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6 de novembro de 2026

O cirurgião, o bisturi e as saudades do tempo em que ainda mandava no corpo (42 anos de curso feito)

Houve um tempo em que eu era cirurgião. Digo isto com alguma solenidade, porque há profissões que nos ficam agarradas à pele, mesmo quando já não usamos bata, não entramos no bloco e o bisturi passou a ser uma peça de museu guardada na memória.

Hoje estou reformado. O que, em linguagem médica, significa que deixei de operar os outros e passei a tentar operar a minha própria rotina, quase sempre com sucesso.

Recordo os meus tempos de cirurgião com uma certa nostalgia. Não daquela nostalgia triste, que nos faz olhar para o passado como quem contempla um funeral, mas de uma nostalgia bem-disposta, daquelas que nos fazem sorrir enquanto pensamos: «Meu Deus, como é que eu sobrevivi àquilo?»

No bloco operatório, tudo tinha uma ordem. Havia horários, procedimentos, decisões, responsabilidades. Um silêncio concentrado, interrompido apenas pelas indicações à equipa e pelo som dos instrumentos. Eu sentia-me útil, importante e, por vezes, ligeiramente convencido. Afinal, não é qualquer profissão que nos permite dizer: «Vamos abrir!» sem que alguém pense que estamos a tirar a rolha a uma garrafa de champanhe.

Agora, reformado, continuo a dar ordens. A diferença é que já não são tão respeitadas.

Se, no hospital, eu dizia «preciso de silêncio», toda a gente se calava. Em casa, digo o mesmo e alguém responde: «Então desliga a televisão.»

Também descobri que a reforma tem uma particularidade extraordinária: os dias são muito mais compridos do que antigamente. Quando trabalhava, nunca tinha tempo para nada. Agora tenho tempo para tudo, mas falta-me a vontade para metade. E a outra metade depende de saber onde estão arrumadas as coisas.

A memória, essa, continua a funcionar. Pelo menos a memória profissional. Ainda me lembro de operações complicadas, de decisões tomadas em segundos, de noites intermináveis e de doentes que me ensinaram mais do que muitos livros.

Curiosamente, não me lembro onde pus as chaves do carro.

É uma espécie de ironia clínica: o cérebro que durante décadas conseguiu coordenar uma intervenção cirúrgica complexa, agora entra em falência perante a pergunta «onde é que deixei o comando da televisão?».

De vez em quando, encontro antigos colegas. Abraçamo-nos, falamos dos tempos do hospital, recordamos histórias de serviço, pacientes insólitos, pequenos dramas e grandes vitórias. Rimos como se ainda estivéssemos no corredor, à espera de entrar no bloco.

E há sempre alguém que pergunta:

- Então, ainda tens saudades de operar?

Respondo com a sinceridade de um homem que já não precisa de fingir coragem:

- Tenho, mas só até me lembrar das horas de trabalho, das urgências de madrugada e da responsabilidade de ter uma vida nas mãos. Logo me passa.

A verdade é que a reforma não apaga o cirurgião. Apenas lhe muda o cenário. Continuamos a observar, a analisar, a desconfiar de sintomas e a tentar encontrar soluções. Só que agora o paciente mais frequente somos nós próprios.

E, convenhamos, somos pacientes bastante difíceis.

O passado tem o seu encanto. Não porque fosse perfeito, mas porque foi vivido intensamente. Houve cansaço, medo, responsabilidade, alegrias e aquela sensação extraordinária de que o nosso trabalho fazia diferença.

Hoje, quando olho para trás, não sinto que tenha perdido uma profissão. Sinto que ganhei o privilégio de a recordar. E isso é uma espécie de milagre da reforma. Afinal, fui cirurgião durante muitos anos. Agora sou um reformado com bisturi na memória, histórias na gaveta e uma ligeira dificuldade em levantar-me do sofá. Mas continuo a ter espírito de cirurgião. Só já não opero. Agora, quando alguém me diz que está mal, faço o diagnóstico mais prudente da minha nova carreira:

- Isso deve passar. Mas, por favor, não me marque consulta para amanhã. Tenho uma vida muito ocupada… a não fazer nada.

E sorrio.

Porque, no fundo, há coisas que nunca se reformam: a memória, o humor e a saudade de termos sido, um dia, indispensáveis. Embora hoje, cá em casa, a minha maior intervenção cirúrgica seja conseguir abrir um frasco de grão sem pedir ajuda. E nem sempre consigo.



Sanzalando

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