recomeça o futuro sem esquecer o passado

24 de setembro de 2026

à conversa com o tempo

Quando eu estava noutra latitude não tinha esse de verão, outono ou primavera. Fazia calor ou cacimbava. Era simples. Mudei latitude e se complicaram as voltas e dou comigo com esse de outono ameaça a bater à porta, mas me recuso a arrumar a toalha de praia. Para mim, o final de setembro na praia não é uma simples mudança de estação, é um retiro espiritual que dura esse de outono e inverno. Me acinzento.

Agora me sento no areal praticamente deserto, ajusto os óculos de sol já ligeiramente tortos da sua idade e suspiro com uma sonoridade poética. O mar de fim de verão ganha uma transparência nostálgica, como se guardasse nos murmúrios da água o segredo de todos os dias quentes. E vêm-me à memória outros mares, outros azuis, outras gentes.

- Pá, podes parar de falar sozinho? Estás a assustar as gaivotas — resmungou alguém que me era totalmente invisível, talvez fosse só a minha consciência. E ainda disse mais:

- Vieste para aqui apanhar uma pneumonia ou quê?

Ninguém percebe a minha sensibilidade. Mantendo o olhar fixo no horizonte fico com uma serenidade mágica na praia. Quando as multidões desaparecem e o mar volta a ser apenas sopro, espuma, imensidão e marulhar com sabor a maresia.

Não a bola de Berlim, não há a gastronomia da marmita da salada fria, da geleira de esferovite, do toldo ou sombrinha a cortar o olhar. Inspiro fundo, fecho os olhos e se tivesse cultura viajava se calhar até à Grécia antiga, mas sendo assim fico-me pela minha adolescência, pelo ardor do pica-pica, pela saudade dos meus dotes atléticos, pelo meu tempo em que tinha tempo e agora vejo que ele se encurta em cada onda de sonho. Aqui consigo conversar com o tempo.


Sanzalando

Sem comentários:

Enviar um comentário