Rádio Portimão
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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
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- Perinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais
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- Pertinèncias 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota (1)
- Pertinências 28 - 2ª noite de Há Fado na Lota
- Pertinências 29 - 3º noite de Há fado na Lota
- Pertinências 30 - 4ª noite de há fado na lota
- Pertinências 31 - 5ª noite de Há Fado na Lota
17 de setembro de 2025
Programa 85 K'arranca às Quartas
16 de setembro de 2025
coisas
15 de setembro de 2025
fui de jeep ver a farinha de peixe
Lembro-me de quando era adolescente e fui a Porto Alexandre (ao Tombwa de agora) pela primeira vez ver como se fazia farinha de peixe. Quem me levou foi o senhor Leovegildo no seu Jeep. A curiosidade falava mais alto do que qualquer coisa, porque sempre me perguntava como é que, a partir do peixe fresco, se conseguia obter aquele pó com cheiro forte que me diziam servia para tanta coisa. Nos livros não estava explicado e fazia tempo na minha terra já não se fazia mais. Nesse agora era só mesmo lá.
O caminho até lá já era uma aventura, areia de cada lado da estrada, assim faz de conta era ouro penteado de risca de alcatrão e brita. Me contava o senhor Leovegildo que quando havia cruzamento de carros ou ultrapassagens às vezes saltava um pedra da brita e lá se ia o vidro da frente do carro. Eu ri pois estava a pensar ele me enganava com o seu ar sério. Mas ele não era pessoa de brincar com coisas sérias. Só ouvi um pack e ele com o dedo da mão direita e empurrar o vidro e lá ficou apenas uma marquinha de lascado. Respirei fundo, lhe olhei e ele continuou sereno. É assim que se faz. E lá estava eu a fazer força no vidro quando via um carro a vir em sentido contrário. Coisa que se aprende naquela idade.
Cheguei lá e naquela rua comprida que marginalizava o oceano comecei a ver muros e o mar se escondeu por dezenas de fábricas. O barulho do mar misturado com o movimento dos trabalhadores, os camiões a carregar sacos pesados, e aquele cheiro intenso de peixe que parecia agarrar-se à roupa. Eu estava em Porto Alexandre ( hoje eu tinha de dizer que estava em Tombwa).
Já não sei se era na sexta ou oitava fábrica que era a que ele trabalhava. Parou o Jeep e lá fui eu atrás dele. Ao entrar na fábrica, vi os peixes a serem descarregados em grandes quantidades, Era assim parecia usarem aspirador e depois vinha num tapete rolante até à fábrica propriamente dita. Depois eram cozidos, prensados, secos e moídos até ficarem em pó. Cada etapa parecia mágica e, ao mesmo tempo, dura — um trabalho de paciência e força.
O calor era sufocante e o cheiro, para quem não estava habituado, quase insuportável. Mas eu não conseguia desviar os olhos: estava a aprender algo que não se ensinava na escola, a ver de perto como se transformava o peixe numa riqueza.
Saí de Porto Alexandre (do Tombwa diria agora) nesse dia com a roupa impregnada de cheiro e a cabeça cheia de histórias. Foi uma experiência que me fez perceber o valor do trabalho e a importância das indústrias que sustentam tantas famílias como países.
Nunca mais fui lá ver as fábricas, nunca mais vi farinha de peixe.
13 de setembro de 2025
A Voz da rádio
Eu tinha apenas 15 anos, mas já carregava um sonho diferente dos outros garotos. Enquanto muitos queriam ser jogadores de futebol ou músicos famosos, eu passava as tardes e noites dentro do pequeno rádio Rádio Clube da minha cidade. Edifício inacabado, três estúdios, uma sala de reuniões com um piano vertical, uma discoteca e uma secretaria. O resto era apenas fundações de uma sala de baile e se calhar gabinetes e mais estúdios. Nunca vi a planta pelo que estou a falar de cor.
Tudo começou quando pediu para ajudar o senhor Sousa Santos, o técnico mais antigo da rádio. Primeiro, só organizava discos, lia bilhetes de ouvintes e atendia ligações, ajustava publicidade e ajudava em gravações. Mas, aos poucos, fui ganhando confiança. Até que, numa noite que se calhar fazia frio, entrou no TicTac e fez uma rúbrica que era nem mais que o Senhor Fonseca, com pronuncia portuguesa do norte a criticar as coisas ruins da cidade.
A partir dali, nunca mais parei.
Eu adorava a sensação de estar ligado com pessoas que não via, mas sabia que o escutavam. Recebia cartas, bilhetes e até recados deixados na secretaria. Havia quem dissesse que a voz era calma, outros afirmavam que parecia trazer esperança e outras gostavam apenas de falar das coisas bonitas que eu dizia. Eu lia as redações que eu fazia sobre tudo e quase nada.
E tinha também ouvintes fieis que por vezes pediam músicas fosse aquilo um programa de discos pedidos. Ela sempre ligava para pedir músicas românticas. João, mesmo sem conhecê-la, sentia o coração acelerar toda vez que reconhecia sua voz do outro lado da linha.
A rádio não era apenas trabalho. Era um lugar onde os sonhos ganhavam som, onde amizades surgiam sem rosto e onde, talvez, um primeiro amor estivesse a nascer través das ondas invisíveis do ar.
Um dia o sonho acabou. A Rádio fechou e meio século depois reabriu, numa onda diferente, num estar diferente. Eu era diferente. Os ouvintes são diferentes. Já sem pronuncia, ou sem pedidos musicais, se vai informando de modo a dar conhecimentos em voz que se ouve com ouvidos de pensar.
12 de setembro de 2025
Os meus retalhos 40
Na cidade havia um médico muito diferente dos outros. Chamava-se doutor qualquer coisa que agora não me lembro, um homem já grisalho, mas com um sorriso que parecia de menino. Não usava fato nem bata, usava uma farda verde que depois passou a azul, porque dizia que o branco assustava e depressa de acastanhava o que assustava os pequenos e enchia de seriedade os adultos.
— Hoje você trouxe o seu coração pesado ou leve, a sua cara doente ou o sorriso fechado?
Alguns riam sem entender, outros se surpreendiam, mas todos acabavam se sentindo um pouco mais leves. O doutor acreditava que o riso era um remédio poderoso, e por isso fazia da consulta um pequeno espetáculo. Sempre uma palavra simples, um carinho, um trocadilho ou simplesmente um ar de quem não deve ser levado a sério.
Quando estava próximo de uma criança que ia apanhar uma injecção ele dizia:
- Vais sentir só a picadinha do mosquito… mas é mosquito brincalhão que não morde!
Os adultos também não escapavam. Para medir a tensão arterial ele dizia:
- Vamos ver se esse braço anda fofoqueiro… vou apertar pra ver se solta algum segredo. Cuidado com o que pensa que eu aqui ouço tudo.
Muitos saíam dali ainda com remédio na receita, mas com o espírito renovado, como se o corpo tivesse recebido não só cura, mas também esperança.
Alguns colegas médicos o criticavam: diziam que ele “não levava a profissão a sério”, queria era as velhinhas que lhe mimavam. Mas os doentes defendiam-no com fervor. “Doutor cuida da gente por inteiro”, diziam, “não só do corpo, mas da alma”.
Certa vez, uma senhora muito idosa lhe perguntou:
— Doutor, por que o senhor sempre brinca?
Ele sorriu e respondeu:
— Porque a doença já é bastante séria. O que posso dar, além do remédio, é um pouco de alegria. E isso não tem contraindicação.
E assim, entre gargalhadas e consultas, o doutor seguiu a sua vida até chegar o dia em que se reformou. Muitos juravam que ia voltar, não porque lá houvesse muita falta, mas porque os corações dos doentes sabiam brincar, junto com o médico que os tratava. Mas ele não voltou. Um dia alguém perguntou-lhe porquê e ele num quase silêncio respondeu:
- Tiraram os doentes e colocaram clientes.
10 de setembro de 2025
Programa 84 K'arranca às Quartas
Programa de Rádio com palavras, livros e música - 10 de Setembro, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Se calhar foi o primeiro amor
Eu tinha apenas 16 anos, mas sentia como se carregasse dentro de mim um segredo maior do que o mundo. Desde o primeiro dia em que eu a vira, na sala de aula, tudo à minha volta parecia ter mudado de cor. O barulho dos colegas, a rotina cansativa da escola e até o som da campainha do liceu pareciam perder importância quando ela estava por perto. Acho ela vinha do Colégio das Madres ou então fui eu que acordei assim naquele dia, pois nunca lhe tinha olhado na forma de ver como a passei a ver.
Não sei nem explicar. Não era apenas o sorriso que me fazia perder o ar, nem os olhos que brilhavam quando ela falava de algo que eu gostava ou assunto de interesse. Era a sensação de querer estar ali, ao lado dela, todos os dias, como se o tempo só tivesse sentido quando compartilhado com ela.
Nos corredores, inventava desculpas para cruzar o seu caminho, para ter conversa. Na cantina, preferia esperar só para ter a chance de sentar-me ao lado dela na mesa que ela escolhia. À noite, quando já deveria estar a estudar ou dormir, ficava a olhar o tecto, torcendo para que uma mensagem dela surgisse assim projectada como no cinema.
Era um amor puro, desses que nascem na adolescência, cheio de sonhos e exageros. Não pensava no futuro distante, mas sim no próximo recreio, na próxima conversa, no próximo olhar. Queria vê-la sempre, como se a vida fosse mais bonita apenas quando ela estava presente. Um dia ela disse que o pai ia comprar a casa ao lado da minha. Acho houve um terramoto dentro de mim ou simplesmente foi uma festa de fogo de artifício na minha alma, pois se o meu corpo não deu pulos de alegria eu todo saltei de contente.
Os dias deixaram de ser iguais. As notas escolares subiram até parece eu era outro. Minha mãe desconfiava eu estava a fazer batota ou a lhe enganar. Mas era a realidade. Eu tinha-me renascido naquele primeiro dia de aulas no mesmo corpo mas outro eu lá dentro.
Um dia ela mudou. Ficava mesmo ao alcance do meu olhar. Eu até que passei a ser caseiro. Masi desconfiada estava a Dona Minha Mãe. Ela perguntava a mim, no Liceu, nos amigos e ninguém sabia dizer nada. Era o maior segredo do mundo guardado em mim.
E, no fundo, eu ainda acredito que aquele sentimento, mesmo simples, foi tão verdadeiro. O tipo de amor que marca para sempre, justamente porque foi o primeiro e a memória nunca lhe vai apagar por mais poeira que lhe ponham em cima.
Pena mesmo que ficou um segredo guardado por mim até num hoje qualquer.
9 de setembro de 2025
Os meus retalhos nº 39
Não me gabando que até podia parecer mal, sempre foui considerado um bom cirurgião do hospital. Minhas mãos firmes e a calma diante da pressão eram conhecidas entre colegas e pacientes, assim como um certo mau feitio derivado da concentração e disponibilidade total para o instante cirúrgico. Durante anos, acumulou sucessos e salvou inúmeras vidas. Mas na verdade também com fracassos e com a impotência pela hora tardia a que a doença havia chegado às suas mãos.
Mas uma noite, após horas seguidas de urgência, foi chamado para uma cirurgia de emergência. O paciente tinha uma hemorragia interna grave. Entrei na sala confiante, como sempre, mas o cansaço nublava o raciocínio. Um pequeno detalhe, imperceptível, que me passou despercebido - no caminho para o bloco o paciente havia feito uma paragem cardio-respiratória. O que não me fora transmitido. Pequeno detalhe de comunicação, grande detalhe na intervenção
A cirurgia não terminou como esperava. Apesar de todos os esforços da equipe, o paciente não resistiu intra cirurgia..
Nos dias seguintes, fechei-me em silêncio. Pela primeira vez na minha carreira, senti o peso esmagador do fracasso. A pergunta não o deixava em paz: “E se eu tivesse sabido daquele detalhe a tempo?”
Mas, em vez de desistir, decidi encarar o erro. Voltei a estudar, revi protocolos, conversei com colegas, e, sobretudo, passou a ouvir com mais humildade as vozes ao seu redor. Descobriu que, embora os cirurgiões sejam treinados para buscar a perfeição, também são humanos.
Anos depois, com novos sucessos acumulados, contava essa história para os jovens internos, sempre concluindo:
— O fracasso dói. Mas, se aprenderes com ele, podes salvar muitas vidas que ainda estão por vir.
8 de setembro de 2025
nadei na Praia das Miragens
Me disseram que a Praia das Miragens engana os olhos. De longe, o deserto parece prolongar-se até ao mar, como se a areia e a água fossem um só de cores diferentes. O calor distorce o horizonte, e o azul ondula em reflexos que confundem até os mais atentos.
Numa manhã de Março, decidi mergulhar ali, tal qual tinha feito na adolescência. Tinha imaginado histórias de pescadores, de amores e de como o mar daquela praia guardava segredos antigos, e de que quem ousasse nadar sentia-se entre dois mundos: o da terra árida e o do oceano infinito, na realidade e no imaginário, no quente calor do dia e na fresca noite. Estórias, pensei.
Entrei devagar, sentindo a frescura da água a cortar o peso do sol e a chegar-me ao osso. Depois nadei na forma desconjuntada de um nadador afundador. Cada braçada parecia abrir caminho entre miragens líquidas e imateriais pensamentos. O silêncio era profundo, apenas quebrado pelo estalar distante das ondas contra as rochas que marginam a marginal. Era eu e o sonho real de nadar no meu mar de criança.
Enquanto nadava, tive a sensação de não estar só. Havia peixes a acompanhar-me, prateados como lâminas, e acima dele as gaivotas riscavam o céu, como se vigiassem o meu percurso. A certa altura, olhei para trás e não reconheci a linha da costa: a areia misturava-se com a névoa do calor, e por um instante acreditei que poderia nadar para sempre sem encontrar uma maneira de voltar para trás.
Mas o mar devolveu-me a noção de regresso. Uma onda suave empurrou-me novamente em direção à praia, e saí da água com a respiração pesada, mas com o coração leve. Sentei-me na areia quente e percebi que nadar na Praia das Miragens não era apenas atravessar um pedaço de mar, era atravessar-me a si mesmo. Era colher cada pedaço de mim passado e devolvido ao presente
E ali, diante da imensidão, aprendeu que o mar, como a vida, às vezes nos confunde com ilusões, mas sempre nos devolve à margem certa.
7 de setembro de 2025
Areia no Silêncio de uma joeira sem vento
Era uma manhã que tinha nascido sem cacimbo no Namibe, mas dessas em que o sol acorda antes de todos e espreguiça-se devagar pelas dunas sem a força do quente. O céu estava limpo, parado — nenhum sinal de vento, nenhuma folha mexia, nem uma brisa para me contar um segredo.
Eu, um menino de poucos anos, calções com suspensórios de cabedal, se calhar feitos no Estregildo ou comprados no Graça Mira, não faço a mínima ideia onde a minha mãe comprava a minha roupa, com os pés cobertos de poeira, corria tentando levantar uma joeira esquecida na casa da avó, faz tempo feita por um qualquer dos meus tios. Era velha, de lasca de cana gasta e papel fino, marcada pelas mãos de quem já lhe tinha levantado muitas vezes.
— "Vou brincar," disse, sem saber como exatamente se levanta uma joeira em dia que a brisa tirou folga..
Sentei-me na terra batida, joeira ao colo, respiração cansada da muitas corridas feitas para um lado e para outro. Tentei peneirar a areia seca com a minha mão pequena enquanto ia pensando como é que eu podia levantar aquela joeira que devia ter saudades de voar. A areia não dançava como nos dias de vento. O silêncio fazia companhia sem aquele assobio que entra no ouvido quando está de feição e até os passarinhos estavam calados.
Sacudi a joeira com força, imitando os gestos que me lembrava, mas a areia caída no papel parecia tinha cola e não se libertava.. Parei. Pensei. Peguei um punhado de pedrinhas pequenas, sementes secas, e folhas miúdas que o sol já tinha amarelado. Coloquei tudo na joeira e comecei a abaná-la devagar e parecia tinha inventado um novo instrumento musical.
Agora, a joeira cantava baixinho. Um som suave de coisas a se encontrarem no ar. As pedrinhas pulavam, as folhas giravam e eu ria sozinho, inventava vento com as minhas próprias mãos.
- “Se o vento não vem, eu viro vento,” disse, com um sorriso teimoso.
Naquela manhã sem vento, eu menino, fiz do nada um mundo. A joeira virou brinquedo, tambor, redemoinho e não pássaro que voa. E o Namibe, sempre tão silencioso, ficou cheio de barulho de imaginação.
6 de setembro de 2025
5 de setembro de 2025
O meu sol ou de quem o apanhar
O sol de Moçâmedes parecia maior do que em qualquer outro lugar quando eu era criança ou adolescente. Numa trigésima mão comprei uma bicicleta que nem travões tinha. Eu queria era passear, andar por lá só assim feito explorador sem nada a explorar. Eu pedalava sem rumo, o vento quente na cara, a estrada dissolvendo-se no horizonte como uma miragem. Cada pedalada me afastava da certeza e me aproximava do silêncio do deserto. Faz conta eu pedalava para o fim de um qualquer princípio.
As dunas, douradas e imóveis, eram como guardiãs de um segredo antigo. De vez em quando, um lagarto cruzava rápido o caminho, lembrando-me de que até na imensidão árida há vida escondida. As carochas nem fugiam que até parece nos conhecíamos faz muito tempo. O cheiro salgado do mar vinha e ia, como se o Atlântico respirasse comigo quando eu me metia na estrada da Praia Amélia.
Foi quando percebi que estava perdido, não no medo, não na vida, mas numa estranha liberdade. Não havia placas, nem vozes, nem relógio. Só o som das rodas no asfalto quente e o sol, ardente, dominando o céu inteiro.
Ali, no meio do nada, entendi que me perder era também me encontrar.
3 de setembro de 2025
Programa 83 K'arranca às Quartas
Programa de Rádio com palavras, livros e música - 3 de Setembro, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
O Velho e o Mar de Areia
Todos os dias, ao nascer do sol, ele se sentava na falésia, olhava para o horizonte. Diziam que esperava alguém.
As crianças perguntavam:
— Avô Chuinga, quem o senhor espera?
Ele sorria, mostrando dentes brancos, gastos como pedras antigas, e respondia:
— Espero o mar que me prometeu voltar e substituir esse que está ai quase a morrer de saudade.
As crianças riam, pois o mar estava ali, diante deles, a bater forte contra as pedras da marginal. Mas o velho falava de outro mar, o mar de areia, que uma vez se movera como se fosse água, engolindo casas, cabras e até um homem que jurava ser mais rápido que o vento.
Numa noite de luar cheio, o vento soprou diferente, mais grosso, mais pesado. As dunas começaram a dançar. As crianças correram para casa, assustadas. Mas Chuinga ficou, de pé, os olhos brilhantes como se visse um velho amigo.
Na manhã seguinte, apenas pegadas iam até o meio do deserto — e paravam. Ninguém mais encontrou o velho.
Alguns dizem que ele foi levado pelo mar de areia. Outros acreditam que, encontrou o que esperava.
Desde então, quando o vento sopra forte no Namibe, as crianças escutam vozes que parecem risadas antigas, misturadas ao som das dunas que se movem como ondas. O velho Chuinga não envelheceu mais no deserto mais antigo do mundo, parou porque hoje tem a mesma idade que tinha quando era o velho que olhava o mar do alto da falésia.
1 de setembro de 2025
Entre Vidro e Zinco, era assim a minha Luanda
Eu já estava em Luanda há seis meses, mas ainda não sabia ao certo como descrever a cidade. Do 12º andar do consultório, via a baía com a sua curva quase perfeita, os prédios de vidro refletindo o sol como se fossem promessa de modernidade. Mas, se baixasse os olhos um pouco mais, avistava telhados de zinco amontoados, becos sem pavimento e ruas de poeira vermelha. Era como olhar duas cidades sobrepostas, que fingiam coexistir sem se tocar.
De manhã, chegava ao trabalho de carro com motorista. No trajeto, o ar-condicionado abafava os ruídos da rua, mas não o suficiente para esconder os gritos dos cobradores dos candongueiros, nem o batuque improvisado de miúdos que pediam esmola nos semáforos. Ao parar num engarrafamento, via pela janela uma mulher equilibrando uma bacia de peixe seco na cabeça, oferecendo mercadoria sob o sol escaldante. Ao lado dela, um menino limpava os vidros de carros de luxo, talvez esperando uma nota estrangeira esquecida na carteira de algum expatriado distraído.
No almoço, comia no restaurante mais que habitual e com assinatura mensal, onde uma refeição custava o equivalente ao salário mensal de muitos. Os colegas angolanos, sempre cordiais, riam, mas também comentavam baixinho: “O patrão paga, porque aqui o preço não é para nós.” Nunca percebi se era brincadeira ou desabafo. Talvez fosse os dois. Claro, era o dono da Clínica que tinha feito o contrato. Que sabia eu de mais que isso?
Numa tarde, fui visitar um paciente que morava no musseque. Quer dizer, rodeado de musseque, blindado por muros altos e guardas à porta. Saí do carro e caminhei um pouco por ruas sem asfalto, entre casas de blocos, inacabadas, roupas penduradas em linhas improvisadas e crianças que corriam descalças atrás de uma bola de trapos. Não havia água canalizada, mas havia música — sempre música — que saía das colunas enferrujadas. O paciente recebeu-me com um sorriso largo, uma reprimenda por ter feito aquele pedaço a pé e ofereceu-me funge com molho de peixe e disse: “Aqui falta tudo, mas esta gente ainda ri.”
Naquela noite, de volta ao apartamento moderno, com gerador privado e vista para o mar, abri a janela. A brisa trazia o cheiro do sal, mas também um eco distante de vozes, gargalhadas e batuques que vinham do outro lado da cidade.
Foi então que entendi: Luanda não era uma cidade para ser compreendida; era para ser sentida. Um lugar onde luxo e carência caminhavam lado a lado, onde o brilho do vidro nunca conseguia apagar a resistência que florescia entre os telhados de zinco.

