recomeça o futuro sem esquecer o passado

27 de março de 2026

Voltaste à cidade 50 anos depois

Cinquenta anos. Cinco décadas de distância que o Filipe atravessou num SUV reluzente, armado com um GPS que insistia que ele estava no meio de um rio, quando na verdade estava apenas num caminho em mau estado que antes era o que ele pensava ser a Estrada Principal que ia dar ao centro da cidade. Mania que menino da cidade se lembra de tudo quando era criança.

Mal estacionou na praça, Filipe sentiu o peso dos anos. Ou melhor, sentiu o peso dos olhos. No banco de madeira da avernida, de baixo das velhas buganvílias , os mesmos dois velhinhos de 1975 pareciam não se ter mexido. Eram como estátuas de calcário com boina. Devia ser o velho Faria e a Maria Cachucha.

 Alguém do passeio interrompeu os pensamentos que corriam na cabeça do Filipe que ele imaginou assim:
- Olha, é o filho do Ti Manel! Que homem bem parecido que ele está agora. Veio do puto ver a gente?!"
Mas na realidade foi mais 
- Quem é aquele gajo de calças apertadas que não sabe estacionar? Deve ser da geração da utopia. 

Filipe, agora habituado a brunches com tostas de abacate e sementes de chia, foi arrastado pela primo Alberto para o almoço.
- Estás tão magrinho, Filipe! Parece que passaste a fome da guerra! Come lá este cozido, que a gordura do porco é que faz o brilho nos olhos.

O prato à frente dele tinha calorias suficientes para alimentar uma pequena nação durante o inverno rigoroso. O azeite da horta não era um condimento, era um ecossistema. À terceira garfada, as suas artérias começaram a enviar notificações de espaço insuficiente. Filipe habituara-se a outras comidas. 

A parte mais perigosa de voltar à terra 50 anos depois é a árvore genealógica. Na cidade, ninguém tem apelido, só "alcunhas" ou referências de parentesco complexas.

- Olá, boa tarde! Lembra-se de mim? Sou o Filipe, filho de tal e tal e morava ali...."

- Qual Filipe? O do fuso? O que caiu ao poço em 64? Ou o que casou com a filha do homem que vendia tremoços na feira da Senhora da Kipola?

- Não... sou o filho do... e continuou a tentar definir um passado que o tempo faz tempo varreu das ruas asfaltadas.

 - Ah! O das hortas?! Estás tão mudado... perdeste o cabelo todo, não foi? - Não me lembro! 

Filipe tentou pagar um café com um cartão xpto. O senhor Alfredo, atrás do balcão, olhou para ele como se ele tivesse uma arma biológica como se fosse uma arma biológica. Aqui é com dinheiro vivo e de preferência dólares. Senão, ficas a dever que eu te vou cobrar e com juros desde o tempo que foste embora daqui.

O Balanço Final

Filipe percebeu que, por muito que o mundo mude, a aldeia é uma cápsula do tempo. Ele pode ter aprendido três línguas e visitado vinte países, mas ali, ele será sempre "o miúdo que tinha medo dos gansos e que agora usa sapatos que parecem barcos".

Ele voltou para a cidade com três quilos a mais e a certeza absoluta de que, em 2056, o Alfredo ainda o vai estar à espera para cobrar o café.



Sanzalando

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