recomeça o futuro sem esquecer o passado

21 de maio de 2026

O Caos em Frequência Modulada

Às vezes eu devia ficar quieto, cruzar as pernas com a bunda no sofá e ver tv. Mas a irrequietude faz-me ser de outra forma e como tenho a mania que sou artista resolvi fazer rádio. Antevendo o futuro, sento-me frente ao écran, sim, sou moderno e já não escrevo na sebenta, mas sim num computador, e faço futurologia. Fazer rádio com seis pessoas numa mesa redonda é, tecnicamente, um desporto de combate. O tema da noite é ambicioso: 

- O Impacto da Inteligência Artificial no Cultivo da Batata e a Imortalidade da Alma

Um tema leve, portanto, ideal para preencher o silêncio da noite entre dois fados e um anúncio a uma oficina de pneus.

O problema da rádio com muitos convidados não é o que se diz, mas o tráfego aéreo das palavras. Os engarrafamentos de sons que querem sair todos ao mesmo tempo. Temos seis pessoas, mas apenas três microfones que funcionam e um que emite um zumbido estranho sempre que alguém diz a letra "S". Já mexi nos botões todos, agudos e graves, o "S" dá um CH que chateia. Mas deixemos a técnica.

Primeiro, temos o Estatístico, que trouxe três pastas de arquivo e insiste em ler tabelas de Excel em voz alta. Se olharem para a coluna B..., diz ele com entusiasmo, esquecendo-se que a única coisa que os ouvintes conseguem olhar é para o ponteiro do relógio de parede ou para a sintonia do velhinho rádio que sobreviveu a várias mudanças de casa.

Depois, há a Poetisa, que responde a qualquer pergunta sobre batatas citando o existencialismo francês. A batata não é um tubérculo, é um grito de angústia da terra, afirma ela numa voz melancólica, enquanto eu, como técnico de som, aproveito para ir buscar um café, sabendo que ela não vai parar de falar nos próximos dez minutos.

A meio da mesa, temos o Cético, cujo único contributo é suspirar ruidosamente junto ao microfone e dizer: Isto no meu tempo é que era. Ninguém sabe ao certo que tempo era esse, mas devia ser uma época fantástica onde a gravidade não existia e o pão era de graça.

O verdadeiro desafio surge quando o eu moderador, o único pobre santo com auriculares, tenta lançar uma pergunta. É como atirar um bife para dentro de um tanque de jacarés.

Três pessoas começam a falar ao mesmo tempo.

O som torna-se uma massa uniforme de ruído onde se distinguem apenas as palavras "algoritmo", "adubo" e "metafísica".

Lá em casa, o ouvinte pensa que o rádio avariou ou que os vizinhos estão a ter uma discussão acesa sobre a herança da tia-avó.

No meio do caos, há sempre o convidado Ninja. Está calado há quarenta minutos. Eu, por caridade, pergunto: "E o Dr. o que pensa disto?". O Dr. acorda do transe, aproxima-se demasiado do microfone e solta um Pois... tão profundo que faz vibrar os vidros dos copos. E volta ao silêncio.

A qualidade de vida de um radialista mede-se pelos minutos de publicidade que acabam por aparecer. É o momento em que tira os auscultadores e se descobre que a Poetisa está a tentar roubar os apontamentos do Estatístico e que o Cético adormeceu de olhos abertos.

A magia acontece. Continuamos a nossa fascinante conversa sobre a alma das batatas... É mentira, claro. Estamos apenas a tentar sobreviver à próxima meia hora sem que ninguém derrube o copo de água sobre a mesa de mistura.

No fim, as seis pessoas despedem-se com uma cortesia extrema, jurando que foi o debate do século. O ouvinte, do outro lado, desliga o rádio a pensar que, se calhar, as batatas têm mesmo uma alma complexa. 

A rádio tem destas coisas: é o único sítio onde o silêncio nada vale.




Sanzalando

Sem comentários:

Enviar um comentário