Crescer querendo ser médico é viver numa forma de sonho constante, temperado por uma boa dose de ironia. Afinal, a medicina é a arte de manter a calma enquanto o resto do mundo está, tecnicamente, em pânico e alguns até que acabam morrendo. E nada mantém melhor a calma do que um bom senso de humor.
Eu sempre achei que o bom humor é uma anestesia que a natureza nos deu de graça. Imagine a cena: o paciente entra no consultório, pálido, segurando um resultado de exame que ele num momento de pura audácia já "diagnosticou" no Google como sendo uma doença rara. Felizmente naquela altura ainda não havia essas invenções que levam ao desespero, à desinformação e à depressão, só para ficar tudo dependente do D.
Neste momento, o médico tem duas escolhas:
- Ser o bastião da seriedade e explicar que o Google não tem curriculum válido ou reconhecido ou usar o humor para dizer: "Olha, a boa notícia é que, para ter essa doença, você precisaria ter nascido em 1740 e comido uma raiz específica que só cresce na Lua. Como você parece bem para quem tem 300 anos, vamos olhar para o seu físico"
Mas a jornada para lá chegar não é feita só de gargalhadas. Existiu o liceu, aquela entidade mística que exige que você saiba a fórmula química da ardósia, o poder da OPAN para mais tarde, finalmente, poder perguntar a alguém: "Onde dói?". É uma tortura que só faz sentido se você conseguir rir do absurdo de estudar física quântica para tratar uma unha encravada. Sim... eu sei que naquela altura a física era quanticamente proporcional a saia da professora.
E depois, claro, vem a lendária letra de médico. Eu que a tinha tão redondinha que até dava gosto ler, perdi-a com o passar do tempo. Agora escrevo e para além da senhora da farmácia talvez eu em dia de sol consiga decifrar. A minha lista de compras atual parece um eletrocardiograma de alguém que acabou de correr uma maratona, com espaços em branco para respirar fundo.
No fundo, ser médico com humor é entender que o corpo humano é uma máquina fascinante, mas ocasionalmente ridícula. É saber que, entre um banco de 36 horas e um café que mais parece asfalto líquido, o que nos mantém de pé não é apenas o juramento de Hipócrates, mas a capacidade de rir de nós mesmos.
Se a vida é uma doença terminal, onde todos acabam por morrer, como dizem os poetas mais pessimistas, que pelo menos o médico seja aquele que, enquanto te examina, consegue te arrancar um sorriso. Porque a ciência cura o corpo, mas é a piada (no momento certo) que salva a alma do cansaço.
Sem comentários:
Enviar um comentário