recomeça o futuro sem esquecer o passado

24 de março de 2026

eu fui às salinas

Me lembrei agora que ainda não tinham inventado nem a máquina fotográfica digital, nem aquele aparelhinho que faz tudo inclusive telefonar quando eu fui à salinas lá para os lados da foz do Rio Bero, que agora é até nome de vinho. Na altura a gente só se lembrava dele nestes marços em que não podia mergulhar porque o mar tinha sido invadido pelas águas dele com troncos, caniços e mais lama. Mas nessa altura me levaram às salinas e eu não tirei nem uma fotografia, porque não tinha máquina que era de rolo e isso custava muito dinheiro. Sei que era um domingo de manhã, fazia sol e eu estava já a imaginar uma cena qualquer de filme. Eu nunca tinha visto salinas e tinha imaginado uma cena romântica, pois até a vizinha tinha ido. Quer dizer, ela é que me levou. Mas as salinas não são românticas, são assim uma coisa misturada de escorregador e química.

Quando sai do carro eu fiquei assim feito palerma a olhar as montanhas de sal. Branco que os meus olhos não estavam habituados. Era branco mais branco que absoluto. Retângulos de água que reflectiam tanto a luz que os meus olhos já viam borrões roxos. Faltavam óculos de sol, penso eu agora, com muitos anos de atraso.

Entrei num dos lagos e logo fiz patinagem artística ainda antes de saber que isso existia. Escorreguei que fui de costados à água. Mas ri e todos riram. Até os patos que por ali andavam acho eu também riram e voaram gargalhando.

Ao lado eu vi um lago e gritei: "Olha que lindo, a água é rosa!" Se esqueceram de me dizer que a densidade daquilo é como o de xarope para a posse ou coisa que valha. Entrei e me arrepiei. Sensação esquisita. Mas sai a água evaporou e a minha pele ficou que até parecia papel de jornal seco depois de molhado. Eu pensei ia esfarelar-me. Se fosse agora eu ia dizer que estava pronto para ir para a brasa e ser comido no barbecue. Ardeu um ferida que eu já nem lembrava tinha. Enfim, pensei em Moisés e imaginei que tinha sido a minha purificação espiritual. 
Um dia diferente, que não foi romântico como eu tinha imaginado desde a véspera, em que o meu cabelo parecia ter sido pintado com gesso, os meus calções tinham ganho um tom branco e a alma estava esfoliada.

Mas eu fui às salinas...



Sanzalando

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