recomeça o futuro sem esquecer o passado

Programas K'arranca às Quartas no Blog

10 de setembro de 2025

Se calhar foi o primeiro amor

Eu tinha apenas 16 anos, mas sentia como se carregasse dentro de mim um segredo maior do que o mundo. Desde o primeiro dia em que eu a vira, na sala de aula, tudo à minha volta parecia ter mudado de cor. O barulho dos colegas, a rotina cansativa da escola e até o som da campainha do liceu pareciam perder importância quando ela estava por perto. Acho ela vinha do Colégio das Madres ou então fui eu que acordei assim naquele dia, pois nunca lhe tinha olhado na forma de ver como a passei a ver.

Não sei nem explicar. Não era apenas o sorriso que me fazia perder o ar, nem os olhos que brilhavam quando ela falava de algo que eu gostava ou assunto de interesse. Era a sensação de querer estar ali, ao lado dela, todos os dias, como se o tempo só tivesse sentido quando compartilhado com ela.

Nos corredores, inventava desculpas para cruzar o seu caminho, para ter conversa. Na cantina, preferia esperar só para ter a chance de sentar-me ao lado dela na mesa que ela escolhia. À noite, quando já deveria estar a estudar ou dormir, ficava a olhar o tecto, torcendo para que uma mensagem dela surgisse assim projectada como no cinema.

Era um amor puro, desses que nascem na adolescência, cheio de sonhos e exageros. Não pensava no futuro distante, mas sim no próximo recreio, na próxima conversa, no próximo olhar. Queria vê-la sempre, como se a vida fosse mais bonita apenas quando ela estava presente. Um dia ela disse que o pai ia comprar a casa ao lado da minha. Acho houve um terramoto dentro de mim ou simplesmente foi uma festa de fogo de artifício na minha alma, pois se o meu corpo não deu pulos de alegria eu todo saltei de contente.

Os dias deixaram de ser iguais. As notas escolares subiram até parece eu era outro. Minha mãe desconfiava eu estava a fazer batota ou a lhe enganar. Mas era a realidade. Eu tinha-me renascido naquele primeiro dia de aulas no mesmo corpo mas outro eu lá dentro. 

Um dia ela mudou. Ficava mesmo ao alcance do meu olhar. Eu até que passei a ser caseiro. Masi desconfiada estava a Dona Minha Mãe. Ela perguntava a mim, no Liceu, nos amigos e ninguém sabia dizer nada. Era o maior segredo do mundo guardado em mim.

E, no fundo, eu ainda acredito que aquele sentimento, mesmo simples, foi tão verdadeiro. O tipo de amor que marca para sempre, justamente porque foi o primeiro e a memória nunca lhe vai apagar por mais poeira que lhe ponham em cima. 

Pena mesmo que ficou um segredo guardado por mim até num hoje qualquer.


Sanzalando

9 de setembro de 2025

Os meus retalhos nº 39

Não me gabando que até podia parecer mal, sempre foui considerado um bom cirurgião do hospital. Minhas mãos firmes e a calma diante da pressão eram conhecidas entre colegas e pacientes, assim como um certo mau feitio derivado da concentração e disponibilidade total para o instante cirúrgico. Durante anos, acumulou sucessos e salvou inúmeras vidas. Mas na verdade também com fracassos e com a impotência pela hora tardia a que a doença havia chegado às suas mãos.

Mas uma noite, após horas seguidas de urgência, foi chamado para uma cirurgia de emergência. O paciente tinha uma hemorragia interna grave. Entrei na sala confiante, como sempre, mas o cansaço nublava o raciocínio. Um pequeno detalhe, imperceptível, que me passou despercebido - no caminho para o bloco o paciente havia feito uma paragem cardio-respiratória. O que não me fora transmitido. Pequeno detalhe de comunicação, grande detalhe na intervenção

A cirurgia não terminou como esperava. Apesar de todos os esforços da equipe, o paciente não resistiu intra cirurgia..

Nos dias seguintes, fechei-me em silêncio. Pela primeira vez na minha carreira, senti o peso esmagador do fracasso. A pergunta não o deixava em paz: “E se eu tivesse sabido daquele detalhe a tempo?”

Mas, em vez de desistir, decidi encarar o erro. Voltei a estudar, revi protocolos, conversei com colegas, e, sobretudo, passou a ouvir com mais humildade as vozes ao seu redor. Descobriu que, embora os cirurgiões sejam treinados para buscar a perfeição, também são humanos.

Anos depois, com novos sucessos acumulados, contava essa história para os jovens internos, sempre concluindo:

— O fracasso dói. Mas, se aprenderes com ele, podes salvar muitas vidas que ainda estão por vir.



Sanzalando

8 de setembro de 2025

nadei na Praia das Miragens

Me disseram que a Praia das Miragens engana os olhos. De longe, o deserto parece prolongar-se até ao mar, como se a areia e a água fossem um só de cores diferentes. O calor distorce o horizonte, e o azul ondula em reflexos que confundem até os mais atentos.

Numa manhã de Março, decidi mergulhar ali, tal qual tinha feito na adolescência. Tinha imaginado histórias de pescadores, de amores e de como o mar daquela praia guardava segredos antigos, e de que quem ousasse nadar sentia-se entre dois mundos: o da terra árida e o do oceano infinito, na realidade e no imaginário, no quente calor do dia e na fresca noite. Estórias, pensei.

Entrei devagar, sentindo a frescura da água a cortar o peso do sol e a chegar-me ao osso. Depois nadei na forma desconjuntada de um nadador afundador. Cada braçada parecia abrir caminho entre miragens líquidas e imateriais pensamentos. O silêncio era profundo, apenas quebrado pelo estalar distante das ondas contra as rochas que marginam a marginal. Era eu e o sonho real de nadar no meu mar de criança.

Enquanto nadava, tive a sensação de não estar só. Havia peixes a acompanhar-me, prateados como lâminas, e acima dele as gaivotas riscavam o céu, como se vigiassem o meu percurso. A certa altura, olhei para trás e não reconheci a linha da costa: a areia misturava-se com a névoa do calor, e por um instante acreditei que poderia nadar para sempre sem encontrar uma maneira de voltar para trás.

Mas o mar devolveu-me a noção de regresso. Uma onda suave empurrou-me novamente em direção à praia, e saí da água com a respiração pesada, mas com o coração leve. Sentei-me na areia quente e percebi que nadar na Praia das Miragens não era apenas atravessar um pedaço de mar, era atravessar-me a si mesmo. Era colher cada pedaço de mim passado e devolvido ao presente

E ali, diante da imensidão, aprendeu que o mar, como a vida, às vezes nos confunde com ilusões, mas sempre nos devolve à margem certa.


Sanzalando

7 de setembro de 2025

Areia no Silêncio de uma joeira sem vento

Era uma manhã que tinha nascido sem cacimbo no Namibe, mas dessas em que o sol acorda antes de todos e espreguiça-se devagar pelas dunas sem a força do quente. O céu estava limpo, parado — nenhum sinal de vento, nenhuma folha mexia, nem uma brisa para me contar um segredo.

Eu, um menino de poucos anos, calções com suspensórios de cabedal, se calhar feitos no Estregildo ou comprados no Graça Mira, não faço a mínima ideia onde a minha mãe comprava a minha roupa, com os pés cobertos de poeira, corria tentando levantar uma joeira esquecida na casa da avó, faz tempo feita por um qualquer dos meus tios. Era velha, de lasca de cana gasta e papel fino, marcada pelas mãos de quem já lhe tinha levantado muitas vezes.

— "Vou brincar," disse, sem saber como exatamente se levanta uma joeira em dia que a brisa tirou folga..

Sentei-me na terra batida, joeira ao colo, respiração cansada da muitas corridas feitas para um lado e para outro. Tentei peneirar a areia seca com a minha mão pequena enquanto ia pensando como é que eu podia levantar aquela joeira que devia ter saudades de voar. A areia não dançava como nos dias de vento. O silêncio fazia companhia sem aquele assobio que entra no ouvido quando está de feição e até os passarinhos estavam calados.

Sacudi a joeira com força, imitando os gestos que me lembrava, mas a areia caída no papel parecia tinha cola e não se libertava.. Parei. Pensei. Peguei um punhado de pedrinhas pequenas, sementes secas, e folhas miúdas que o sol já tinha amarelado. Coloquei tudo na joeira e comecei a abaná-la devagar e parecia tinha inventado um novo instrumento musical.

Agora, a joeira cantava baixinho. Um som suave de coisas a se encontrarem no ar. As pedrinhas pulavam, as folhas giravam e eu ria sozinho, inventava vento com as minhas próprias mãos.

- “Se o vento não vem, eu viro vento,” disse, com um sorriso teimoso.

Naquela manhã sem vento, eu menino, fiz do nada um mundo. A joeira virou brinquedo, tambor, redemoinho e não pássaro que voa. E o Namibe, sempre tão silencioso, ficou cheio de barulho de imaginação.



Sanzalando

5 de setembro de 2025

O meu sol ou de quem o apanhar

O sol de Moçâmedes parecia maior do que em qualquer outro lugar quando eu era criança ou adolescente. Numa trigésima mão comprei uma bicicleta que nem travões tinha. Eu queria era passear, andar por lá só assim feito explorador sem nada a explorar. Eu pedalava sem rumo, o vento quente na cara, a estrada dissolvendo-se no horizonte como uma miragem. Cada pedalada me afastava da certeza e me aproximava do silêncio do deserto. Faz conta eu pedalava para o fim de um qualquer princípio.

As dunas, douradas e imóveis, eram como guardiãs de um segredo antigo. De vez em quando, um lagarto cruzava rápido o caminho, lembrando-me de que até na imensidão árida há vida escondida. As carochas nem fugiam que até parece nos conhecíamos faz muito tempo. O cheiro salgado do mar vinha e ia, como se o Atlântico respirasse comigo quando eu me metia na estrada da Praia Amélia.

Foi quando percebi que estava perdido, não no medo, não na vida, mas numa estranha liberdade. Não havia placas, nem vozes, nem relógio. Só o som das rodas no asfalto quente e o sol, ardente, dominando o céu inteiro.

Ali, no meio do nada, entendi que me perder era também me encontrar.


Sanzalando

3 de setembro de 2025

Viagens Na minha Terra - Almeida Garrett - Programa 83


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Esta Música tem uma História 25 - Seu Jorge - A Amiga da Minha Mulher - Programa 83


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Tesourinhos Musicais 58 - Alex, o Fabuloso - Programa 83


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Crónica 71 - Programa 83


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Programa 83 K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 3 de Setembro, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
É um programa de verão e verão que exercitamos a mente sem transpiração nem grande agitação
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica e falámos de regresso às aulas 
Falou-se de Livros, Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett; Esta Música tem uma história, com Seu Jorge e A Amiga da Minha Mulher, numa colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com Alex, o Fabuloso, POEMA - Pastelaria de Mário Cesariny na voz de Cláudia Clemente e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.

Fora do habitual foi a homenagem a Luís Fernando Veríssimo numa colaboração com Alberto Carvalho para além dos aniversariantes que também foram falados, Sérgio Godinho e António Lobo Antunes, neste último com  um texto de Alberto Carvalho também

 

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

O Velho e o Mar de Areia

No coração do Namibe, onde o deserto beija o Atlântico, numa cidade quadriculada, vivia um velho chamado Chuinga. Já ninguém sabia a sua idade, mas todos juravam que nascera na areia e aprendera a caminhar com o vento.

Todos os dias, ao nascer do sol, ele se sentava na falésia, olhava para o horizonte. Diziam que esperava alguém. 

As crianças perguntavam:
— Avô Chuinga, quem o senhor espera?
Ele sorria, mostrando dentes brancos, gastos como pedras antigas, e respondia:
— Espero o mar que me prometeu voltar e substituir esse que está ai quase a morrer de saudade.

As crianças riam, pois o mar estava ali, diante deles, a bater forte contra as pedras da marginal. Mas o velho falava de outro mar, o mar de areia, que uma vez se movera como se fosse água, engolindo casas, cabras e até um homem que jurava ser mais rápido que o vento.

Numa noite de luar cheio, o vento soprou diferente, mais grosso, mais pesado. As dunas começaram a dançar. As crianças correram para casa, assustadas. Mas Chuinga ficou, de pé, os olhos brilhantes como se visse um velho amigo.

Na manhã seguinte, apenas pegadas iam até o meio do deserto — e paravam. Ninguém mais encontrou o velho.

Alguns dizem que ele foi levado pelo mar de areia. Outros acreditam que, encontrou o que esperava.

Desde então, quando o vento sopra forte no Namibe, as crianças escutam vozes que parecem risadas antigas, misturadas ao som das dunas que se movem como ondas. O velho Chuinga não envelheceu mais no deserto mais antigo do mundo, parou porque hoje tem a mesma idade que tinha quando era o velho que olhava o mar do alto da falésia.



Sanzalando

1 de setembro de 2025

Entre Vidro e Zinco, era assim a minha Luanda

Eu já estava em Luanda há seis meses, mas ainda não sabia ao certo como descrever a cidade. Do 12º andar do consultório, via a baía com a sua curva quase perfeita, os prédios de vidro refletindo o sol como se fossem promessa de modernidade. Mas, se baixasse os olhos um pouco mais, avistava telhados de zinco amontoados, becos sem pavimento e ruas de poeira vermelha. Era como olhar duas cidades sobrepostas, que fingiam coexistir sem se tocar.

De manhã, chegava ao trabalho de carro com motorista. No trajeto, o ar-condicionado abafava os ruídos da rua, mas não o suficiente para esconder os gritos dos cobradores dos candongueiros, nem o batuque improvisado de miúdos que pediam esmola nos semáforos. Ao parar num engarrafamento, via pela janela uma mulher equilibrando uma bacia de peixe seco na cabeça, oferecendo mercadoria sob o sol escaldante. Ao lado dela, um menino limpava os vidros de carros de luxo, talvez esperando uma nota estrangeira esquecida na carteira de algum expatriado distraído.

No almoço, comia no restaurante mais que habitual e com assinatura mensal, onde uma refeição custava o equivalente ao salário mensal de muitos. Os colegas angolanos, sempre cordiais, riam, mas também comentavam baixinho: “O patrão paga, porque aqui o preço não é para nós.” Nunca percebi se era brincadeira ou desabafo. Talvez fosse os dois. Claro, era o dono da Clínica que tinha feito o contrato. Que sabia eu de mais que isso?

Numa tarde, fui visitar um paciente que morava no musseque. Quer dizer, rodeado de musseque, blindado por muros altos e guardas à porta. Saí do carro e caminhei um pouco por ruas sem asfalto, entre casas de blocos, inacabadas, roupas penduradas em linhas improvisadas e crianças que corriam descalças atrás de uma bola de trapos. Não havia água canalizada, mas havia música — sempre música — que saía das colunas enferrujadas. O paciente recebeu-me com um sorriso largo, uma reprimenda por ter feito aquele pedaço a pé e ofereceu-me funge com molho de peixe e disse: “Aqui falta tudo, mas esta gente ainda ri.”

Naquela noite, de volta ao apartamento moderno, com gerador privado e vista para o mar, abri a janela. A brisa trazia o cheiro do sal, mas também um eco distante de vozes, gargalhadas e batuques que vinham do outro lado da cidade.

Foi então que entendi: Luanda não era uma cidade para ser compreendida; era para ser sentida. Um lugar onde luxo e carência caminhavam lado a lado, onde o brilho do vidro nunca conseguia apagar a resistência que florescia entre os telhados de zinco.



Sanzalando

31 de agosto de 2025

O Café dos Invisíveis

Era fim de tarde em Luanda quando o Café dos Invisíveis abriu as portas. Não havia letreiro, nem música; apenas mesas gastas e cheiro de café forte. Ali, vinham sentar-se aqueles que escreviam Angola.

Luandino estava lá sentado como se estivesse à espera, faz muito tempo. Depois Pepetela chegou, trazendo debaixo do braço um caderno onde ainda se via a poeira do Mayombe. Pediu silêncio: dizia que as árvores da floresta ainda falavam dentro dele. Logo depois entrou José Eduardo Agualusa, com um sorriso leve e histórias que pareciam voar, como se fossem feitas de vidro e de sonho. Trouxe na mão uma pequena arca imaginária, onde jurava guardar segredos do mundo.

Luandino Vieira falou sem pedir licença, mais velho não precisa, carregando palavras como quem carrega pedras pesadas. A sua voz era dura, mas dentro dela morava a cidade inteira — as vielas, as gírias, os meninos descalços correndo pelo musseque.

Ondjaki chegou, risonho, trazendo consigo uma infância interminável. Sentou-se, e de repente o café ganhou cores: havia balões, crianças inventadas, fantasmas doces que dançavam nas paredes.

Conversaram sem se olhar muito, porque cada um via Angola à sua maneira. Pepetela falava das batalhas que não terminam, Agualusa das fronteiras que se dissolvem, Luandino da língua reinventada, Ondjaki do futuro que ainda brinca no quintal.

No fim, ninguém pagou a conta. O Café dos Invisíveis não cobrava a escritores: alimentava-se apenas das histórias deixadas no ar.
E quando a porta se fechou, Angola ficou mais uma vez escrita, multiplicada, infinita.



Sanzalando

27 de agosto de 2025

Programa 82 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 27 de Agosto, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
É um programa de verão e verão que exercitamos a mente sem transpiração nem grande agitação
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica e falámos de Sol e Mar
Falou-se de Livros, Equador de Miguel Sousa Tavares Esta Música tem uma história, com José Cid e Esta Cabana junto à Praia, numa colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com Fernando Girão, POEMA - da Janela do meu Quarto de Plácido De Oliveira com narração de Mundo Dos Poemas e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.

 

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

21 de agosto de 2025

A história de um menino no deserto

Era uma vez um menino que tinha por recreio não um quintal, mas o deserto inteiro. Ele só conhecia um pedacinho que nem 500 metros eram. Para lá da estrada da Junta das Estradas era deserto. 500 metros foi muito, mas dava.

Não havia baloiços, mas havia dunas que pareciam montanhas de areia. Não havia escorregas de plástico, mas cada encosta era uma descida pronta para transformar-se em aventura.

O menino corria, deixava as pegadas desenhadas no chão como quem assina o mundo, e ria-se porque o vento apagava tudo, que até parecia que no dia seguinte alguém tinha varrido o quintal. Era o jogo preferido: fazer caminhos e vê-los desaparecer, como se o deserto fosse um quadro mágico que se apaga sozinho.

Com um pauzinho, inventava espadas, varinhas, cavalos de batalha. O deserto era castelo, oceano e selva, tudo ao mesmo tempo. A miragem ao longe era o seu cinema particular: às vezes via uma cidade, outras um lago, outras até camelos que se transformavam em dragões. O deserto era mágico mas ao mesmo tempo ele tinha medo de se perder, de tantas estórias ter ouvido contar.

Quando o sol se zangava e caía com todo o peso de fogo sobre a areia, o menino procurava a sombra raríssima de uma pedra, onde fazia de conta que tinha encontrado a caverna secreta dos exploradores. Ali descansava, inventando histórias que só o deserto escutava.

À noite, deitava-se na areia fria, e o teto era um céu sem fim, cheio de estrelas que pareciam lanternas acesas só para ele. Brincava então de contar constelações, chamando-lhes nomes de bichos, heróis e brinquedos que nunca tivera. Ele não sabia que já tinham dado nomes a elas. Mas o céu era a sua banda desenhada e cada estrela uma personagem

E assim, entre silêncio e infinito, o menino cresceu a brincar no deserto que era do outro lado da estrada.
No deserto, onde parece não haver nada, ele encontrava tudo, até estórias de inventar.


Sanzalando

20 de agosto de 2025

Eu e os Livros - Anabela Quelhas - Programa 81


Sanzalando

Esta Música tem uma História 23 - Elis Regina e Tom - Triste - Programa 81


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 56 - Os Tártaros - K'arranca às Quartas 81


Sanzalando

Crónica 69 - K'arranca às Quartas 81


Sanzalando

Programa 81 K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 20 de Agosto, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
É um programa de verão e verão que exercitamos a mente sem transpiração nem grande agitação
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica e falámos de férias
Falou-se de Livros, numa colaboração de Anabela Quelhas, tivemos Esta Música tem uma história, com Elis Regina e Tom Jobim na canção Triste numa colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com Os Tártaros, POEMA - Canção Do Amor Perfeito   Poema de Cecília Meireles com narração de Mundo Dos Poemas e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.

 

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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