
Aos gritos, porém a perna deixou de convulsivar, duas picadelas de anestesia que fizeram com que as cordas vocais quase batessem no tecto. Com a rapidez dada pela experiência dei três pontos.
- Deste três e disseste dois. Mentiroso. - disse-me após um súbito silêncio.
- Doeu-te? - perguntei
- Não. Mas disseste dois!
- Ups, desculpa, é que me pareceu ver ali um dente de dragão...
- Parvo, foi na roseira...não há dragões.
16 de março de 2026
um dia que era para ser e nunca foi
Recuando até aos meus 15 anos, eu tinha uma vizinha que era o centro do meu universo. O meu plano de conquista era infalível, ou pelo menos era o que eu achava depois de assistir a três comédias românticas seguidas que tinha visto no Impala Cine. Eu ficava com a orelha sintonizada na rua. Assim que ouvia o barulho a voz dela, eu gritava:
- Mãe, deixa que eu levo o lixo!
Eu saía desembestado, tropeçando nos meus próprios pés, só para coincidentemente encontrá-la no passeio antes dela entrar no carro do pai para a voltinha de fim de tarde.
Nada no meu rosto dizia "sou o homem da tua vida". Era eu todo que o gritava no silêncio dos meus olhos brilhantes.
Na rua das nossas casas, que era um subida de sentido único a gente jogava os jogos de rua, desde o garrafão, à macaca, à queimada e outras vezes ficávamos só sentados no muro em conversa de encher tempo.
Quando ela vinha, o que por azar dos meus sentimentos, era uma raridade, eu querendo impressionar, tentava dar frases de gente madura, usava frases feitas e desfazia em piropos subtis. Eu usava as palavras em modo acrobático. Ela sorria. Eu me inspirava e no silêncio dos meus suspiros adolescentes eu ia cada vez mais fundo na imaginação. Poemas que decorava, poemas que inventava, conversas que eu sentia me iam levar ao seu coração. Era um teste à minha resistência melodramática, à sua paciência de ar aristocrático.
Quem me mandara a mim ler na crónica feminina que elas gostavam de gente culta? Vá lá que eu não sabia que existia a física quântica... olha-me a ler-lhe as formulas e lhe dizer que adoro a dualidade da partícula. Tão romântico que felizmente a minha ignorância não sublinhou.
O auge foi o dia em que decidi que ia me declarar. Preparei um discurso, decorei versos e estava tão tão que se alguém se aproximasse de mim com um fósforo eu ia explodir.
Bati na porta da casa dela, como fizera centenas de vezes antes. Mas era sempre para estudar. Naquele dia não era. Quem abriu a porta foi o pai dela. Lhe olhei na cara, como se nunca o tivesse visto, as minhas pernas bambolearam que nem caniço no dia de vento, e disperei:
- A minha mãe pede açúcar porque quer fazer um bolo e não tem.
Voltei para casa com uma chávena de açúcar
Voltei para casa com uma xícara de açúcar e a certeza de que o meu destino era ser o "vizinhas-friendzone" oficial do condomínio.
No final das contas, a gente não namorou ninguém, mas as risadas (principalmente as delas às minhas custas) valeram cada mico. Afinal, se você não passou vergonha na frente da vizinha bonitinha na adolescência, você realmente viveu?
15 de março de 2026
uma consulta surreal
Eu, o cirurgião, entrei no gabinete com aquele ar grave que os cirurgiões treinam durante anos, metade concentração, metade teatro. É, um cirurgião de verdade deve ter ar de quem sofre de hemorroidas, barriga grande de prosperidade e ser calvo de tanto pensar.
Sentada à frente da minha secretária estava a D Amélia, perfeitamente composta, com uma mala enorme no colo e uma expressão de quem vinha preparada para tudo… menos para sair dali saudável.
O folhei o processo que o progresso ainda não tinha chegado e era em papel.
- Então diga-me, D. Amélia, o que a traz cá?
- Doutor, eu acho que tenho qualquer coisa grave.
- O que sente?
- Não sei bem… mas sinto que sinto.
Esta frase escrevi no processo: ela sente que sente. Sublinhei.
- Sente que sente. Muito bem e isso não é bom? -perguntei a tentar ganhar terreno
A D. Amélia animou-se, sorriu e soltou a língua..
- Às vezes dói-me aqui. - apontou para o ombro esquerdo - Outras vezes aqui. - apontou para o joelho. - E ontem até me doeu aqui. - enquanto apontava para a orelha.
Intrigado pensei rápido e atirei:
- E agora, neste instante dói-lhe alguma coisa?
A senhora Amélia experimentou fazer um movimento que prontamente interrompi:
- Não se mexa!
Silencio no gabinete.
Levantei-me, caminhei vagarosamente até à janela, como fazem os médicos nas séries de televisão quando estão prestes a revelar um diagnóstico importante.
Voltou-se e disse:
- Já sei o que tem. - disparei
- É grave? perguntou.
- Acho que não. Mas não vou receitar nada, vem cá daqui a 15 dias para eu rever tudo outra vez.
- Mas Dr. conte-me o que está a pensar...
- D. Amélia, a senhora tem saúde e como sabe isso é coisa passageira. Por isso é melhor vir cá novamente daqui a 15 dias para eu ver se se mantem.
Pertinências 3 - Fernando Pessoa e as Mulheres - Um programa de RÁDIO
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Fui assistir no dia 8 de março, Dia Mundial da Mulher a uma
tertúlia no Museu de Portimão com o título "A Mulher (e as mulheres)
segundo Fernando Pessoa" organizado pelos Amigos do Museu e com a
convidada a Professora Manuela Parreira da Silva.
Dessa Tertúlia nasceu este pertinências 3. Imperdícel
14 de março de 2026
uma festa na praia
Era março tal e qual hoje o é. Era dia de festa na praia. Não uma festa qualquer, daquelas improvisadas, onde cada um traz qualquer coisa e no fim ninguém sabe bem quem trouxe o quê, mas todos juram que tudo estava bom. Era mesmo festa da cidade e até que havia construções na areia e tinha artistas de classe. Eu tinha a classe de olhar embasbacado e aplaudir porque jeito faltava.
O sol brilhava com aquele entusiasmo típico de quem não tem de carregar chapéus-de-sol e um rádio a pilhas que só apanhava o RCM sem interferências complicadas.
A areia já estava ocupada por uma pequena multidão: famílias inteiras têm que vir todos à praia em dia de festa, crianças aos gritos, tios especialistas em banhos de sol e um senhor que insistia em tocar uma gaita a anunciar os gelados do Lã.
Nestes dias tem gente que trás uma bandeja de rissóis.
- Trouxe quarenta! - gritam com orgulho e eu ali ao lado em dia de festa à espera de ver quem ganhou o concurso de areia esculpida, a salivar com fome mesmo depois de tomar o matabicho..
Cinco minutos depois estava estabelecida a confusão e dos quarenta ele gritava que restavam apenas três. Espero que ele não tenha comido nenhum. Armar-se assim ao pé de gente que não trouxe nada...
- Isto aqui evapora, seus galfarros que parece não comem há dias - disse ele, desconfiado, olhando para o grupo como quem investiga um crime gastronómico.
Entretanto, junto ao mar, um outro grupo tentava montar um chapéu-de-sol e uma barraca de praia daquelas que levam dois paus verticais, uma lona presa noutros dois que ficarão horizontais. E o peso que aquilo tem?... Aquilo parecia uma operação de engenharia naval. Três pessoas seguravam, duas davam ordens e uma criança comentava:
- O meu pai no faz isto mais rápido.
Ao lado da confusão montada, a dona Teodora tinha decidido entrar na água. Não foi bem entrar: foi um processo gradual de negociação com o Atlântico.
Primeiro o pé.
- Ai que está fria!
Depois o outro.
- Isto não pode ser saudável!
Depois os tornozelos.
- Isto deve vir diretamente da Antártida!
Até parecia ela estava a mantrizar uma ladainha como as que às vezes ouvia a minha avó a fazer.
Ao fim de quinze minutos a água estava ainda pela cintura, discutindo com o mar como se o mar pudesse ajustar a temperatura.
Entretanto, alguém ligou o rádio e começou a música. De repente, a areia transformou-se em pista de dança improvisada e aquilo virou uma mistura improvável de arraial popular com festival de verão.
O Manel, que tinha jurado que não dançava desde 1970, acabou a fazer passos entusiasmados que lembravam vagamente ginástica sueca que o Cândido da Silva tinha ensinado nas aulas de ginástica. Apesar de que o Manel não era dado a esses ofícios. Ele era mais viola e tiradas de humor. Mas em dia de festa na praia tudo vale até o desajeitado modo de dançar.
Uma bola de praia começou a voar de um lado para o outro, até que aterrou diretamente na barraca da pessoa mais antipática da cidade.
- A praia não vos chega?! - protestou.
Mas ninguém nem desculpa pediu. Continua a festa que é Março.
Ao final da tarde, quando o sol começava a descer, toda a gente estava meio cansada, meio feliz, com areia em lugares que a ciência ainda não explicou.
- Isto hoje foi um sucesso. - disse alguém que deve ser da organização a julgar pelo tom
- Porquê? — perguntou alguém no meio da multidão.
Ele encolheu os ombros e disparou.
- Porque ninguém discutiu… e só desapareceram trinta e sete rissóis.
E numa festa de praia, convenhamos, isso já é praticamente um milagre.
13 de março de 2026
O Ritual do silencio da saída da missa
Diferente dos devotos de primeira fila, ele, que posso ser eu, era um mestre da logística. Escolhia sempre o último banco, colado no corredor lateral. E quando alguém perguntava porquê, era por causa da circulação de ar, respondia. Na verdade, era o equivalente a deixar o carro ligado e apontado para a rua em um assalto a banco cinematográfico visto nos filmes do Eurico.
A missa não terminava na bênção final. Ela terminava no exato milissegundo em que o Padre dizia: "Podem ir em paz...". Nem esperava o "...e que o Senhor vos acompanhe", já estava com os pés no outro lado da estrada a olhar a porta.
O maior inimigo de era a música final, uma cantoria que parecia não tinha fim. Ou quando o padre resolvia dar recados finais que eram bem maiores que a homilia. Elas nunca mais saiam da missa das nove...
12 de março de 2026
eu e os livros proibidos
Quando eu era assim com barba mas sem ela, que chamavam que eu era adolescente, descobri uma coisa espantosa, os melhores livros eram sempre os proibidos.
Pronto. Naquele momento, o livro transformava-se imediatamente numa mistura de tesouro arqueológico com bomba atómica literária. Eu tinha de o ler. Era uma questão científica. Nem que tivesse que ir na Quipola a pé. Eu tinha a certeza que eu ia lhe ler.
Na minha garagem havia uma pequena biblioteca, guardada com zelo quase religioso, porque a minha mãe não queria que ninguém abrisse aquele caixote que eram os livros do meu pai. Eu achava a minha mãe pensava aquilo era perigoso só de pensar abrir. Ela conhecia-os bem e nunca tinha aberto nenhum deles.
Só me dizia
- Estes… nem pensar. - mas na verdade, mesmo estando de baixo do caixote das loiças do seu enxoval, eu conseguia tirar um de cada vez.
Ora, o problema é que “nem pensar” para um adolescente é praticamente um convite ao crime.
Um dia reparei num livro tirado ao acaso porque por acaso media-se a mão e não conseguia meter os olhos, ele chegou na minha mão inocente de juventude. Título sério, capa discreta, aquele ar de coisa perigosa. Tirei e arranjei um sítio seguro para o guardar quando não estava a ler.
Mas o raio da mãe descobre coisas e logo ao terceiro dia me disse com aqueles olhos de quem vais levar e nem sabes porquê:
— Este? Tu não tens idade para isto e eu já te avisei. Vou pegar fogo aquilo tudo e assim já não cais na tentação....
Fiquei logo convencido de que era uma obra-prima absoluta. Talvez tivesse revelações sobre a vida, o amor, a política e provavelmente três ou quatro pecados mortais e umas tantas piruetas imorais.
Passei uma semana a arquitetar um plano digno de filme policial depois de ter jurado a pés juntos que o tinha voltado a pôr no caixote e prometido que nunca mais o ia abrir.
Tudo correu bem até ao momento em que, com o livro escondido debaixo da camisola, ia a sair de casa para um encontro de amigos.
- Que tens aí?
- Nada, mãe! - e esperei que a rainha santa fizesse um novo milagre
Mas quando um adolescente diz nada, os adultos percebem logo que se trata de um problema ou qualquer coisas indevida.
Ela mandou-me abrir a camisola. Lá estava o livro, envergonhado, como um cúmplice apanhado em flagrante sem se ter transformado em rosas, nem sequer em flor de capim..
A minha mãe suspirou quase em surdina:
- Sabes qual é o problema?
Eu pensei que ia ouvir uma grande lição filosófica sobre juventude e responsabilidade, sobre a palavra e a promessa. Essas coisas de mãe..
Mas ela disse apenas:
- Tu queres sempre ler os livros mais chatos primeiro.
Fiquei desorientado, estupefacto e ao mesmo tempo mais curioso.
- Chat… chato? - disse gaguejando ao mesmo tempo surpreendido
- Claro. Esse é um tratado de economia do século XIX, uma estória de como nasceu esta cidade e os seus arredores.
Voltei para casa com o livro, decidido a provar que ela estava enganada.
Li três páginas.
Na quarta adormeci profundamente, provavelmente o único adolescente da história a ser vencido por estatísticas sobre batatas, casas e lugares que eu sabia eram passado.
Nesse dia aprendi duas lições importantes:
Alguns são apenas… terrivelmente aborrecidos.
11 de março de 2026
K'arranca às Quartas - programa 109
O Dia em que o Agualusa me raptou dos afazeres
Erro fatal. Cheguei à fase do "Espera, isso aconteceu?"
Lá pela página dez, comecei a franzir a testa. Agualusa tem esse hábito de descrever coisas impossíveis com a naturalidade de quem dita uma lista de compras.
Uma lagartixa que fala e tem crises existenciais? Check.
Uma mulher que vive trancada num apartamento por trinta anos enquanto o mundo acaba lá fora? Check.
Alguém que ganha a vida inventando árvores genealógicas para novos ricos? Absolutamente check.
Olhei para o lado, para conferir se a minha própria parede não estava prestes a dar flores ou confessar um segredo de família.
Fui até na cozinha e, em vez de pensar que preciso lavar os pratos, minha mente sussurrou:
- A porcelana, exausta de silêncios e gorduras, aguardava o baptismo da espuma como quem espera uma chuva de milagres em Luanda."
A louça continuou suja. O café só não gelou porque não estava frio para isso. O sol se pôs e eu nem dei por isso, porque estava ocupado demais a tentar entender se o narrador era um homem, um fantasma ou uma metáfora bem escrita.
Ao fechar o livro, suspirei profundamente. O mundo parecia um pouco mais colorido, um pouco mais absurdo e definitivamente mais poético. Descobri que, com o Agualusa, a verdade é apenas uma das muitas versões possíveis da mentira e a mentira dele é muito mais divertida.
"A ficção é a única forma de dizer a verdade sem ferir ninguém." — Provavelmente algo que um personagem do Agualusa diria enquanto toma um gin.
10 de março de 2026
Eu li Pepetela e aprendi
À minha frente, surge um homem com um olhar sábio e um bigode que impõe respeito. É o Pepetela. Me levantei e respeitosamente lhe dirigi a minha timida voz:
- Mestre, vim para aprender. Quero ser culto, quero entender o mundo!"
Ele me olhou, baloiçou o bigode e atirou:
- Ótimo. Toma lá esta mochila, uma G3 que estava descarregada por causa das coisas e agora vamos caminhar 40 quilómetros pela lama para discutir a ética do socialismo e a identidade nacional.
- Mas... não dá para fazer um resumo por WhatsApp ou IA?
Não, eu não estava a delirar nem em crise de paludismo. Estava só a entrar no mundo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos.
Ele não te dá uma aula com slides. Ele atira-te para dentro dos livros dele como quem atira um telemóvel para uma piscina para ver se ele flutua:
Comecei com Mayombe onde ele me apresentou o Sem Medo. Uau, que personagem incrível, lindo de nome mas pensador de constância: ter dúvidas é o mais inteligente que posso ser.
Depois acho agarrei a Geração da Utopia onde eu quis queimar o mundo, me empolguei e agora mais velho vejo que os ideais são bonitos mas a prática dá muito trabalho e às vezes não corre bem.
Depois ri com Jaime Bunda, eu estava na minha crise existencial e aquele mataco grande me mostra a corrupção e o esquema o que me fez rir da confusão do mundo.
Depois de ler tudo, voltei ao meu quarto. Olhei no espelho e já não sou um adolescente a fazer scroll. Agora tenho um olhar de Pepetela: um olho focado na justiça e o outro a ver a ironia de tudo o que te rodeia.
Saí da aula sem um diploma de papel, nem certidão de cumpridos deveres, mas com algo muito mais perigoso que foi a capacidade de pensar por mim próprio. E, possivelmente, uma vontade súbita de usar palavras como "utopia" e "burocracia" só para ver a cara de confusão dos meus amigos.
9 de março de 2026
Pertinências 2 - Diagnóstico DUAL - Grato
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Este 2º programa usamos as palestras do 1ª painel do III Colóquio Adições e Saúde Mental organizado pelo GRATO
Assim com o título Desafios do Duplo Diagnóstico, fazemos o primeiro programa deste Colóquio. Lá para a frente haverá mais porque é Pertinente manter acessa a chama do pensamento e do saber
8 de março de 2026
Crónica de um Coração Literário carregado de mulheres
Depois, tive uma fase mais mística e rústica com a Blimunda Sete-Luas. Que mulher! Enquanto eu mal consigo ver o que tem dentro da minha geleira, que aprendi faz tempo se chama frigorífico, sem acender a luz, ela via o interior das pessoas. O nosso namoro foi longo, caminhando por Mafra, e ela ensinou-me que o amor é uma construção literalmente falando. Mas, seja eu honesto: viver com alguém que sabe exatamente o que eu comi no mata-bicho só de olhar para a minha vontade seria um bocado invasivo para o dia a dia, quanto mais para a vida.
E falar de casos de paixão múltipla? Dona Flor e os seus dois maridos! O meu conflito ético favorito. Eu, um cavalheiro, pelo menos tento ser, via-me dividido entre a segurança do Vadinho e o tédio do Teodoro. A Flor ensinou-me que o coração tem dois quartos e que, às vezes, a chave de um deles é a malandragem pura. E a Gabriela e os Capitães de Areia traziam mulheres que cheiram a cravo e canela, e eu cheiro a banho e desespero de quem tem mil coisas por fazer. A nossa compatibilidade era baixa, mas o flirt foi inesquecível.
Recentemente, tentei sair com as mulheres de Clarice Lispector. Quase que era uma relação intensa, mas acabou confusa. Eu convido-as para um café e elas ficam meia hora a olhar para uma barata ou para um ovo, filosofando sobre o ser. É fascinante, mas saio do encontro com a sensação de que preciso de umas férias e ao mesmo tempo de um abraço. Elas não querem o meu carinho; elas queriam a minha essência desintegrada. E quem sou eu para negar?
No fundo, a minha vida amorosa literária é uma sucessão de abandonos. Eu fecho o livro, elas ficam lá, imortais, e eu volto para a minha realidade onde ninguém fala em metáforas e ninguém morre de tísica por amor às margens do Mondego.
Falta-me sempre uma página, ou talvez apenas a coragem de ser tão interessante quanto um parágrafo da Sophia de Mello Breyner.
7 de março de 2026
Bom Dia Mercado 12 - Rádio Portimão
eu li Luandino quando comecei a ter dinheiro
Primeiros 10 minutos li uma frase e o cérebro fazia um barulho de engrenagem enferrujada. Luandino escrevia "estória" com "e", inventava verbos que não pediam licença ao dicionário e as palavras pareciam que estavam a dançar sem música.
- Mas esse gajo está a escrever em português ou está a semear sementes de palavras no papel e eu vou ter que esperar elas cresçam? perguntei-me.
Depois de uma hora, a magia começou a bater, já não estava na sala de leitura. Eu estava lá, no meio do pó da rua, a ouvir o banzé dos miúdos e o cheiro do peixe a fritar. O problema é que o Luandino tem um feitiço, ele desarruma a gramática de um jeito que a gente começa a achar que o erro é que é o certo.
Lá pelas tantas, os companheiros me gritaram vais jantar ou ficas por aqui o comer palavras?
Eu, possuído pelo espírito do Ngangula, olhou para eles e respondi:
- Ó pá, não me venham com estórias de comer que o meu estômago está a fazer maka com a minha fome. A vida é um desassossego de palavras e eu estou aqui a "estoriar" com os meus botões!
Eles me olharam estupefactos e pararam. Nunca me tinham ouvido dizer "maka" na vida. Mas me deixaram ali a passear as palavras ou a ser passeado por elas.
O livro foi lido em três dias. No quarto dia, fui ao banco. O gerente, muito engomado, veio explicar-me as taxas de juro:
- Veja bem, a flutuação do mercado... blá blá - por aí fora, conversa de banco
Eu, com aquela cadência que só quem leu Luandino entende, interrompi:
- Ouça-me, deixe lá esses papéis. O que o senhor está a fazer é uma conversa de fiado, um banzé de números que não têm coração. O dinheiro é como o vento no capim: assobia mas não se apanha!
O gerente ficou mudo. Eu sai do banco a gingar, sentindo-se o dono da língua de estalar.
A Lição da Estória
Ler Luandino Vieira é um perigo público:
Risco 1: começas a achar que a gramática tradicional é uma camisa de forças dois tamanhos abaixo do meu, que nem respirar consegues.
Risco 2: passas a ver poesia num pneu velho ou numa conversa de vizinha.
Risco 3: a boca ganha um balanço que nenhum curso de oratória consegue ensinar. Até gingas a falar.
6 de março de 2026
eu a correr na marginal, da memória
Ah, a Marginal. Aquele cenário de postal dos correios que, às sete da manhã, cheira a maresia e ao desespero silencioso de quem decidiu que "hoje é o dia em que mudo de vida".
Correr ao longo da baía é um exercício de humilhação pública em parcelas. De um lado, temos o mar, vasto, imperturbável, rindo-se das nossas articulações. Do outro, os "Super-Humanos do Asfalto": aqueles que andam de carro e nos chamam de loucos.
Eu, por outro lado, corro com o entusiasmo de um frigorífico a ser empurrado numa ribanceira. Corro para desanuviar as saudades do tempo que gastei, pois não sei quantos tenho para gastar. Corro pelo bem-estar físico, e também por aquele doce que comerei à sobremesa.
Mas o fenómeno mais curioso acontece por volta do terceiro quilómetro, quando o oxigénio decide abandonar o cérebro para ir socorrer os meus gémeos em chamas. É nesse estado de semi-delírio de falta de oxigénio que a máquina do tempo liga. De repente, não sou mais aquele adulto com dores nas costas e uma folha de tarefas a fazer. Sou um adolescente de novo.
Na minha cabeça, a playlist de música dos anos 80 transforma a marginal na passadeira vermelha do meu próprio filme de amadurecimento. Começo a imaginar que, ao dobrar a próxima curva, vou encontrar aquela paixão não correspondida do 5º ano. Ela estará lá, a olhar para o horizonte e eu passarei por ela com uma passada leve, um aceno casual e um cabelo que, milagrosamente, não está colado à testa como uma alga morta. Mas na realidade passo por um grupo de reformados que caminham a passo acelerado e que, para meu profundo horror, me ultrapassam enquanto discutem o preço do quilo do robalo ou da morianga.
Correr na marginal permite-nos alimentar estas fantasias porque a paisagem é cinematográfica. O adolescente interior, aquele que ainda acha que vai ser uma estrela de rock ou um avançado da intelectualidade, alimenta-se desta estética. Tudo parece mais épico quando o sol reflete na água. Sinto que estou a treinar para um combate decisivo, quando na verdade estou apenas a tentar não ser atropelado por um miúdo num triciclo. Olho para a minha sombra e verifico que o meu cérebro filtra a barriga e a t-shirt que já foi camisa interior ou simplesmente camiseta e devolve-me a imagem de um herói de acção. É um filtro natural chamado "Falta de Ar". Na adolescência, queríamos fugir da cidade. Agora, corremos ao longo da água a fingir que estamos a ir para algum lado, quando o único destino real é a padaria no fim do percurso.
A minha estória acaba sempre da mesma forma. O sonho de adolescente desvanece-se quando o relógio inteligente apita, anunciando que o meu batimento cardíaco atingiu níveis que fariam um cardiologista benzer-se.
Paro. As mãos nos joelhos. O "eu adolescente" volta para o porão da memória, resmungando sobre como a vida era suposto ter mais guitarras elétricas e menos joelheiras. Caminho o resto do caminho com a dignidade possível, sentindo-me 10 anos mais velho, mas estranhamente feliz por ter sobrevivido a mais uma sessão de "cinema mental" à beira-mar.
No final, correr na baía não é sobre o exercício. É sobre aquela meia hora em que a gravidade e as contas para pagar não existem, e somos apenas nós, o vento e a audácia de acreditar que ainda temos 17 anos, pelo menos até à próxima subida.
5 de março de 2026
Eu e o Lobo Antunes
Conheci o António Lobo Antunes apenas uma vez, ou pelo menos gosto de contar a história como se tivesse sido um encontro memorável. Na verdade, foi mais um daqueles encontros de circunstância em que duas pessoas ocupam o mesmo espaço, o mesmo ar e, durante alguns segundos, tive uma dúvida existencial: será que devo dizer alguma coisa inteligente?.
Eu estava num café da cidade do Porto, armado em intelectual, estudante de Medicina, com um livro aberto à minha frente a fazer horas para a sessão do Fantasporto. Não o estava propriamente a ler; estava na fase mais avançada da leitura moderna: olhar para a página com ar profundo enquanto se pensa noutra coisa qualquer, geralmente no preço dos pastéis de nata.
De repente, entra Lobo Antunes. Coincidência do caraças. O livro que eu tinha: Memória de Elefante. Será que há por acasos ou está tudo escrito nos céus do destino? Depois de ter devorado Fernando Namora eu estava a devorar António Lobo Antunes. E não é que ele entra ali. Desfila na minha mente ainda hoje.
Há pessoas que entram num café. Ele entra como quem atravessa um romance de 600 páginas: devagar, com peso literário e uma certa aura de quem sabe coisas que nós ainda não percebemos.
Sentou-se numa mesa ao lado.
E foi então que começou a luta interior.
Uma voz dentro de mim dizia:
- Vai lá cumprimentar o homem. Diz qualquer coisa sobre literatura!
Outra voz, muito mais sensata, respondia:
- Tu mal consegues explicar a conta da cantina, quanto mais a literatura do Lobo Antunes.
Fiquei ali, entre a coragem e a prudência, que é o sítio onde a maioria dos portugueses vive.
Finalmente, levantei-me. Dei dois passos. Parei. Voltei para trás. Sentei-me outra vez. Pedi outro café, porque o pensamento profundo seca a garganta e eu precisava cafeína ou julgava precisar.
Nisto, ele levanta-se para sair.
Ao passar por mim, olhou para o meu livro aberto há meia hora na mesma página e disse, com um sorriso muito leve:
- Esse capítulo é difícil, não é?
Eu respondi com a maior honestidade literária da minha vida:
- É… mas estou quase a vencê-lo.
Ele acenou, compreensivo, como quem reconhece um colega de profissão na arte nacional de demorar a ler.
E saiu.
Desde esse dia gosto de dizer que tive uma conversa profunda com António Lobo Antunes.
Durou sete palavras.
Mas, convenhamos, para certos escritores… já foi um diálogo bastante longo.










