recomeça o futuro sem esquecer o passado

4 de outubro de 2026

senta aí e vamos conversar

Puxa só assim uma cadeira e senta. Vem lamentar ou chorar comigo.
Há umas semanas, deitei-me a pensar que o meu verdadeiro propósito de vida era ser um eremita numa cabana autossustentável no planalto da Huíla. Imaginei tudo: a madeira tratada, os painéis solares topo de gama, uma horta biológica onde as alfaces cresciam ao som do semba e eu, vestido com uma camisola de lã velha, a escrever o próximo grande romance em português enquanto bebia chá de de cachinde plantado e colhido por mim.
No dia seguinte, acordei, olhei para o tecto do meu quarto, avivendado, que tem uma mancha de humidade que parece o mapa da Austrália e fiz as contas. Para comprar o terreno na Huíla, precisava de um rim. Para os painéis solares, o outro rim. Para me sustentar antes de ser autosustentado precisava vender o pulmão e talvez um pâncreas. Para a camisola de lã velha de marca sustentável, teria só que abrir a caixa de plástico onde guardo as roupas de inverno. Conclusão médica: o meu sonho de comunhão com a natureza era biologicamente inviável, a menos que eu planasse pela Huíla em formato de fantasma bem agasalhado.
Gente como tu e eu sofre de uma maleita terrível chamada Hiperatividade Criativa sem Cobertura de Saldo Bancário. Nós temos ideias brilhantes a cada meia hora. Temos o conceito, o logótipo idealizado na mente e até o discurso de agradecimento planeado para quando formos entrevistados na televisão. Só nos falta um pequeno detalhe técnico: o capital de subordinação. O guito. Os fundos dos bolsos já estão gastos de tanto serem revistados pelas mãos que acompanham a mente dos sonhos.
A verdade é que gerir grandes sonhos sem meios para os realizar é uma arte marcial. Exige uma ginástica mental digna de Jogos Olímpicos. Quando o comum dos mortais quer ir a Paris, compra um bilhete de avião e reserva um hotel. Quando nós queremos ir a Paris, passamos quatro horas no Google Maps em modo street view, compramos um croissant congelado no supermercado da esquina, aquecemo-lo no micro-ondas e dizemos que a experiência imersiva de olhar para a Torre Eiffel digitalizada enquanto se mastiga massa folhada de marca branca. Tudo em nós tem outra poesia. Não é pobreza, meus amigos, é romantismo de conceito.
O mais divertido, para não dizer trágico, é que a nossa falta de meios afina-nos o engenho de uma maneira quase assustadora. O rico que quer abrir um estúdio de gravação compra equipamento banhado a ouro. Nós gravamos um podcast dentro do roupeiro, embrulhados num edredão de inverno para fazer isolamento acústico, rezando para que o vizinho não decida usar o berbequim a meio da introdução e o camião do lixo não venha esvaziar a meio do parágrafo o contentor que está mesmo na esquina da nossa casa. E o resultado? Fica com aquele som orgânico e cru que os críticos tanto elogiam. Se corre bem, somos visionários; se corre mal, estávamos só a experimentar uma vertente naife.
Por isso, se estás aí desse lado a olhar para o teu projeto de vida, aquele que está guardado numa pasta chamada Ideias_2026_Final_A_Sério no ambiente de trabalho do teu computador spectrum e a suspirar porque não tens um investidor anjo a bater-te à porta, não desistas. Continua a sonhar em grande, mesmo que o teu orçamento actual seja em ponto pequeno. Afinal de contas, os melhores impérios começaram nas garagens. E se tu nem sequer tens dinheiro para alugar uma garagem, olha… o roupeiro continua a ter uma excelente acústica.

Sanzalando

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