recomeça o futuro sem esquecer o passado

15 de abril de 2026

por causa nenhuma

E quando às vezes me apetece falar a sério mas o meu humor próprio não me deixa. Dizem que nunca se deve lutar com um porco na lama: ambos ficam sujos, mas o porco diverte-se. O problema é que, às vezes, a vida não nos dá o benefício da escolha. Um dia acordamos, pomos a nossa melhor roupinha ou a nossa melhor postura de adulto funcional e, sem aviso, estamos com o joelho enterrado no estrume, a tentar imobilizar uma fera de muitos quilos que não partilha do nosso sentido de decoro e educação.

Lutar com um porco na pocilga é a metáfora perfeita para as discussões estéreis, para as burocracias kafkianas ou para aqueles dias em que tudo decide desmoronar-se ao mesmo tempo. É um exercício de futilidade coreografada. No meio do caos, o mais fascinante não é a sujidade em si, mas o esforço hercúleo que fazemos para brincar de ser sério enquanto o rabo nos escorrega no lodo.

Há uma dignidade cómica no ser humano que tenta manter a compostura em situações absurdas. É o senhor que, após escorregar numa casca de banana, se levanta e sacode o casaco com um olhar fulminante, como se a gravidade tivesse cometido uma gafe social.

Nas nossas "pocilgas" quotidianas — seja um escritório em chamas ou uma crise existencial de segunda-feira — insistimos em usar o tom de voz de um diplomata da ONU. Falamos sobre "metas" e "otimização de processos". Simulamos uma profundidade que, na verdade, é apenas o pânico de quem não sabe onde pôr as mãos. Agarramo-nos às regras porque, se as largarmos, sobramos apenas nós, enlameados, diante de um porco que apenas quer chafurdar.

O porco, claro, é honesto. Ele não finge ser um unicórnio. Ele é massa, grunhido e instinto. A nossa luta com ele torna-se ridícula não porque ele seja sujo, mas porque nós tentamos lutar num terreno onde só conta o peso e a manha.

Brincar de ser sério é o nosso mecanismo de defesa. É a tentativa de aplicar lógica ao que é puramente visceral. Queremos convencer o porco (ou o destino, ou o chefe intratável) através de um memorando bem estruturado. Queremos que a lama respeite o vinco das nossas calças.

No fim, se tivermos de lutar na pocilga, talvez o segredo não seja tentar sair de lá limpo, o que é impossível, mas sim ter a coragem de largar a "seriedade" de fachada. Se a sujidade é inevitável, que pelo menos o riso seja genuíno. Afinal, não há nada mais seriamente ridículo do que um homem de fato a tentar explicar a um porco os benefícios da pontualidade.




Sanzalando

14 de abril de 2026

inércia

Assim, a modos de menino ajuizado, fui pé ante pé em frente do tribunal olhar até onde os olhos podiam chegar. Não queria acordar o susto nem interromper a inércia do sofá. Eu só queria mesmo sonhar um sonho antigo, um reviver para poder olhar o futuro e dizer-me que estou tão diferente que até parece que eu não sou mais eu.
Mas afinal quem é que sou eu? O que me veem ou o que sinto? Depende do ângulo que outros dirão do ponto, de vista é claro. E eu que acho? A modos que sim. Fui, sou e não sei o que serei. Esse sou eu. Fui criança quando era para ser criança. Fui criança quando já era adulto. Sou criança com idade de peso ou vergado no peso da idade. 
Sentado na escadaria pensei, que melhor sofá eu já tive? Acho que estive comodamente sentado na adolescência. E depois? Também!
É, vou fazer mais o quê comigo? Baralhar e dar de novo, faz conta sou jogo de azar, quem ficar com o Às de trunfo leva uma bela prenda...
Guarda o baralho, levanta-te desse repouso e vai caminhar, precisas de levar com ar nas trombas - pensei devagarinho para não me cansar.


Sanzalando

13 de abril de 2026

éramos três que às vezes eram cinco

Éramos três amigos, quase sempre inseparáveis. Quer dizer, eu era o mais separável deles, pois estava apaixonado e como tal tinha alturas que os meus olhos procuravam por ela e, se o meu corpo estava com eles, eu não estava. Era assim na minha cidade de areia. Eles tocavam viola e eu poetisava ou coisa a dar mais ou manos para isso. 

Mas na minha cidade, embora não houvesse galinhas a passear na rua, mas se as houvesses elas iriam atravessar a estrada como quem tem segredo, porque nalguma janela tem sempre alguém parece é vigia, hoje era olhar amanhã era boca que nem rádio.

Mas nós os três, às vezes quatro ou cinco, fazíamos música, contávamos estórias, revelávamos segredos, escondíamos medos, mas éramos cumplices até de coisa nenhuma. No parque infantil, na marginal ou simplesmente no recreio do liceu éramos como se fossemos um. Uns tinham coisas antigas, estórias, novelas ou simples imaginação para contar, outros inventavam músicas, copiavam sons e cantavam. Nenhum tinha escondidos sótãos nem silêncios perdidos. A nossa riqueza era só sermos francos. Éramos três que por vezes eram cinco.

Um dia separámo-nos. Coisas da vida. Reencontrámo-nos num acaso no Porto dois. Revivemos num dia uma década. Desaparecemos num até hoje. Do outro eles se viram anos a fio e eu o vi, quando o reumático já nos tinha tirado o lado prático da vida. Ambos mantinham a veia satírico-poética activa. Eram bons naquilo que faziam. Eu perdi-me noutros lugares, num trabalho apaixonante, cativante e que me subtraiu muitos momentos da vida. 

Hoje acordei a perguntar pelo Beto. Do Manel faz tempo eu sei. Hoje acordei triste. É Abril e foi o nosso melhor mês de vida. Hoje acordei-me deles. Não poetiso, mantenho-me apaixonado por muitas paixões e desejos. Mas não tenho nem o Beto aqui ao meu lado e o Manel faz tempo eu sei que me olha com o ar satírico e piada pronta desde lá do além céus e outras galáxias. 

Acordei com: isto promete. Nostálgico, triste porém feliz, sonhador e com vontade de dizer

Morena morena

dos olhos galantes

Quem te deu morena

esses diamantes.

Imagino o Beto agarrar a viola e com dois sois e um lá fazer qualquer coisa e eu lhe gravar.

Mas está silêncio. Estou nervoso com tanto silêncio. Quem ousa calar este silêncio?

Já não tenho dias iguais porque já não somos três e nem cinco que por vezes erámos.

Quantos anos tenho? Eu sei os que já gastei e não faço ideia de quantos tenho para gastar e reviver, nem que seja em palavras os tempos que nós os três, que às vezes éramos cinco, vivemos. 

Posso adormecer e reacordar sem esta nostalgia que me faz reviver?

Talvez me caia o tecto em cima, ou o vento me leve os pensamentos, ou apenas a raíz deles. Que carga de água me fez abrir hoje a caixa da memória?



Sanzalando

12 de abril de 2026

Pertinências 6 - Cinco escritores algarvios falam de literatura

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.




Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.






Imperdícel





Sanzalando

é domingo e fui ao hospital

Dizem que o domingo é o dia do descanso, mas ali no hospital, tem outra densidade. É um tempo suspenso, onde o cheiro a desinfetante tenta, sem sucesso, apagar o cheiro da dor, o receio do pior que abafa o brilho da realidade.

Fui visitar-te com o peso institucional que a ocasião exige. Preparei a minha cara de solidariedade serena, escolhi as palavras mansas e leves para além daquele silêncio respeitoso que guardamos para os lugares onde a vida se despe de artifícios.

Entrei no quarto e lá estavas tu, entre lençóis. Olhámo-nos. Tu com aquela cara de quem não sabe onde pôr as mãos por causa do cateter. 

A conversa começou com as perguntas mil vezes repetidas nas mil visitas que possam fazer. Falámos da medicação, do que disseram os médicos, do estás com boa cara (a mentira mais caridosa da língua portuguesa que esconde aquelas olheiras de quem sofre em silêncio). Até que o absurdo da situação reclamou o seu lugar.

Talvez tenha sido o barulho rítmico de uma máquina qualquer, ou a forma como tentaste alcançar o comando da televisão e acabaste a fazer uma coreografia involuntária de ballet contemporâneo. Ou talvez tenha sido aquela gelatina colorida em cima da mesa, que vibrava com uma autonomia assustadora num abanar interminável.

De repente, a barreira quebrou-se e tu sorriste. Começámos por um sorriso contido, depois um gargalhar que se calhar incomodou a vizinha do lado, e antes que pudéssemos recuperar a compostura, estávamos os dois a rir.

- Rimos da estética duvidosa das meias de compressão.

- Rimos das conversas surreais que se ouvem através das cortinas vizinhas.

- Rimos da ironia de estarmos ali, num cenário de fragilidade, a encontrar graça na falta dela.

Era um riso clandestino, daqueles que tentamos abafar com a mão na boca para não escandalizar os enfermeiros, o que só o torna mais potente. Cada tentativa de "falar a sério" resultava numa nova vaga de gargalhadas.

Saí do hospital com o sol de domingo já mais baixo, o vento forte a bater na cara e a assobiar. Percebi que a tua cura não viria apenas dos tubos e comprimidos. O riso num quarto de hospital é um acto de rebeldia. É a prova de que, enquanto houver uma anedota mal contada ou uma situação ridícula para partilhar, a doença é apenas uma hóspede passageira, e não a dona da casa.

O domingo afinal não foi de solenidade, mas de luz. Porque rir no hospital é, possivelmente, a forma mais bonita de dizer à vida que ainda estamos aqui, e que não perdemos o jeito para a alegria.



Sanzalando

10 de abril de 2026

O Mistério da Camisola Aberta e outras coisas mais

Tudo começou quando ela foi devidamente instalada no quarto do serviço de ginecologia. O figurino, como sabemos, não ajuda ninguém a manter a dignidade: aquela roupinha hospitalar que tem a estranha mania de abrir, onde as costas mudam de nome, exatamente quando alguém resolve caminhar pelo corredor. 

Lá pelas tantas, entra um interno com cara de quem não dorme desde 2024. Começa com as perguntas de praxe, mantendo rigor científico e uma estranha forma de entrar na intimidade:

- Como estamos hoje?

- Algum desconforto?

- Já funcionou o intestino?

Ela, tentando manter a classe apesar de estar deitada numa posição que lembra um frango assado prestes a ser temperado, responde com a maior naturalidade do mundo numa voz que talvez seja necessário um bom amplificador para a tornar audível. 

Para fechar com chave de ouro, eu, querendo marcar pontos numa caderneta não existente porém real, resolvi levar um lanche clandestino porque ela reclama sempre da comida, quanto mais num hospital. No meio de um contrabando de pastel de nata, entra a enfermeira com aquela cara de quem manda mais que o diretor do hospital.

Tento esconder o pastel debaixo do travesseiro dela. O resultado? O médico chegou para fazer a palpação abdominal e ouviu um "CRUNCH" tipico do folhado a ser espalmado.

- Esta crocância não é normal. Foram as costelas?

- Não, doutor... foi um folhado que acabou de explodir.

No hospital, a gente perde a privacidade, perde a vergonha, mas se perder o bom humor, a alta demora o dobro!

Como ela está a se sentir hoje? Já recuperou o "status" de dona da própria camisola ou ainda está sob a ditadura da roupa hospitalar?



Sanzalando

9 de abril de 2026

Sentei-me na sala de espera

Para uns era madrugada, para mim era só manhã cedo. Sentei - me na sala de espera, que, tal como o nome indica, é para esperar. De facto eu não esperava nada. Era programado. Entra gente, sai gente. Uns têm ar de pressa, outros esperam com ar de quem desespera e se calhar nem imagina o que esperam nem o que os desespera. É uma sala onde quem fica sabe que espera, mesmo que não saiba o quê. Os ares mudam, os gestos são mecânicos, olham para o relógio. Que importa o tempo se é tempo de espera? Eu espero, pior está ela que não espera porque ela é motivo, ela é causa, ela é tempo. Para ela o tempo não passa. Anestesiada não sente nem o tempo que passa, o tempo que eu espero. Espero? Aqui ou ali o tempo seria o mesmo. Melhor, é o mesmo. Espero também é esperança. Porque desespera? É do tempo que por vezes parece não passa? É da rapidez com que voa? É só a sala de espera que bem podia se chamar sala do tempo. Aqui sentado sinto-o, vejo-o. Noutro lugar qualquer não lhe daria importância. Espero o tempo,  todo o tempo que tiver que ser, não controlo-o. Vejo - o, admiro - o. É o tempo numa sala de espera. 

8 de abril de 2026

Programa K'arranca às Quartas 113



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 08 de Abril de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é  Rádio de hoje, paixão de adolescente

Hoje falámos de Mia Couto e do seu Livro A Cegueira do Rio

Hoje houve Esta Música tem uma história Carlos do Carmo e O Teu Poema, numa colaboração de José Leite; Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Teta Lando, cantor angolano de renome - João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de moçambicana na pessoa de José Craveirinha 
Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos o Apolo, Arthemis e as confusões de certas mentes


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado na liderança.
E ainda houve tempo para o lançamento mundial de duas novas músicas de Zé Manel Martins

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Livro - A Cegueira do Rio - Mia Couto - K'arranca às Quartas 113


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Tesourinhos Musicais 88 - Teta Lando - K'arranca às Quartas 113


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Esta Música tem uma História 54 - No teu Poema - Carlos do Carmo - K'arranca às Quartas 113


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Crónica de João Portelinha da Silva 18 - K'arranca às Quartas 113


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Crónicas de Carlos Osório 12 - K'arranca às Quartas 113


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Crónica 101 - K'arranca às Quartas 113


Sanzalando

7 de abril de 2026

baile de pré finalistas

Éramos do 6º ano e preparávamos os fundos para a viagem do ano seguinte em que íamos ser finalistas do Liceu. Organizámos um baile no Clube Náutico que às vezes era o Casino dos mais velhos. A Nota ia abrilhantar o baile. Eles eram bons apesar de serem nossos colegas e um pouco mais velhos. Tinha uma parte que eram os Mini-Nota quem ia tocar. Faz conta eram os júniores dos mais velhos.

O baile começava às nove, mas às oito já havia adolescentes em modo estátua nervosa encostados às paredes, como se fossem decoração patrocinada pela timidez. Uns eram da organização a julgar pelas ordens gritadas, outros eram só os que não perdiam um baile.

A música estava ensaiada e acho eles sabiam a ordem de tocar. A primeira música foi tão antiga que até o silêncio entrou em sinal de respeito porque o baterista se perdeu no respeito histórico e estavam todos a olhar para ele que até pararam de tocar os instrumentos de cada um. Quem dançava, assim num ápice, passou a fazer dança tribal ao som daquele toque de bateria, deve ter pensado era música nova. Mas depois tudo encarreirou e o baile continuou.

Os rapazes estavam divididos em dois grupos: os que fingiam que não queriam dançar e os que fingiam que sabiam dançar. As raparigas, por sua vez, estavam organizadas numa espécie de conselho estratégico, avaliando cada passo como se estivessem a escolher um mister. Para mim estava a ser o meu baile fúnebre. Era da organização e aquilo não me estava a correr bem. Ela não me olhava e quando me falava era em sentido de ordem. Alguém me perguntou:

- Vais convidá-la para dançar? 

- Estou a analisar a situação. - isto para não dizer que estava mais atrofiado na vergonha de andar por ali de fato e gravata do que por não saber dançar. 

No centro da sala, um casalo decidiu dançar e dar show. Cinco segundos depois, já tinha fãs. Dez segundos depois, já tinha imitadores. Quinze segundos depois, não havia lugar na pista de dança.

Entretanto, junto à mesa das bebidas, que, misteriosamente, acabavam sempre mais depressa do que a lógica previa, formava-se o núcleo duro das conversas profundas:

- Achas que ela gosta de mim?
- Não sei, mas ela conhece bem a tua história...

Isto, para adolescentes, é praticamente um pedido de casamento.

O momento alto da noite chegou com a chamada “música lenta”. De repente, o baile transformou-se num documentário sobre pinguins: todos aos pares, mas com uma distância respeitosa de meio metro, como se houvesse um campo de força invisível entre eles.

Um rapaz, com coragem emprestada por dois copos de sangria, aproximou-se:

- Queres dançar?

Ela respondeu:

- Pode ser.

E ali começou uma coreografia digna de estudo científico: mãos que não sabiam onde ficar, pés que se atropelavam, e olhares que evitavam qualquer contacto direto, como se isso pudesse provocar um curto-circuito emocional.

No final da música, separaram-se com um “ok” tímido, mas interiormente ele já estava a planear nomes para os filhos.

Quando o baile acabou, ninguém queria ir embora. Não porque estivesse assim tão bom, mas porque sair significava admitir que, afinal, aquilo foi exatamente o que todos esperavam: um caos delicioso, cheio de nervosismo, sumos misteriosos e romances que duram… pelo menos até segunda-feira.

E no dia seguinte, na escola, ninguém falou muito do baile. Mas toda a gente sabia exatamente quem dançou com quem.

Porque há coisas que não precisam de ser ditas, especialmente quando já estão espalhadas em todas as turmas.



Sanzalando

6 de abril de 2026

Chuva no deserto e outras coisas

Faz muitos anos que estava a conversar com o meu avô Serafim, na varanda a olhar para uma casa que havia para lá da dele, que por acaso é onde eu morava. A dele. A outra é outra estória que tem aniversário hoje e por isso foi aqui rasantemente abordada e não interessa nesta estória. E o meu avô me dizia:

- No deserto do Namibe, quando chove, ninguém acredita. Nem o próprio deserto. As nuvens aparecem tímidas, como quem entrou no sítio errado. Ficam ali a pairar, a cochichar entre si, mais ou menos a dialogar entre elas:

        - “Tens a certeza que é aqui?”
        - “Olha… diz aqui ‘Namibe’. Mas isto não era suposto ser seco?”

O meu avô Serafim tinha paciência que nem santo, para conversar coisas sérias comigo. E tinha aquela voz que só avô sabe ter quando quer contar uma história que não é estória, é sabedoria.

E o deserto, habituado a anos e anos de dieta de água rigorosa, olha para o céu desconfiado e diz:
        - “Vocês não vêm estragar isto, pois não?”

Mas vieram.

Primeiro cai uma gota. Uma. Solitária. Tão rara que até tem direito a aplausos. Um lagarto pára, olha, e faz um comentário existencial:
        - “Isto foi… emoção ou chuva?”

Depois caem duas, três… e de repente, como quem abre a torneira no máximo, aquilo transforma-se numa festa descontrolada. O deserto entra em pânico:
        - “Calma! Eu pedi um bocadinho, não foi um dilúvio completo!”

Aqui a voz do meu avô parecia aquela voz dos documentários antes da matiné de domingo.

E então acontece o caos, dependendo do ponto de vista: enxurradas!

A água, que não sabe bem o caminho porque nunca lá tinha passado, começa a correr à toa:
        - “É por aqui!” - grita um riacho
        - “Não, é por ali!” - grita outro
        - “Sigo o mais inclinado!” - diz um que é mais expedito

E eu notava a voz do meu avô Serafim a ficar empolgado que nem artista de teatro.

E lá vão eles se unindo de modo a formar rios improvisados, a arrastar areia, pedrinhas e a dignidade de quem dizia há cinco minutos: 

- Aqui nunca chove.

Nós, os experientes, que já vimos muitas chuvas de deserto, olhamos e dizemos com um ar muito técnico:
- Pronto… lá está o deserto a exagerar outra vez, a mandar a sua areia ocupar a cidade.

Porque no Namibe não há meio-termo. Ou está tudo seco ao ponto de se ouvir a areia a suspirar… ou chove como se o céu tivesse acumulado séculos de dívida e resolvesse pagar tudo de uma vez, com juros e dramatismo.

No fundo, o deserto do Namibe é como aquela pessoa que nunca chora… mas quando chora, inunda a sala inteira, porque chora acumulado.

E depois, passado o espetáculo, volta tudo ao normal. O sol aparece, seca a confusão e o deserto recompõe-se, ajeita a areia e diz, com ar muito digno:
        - “Isto? Foi só uma garoa.” - e amanhã até parece é um jardim de capim verde.

Depois, virou-se para mim e me perguntou:

-Gostaste da história ou estavas com atenção a outra varanda?




Sanzalando

5 de abril de 2026

Páscoa de faz tempo

Na minha adolescência, a Páscoa não era bem uma celebração religiosa, era mais um campeonato de resistência… ao chocolate e às amêndoas. Acho que não as havia lá. Mas eu achar não quer dizer eu saber mas isso pouco importa agora. O que eu sei é que hoje é Páscoa e ela faz anos amanhã. Mas eu quero é falar da Páscoa porque a Páscoa lá em casa começava com solenidade: mesa posta, toalha branca que só via a luz do dia duas vezes por ano, e uma galinha que parecia ter dado a vida não por fé, mas por teimosia, já que o cabrito era caro e só de encomenda. A minha avó fazia questão de lembrar que aquilo era tradição. Eu, com 14 anos, achava que tradição era comer até não conseguir levantar da cadeira e nisso estávamos todos de acordo.

Mas o verdadeiro drama começava depois: os ovos de chocolate.

Na adolescência, há uma lei universal quanto maior o ovo, maior o estatuto social. E eu tinha um problema grave: recebia sempre ovos simpáticos, porque simpaticamente tinham o tamanho dos ovos de perdiz. Aqueles ovos que pareciam dizer-me gostamos de ti, mas não exageremos, porque não somos de avestruz.

A Páscoa ensinou-me muito cedo que a partilha é uma ideia bonita… desde que não seja com o nosso chocolate.

Depois vinha o momento crítico que era o almoço. E aqui tentava o meu plano secreto que era comer pouco para guardar espaço para o chocolate e para o leite creme que ficava na janela da despensa a arrefecer. Um erro clássico de principiante porque a minha mãe tinha outra estratégia que era dizer-me  que só saia da mesa depois de repetir o galo ou galinha que naquela hora eu já só tinha olhos de chocolate.

Repetir. Palavra que destruiu sonhos e planos de açúcar durante anos.

Saía da mesa cheio, emocionalmente abalado, e com um ovo de chocolate a olhar para mim como quem diz: agora aguenta.

Mas adolescente não desiste. Uma ou duas horas depois, lá estava eu, em missão clandestina, a abrir o ovo com a delicadeza de um cirurgião… ou de um ladrão pouco experiente.

O problema é que chocolate faz barulho. Muito barulho. Aquele crack traiçoeiro ecoava pela casa como um anúncio público: alguém está a cometer excessos! - gritava-me a consciência

E, inevitavelmente, surgia a voz da minha mãe depois de ouvir os meus pensamentos:
— Já estás a comer chocolate outra vez?!

Outra vez? Era a primeira… naquela hora.

No fim do dia, a Páscoa deixava-me três coisas: dor de barriga; culpa leve (muito leve);  a certeza de que, para o ano, ia gerir melhor aquilo

Claro que não geria.

Porque a adolescência é isso mesmo: um período em que acreditamos que somos estrategas brilhantes… enquanto estamos de boca cheia de chocolate, escondidos atrás de uma porta, a fazer silêncio como se isso nos tornasse invisíveis.

E, no fundo, a Páscoa era perfeita assim, uma mistura de família, exagero e açúcar suficiente para alimentar memórias… e ligeiras indisposições durante anos.

Mas amanhã ela faz anos e eu vou comer chocolate... adivinho a julgar pela memória.


Sanzalando

Pertinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais - A Inteligência Artificial e a nossa

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.







Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.





Imperdícel





Sanzalando
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3 de abril de 2026

fui á praia em dia de vento

Ah, é clássico ir à praia com vento. Aquele momento em que sonho ser um atleta de surf e tudo se transforma rapidamente num documentário sobre sobrevivência no deserto. 

Tudo começa com um optimismo perigoso. O céu azul, o sol brilha e eu ignorei o facto de que as palmeiras na avenida estavam a fazer um ângulo de 45 graus para além das suas folhas imitarem um mar bravo, apenas a julgar pelo som. É só uma brisa digo eu, num pensamento em voz alta.

O primeiro desafio foi fugir de um guarda-sol que passeava solto e aos rebolões no areal. Tentei segurá-lo mas ele tinha a força de um paraquedas e até parecia queria me levar com ele. Lá consegui fechá-lo e entregar à dona que se desfez em agradecimentos que até parecia eu era o salvador da pátria, numa guerra que ela travava com o dito desde faz algum tempo, como me disse. O guarda-sol virava do avesso instantânea e insistentemente, transformando-se numa antena parabólica gigante captando sinais de satélite de Marte ou sei lá de onde soprava o vento. Ouvi, sorri e segui.

Decidi que era hora de comer uma sandes. Grande erro. No momento em que abri o papel que a embrulhava, a física deu show. O vento soprou a alface para o mar e, em troca, depositou generosamente cerca de 200 gramas de areia de quartzo refinada dentro do meu pão. 

- Não é areia - pensei, mastigando com o som de vidro partido - é textura, é o tempero da natureza a dar o seu ar crocante.

Tentar passar protetor solar pelo meu corpo mas foi a gota d'água que transbordou a minha paciência. O meu corpo parece virou adesivo e em cinco minutos, eu não era mais uma pessoa; eu era um panado humano. O cabelo virou uma escultura abstrata de nós impossíveis de desatar e as toalhas voaram como fantasmas em direção ao horizonte, forçando-me a fazer um sprint olímpico pela areia quente enquanto gritava num silencio raivoso.

Desisti quando vi outro guarda-sol navegando aos trambolhões direito a mim. Juntei as minhas coisas (e voltei para casa.

O vento não é um fenômeno meteorológico na praia. Ele é um teste de caráter. E eu fui reprovado.



Sanzalando

2 de abril de 2026

Faz conta eu vou escrever sobre mim

Falar de João Carlos Carranca é meter-me num território delicado: não porque seja difícil, mas porque há sempre o risco de já ter dito melhor e com mais graça num antigamente na vida. Mas faz de conta sou outro que vou escrever sobre mim. Uma selfie de palavras.

João Carlos Carranca tem aquela qualidade de parecer uma pessoa perfeitamente normal até abrir a boca ou escarafunchar um texto. A partir daí, tudo pode acontecer: uma observação banal transforma-se numa crónica, uma conversa de café vira reflexão filosófica, e uma simples ida à padaria pode acabar como material literário digno ou pelo menos de uma boa gargalhada entre amigos. Às vezes não. Mas é normal.

Dizem que há pessoas que escrevem. João Carlos Carranca não escreve, ele coleciona episódios da vida e depois devolve ligeiramente inclinados para o lado do humor. E é nesse ligeiramente que está o truque, não exagera ao ponto de perder a verdade, mas também não é discreto ao ponto de a deixar passar despercebida.

Há quem tenha uma memória selectiva. João Carlos Carranca tem uma memória criativa. Lembra-se das coisas como elas foram, porém de forma melhorada. Não é mentira, é edição artística e é verdade mesmo que não tenha acontecido. Se um dia caiu de bicicleta, não foi uma queda, foi um momento de interação inesperada com o asfalto, provavelmente observado por três testemunhas e um cão com opinião própria.

E depois há aquela relação peculiar com o quotidiano. Onde a maioria vê rotina, ele vê argumento. Onde os outros veem aborrecimento, ele vê potencial para qualquer coisa. É como se tivesse um radar interno que apita sempre que a realidade começa a levar-se demasiado a sério.

Mas o mais curioso é isto: João Carlos Carranca escreve com humor, sim, mas nunca é só para rir. Há sempre ali qualquer coisa que fica a vagabundear, uma pequena verdade escondida no meio da graça. A pessoa ri… e depois pensa: “espera lá, isto afinal tem mais do que parecia”.

No fundo, João Carlos Carranca é aquele tipo de cronista que nos faz desconfiar do próprio dia-a-dia. Porque, depois de o ler, já não conseguimos olhar para uma situação banal sem pensar: “isto, bem visto, dava uma crónica”.

E isso é perigoso. Muito perigoso. Porque de repente qualquer um de nós pode estar a viver sem saber dentro de um texto dele.

Foi o melhor retrato que fiz este ano de mim. Abusado. Convencido. Quem me dera ser assim.



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1 de abril de 2026

Crónica Carlos Osório (11) - K'arranca às Quartas 112


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Crónica de João Portelinha da Silva (17) - K'arranca às Quartas 112


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Esta Música tem uma História 53 - Outubro - Renato Junior e Rita Redshoes - K'arranca às Quartas 112


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Tesourinhos Musicais 87 - Carlos Portugal - K'arranca às Quartas 112


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Livro - Ariano Suassuna - K'arranca às Quartas 112


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Crónica 100 - K'arranca às Quartas 112


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Programa K'arranca às Quartas 112



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 01 de Abril de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é  Trânsito em Portimão

Hoje falámos de Ariana Suassuma

Hoje houve Esta Música tem uma história com Renato Junior e Rita Redshoes, numa colaboração de José Leite; Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Carlos Portugal - João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de moçambicana na pessoa de Noélia Sousa 
Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos o Saramago e o Ensino

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado na liderança.
E ainda houve tempo para o lançamento mundial de duas novas músicas de Zé Manel Martins

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

31 de março de 2026

O Diagnóstico Precoce

Dizem que o destino se manifesta cedo. Enquanto outras crianças usavam o conjunto de peças de montar para construir castelos, eu o usava o mecanno para inventar que até parecia eu ia ser mecânico. Eu tinha-o recebido num Natal e ele me fazia companhia nas horas mortas, antes que elas falecessem de verdade Eu não era nem super-herói nem modelo de virtude, fazia do meu faz-de-conta um sonho, ser médico. 

Crescer querendo ser médico é viver numa forma de sonho constante, temperado por uma boa dose de ironia. Afinal, a medicina é a arte de manter a calma enquanto o resto do mundo está, tecnicamente, em pânico e alguns até que acabam morrendo. E nada mantém melhor a calma do que um bom senso de humor. 

Eu sempre achei que o bom humor é uma anestesia que a natureza nos deu de graça. Imagine a cena: o paciente entra no consultório, pálido, segurando um resultado de exame que ele num momento de pura audácia já "diagnosticou" no Google como sendo uma doença rara. Felizmente naquela altura ainda não havia essas invenções que levam ao desespero, à desinformação e à depressão, só para ficar tudo dependente do D.

Neste momento, o médico tem duas escolhas:

- Ser o bastião da seriedade e explicar que o Google não tem curriculum válido ou reconhecido ou usar o humor para dizer: "Olha, a boa notícia é que, para ter essa doença, você precisaria ter nascido em 1740 e comido uma raiz específica que só cresce na Lua. Como você parece bem para quem tem 300 anos, vamos olhar para o seu físico"

Mas a jornada para lá chegar não é feita só de gargalhadas. Existiu o liceu, aquela entidade mística que exige que você saiba a fórmula química da ardósia, o poder da OPAN para mais tarde, finalmente, poder perguntar a alguém: "Onde dói?". É uma tortura que só faz sentido se você conseguir rir do absurdo de estudar física quântica para tratar uma unha encravada. Sim... eu sei que naquela altura a física era quanticamente proporcional a saia da professora.

E depois, claro, vem a lendária letra de médico. Eu que a tinha tão redondinha que até dava gosto ler, perdi-a com o passar do tempo. Agora escrevo e para além da senhora da farmácia talvez eu em dia de sol consiga decifrar. A minha lista de compras atual parece um eletrocardiograma de alguém que acabou de correr uma maratona, com espaços em branco para respirar fundo. 

No fundo, ser médico com humor é entender que o corpo humano é uma máquina fascinante, mas ocasionalmente ridícula. É saber que, entre um banco de 36 horas e um café que mais parece asfalto líquido, o que nos mantém de pé não é apenas o juramento de Hipócrates, mas a capacidade de rir de nós mesmos.

Se a vida é uma doença terminal, onde todos acabam por morrer, como dizem os poetas mais pessimistas, que pelo menos o médico seja aquele que, enquanto te examina, consegue te arrancar um sorriso. Porque a ciência cura o corpo, mas é a piada (no momento certo) que salva a alma do cansaço.


Sanzalando

30 de março de 2026

EMSAMBLE Al-Nisa - Música no Museu








Ontem a Rádio Portimão esteve em directo, das 17 às 18 horas no auditório do Museu de Portimão para dar a ouvir Ensemble Al-Nisa no Ciclo "Música nos Museus"

O ciclo de música de câmara "Música nos Museus", projeto apoiado pela Direção Geral das Artes, município de Portimão e pelo Museu do Traje de São Brás de Alportel, coloca Ensemble Al-Nisa, um duo de oboé e piano, a atuar, no dia 29 de março, às 17h00, no Museu de Portimão.
Esta iniciativa pretende proporcionar uma experiência educativa e enriquecedora ao público, sendo ainda uma oportunidade para aproximar os ouvintes deste género musical, desmistificar o repertório e criar um ambiente mais acessível.
A participação do público será estimulada, não apenas como ouvinte, mas também entendendo o contexto, as peças e o processo interpretativo dos músicos. Um duo de oboé e piano que surge da vontade de homenagear todas as grandes mulheres no mundo da música e que muitas vezes foram silenciadas.

A não perder!


Sanzalando

29 de março de 2026

Pertinências 4 - Ir a Paris sem sair do Clube União Portimonense

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS. 

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.





Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.



Desta Tertúlia nasceu este pertinências 4. Imperdícel





Sanzalando

28 de março de 2026

Brincámos e éramos felizes - mas tenho memória e sou-o

Esta não é uma estória de dunas gigantescas, caravanas de camelos ou miragens com água fresca, infelizmente. Esta é uma estória sobre a fronteira do deserto, onde o Namibe encontra a civilização ou pelo menos o muro da Junta autónima das estradas. É assim mais ou menos onde a areia não é uma paisagem romântica mas um inimigo determinado a invadir cada orifício do meu corpo se a aragem vira vento.

Conheçam a minha trupe de intrépidos exploradores: o Manel, com a sua energia inesgotável e total desrespeito pela falta de humor; o Beto, líder autoproclamado e inventor de jogos, para além de ser o dono da viola; e Ferrão, o cauteloso, cuja principal é não ter cautela com coisa nenhuma; o Mamede, preocupado com as notas que não eram de dinheiro. Claro que não vou pôr aqui nenhum nome delas porque elas não iam connosco para as areias quentes do deserto.

Era um sábado escaldante. O céu estava de um azul tão intenso que parecia pintado, e o sol batia com a força de um martelo num prego enferrujado. O local escolhido para a aventura do dia não era uma duna imponente, mas sim uma modesta acumulação de areia que se formava nos limites da cidade que para uns era grande e para outros era pequenina. 

"Muito bem,gente!", anunciou o Beto, de pé no topo do maior monte de areia (que devia ter uns impressionantes trinta centímetros de altura)

- O objetivo de hoje é conquistar o Forte Solitário e defender o nosso território contra os temíveis Invasores da Poeira!

O Manel soltou um grito de guerra, que se transformou rapidamente numa tosse ruidosa quando uma rajada de vento lhe mandou uma quantidade generosa de areia diretamente para a boca. 

- Arg! Areia! É ... saiu palavrão, que a minha caneta não sabe escrever, enquanto cuspia e limpava a cara com a manga da camisola, o que só serviu para espalhar a areia ainda mais.

Ferrão, entretanto, estava empenhado num ritual meticuloso de bater os pés um no outro para desalojar cada grão que se atrevesse a aproximar dos seus ténis que deveriam ser novos.

- A sério, malta? Areia? Podíamos estar a jogar no parque infantil. Sem areia nos sapatos.

Beto ignorou as queixas. 

- Mamede, tu e o teu exército ficam no Forte. Eu e o JC atacamos!.

O jogo começou. O Manel e o Ferrão defenderam o forte imaginário com unhas e dentes, ou melhor, com punhados e punhados de areia. A tática de ataque de Beto e meu envolvia saltos dramáticos sobre os pequenos montes de areia e gritos de guerra que pareciam mais guinchos de pânico cada vez que a areia nos entrava nos olhos.

A certa altura o Manel, no auge do seu entusiasmo defensivo, atirou um punhado de areia com tanta força que este voou muito além de nós e atingiu uma carocha inocente que passava calmamente por ali. 

A batalha foi interrompida momentaneamente pela gargalhada geral (exceto do Beto, que estava a tentar limpar o corpo daquela bola de areia).

A tarde passou num turbilhão de areia e risos. Inventámos novos jogos: "Quem Consegue Ficar Mais Sujo de Areia em Dez Segundos?" houve quem ficasse irreconhecível, "Corrida de Obstáculos com Areia nos Sapatos" (perdeu o Ferrão que não quis sujar os quedes porque deviam ser novos) e "Construção do Maior Castelo de Areia Que o Vento Não Consiga Derrubar nos Próximos Dois Minutos" (o castelo sobreviveu por uns impressionantes dez segundos antes do Manel se atirar sobre ele).

Quando o sol começou a descer no horizonte, pintando o céu de tons de laranja e rosa, a trupe de exploradores estava exausta e coberta de areia. Mas não era apenas uma camada superficial. Era areia no cabelo, areia nas orelhas, areia nas meias, areia nos bolsos.

Ao regressarem a casa, o som das suas passadas era um mistério rítmico de grãos a raspar contra o tecido e a borracha. Ao entrarem na cozinha, a minha mãe olhou para nós e suspirou.

- Bem, parece que o deserto decidiu vir visitar-nos - disse ela, com um sorriso divertido - Preparem-se para um banho tão longo que vão esquecer que cor têm os vossos corpos.

No meu caso o ralo da banheira acho ficou entupido de areia. A banheira parecia uma praia em miniatura. 

Brincar no início do deserto pode não ter sido uma aventura épica com tesouros escondidos e dunas gigantescas. Mas foi uma tarde cheia de humor, risos e uma quantidade tão impressionante de areia que nunca mais olhámos para uma simples caixa de areia da mesma maneira. Afinal, a areia não é apenas um material. É uma companheira de brincadeiras irritante, invasiva e, por vezes, muito divertida.

Hoje apetecia-me ir brincar na areia. Mas falta o Manel e o Ferrão ao que eu sei. Dos outros nunca mais soube nada. Crescemos, é só o que eu sei.

Ficou a memória



Sanzalando

27 de março de 2026

Voltaste à cidade 50 anos depois

Cinquenta anos. Cinco décadas de distância que o Filipe atravessou num SUV reluzente, armado com um GPS que insistia que ele estava no meio de um rio, quando na verdade estava apenas num caminho em mau estado que antes era o que ele pensava ser a Estrada Principal que ia dar ao centro da cidade. Mania que menino da cidade se lembra de tudo quando era criança.

Mal estacionou na praça, Filipe sentiu o peso dos anos. Ou melhor, sentiu o peso dos olhos. No banco de madeira da avernida, de baixo das velhas buganvílias , os mesmos dois velhinhos de 1975 pareciam não se ter mexido. Eram como estátuas de calcário com boina. Devia ser o velho Faria e a Maria Cachucha.

 Alguém do passeio interrompeu os pensamentos que corriam na cabeça do Filipe que ele imaginou assim:
- Olha, é o filho do Ti Manel! Que homem bem parecido que ele está agora. Veio do puto ver a gente?!"
Mas na realidade foi mais 
- Quem é aquele gajo de calças apertadas que não sabe estacionar? Deve ser da geração da utopia. 

Filipe, agora habituado a brunches com tostas de abacate e sementes de chia, foi arrastado pela primo Alberto para o almoço.
- Estás tão magrinho, Filipe! Parece que passaste a fome da guerra! Come lá este cozido, que a gordura do porco é que faz o brilho nos olhos.

O prato à frente dele tinha calorias suficientes para alimentar uma pequena nação durante o inverno rigoroso. O azeite da horta não era um condimento, era um ecossistema. À terceira garfada, as suas artérias começaram a enviar notificações de espaço insuficiente. Filipe habituara-se a outras comidas. 

A parte mais perigosa de voltar à terra 50 anos depois é a árvore genealógica. Na cidade, ninguém tem apelido, só "alcunhas" ou referências de parentesco complexas.

- Olá, boa tarde! Lembra-se de mim? Sou o Filipe, filho de tal e tal e morava ali...."

- Qual Filipe? O do fuso? O que caiu ao poço em 64? Ou o que casou com a filha do homem que vendia tremoços na feira da Senhora da Kipola?

- Não... sou o filho do... e continuou a tentar definir um passado que o tempo faz tempo varreu das ruas asfaltadas.

 - Ah! O das hortas?! Estás tão mudado... perdeste o cabelo todo, não foi? - Não me lembro! 

Filipe tentou pagar um café com um cartão xpto. O senhor Alfredo, atrás do balcão, olhou para ele como se ele tivesse uma arma biológica como se fosse uma arma biológica. Aqui é com dinheiro vivo e de preferência dólares. Senão, ficas a dever que eu te vou cobrar e com juros desde o tempo que foste embora daqui.

O Balanço Final

Filipe percebeu que, por muito que o mundo mude, a aldeia é uma cápsula do tempo. Ele pode ter aprendido três línguas e visitado vinte países, mas ali, ele será sempre "o miúdo que tinha medo dos gansos e que agora usa sapatos que parecem barcos".

Ele voltou para a cidade com três quilos a mais e a certeza absoluta de que, em 2056, o Alfredo ainda o vai estar à espera para cobrar o café.



Sanzalando

26 de março de 2026

eu joguei no totobola

Ah, os anos 70. Uma época em que o "digital" era o relógio de pulso do tio rico e a inteligência artificial era apenas o Professor Pardal na banda desenhada do Pato Donald. Para um adolescente, o Totobola não era apenas um jogo de apostas; era o o sonho semanal que prometia livrar-nos da tirania da mesada de 20 escudos.

Tudo começava à quinta-feira. Entrar numa tabacaria aos 14 anos, com o cabelo à beatle e as calças à boca-de-sino, exigia uma postura de homem de negócios. O objetivo? O boletim de papel químico bem preenchido de modo que o x não saía do quadrado.

Havia toda uma técnica para preencher aquilo. Se carregasses pouco com a esferográfica BIC, a cópia ficava invisível; se carregasses muito, furavas o papel e o Sr. Bauleth da papelaria olhava-me como se tivesse cometido um sacrilégio.

Olhando de agora para o longe do tempo eu vejo:

O adolescente médio dos anos 70 dividia-se em três escolas de pensamento:

- O Clubista Cego: Punha sempre "1" no seu clube, mesmo que jogassem contra a seleção do mundo.

O Especialista de Bancada que discutia na esplanada da Oásis que até se ouvia no Café Avenida, lia tudo e até se calhar nas estrelas das noites de insónia, analisando se o avançado do Farense tinha recuperado da gripe.

- O Caótico, aquele cujo método do fechando os olhos e deixando a caneta cair sobre o papel e a sorte jogava-se duas vezes.

O grande dilema eram os teórico que diziam que as triplas e as suas variantes, que custavam uma pipa de massa mas que a gente ficava na teoria porque na prática não havia combu para tanta teoria.

-  Pá, achas que o Barreirense empata nas Antas?

- Nem pensar, mete um 1 fixo e guarda a dupla para o dérbi!

E lá íamos nós, com o coração nas mãos, apostar o dinheiro do lanche. Se o Benfica ou o Sporting perdiam em casa, lá se ia o "13" e o jantar de domingo passava de festa a funeral.

Havia o rádio a pilhas que se gastava ao domingo. Cada mesa acho eu tinha um rádio naquela esplanada. Acho cada um tinha a esperança que cada rádio ia dar o resultado que mais convinha. Sentados, com o boletim na mão e a orelha colada ao altifalante. O som do golo era anunciado por um interminável grito até a gente parava de respirar. Quando o locutor dizia: "Golo em Alvalade!", o silêncio em casa era tão denso que se ouvia uma formiga a tossir. Se marcava a equipa escolhida eras um génio das probabilidades, se sofria o golo que estragava o teu X: O boletim era amarrotado e lançado com a força de um remate do Eusébio em direção ao lixo. Era um momento de explosão interior. 

Na segunda-feira, a realidade batia à porta. Geralmente, tinha feito 7 ou 8 pontos. O sonho de comprar uma motorizada NSU ou uma V5 ou um par de calças Levi’s genuínas ficava adiado por mais uma semana.

Mas havia sempre aquele amigo que jurava:

Pá, falhei o 13 por um golo do Beira-Mar aos 90 minutos!. Mentira, claro. Provavelmente tinha falhado metade da jornada, mas no Totobola dos anos 70, a esperança era a última a morrer.


Sanzalando

25 de março de 2026

Programa K'arranca às Quartas 111



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 25 de Março 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é  Começou a Primavera

Hoje falámos de Filomena Araújo Embaló, escritora Moçambicana

Hoje não houve Esta Música tem uma história, numa colaboração de José Leite; porque estivemos a entrevistar Jorge Carrilho que comemora 50 anos de Música. Baterista de renome que acompanhou múltiplos artistas nacionais e estrangeiros.

Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Maria Guinot

   

e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de Pauline Chizane 

Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos o Café e IA

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Crónica 99 - K'arranca às Quartas 111


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Tesourinhos Musicais 86 - Maria Guinot - K'arranca às Quartas 111


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Filomena Araújo Embaló - Autora - K'arranca às Quartas 111


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Crónica de João Portelinha da Silva 16 - K'arranca às Quartas 111


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Crónicas de Carlos Osório 10 - K'arranca às Quartas 111


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24 de março de 2026

eu fui às salinas

Me lembrei agora que ainda não tinham inventado nem a máquina fotográfica digital, nem aquele aparelhinho que faz tudo inclusive telefonar quando eu fui à salinas lá para os lados da foz do Rio Bero, que agora é até nome de vinho. Na altura a gente só se lembrava dele nestes marços em que não podia mergulhar porque o mar tinha sido invadido pelas águas dele com troncos, caniços e mais lama. Mas nessa altura me levaram às salinas e eu não tirei nem uma fotografia, porque não tinha máquina que era de rolo e isso custava muito dinheiro. Sei que era um domingo de manhã, fazia sol e eu estava já a imaginar uma cena qualquer de filme. Eu nunca tinha visto salinas e tinha imaginado uma cena romântica, pois até a vizinha tinha ido. Quer dizer, ela é que me levou. Mas as salinas não são românticas, são assim uma coisa misturada de escorregador e química.

Quando sai do carro eu fiquei assim feito palerma a olhar as montanhas de sal. Branco que os meus olhos não estavam habituados. Era branco mais branco que absoluto. Retângulos de água que reflectiam tanto a luz que os meus olhos já viam borrões roxos. Faltavam óculos de sol, penso eu agora, com muitos anos de atraso.

Entrei num dos lagos e logo fiz patinagem artística ainda antes de saber que isso existia. Escorreguei que fui de costados à água. Mas ri e todos riram. Até os patos que por ali andavam acho eu também riram e voaram gargalhando.

Ao lado eu vi um lago e gritei: "Olha que lindo, a água é rosa!" Se esqueceram de me dizer que a densidade daquilo é como o de xarope para a posse ou coisa que valha. Entrei e me arrepiei. Sensação esquisita. Mas sai a água evaporou e a minha pele ficou que até parecia papel de jornal seco depois de molhado. Eu pensei ia esfarelar-me. Se fosse agora eu ia dizer que estava pronto para ir para a brasa e ser comido no barbecue. Ardeu um ferida que eu já nem lembrava tinha. Enfim, pensei em Moisés e imaginei que tinha sido a minha purificação espiritual. 
Um dia diferente, que não foi romântico como eu tinha imaginado desde a véspera, em que o meu cabelo parecia ter sido pintado com gesso, os meus calções tinham ganho um tom branco e a alma estava esfoliada.

Mas eu fui às salinas...



Sanzalando

23 de março de 2026

andar de bicicleta

Na cidade que adotei como minha, andar de bicicleta não é um desporto… deveria ser um direito constitucional. Aqui não há subidas, não há descidas, há sequer aquela ondulação tímida que nos faz levantar do selim com dignidade e pensar que estamos a subir à Foia. É tudo plano, mesmo que às vezes inclinado. Há zonas que é tão plana que, se deixarmos cair uma moeda, ela não rola, fica a pensar na vida.

Foi com esta confiança topográfica que decidi, um belo dia, faz por esta altura uns 20 anos, tornar-me ciclista urbano. Comprei uma bicicleta que, segundo o vendedor, era “perfeita para cidade”. Eu desconfiei. Parecia-me uma categoria demasiado específica. Mas levei-a.

No primeiro passeio, senti-me invencível. Pedalava com uma elegância que faria inveja ao pelotão inteiro da Volta a Portugal, se a Volta a Portugal tivesse uma etapa chamada “Volta ao Quarteirão Sem Inclinação” e não tivesse mais que 5 km. Sem esforço, sem suor, sem drama. Até me dei ao luxo de tirar uma mão do guiador. Depois a outra. Depois quase tirei os pés, mas achei que não era altura de me candidatar ao prémio de pelo menos um dente partido.

Tudo corria lindamente até descobrir o verdadeiro inimigo do ciclista numa cidade plana: o vento e alguns pouco condutores de veículos com chapa a toda a volta e, possivelmente, com azia gástrica e diarreia mental..

Mas comecemos pelo vento… esse traidor invisível. Porque numa cidade com subidas, sabemos com o que contamos. Mas numa cidade plana, o vento decide ser montanha mais inclinada que o nosso cérebro fica tipo baralhado com um nó no pensamento e uma montanha de mau feitio.

Num instante, passei de herói do asfalto a figurante num documentário sobre resistência humana. Pedalava, pedalava… e parecia que ficava no mesmo sítio. Um senhor a passear o cão quase me ultrapassava e até  acho que o cão olhou para mim com uns olhos de pena. Tenho quase a certeza!

Tentei manter a dignidade. Inclinei o corpo para a frente, fiz cara de quem está a participar numa prova olímpica, mas na verdade estava a lutar contra uma brisa que, noutras circunstâncias, serviria apenas para refrescar uma sopa.

E depois há os semáforos. Numa cidade plana, os semáforos são o equivalente a montanhas-russas cerebrais. Verde e lá vou eu, leve como uma pena. Vermelho e lá fico, parado, a fingir que não estou a recuperar o fôlego que, teoricamente, não devia cansar.

Mas o auge foi quando descobri que, mesmo numa cidade plana, há “subidas”. Não no chão, claro. Na nossa cabeça. Aquela rua onde o vento bate sempre de frente. Aquela avenida interminável onde parece que alguém ligou a ventoinha só para nos testar a paciência.

Depois aqueles condutores apressados, com pressa de chegar a lugar nenhum. Têm complexo de bola de bowling, imagino eu. Rua estreia, um ciclista à frente e mão na buzina como que a dizer sai da frente. Abrando se isso fosse possível, encosto-me o mais possível à parede e apesar da buzinadela e do meu gesto de boa vontade sou insultado até à terceira ou quarta geração. Mais à frente vejo-o parado e a ser multado por uso indevido do claxon, perturbação da ordem pública e falta de respeito à autoridade. O ego sorriu-me e o pedal até parece ficou menos pesado de pisar.

Cheguei a casa com a sensação de ter atravessado os Alpes, as Montanhas Rochosas ou os Morros Azuis… mas no Google Maps continuava a aparecer escrito “Percurso fácil”.

Desde então, continuo a andar de bicicleta. Porque, no fundo, numa cidade plana, todos somos campeões… até o vento decidir que hoje é dia de etapa de montanha e o perigo obrigar-me a estar atento nos 360 graus que me circundam. Ah... e relembrar que gosto da minha família que às vezes eles lembram-se de me recordar.



Sanzalando

22 de março de 2026

Conversas à Mesa 5 - Florestas e Biodiversidade















Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 21 de março
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.





Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir


Sanzalando