Foi numa terça-feira cinzenta, daquelas que tanto podia ser quinta como sexta, daquelas em que o céu veste o fato de treino mais velho e gasto que tem no armário, que a cidade inteira se preparou para o melodrama.
O boletim meteorológico não deixava margem para dúvidas. O senhor no rádio disse-o com graves na voz. A voz dele, solene e melodramática, anunciava uma depressão isolada de alto rendimento emocional. Prometia chuva. Mas não uma chuva qualquer, daquelas que regam as alfaces e lavam os carros de graça. Não. Seria uma chuva quase triste, como eram sempre as chuvas na minha terra. Uma chuva de alagar a esquina dos Fonsecas.
Às três da tarde, o cenário estava montado. As nuvens arrastavam-se baixas, com um ar vagamente trágico, como quem vai a um velório de alguém que nem conhecia muito bem, mas sentiu que devia marcar presença. O vento uivava uma melodia desafinada por entre as árvores da avenida.
Na ruas, a população se vestiu a rigor, desapareceram. Eu com ar contemplativo olhava para o horizonte, ensaiando mentalmente frases profundas sobre a vida. Hoje eu não ia ver o boca-de-sapo passear.
Às quatro e um quarto, o ponto chave parecia iminente. O céu escureceu mais dois tons de cinzento que quase parecia ia ser de noite antes da hora. Uma senhora mais velha abriu o guarda-chuva no meio do passeio, previdente e até parece que corria à frente da chuva que ainda não lhe caía.
E depois... nada.
Absolutamente nada. Um trovão e nenhuma gota caiu. Nem uma pinga para amostra. Nem aquele molha-tolos.
A chuva, que tinha tudo para ser um poema triste, desandou sem cair.
Às cinco e meia, o drama do tempo ruiu por completo. A tristeza que devia ter caído sob a forma de água transformou-se numa coisa muito mais prosaica: uma dor nas costas e uma vaga ideia que afinal podia haver passeio.
O sol nem sequer se deu ao trabalho de aparecer em grande estilo. Limitou-se a rasgar um buraco amarelo e tímido entre duas nuvens envergonhadas, como quem diz: apareçam para beber um copo!
E assim terminou a tarde em que a cidade esteve quase, quase a ser poeticamente infeliz. Fui para a rua ver as caras melancólicas de quem previra o dilúvio prometido na rádio.
Eu fui ver o boca de sapo passar, sentado nas escadas do tribunal com o sorriso mais feliz daquele mundo.
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