recomeça o futuro sem esquecer o passado

23 de março de 2026

andar de bicicleta

Na cidade que adotei como minha, andar de bicicleta não é um desporto… deveria ser um direito constitucional. Aqui não há subidas, não há descidas, há sequer aquela ondulação tímida que nos faz levantar do selim com dignidade e pensar que estamos a subir à Foia. É tudo plano, mesmo que às vezes inclinado. Há zonas que é tão plana que, se deixarmos cair uma moeda, ela não rola, fica a pensar na vida.

Foi com esta confiança topográfica que decidi, um belo dia, faz por esta altura uns 20 anos, tornar-me ciclista urbano. Comprei uma bicicleta que, segundo o vendedor, era “perfeita para cidade”. Eu desconfiei. Parecia-me uma categoria demasiado específica. Mas levei-a.

No primeiro passeio, senti-me invencível. Pedalava com uma elegância que faria inveja ao pelotão inteiro da Volta a Portugal, se a Volta a Portugal tivesse uma etapa chamada “Volta ao Quarteirão Sem Inclinação” e não tivesse mais que 5 km. Sem esforço, sem suor, sem drama. Até me dei ao luxo de tirar uma mão do guiador. Depois a outra. Depois quase tirei os pés, mas achei que não era altura de me candidatar ao prémio de pelo menos um dente partido.

Tudo corria lindamente até descobrir o verdadeiro inimigo do ciclista numa cidade plana: o vento e alguns pouco condutores de veículos com chapa a toda a volta e, possivelmente, com azia gástrica e diarreia mental..

Mas comecemos pelo vento… esse traidor invisível. Porque numa cidade com subidas, sabemos com o que contamos. Mas numa cidade plana, o vento decide ser montanha mais inclinada que o nosso cérebro fica tipo baralhado com um nó no pensamento e uma montanha de mau feitio.

Num instante, passei de herói do asfalto a figurante num documentário sobre resistência humana. Pedalava, pedalava… e parecia que ficava no mesmo sítio. Um senhor a passear o cão quase me ultrapassava e até  acho que o cão olhou para mim com uns olhos de pena. Tenho quase a certeza!

Tentei manter a dignidade. Inclinei o corpo para a frente, fiz cara de quem está a participar numa prova olímpica, mas na verdade estava a lutar contra uma brisa que, noutras circunstâncias, serviria apenas para refrescar uma sopa.

E depois há os semáforos. Numa cidade plana, os semáforos são o equivalente a montanhas-russas cerebrais. Verde e lá vou eu, leve como uma pena. Vermelho e lá fico, parado, a fingir que não estou a recuperar o fôlego que, teoricamente, não devia cansar.

Mas o auge foi quando descobri que, mesmo numa cidade plana, há “subidas”. Não no chão, claro. Na nossa cabeça. Aquela rua onde o vento bate sempre de frente. Aquela avenida interminável onde parece que alguém ligou a ventoinha só para nos testar a paciência.

Depois aqueles condutores apressados, com pressa de chegar a lugar nenhum. Têm complexo de bola de bowling, imagino eu. Rua estreia, um ciclista à frente e mão na buzina como que a dizer sai da frente. Abrando se isso fosse possível, encosto-me o mais possível à parede e apesar da buzinadela e do meu gesto de boa vontade sou insultado até à terceira ou quarta geração. Mais à frente vejo-o parado e a ser multado por uso indevido do claxon, perturbação da ordem pública e falta de respeito à autoridade. O ego sorriu-me e o pedal até parece ficou menos pesado de pisar.

Cheguei a casa com a sensação de ter atravessado os Alpes, as Montanhas Rochosas ou os Morros Azuis… mas no Google Maps continuava a aparecer escrito “Percurso fácil”.

Desde então, continuo a andar de bicicleta. Porque, no fundo, numa cidade plana, todos somos campeões… até o vento decidir que hoje é dia de etapa de montanha e o perigo obrigar-me a estar atento nos 360 graus que me circundam. Ah... e relembrar que gosto da minha família que às vezes eles lembram-se de me recordar.



Sanzalando

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