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18 de setembro de 2026

Uma hora de rock em 1972 - Formula POP

Em 1972, fazer um programa de rádio de uma hora dedicado ao rock era uma coisa muito séria. E a gente fazia. Quando cheguei na rádio já lhe tinham começado faz tempo. Partiram para ir estudar fora e novos fomos entrando. Uns mais tempo, outros menos tempo, mas o programa diário se mantinha. Mas era sério mesmo que a gente ainda não parecesse ser. Tão séria que, antes de começar, era preciso ter a certeza de que ninguém em casa tinha decidido ir passear, que o vizinho não estava a partir uma parede e a mãe não tinha resolvido chamar para ir comprar pão. 

Porque uma hora de rock, em 1972, não era simplesmente uma hora. Era uma missão. Cada um chegava à rádio com uma pilha de discos debaixo do braço, alguns cuidadosamente escolhidos e outros que tinham aparecido sabe-se lá de onde. Vinil preto, capas grandes, fotografias de músicos com cabelos compridos e expressões que pareciam dizer:

- Nós sabemos uma coisa que vocês ainda não sabem. Eu tenho este que mais ninguém por aqui tem!

Eu também queria parecer que sabia e que tinha. Não sabia e não tinha. Rock não era a minha escolha de compra. Balada sim. Mas aquela hora era de rock e por isso se chamava Formula Pop. Eu só tinha um microfone à frente, um prato de gira discos de cada lado e muita fé em fazer. E isso dava-me uma certa autoridade. 

O programa começava com uma voz muito séria e que dizia qualquer coisa como -Boa tarde. Está no ar mais uma hora dedicada ao melhor do rock... Dizer "rock" ao microfone em 1972 fazia-nos sentir quase revolucionários. Depois vinha a música. E que música! Os discos rodavam no gira-discos da rádio e, durante alguns minutos, ninguém falava. O locutor ficava a olhar para o ponteiro, atento à agulha.  Um risco no disco e lá vinha um crac, para além de ter de justificar ao dono o que é que tinha acontecido e era uma carga de trabalhos.

Outro risco e outro crac. Mas esse crac já tinha vindo de casa assim. Era de ter sido tanto tocado, tanto emprestado que acho se gastou, dizia para me animar. Mas ninguém reclamava. Era rock. E o rock, naquele tempo, tinha direito a tudo. Entre uma música e outra, era preciso falar. Essa era a parte perigosa. De vez em quando saía argolada porque o disco estava trocado na capa.

- E acabámos de ouvir esta magnífica banda... - Pausa. Olhar para a capa do disco. - ...que dispensa apresentações. Porque a gente tinha dado com a marosca. Mas fechado o microfone saía palavrão contra o autor que normalmente não era o dono do disco. Era uma frase maravilhosa - que dispensa apresentações -  Servia para tudo, principalmente quando nós próprios não sabíamos muito bem quem eram. Depois anunciávamos a próxima:

- E agora, vamos ouvir mais um grande tema...

Mais uma vez, a solução universal. Uma hora inteira dava para dizer "grande tema" umas quinze vezes sem ninguém notar. O problema era o relógio. Uma hora de rádio parecia muito tempo antes do programa começar. Depois, já com vinte minutos de música, descobríamos que afinal uma hora passava depressa como um solo de guitarra. E ainda faltavam três discos. Começávamos então a cortar.

- Este tema fica para uma próxima emissão... Era mentira. Nunca mais nos lembrávamos na próxima emissão. Mas ficava bem, isso ficava. Dava aspecto de continuidade.

Acabado o programa lá fora continuava tudo igual. Os carros, as pessoas, as preocupações, os vizinhos e o mundo. Mas durante uma hora tínhamos conseguido uma coisa extraordinária, em 1972, dentro daquela pequena rádio, o mundo tinha cabido num gira-discos.

E o mais curioso é que, quando hoje penso nessa hora de rock, já não me lembro apenas das músicas. Lembro-me do cheiro dos discos, do ruído da agulha, das capas enormes, do medo de deixar o silêncio entrar no ar e daquela sensação maravilhosa de estar a fazer rádio quando fazer rádio ainda parecia uma aventura. Uma hora. Sessenta minutos. E uma quantidade de rock suficiente para convencer qualquer rapaz de 1972 de que o futuro, afinal, podia ter uma guitarra elétrica.

Ao Maló, Van Der Kellen, Carlos Matias e o disco cracou na hora de dizer mais nomes. Talvez o Luís Mendes se lembre.


Sanzalando

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