recomeça o futuro sem esquecer o passado

28 de março de 2026

Brincámos e éramos felizes - mas tenho memória e sou-o

Esta não é uma estória de dunas gigantescas, caravanas de camelos ou miragens com água fresca, infelizmente. Esta é uma estória sobre a fronteira do deserto, onde o Namibe encontra a civilização ou pelo menos o muro da Junta autónima das estradas. É assim mais ou menos onde a areia não é uma paisagem romântica mas um inimigo determinado a invadir cada orifício do meu corpo se a aragem vira vento.

Conheçam a minha trupe de intrépidos exploradores: o Manel, com a sua energia inesgotável e total desrespeito pela falta de humor; o Beto, líder autoproclamado e inventor de jogos, para além de ser o dono da viola; e Ferrão, o cauteloso, cuja principal é não ter cautela com coisa nenhuma; o Mamede, preocupado com as notas que não eram de dinheiro. Claro que não vou pôr aqui nenhum nome delas porque elas não iam connosco para as areias quentes do deserto.

Era um sábado escaldante. O céu estava de um azul tão intenso que parecia pintado, e o sol batia com a força de um martelo num prego enferrujado. O local escolhido para a aventura do dia não era uma duna imponente, mas sim uma modesta acumulação de areia que se formava nos limites da cidade que para uns era grande e para outros era pequenina. 

"Muito bem,gente!", anunciou o Beto, de pé no topo do maior monte de areia (que devia ter uns impressionantes trinta centímetros de altura)

- O objetivo de hoje é conquistar o Forte Solitário e defender o nosso território contra os temíveis Invasores da Poeira!

O Manel soltou um grito de guerra, que se transformou rapidamente numa tosse ruidosa quando uma rajada de vento lhe mandou uma quantidade generosa de areia diretamente para a boca. 

- Arg! Areia! É ... saiu palavrão, que a minha caneta não sabe escrever, enquanto cuspia e limpava a cara com a manga da camisola, o que só serviu para espalhar a areia ainda mais.

Ferrão, entretanto, estava empenhado num ritual meticuloso de bater os pés um no outro para desalojar cada grão que se atrevesse a aproximar dos seus ténis que deveriam ser novos.

- A sério, malta? Areia? Podíamos estar a jogar no parque infantil. Sem areia nos sapatos.

Beto ignorou as queixas. 

- Mamede, tu e o teu exército ficam no Forte. Eu e o JC atacamos!.

O jogo começou. O Manel e o Ferrão defenderam o forte imaginário com unhas e dentes, ou melhor, com punhados e punhados de areia. A tática de ataque de Beto e meu envolvia saltos dramáticos sobre os pequenos montes de areia e gritos de guerra que pareciam mais guinchos de pânico cada vez que a areia nos entrava nos olhos.

A certa altura o Manel, no auge do seu entusiasmo defensivo, atirou um punhado de areia com tanta força que este voou muito além de nós e atingiu uma carocha inocente que passava calmamente por ali. 

A batalha foi interrompida momentaneamente pela gargalhada geral (exceto do Beto, que estava a tentar limpar o corpo daquela bola de areia).

A tarde passou num turbilhão de areia e risos. Inventámos novos jogos: "Quem Consegue Ficar Mais Sujo de Areia em Dez Segundos?" houve quem ficasse irreconhecível, "Corrida de Obstáculos com Areia nos Sapatos" (perdeu o Ferrão que não quis sujar os quedes porque deviam ser novos) e "Construção do Maior Castelo de Areia Que o Vento Não Consiga Derrubar nos Próximos Dois Minutos" (o castelo sobreviveu por uns impressionantes dez segundos antes do Manel se atirar sobre ele).

Quando o sol começou a descer no horizonte, pintando o céu de tons de laranja e rosa, a trupe de exploradores estava exausta e coberta de areia. Mas não era apenas uma camada superficial. Era areia no cabelo, areia nas orelhas, areia nas meias, areia nos bolsos.

Ao regressarem a casa, o som das suas passadas era um mistério rítmico de grãos a raspar contra o tecido e a borracha. Ao entrarem na cozinha, a minha mãe olhou para nós e suspirou.

- Bem, parece que o deserto decidiu vir visitar-nos - disse ela, com um sorriso divertido - Preparem-se para um banho tão longo que vão esquecer que cor têm os vossos corpos.

No meu caso o ralo da banheira acho ficou entupido de areia. A banheira parecia uma praia em miniatura. 

Brincar no início do deserto pode não ter sido uma aventura épica com tesouros escondidos e dunas gigantescas. Mas foi uma tarde cheia de humor, risos e uma quantidade tão impressionante de areia que nunca mais olhámos para uma simples caixa de areia da mesma maneira. Afinal, a areia não é apenas um material. É uma companheira de brincadeiras irritante, invasiva e, por vezes, muito divertida.

Hoje apetecia-me ir brincar na areia. Mas falta o Manel e o Ferrão ao que eu sei. Dos outros nunca mais soube nada. Crescemos, é só o que eu sei.

Ficou a memória



Sanzalando

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