10 de fevereiro de 2026

eu, o deserto e a cidade

O deserto não era o Saara, mas sempre me disseram que era o mais antigo do mundo e isso era o suficiente para fazer um homem esquecer o próprio nome se ficasse tempo demais sob o sol dele. O curioso é que, do topo da duna mais alta, ainda era possível ver as luzes da cidade cintilando no horizonte, como um céu estrelado na terra

Eu, sentado no capôt de um jipe que do senhor Miranda que por acaso era também Leovegildo, esperava a hora de voltar

No deserto, quando eu ia ver-lhe um pedaço, ainda não tinham inventado o GPS e nem eu tinha deixado migalhas ou pedrinhas para saber o caminho de volta. Se não fossem as luzinhas da cidade eu ia dizer que estava perdido. Eles não. Eles sabiam que era para aquele lado.  Eu no deserto era um perdido de dia e um desachado mal o sol se punha. Esqueci de nascer com sentido de orientação geográfica. O sr. Miranda já sabia a me perguntava sempre para que lado nós voltamos. Sempre errava. O Rui sabia. Era mesmo só defeito de fabrico, pensava eu.

Seguindo a constelação que se via em terra eu estava seguro. Eu sabia que o sr. Miranda jamais se ia perder. 

De repente, o silêncio foi quebrado por um som seco. Não era um motor. Era o bater de asas de um drone de entrega, pintado de preto fosco para sumir na noite que caía.

O deserto guarda segredos, mas apenas para aqueles que sabem que a cidade é apenas uma miragem que dura um pouco mais que as outras.


Sanzalando

9 de fevereiro de 2026

sentir saudade sem mágoa

Sentir saudade sem mágoa é uma forma de gratidão retroativa. É como visitar uma casa onde já moramos, as paredes podem estar descascadas agora ou até com novas pinturas, mas o que lembramos é do cheiro da comida da avó, dos risos, das estórias contadas nos serões do antigamente.
Antigamente, o tempo parecia ter outra densidade. As tardes de domingo duravam um século e o tédio era o berço da criatividade, não uma ansiedade a ser preenchida por notificações.
Lembramos do peso de um álbum de fotos, do esforço de girar o disco de um telefone ou da espera por uma carta que poderia chegar com boas ou más notícias. 
Há uma doçura em lembrar de quando não sabíamos de tudo. A ignorância sobre o resto do mundo tornava a nossa rua o universo inteiro.
A mágoa nasce do desejo impossível de voltar. Já a saudade serena nasce da aceitação de que aqueles tempos precisavam acabar para que estes pudessem existir. As memórias não são âncoras que nos prendem ao fundo, são velas que nos ajudam a navegar agora, lembrando-nos de que somos feitos de momentos bons.
É um privilégio ter um passado que valha a pena ser visitado mentalmente. Se a lembrança traz um sorriso antes de um suspiro, então a missão daquele tempo foi cumprida.
Eu brinquei, eu me magoei, eu magoei. De outro modo - eu vivi. Esse é o meu passado, vou fazer como mais com ele para além do revisitar?

Sanzalando

8 de fevereiro de 2026

O Superpoder Mais Barato do Mundo

Dizem que votar é um direito. Eu cá acho que é mais é um superpoder. Não dá para voar, não dá para ficar invisível, mas dá para mandar bitaites com selo oficial. E isso, em Portugal, é coisa séria.

O voto é aquela rara ocasião em que o cidadão comum, que normalmente só manda no comando da televisão passa a mandar, teoricamente e nem que seja por um pequeno instante, no destino da nação. Nem que seja por dois minutos, dentro de uma cabine que parece um provador de loja dos anos 80, com uma caneta presa por um fio, tal como nós estamos à vida, como se alguém fosse fugir com ela para fundar um novo partido: o Partido da Caneta Roubada.

Há quem diga: 

- Eh pá, o meu voto não conta para nada.

Pois não, mas também não conta muito não ir ao ginásio uma vez por mês, e depois queixamo-nos da barriga grande, da flacidez muscular ou da falta de vontade de fazer coisinhas. A democracia também faz barriga se ninguém a exercita. Fica mole, cansada e começa a prometer coisas que nunca cumpre.

Votar tem outro grande benefício: dá-nos o direito moral de reclamar. Quem vota pode dizer com autoridade: 

- Eu avisei. 

Quem não vota só pode dizer: 

- Eu estava ocupado a ver uma série ou está um frio do caraças.

E convenhamos: não há nada mais satisfatório do que reclamar com fundamento. É quase terapêutico. Sai mais barato do que a ida a um psicólogo e não engorda, ao contrário dos pastéis de nata.

Além disso, votar é um ótimo exercício de humildade. Entramos cheios de certezas, saímos cheios de dúvidas e, no meio, percebemos que afinal não sabemos assim tanto sobre programas eleitorais, mas sabemos muito sobre desconfiança geral. Ainda assim, escolhemos. Porque a alternativa é deixar que alguém  escolha por nós e isso é como deixar outro decidir o jantar: acabamos sempre com algo que não gostamos e ainda pagamos a conta.

No fundo, votar é como plantar uma árvore. Não dá sombra logo, mas se ninguém plantar, daqui a uns anos estamos todos ao sol, a queixar-nos do calor e a dizer:

- Isto antigamente não era assim.

Pois não. Antigamente alguém foi lá, votou, plantou e fez o trabalho chato.

Por isso, vá votar. Nem que seja só para poder dizer depois, com ar importante: 

- Eu fiz a minha parte.

Em tempos de super-heróis, é bom lembrar que o verdadeiro herói nacional não usa capa. Usa cartão de eleitor, paciência e uma caneta presa por um cordel.



Sanzalando

6 de fevereiro de 2026

O Solidário de Ocasião ou o Drama da Sopa de Letrinhas

Diz o ditado popular que "fazer o bem sem olhar a quem" é a virtude máxima. É uma frase linda, digna de moldura com flores secas, mas a verdade é que o ser humano moderno — esse bicho ansioso e cheio de boas intenções mal coordenadas , raramente consegue ser solidário sem, pelo menos, dar uma espreitadela para ver se o telemóvel está focado e tudo fica registado para memória futura.

A solidariedade, hoje em dia, começa muitas vezes com um dilema logístico. Queremos ajudar, mas o universo parece conspirar contra a nossa santidade repentina.

Tudo começa naquele momento com chuva, introspecção e em que decidimos ser pessoas melhores ou melhor pessoa no nosso intimo. Abrimos o armário e decretamos: Vou dar isto tudo aos pobrezinhos! É um momento catártico. O problema é que, no nosso delírio altruísta, achamos que a carência alheia é diretamente proporcional à nossa falta de noção.

Separamos para doação:

- Uma t-shirt de um festival de 2004 com um furo estratégico na axila ou amarelecida das lavagens.

- Umas sapatilhas a dar para o desgaste de uso e desbotado de gasto.

- Um comando de televisão que já não existe no mercado, ou aqule caixa de transformadores que já nem nos lembramos para que serviam.

Olhamos para aquele monte de tralha e sentimos um calorzinho no peito. Sou o Gandhi da Porcalhota ou simplesmente o Zé da Ria, pensamos, enquanto ignoramos que estamos apenas a transferir o nosso lixo doméstico para uma instituição que já tem t-shirts de festivais suficientes para estofar um estádio.

Depois, temos o clássico do supermercado. À entrada, recebemos o saco plástico, que transportamos como a "capa de herói" do cidadão comum. É ali que a psicologia humana se torna fascinante.

Há quem entre em pânico de performance. Olham para as prateleiras e pensam: "Se eu levar massa, sou básico. Se levar grão, sou conservador. Será que os necessitados gostam de leite de aveia com sabor a baunilha?". Acabam por comprar três quilos de quinoa biológica e um frasco de corações de alcachofra, porque "toda a gente merece um mimo gourmet".

Do outro lado, temos o solidário estratégico, que passa o tempo todo a espreitar o carrinho do vizinho. Se o senhor ao lado leva dez pacotes de arroz, ele sente-se na obrigação moral de levar doze. É a única competição desportiva onde o prémio é uma palmadinha nas costas dada por um escuteiro de 12 anos.

Não podemos esquecer a solidariedade das redes sociais. É aquela partilha de um vídeo emocionante acompanhada pela legenda: "O mundo precisa de mais disto. Partilhem!".

É a forma mais eficiente de ser bondoso: não custa dinheiro, não suja as mãos e ainda nos dá aquele brilho de "pessoa consciente" nos algoritmos. Se o mundo fosse salvo por partilhas de Facebook, já estaríamos todos a viver num jardim do paraíso com Wi-Fi gratuito e unicórnios a distribuir sumos naturais e outras mordomias.

A verdade é que a solidariedade real é muito menos charmosa. É aquele vizinho que ajuda a senhora do terceiro andar a carregar as compras sem ninguém estar a filmar. É a pessoa que faz um donativo mensal por débito direto e se esquece que o faz. É, no fundo, perceber que o outro não é um depósito para a nossa consciência pesada, mas alguém que, às vezes, só precisa que não o ignoremos no elevador.

Ser solidário é um desporto radical de humildade. E se, pelo caminho, conseguirmos não dar aquele pijama de flanela com buracos, já estamos no caminho certo para a canonização.


Sanzalando

5 de fevereiro de 2026

A guerra contra os Donos da Razão

Há pessoas que não têm opinião. Têm sentença. Não dizem “acho que…”. Dizem “é assim.” Ponto final. Se discordarmos, é porque ainda não percebemos. Se insistirmos, é porque somos teimosos. Se tivermos razão, foi sorte.

Estas pessoas são conhecidas como Donos da Razão. Andam por aí como se tivessem um certificado invisível pendurado ao pescoço: “Atenção: estou sempre certo desde 1999.”

Tentar discutir com um Dono da Razão é como jogar xadrez com um pombo. O pombo derruba as peças, faz cocó no tabuleiro e no fim sai a andar como se tivesse ganho.

Nós até começamos com boas intenções:
- Olha, acho que isso não é bem assim…
E o Dono da Razão responde:
- É sim. Eu sei.

Pronto. Acabou. Nem vale a pena ligar o cérebro. Aquilo já vem com resposta automática. É tipo assistente virtual, mas com menos atualizações e mais convicção.

O problema é que eles existem em todo o lado: no trabalho, na família, no grupo do WhatsApp e até na fila do pão. Há sempre alguém que explica ao padeiro como se faz pão. Ao padeiro! Um homem que faz pão desde antes de nós sabermos dizer “carcaça”, já ele chamava papo-seco de olhos fechados.

A nossa luta diária é tentar manter a sanidade. Usamos frases de sobrevivência como:
— Pois, tens razão… (mesmo quando não têm)
— Ah, interessante… (não é)
— Não sabia! (sabíamos, mas desistimos)

Com o tempo, aprendemos uma grande lição: não se vence um Dono da Razão. No máximo, empata-se. E o empate consiste em sorrir, mudar de assunto e pensar: “Pronto, hoje já alimentei o ego de alguém.”

Porque, no fundo, lutar contra quem tem sempre a mania que está certo é como discutir com o GPS quando já estamos perdidos. Ele recalcula, nós suspiramos, e a vida continua.

E talvez a verdadeira vitória seja esta: não ganhar a discussão… mas chegar ao fim do dia com paciência suficiente para não nos tornarmos também Donos da Razão.



Sanzalando

4 de fevereiro de 2026

Programa K'arranca às Quartas 104



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 04 de Fevereiro 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - Qualidade de vida
Hoje falei de livros que para lá de papel também cheiram a pólvora, como Mayombe de Pepetela ou Combater Duas Vezes de margarida Paredes
Esta Música tem uma história trouxe Jorge Palma e A gente vai continuar, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje Conjunto Os Kriptons, uma banda de Angola Colonial
Poema Palavras de manuel Alegre na voz de Mário Viegas
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de um poeta brasileiro Osmar Casagrande
Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de Luanda que hoje abordou as fotografias do antigamente e as de agora
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Tesourinhos Musicais 79 - Os Kriptons - K'arranca às Quartas 104


Sanzalando

Livro - Cheiro a Papel e Pólvora - K'arranca às Quartas 104


Sanzalando

Esta Musica tem uma História 46 - Jorge Palma - A Gente vai Continuar - K'arranca às Quartas 105


Sanzalando

Crónica de João Porleinha da Silva (10) - K'arranca às Quartas 104


Sanzalando

Crónica de Carlos Osório (3) - K'arranca às Quartas 104


Sanzalando

Crónica 92 - K'arranca às Quartas 104


Sanzalando

O General, o Peru e a Frequência de Rádio

Num lugar, entre o Bié e o Huambo, em 1982, o Cabo Pé-de-Vento tinha uma missão bem mais importante que qualquer estratégia militar: ele precisava escoltar o General Mutamba e, mais importante, o próprio almoço do General.

O almoço era um peru gordo e mal-encarado que todos chamavam de Marechal. O problema? O Marechal não queria ser canja e devido à sua violência e intransigência passou de alimento a animal de estimação.

No meio de uma picada o jipe do Pé-de-Vento deu um estoirado barulho e parou. Do outro lado da mata, surgiu um grupo dos rebeldes inimigos. O silêncio foi total. Armas apontadas, suor escorre mesmo se não está calor... até que o peru, nervoso e, se calhar a estranhar tanto sossego e falta de pulos, soltou um GLU-GLU-GLU tão alto que parecia uma rajada de metralhadora.

O rádio de um dos soldados inimigos chiou:

-Aqui Posto Delta, qual é a situação? Câmbio.

Pé-de-Vento, que era mais esperto que a fome, gritou antes que alguém atirasse: 

Não atira, manos! Estamos a testar uma nova arma biológica soviética! É o emissor de ondas subsônicas disfarçado de ave!

O sargento do outro lado, um homem chamado Zeca Curioso, baixou a arma, confuso: 

- Arma biológica? Esse bicho aí que faz barulho de pneu furado?

- Exatamente! — mentiu Pé-de-Vento, ganhando confiança. - Se ele cantar três vezes seguidas, a frequência do rádio de vocês entra em curto-circuito e explode a bateria na vossa cara. É tecnologia de ponta, diretamente de Moscovo! - suando em bica até parecia ter mergulhado no rio.

Nesse momento, o peru, que parecia ter entendido o plano, deu mais dois GLU-GLU furiosos e tentou bicar a bota do Zeca Curioso.

Os soldados inimigos deram um salto para trás. Zeca, suando frio, gritou: 

- Pah! Levem esse bicho daqui! Não queremos problemas com a tecnologia! Mas... vocês têm tabaco?

Pé-de-Vento sorriu. No final, a guerra daquela tarde foi resolvida na base da troca:

  • Pelo lado do Pé-de-Vento: Dois maços de cigarro e a promessa de não ligar a "arma biológica".

  • Pelo lado do Zeca: Ajudar a empurrar o jipe para pegar.

Dizem que o General Mutamba nunca entendeu porque o seu peru de estimação voltou para Luanda com uma fita vermelha no pescoço e status de herói nacional. E o Cabo Pé-de-Vento? Bom, ele sempre dizia que em Angola, quem tem um peru e uma boa conversa, não precisa de blindado.



Sanzalando

3 de fevereiro de 2026

eu, a memória e os nonkakus

Houve um tempo em que o mundo cabia num par de calções gastos ou já rotos e nuns pés calçados com sandálias de pneu, que na minha terra jurei chamar nonkakus. Não eram sandálias: eram armaduras. Feitas de borracha rija de pneu gasto, cheiravam a estrada e a oficina, e tinham fivelas que rangiam como se protestassem contra cada passo. Mas aguentavam tudo: espinhos, pedras, poças de água barrenta e até a queimadura do chão quente ao meio-dia.

Os calções eram curtos por necessidade e por liberdade. Curto era sinónimo de correr mais depressa. As pernas, sempre riscadas de arranhões, eram como mapas de batalhas: aqui uma queda de bicicleta, ali uma pedrada mal calculada, mais acima o arranhão dum espinho de uma silva vingativa. Cada marca tinha uma história, e todas davam direito a exagero.

Saía de casa depois do pequeno-almoço e só regressava quando o sol começava a corar o céu, com a promessa sagrada: “Já vou, mãe!”, que queria dizer “daqui a uma hora… talvez”. As sandálias de pneu batiam no chão, chap-chap como um tambor de guerra anunciando mais uma aventura: ir ao rio, jogar à bola com uma meia enrolada, subir à figueira do senhor  Martins (sempre às escondidas) ou espreitar o quintal onde diziam que havia uma cobra, que afinal era sempre um lagarto muito ofendido.

No verão, os pés ganhavam uma cor própria, uma espécie de preto-oficina, mistura de pó, suor e sol. E mesmo assim, ninguém se queixava. Porque aqueles pés sabiam o caminho para todo o lado: para a mercearia onde havia rebuçados e podia comprar fiado, para o campo de futebol improvisado, para o sítio secreto onde se guardavam berlindes e segredos. Todo o lado era o meu lado, desde que não saísse da cidade do alcatrão. Eu era menino do mato, mas só na cidade do alcatrão. Para lá dele eu era um perdido medricas de me perder e não encontrar o caminho de volta.

Hoje, quando calço sapatos sérios, desses que prometem postura e respeitabilidade, às vezes sinto a falta do barulho seco das sandálias de pneu e da leveza dos calções. Não era só roupa: era uma maneira de estar no mundo. Com os joelhos ao vento e o coração sem relógio.

E, no fundo, ainda ando por aí assim — só que agora as sandálias são invisíveis, e os calções ficaram guardados numa gaveta chamada memória, que cheira vagamente a borracha quente e a tardes sem pressa.



Sanzalando

2 de fevereiro de 2026

sonho sem realidade

Eu tinha para aí quinze anos e um coração com mais botões do que a camisa da farda de gala de um tropa. Cada botão era um segredo e quase todos tinham o nome dela. Bastava ela passar na frente da minha casa ou vê-la no corredor do Liceu para o ar ficar mais fino, mais assim como se alguém tivesse aberto uma janela invisível para o mar, mesmo ali, longe da praia, eu sentia cheiro a sal.

Ensaiava frases ao espelho:
“Gosto de ti.” “Queres ir dar uma volta?” “Sabes que és bonita?”

Mas na hora, a língua ficava de férias e só sobrava um “olá” torto, meio engasgado, que ela respondia com simpatia, aquela simpatia que não promete nada, mas também não magoa. E isso era o pior: não doía o suficiente para desistir, nem alegrava o bastante para sonhar.

À noite, deitado, eu inventava filmes na cabeça. Nuns, ela sorria só para mim. Noutros, ela dizia “somos só amigos”, com uma voz tão suave que parecia um pedido de desculpas. Bolas, acordava sempre antes do final. O raio da realidade tem menos imaginação que um sonho.

Ser adolescente apaixonado e não correspondido é isso. É ter um coração a fazer barulho dentro do peito, como um conjunto rock a ensaiar numa garagem, enquanto o mundo lá fora passa, distraído, sem bilhete nem interesse para o concerto.


Sanzalando

1 de fevereiro de 2026

deve ter sido grito de bruxa

Eu tinha um cronômetro no coração que ainda era de corda e que tinha sido do meu pai. Para mim tudo com a filha do senhor Júlio era ontem, mesmo que o cronómetro me dissesse que era agora. Tantas vezes tinha planeado a ida ao cinema, decorado aquele poema romântico escrito a olhar para a varanda dela, as calças à boca de sino engomadas pela avó. Ela era o meu porto seguro, ela era a amiga para a vida em conjunto, deste aquele ontem até um futuro imprevisível. Mas nunca o plano era executado, nunca o poema foi dito, nunca as calças foram por ela elogiadas, apesar de vários filmes vistos.

Certa tarde, no lancil do passeio onde brincavamos ao fim de todas as tardes, decidi que o silêncio estava barulhento demais. 

- Não faz sentido a gente não ser a gente de verdade, nos gostamos mas nunca nos falamos de nós - disse aquilo como poia ter dito que os camiões voavam, suava, tremia e sentia um medo de me ouvir que não tem como explicar como é que aquelas palavras saíram.

Ela fechou os olhos. Na sua voz calma, serena que eu ouvi como estivesse a levar com uma bola de canhão no peito me disse:

- És é a melhor parte do meu dia. Mas eu não quero namorar. Nem contigo nem com ninguém. Seremos amigos sempre se não me falares mais sobre isto. 

O mundo acabou naquele instante depois de uma pancada enorme no orgulho, na estima e na coragem. Naquele instante aprendi que o sentimento sentido por cada um não tem a mesma intensidade nas pessoas à volta.

Balbuciei qualquer coisa que nem eu sei o quê enquanto tentava pensar.

Tinha duas escolhas: ficar implorando e transformar aquela amizade num campo de batalha ou aceitar que o não dela era sobre o momento dela, e não sobre o meu valor.

Escolhi respirar. Arquivei todos os planos mentais e decidi que, se não podia ser o namorado, ainda queria ser quem a fazia rir. Só que, sem esperar nada em troca. 

Um dia, muitos anos depois, lhe falei novamente do assunto arquivado num lancil de passeio. Estava na Universidade, barba por fazer, cabelo despenteado, ar martelado num revolucionário modo de querer ver o mundo.

Me olhou, já não serena, já sem a calma de tantos anos atrás.

- Desaparece! gritou

E até hoje eu ainda não apareci. Deve ter sido grito de bruxa.

Sanzalando

31 de janeiro de 2026

O plano Infalível (ou nem por isso)

Na minha cidade tinha uma paróquia, e nessa paróquia entre jovens e padre abriu-se uma discoteca, assim um lugar para ouvir música, conversar sério, viver seriamente a adolescência. Tinha banquinhos, mesinhas mas não tinha bebidas alcoólicas nem nada parecido. Era mesmo conviver na paróquia. Eu, além de pôr discos também tinha outros horizontes, mais de 20% dos que eram mostráveis, assim numas contas por baixo. Eu já lá tinha visto, vou só chamar de Clara, porque é claro que nunca iria dizer aqui o nome dela. Ela também era minha colega no liceu. Outro contexto, outras visões, a mesma pessoa. Tentei ali abordá-la com uma observação profunda sobre literatura moderna. Ela simplesmente ignorou. Recuei dois passos, voltei-me para ela e disparei que Kafka não era apreciado naqueles ambientes. Olhou-me, assim como quem estava prestes a estrangular o meu fino e bem desenhado pescoço. 

- Nem aqui me deixas em paz?!

- Este silêncio que se fez mete medo. Nem os Lusíadas metem tanto.

Ela tossiu, olhou-me de alto a baixo, a cara tão séria quase me fez recuar em fuga corrida, pelo que tropecei num banquinho, esparramei-me no chão que até parecia marcador de livro de tão direitinho eu estava.

Os 20% que eu tinha de expectativa se diluíram num orgulho ferido, numa nódoa negra na perna e um hematoma na região occipital.

Aquele dia foi o meu declínio literário, nem Kafka nem Camões me valeram.


Sanzalando

30 de janeiro de 2026

uma casa para embalar

Era uma vez, numa casa virada para o mar, um relógio antigo que fazia “tic-tac” como se estivesse a embalar as ondas. Cada tic era uma concha, cada tac era um passarinho a pousar no telhado da casa.

Nessa casa vivia a eu e a Dona Aurora, que todas as noites abria a janela para deixar entrar o cheiro a sal e a promessa de sonhos bons. Sentava-se numa cadeira de baloiço, velha e com chiar de cansaço e começava a contar histórias ao candeeiro, porque acreditava que a luz também precisava de ouvir para dormir.

- Dorme, luzinha, que amanhã há sol para ti - e apagava-a.

O candeeiro até me parecia se apagava devagar, como que a bocejar preguiçosamente. Lá fora, o vento passava devagarinho, pé ante pé, para não acordar ninguém e não sacudir as cortinas não me fosse assustar com fantasmas ou desavindos corpos invisíveis.

E assim, entre o tic-tac do relógio, o baloiço da cadeira e a ladainha com que rezava D. Aurora, a casa inteira adormecia como um barco bem ancorado: a flutuar suavemente, segura, embalada por histórias que não acabam - só continuam nos sonhos de quem sonha.


Sanzalando

29 de janeiro de 2026

às vezes o mundo faz intervalo para eu ver e guardar

Na minha cidade não sei se chovia 48 horas por ano. Não tenho memória meteorológica. Mas não devo estar longe disso. Mas naquela tarde o céu não avisou. Simplesmente mudou de um azul celeste para um cinzento feito chumbo em questão de um cagagésimo de tempo, como se alguém tivesse corrido uma cortina pesada sobre a cidade. Na esplanada, o calor que antes fazia a roupa colar na pele deu lugar a um sopro de vento súbito, carregando o cheiro metálico da água vindo de longe e desabar ali, feito parecia um castigo divino ou só um cano grande que furou.

Quando a primeira gota bateu na mesa metálica, o mundo acelerou para todos, menos para mim. Esvaziou-se a esplanada e do outro lado da rua a rotina tropical desmoronava em comédia de corrida como na dança das cadeiras, mas aqui era à procura de um abrigo. Todos punham a mão na cabeça faz conta ela protegia da chuva bater na carola, outros seguravam a carteira parecia eram feitas de papel e precisam ser protegidas. Eu continuei sentado a ver porque às vezes é preciso parar para ver. O trânsito, sempre impaciente, paralisou sob o peso da água que agora caía como se tivessem a virar baldes. Eu pacientemente via, sentado na esplanada, o toldo pouco protegia, mas eu saboreava por estar a ver um teatro temporal.

A chuva tropical tem uma particularidade: ela é barulhenta, mas traz silêncio. Ali, com os pés cruzados e o olhar perdido nas poças e rios que se formavam no asfalto, o tempo deixou de ser medido por horas e passou a ser medido por intensidade.

Já não tinha a chávena de café à minha frente, tinha um pequeno vasilhame com água a transbordar. O asfalto ao receber as primeiras gotas deitou fumo e pareia que o calor da tarde subia rumo ao céu. Eu não tinha prazos nem nada para fazer. Só tinha o tempo perdidamente visual. Ria por dentro e mostrava espanto por fora. Todos os beirais de porta tinha um habitante, molhado para não dizer encharcado. 

Tão rápido quanto começou, a força diminuiu e desapareceu. O céu começou a abrir buracos de luz azul enquanto as poucas nuvens iam fugindo em direcção a leste e o brilho do sol refletido no asfalto molhado quase cegava. O mundo voltava a girar, mas eu parei a memória até hoje, quando vi que aqui chovia e que não era igual à chuva da minha cidade


Sanzalando

o Meu deserto tinha uma carocha

O meu deserto é grande e eu só lhe conheço um pedacinho tão pequeno que faz de conta é uma mão de areia. Até onde lhe conheço as dunas pareciam ondas congeladas e o sol pintava-as assim dum amarelo torrado e o céu, ao fim da tarde, era pintado com tons de laranja que até parecia fogo. Nesse deserto vivia uma carocha. Ele não era uma carocha comum, tinha coração que parecia de homem aventureiro e olhos curiosos que ansiavam por ver o mundo além da sua duna.

Um dia, enquanto a carocha explorava perto de um pedacito de capim seco, ouviu um som estranho, parecia alguém estava num choramingar suave. Rastejando com cuidado, ela descobriu um pequeno animal, eu aqui diria que era tipo de raposa do deserto com orelhas enormes, preso sob uma pedra, mas eu não conheço os outros animais. Mas a verdade é que o bicho estava assustado e com a patinha presa.

A carocha apesar de assustada, sentiu uma pontada de pena. Ela usou toda a sua força para empurrar a pedra, e com um esforço o bicho ia ficar livre.

- Oh, muito obrigado! - disse o animal que se tinha perdido com certeza. 

A carocha respondeu-lhe

- Conheço bem este deserto. Posso ajudar-te a encontrar o caminho.

A carocha corria com toda a velocidade que podia, o animal que eu diria era raposa do deserto, andava devagar. 

- Sabes, bicho, o meu mundo termina aqui. Não conheço mais.

- Muito obrigado! Deste-me uma grande ajuda. Vou usar o meu faro e encontrarei companhia. Não corras no regresso porque pode faltar-te a força.

A carocha, de peito cheio, regressou para a sua duna e pensou que o mundo era grande de mais para ela conhecer num só dia.


Sanzalando

28 de janeiro de 2026

Esta Música tem uma História 45 - Nara Leão - Com açucar, com afecto - K'arranca às Quartas 103


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (9) - K'arranca às Quartas 103


Sanzalando

As Crónicas de Carlos Osório (2) - K'arranca às Quartas 103


Sanzalando

Autor - Luis Cardoso - K'arranca às Quartas 103


Sanzalando

Crónica 91 - K'arranca às Quartas 103


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 78 - Conjunto Maria Albertina - K«'arranca às Quartas 103


Sanzalando

Programa 103 K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 28 de Janeiro de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr que intitulei Ir ver o Vento
Falei de Luis Cardoso, escritor maior de Timor-Leste
Esta Música tem uma história trouxe Nara Leão e Com Açúcar, com Amor, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje Conjunto Maria Albertina
Poema de Sá de Miranda
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de música angolana no feminino
Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de Luanda que hoje abordou os meninos e a internet
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

27 de janeiro de 2026

estória de embalar

Sentado na borda da cama, eu, o pai, depois de ajeitar a manta do meu filho, comecei a inventar e sorrindo fui dizendo, que o meu campeão hoje não ia ter uma estória de dragões nem naves espaciais. Vou-te contar a história do Grão de Areia que Queria Ver o Mundo.

Era uma vez um grão de areia chamado a quem chamavam Grãozito. Ele vivia na minha praia que era enorme, cercado por milhões de outros grãos que pareciam exatamente com ele, com cores de muitos tons. Ele não sabia como tinha chegado à minha praia nem há quanto tempo ali estava porque ele não sabia o que era isso de tempo. Mas enquanto os outros grãos só queriam saber de tirar uma soneca ao sol e não ser levado por ondas de volta às profundezas do mar, Grãozito passava o dia a olhar para o horizonte, com medo de o perder.

Ele tinha uma curiosidade que era ao mesmo tempo um sonho: queria saber onde o mar terminava e gostava de lá ir.

Um dia, um dia de calema furiosa, uma onda bem gigante e espumante chegou à beira da areia e perguntou: 

- Ei, pequeno, queres dar um passeio pelo mundo?

Grãozito não pensou duas vezes. Ele agarrou a espuma e foi na onda.

Grãozito viajou dias que, segundo a memória dele, foi instantes. Ele viu coisas que nunca imaginou, desde peixes coloridos que pareciam lanternas acesas sob a água, tartarugas marinhas que contavam histórias de corais distantes, Baleias que cantavam músicas que faziam o corpo minúsculo de Grãozito vibrar, ele viu a esfera do pelourinho a rolar em fundos marinhos, viu restos de plástico que boiavam na bolina do vento ou ao sabor da corrente.

Ele percebeu que, embora fosse minúsculo, o mundo era gigantesco e cheio de mistérios. Mas, depois de um tempo, Grãozito começou a sentir saudades. Ele sentia falta do calor constante da sua praia e dos grãos de areia que se preguiçavam ao sol.

A mesma corrente que o levou, trouxe-o de volta. Quando ele finalmente se deitou na minha praia, na areia quente, os seus amigos perguntaram: 

- E aí, Grãozito? O mundo é perigoso? Tiveste medo?

Grãozito olhou para o céu e respondeu:

- O mundo é enorme e eu sou bem pequenino. Mas aprendi que, mesmo sendo pequeno, eu faço parte de algo gigante. E o melhor de viajar é ter uma casa quentinha para onde voltar e contar a história.

Eu, o pai dei um beijo na testa do meu filho e sussurrei: 

-  Assim como o Grãozito, tu és pequeno agora, mas o mundo está à tua espera. Mas, por hoje, a tua missão é apenas sonhar. Dorme filho!


Sanzalando

25 de janeiro de 2026

Conversas à Mesa 3c - Cultura e Identidade


Sanzalando

Conversas à mesa 3 - Cultura e Identidade





Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 24 de Janeiro
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.





Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir


Sanzalando

23 de janeiro de 2026

o livro inexistente

Eu tinha escrito um livro que considerava puramente angolano - A Poeira que Aprendeu a Falar. Não se vendeu nem um, mas era para mim como um best-sellers musculado das montras. Mas ele que tinha vontade própria preferia ficar encostado numa prateleira alta, a observar o mundo com a paciência de quem já viu muita coisa, guerras, silêncios, mangas maduras e promessas feitas à sombra de um imbondeiro.
O livro nascera em Luanda, numa tipografia cujas máquinas rangiam como se estivessem sempre a contar segredos. As páginas cheiravam a papel, sal, trânsito e pó, e se por acaso alguém o abria ouvia-se quase um “eh pá” discreto, como quem diz: senta-te, vamos conversar com calma.
A história lá dentro seguia Mateus, um rapaz que falava com a poeira vermelha das estradas. Não por maluquice — em Angola a poeira sabe muita coisa. A poeira lembrava-lhe que a terra tem memória, que cada passo deixa rasto, e que até os silêncios sabem cantar semba baixinho.
Havia capítulos que pareciam mornos como o fim da tarde, outros rápidos como uma zungueira a desviar-se do caos. As palavras misturavam português com kimbundu sem pedir licença, porque ali ninguém precisava de autorização para ser inteiro.
Certo dia, o livro foi parar a Portugal, numa mala apertada entre camisas cuecas e saudades. Quando alguém o abriu, numa noite fria, o livro estremeceu. Não de medo, de alegria. As páginas aqueceram a sala, a poeira vermelha espalhou-se pela imaginação do leitor, e Luanda entrou ali sem bater à porta.
No fim, o leitor fechou o livro devagar, como quem se despede de um velho amigo. E o livro, satisfeito, pensou:
— Pronto. Cumpri. Cruzei o mar outra vez.
E ficou à espera do próximo par de mãos.
Esse livro foi o único que teve saída, no dia que ofereci à minha mãe 

22 de janeiro de 2026

uma biblioteca à lusofonia

Na minha imaginação eu criei a Biblioteca Universal da Língua Portuguesa, que fica exatamente entre Ficção e o Isso Depois Eu Leio, os livros da lusofonia aguardavam ansiosos pelo Dia Internacional de ser lido, data em que finalmente eu os tiraria da prateleira e os levasse para algum sítio onde pudessem ser lidos.

Um livro português muito elegante, A Relíquia de Eça de Queirós, alisava a lombada e dizia:
- Espero um leitor atento, com tempo, chá quente e alguma capacidade de ironia.

Um calhamaço brasileiro, Brasil dos Espertos de Ariano Suassuna respondeu, todo retorcido de palavras e muito humor:

- Leitor bom é aquele que topa tropeçar nas frases e ainda agradece pela queda.

Do outro lado, um livro cabo-verdiano, Batuku de Cabo Verde de Glaucia Nogueira, , fino mas orgulhoso, comentou:

- Eu aceito qualquer leitor. Até os que leem na praia e me enchem de areia existencial.

Um poema moçambicano de Paulina Chiziane suspirou:
- O importante é que leiam com respeito. Minhas histórias já sofreram demais para virar marcador de página.

Um volume de Fernando Pessoa, que na verdade eram quatro livros fingindo ser um só, começou a discutir consigo mesmo:
- Este leitor não vai me entender.
- Claro que vai.
- Não vai, não.
- Ainda bem.

O livro Tudo Sobre Deus de José Eduardo Agualusa acrescentou:
— No fundo, somos todos histórias à procura de alguém que nos sonhe acordado.

Fui interrompido por um jovem, enquanto eu delineava esta novela imaginada, olhou-me de cima a baixo, coçou a cabeça e disse:
- Gostava de um dia ler um livro em português, imaginado e escrito… mas não muito difíceis de ler.

Silêncio absoluto. Até que um livrinho Os Olhos Grandes da Menina Pequena de Ondjaki, esquecido num canto da minha memória, gritou:
- Eu! Eu!

Institivamente virei-me para ele e disse:

- Os Olhos Grandes da menina Pequena

Os outros livros, dentro da minha cabeça riram, o que, em termos técnicos, provocou um leve arrepiar no meu corpo. O jovem deixou-me e levou com ele o livro infantil debaixo do braço.

Os grandes clássicos ficaram ali, meio frustrados, meio aliviados.
- Pelo menos - disse Eça - hoje ninguém pulou os parágrafos longos - olhando para Saramago
- Nem sublinhou com caneta fluorescente — completou Rosa Lobato Faria.

E assim a biblioteca voltou ao seu estado natural: livros à espera, palavras cochichando e a lusofonia inteira concordando numa coisa rara — ler é sério, mas os livros adoram rir quando podem.



Sanzalando

21 de janeiro de 2026

Tesourinhos Musicais 77 - Paulo de Carvalho e Chico Buarque - K'arranca às Quartas 102


Sanzlando

LIVRO - Nando - Zé da Fisga - K'arranca às Quartas 102


Sanzalando

Esta Música tem uma História 44 - Gal Costa - Índia - K'arranca às Quartas 102


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (1) - K'arranca às Quartas 102


Sanzlando

Crónica de João Portelinha da Silva (8) - K'arranca às Quartas 102


Sanzalando

Crónica 90 - K'arranca às Quartas 102


Sanzalando

Programa 102 K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 21 de Janeiro de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Hoje foi o programa do segundo aniversário. 

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr Eu e a Rádio
Falei do Zé da Fisga, uma memória de adolescência num texto de REAT Rádio Estudantil Angolana de Transmissões
Esta Música tem uma história trouxe Gal Costa e Índia, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje foram vistuais. Uma imaginação de dueto entre Paulo de Carvalho e Chico Buarque
Poema sobre o Tempo de Mário Quintana
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de uma máquina fotográfica especial
Inaugurou-se a Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de luanda
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira não faltou assim como a Reseliência

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

na livraria da minha cidade

Na pequena Livraria Regina, da minha pequena cidade, que inexplicavelmente cheirava a café e também a maresia, os livros da lusofonia resolveram discutir entre si, mal da dona fechou a porta para ir almoçar.

Os Lusíadas, muito sério e um pouco empoeirado, cantou:
- É evidente que eu sou o mais viajado de todos. Dei a volta ao mundo em versos, eu conto a História de um caminho de mar!

Um romance de Machado de Assis, apoiado na prateleira ao lado, sorriu do canto:
- Viajar é fácil quando se tem heróis. Difícil é entender a alma humana sem sair da sala de estar.

Lá bem do fundo da estante, um livro de Mia Couto espreguiçou as páginas e deixou cair uma palavra inventada no chão.
- Meus amigos, não briguem. O mundo é grande demais para caber num só poema ou num bigode irónico.

Um livro de Jorge Amado, com cheiro de mukeka literária, interrompeu:
— Grande mesmo é a Bahia, que cabe em qualquer lugar. Inclusive nesta livraria, entre um soneto e uma metáfora africana.

Uma coletânea de poemas de Fernando Pessoa, dele mesmo ou dele feito outro, começou a falar… depois mudou de ideia… depois falou de novo, e aí com com outra voz:
— Discordo de todos vocês.
— Qual de nós? — perguntou o Lobo Antunes.
— Sim. De todos, incluindo eu nos outros! afirmou Pessoa sem saber já se era ele ou outro

Enquanto isso, um livro de Pepetela observava tudo em silêncio revolucionário e comentou:
— Pelo menos concordamos numa coisa: sobrevivemos a leitores apressados e a resumos malfeitos.

De repente, a porta da livraria se abriu. Todos se calaram, fingindo respeitável quietude de papel. A dona havia chegado e havia que mostrar respeito. Entretanto entrou uma leitora curiosa, que passou os dedos pelas lombadas e disse:
— Adoro literatura em português. Dá para viajar sem precisar de passaporte, bilhete ou avião.

Os livros sorriram num desfolhar de palavras para dentro, o que, no caso de alguns, fez levantar um pouco de pó, satisfeitos por saber que, apesar das diferenças de sotaque, ritmo e temperamento, ainda compartilhavam a mesma língua… e a mesma estante.

E assim ficou provado que a lusofonia é como uma boa biblioteca: cheia de vozes diferentes, mas todas a falar alto demais quando ninguém a está a ver.



Sanzalando

20 de janeiro de 2026

eu tentei arrumar a estante

Tudo começou quando eu tentei colocar "O Cortiço", do brasileiro Aluísio Azevedo, ao lado de "Os Maias", do português Eça de Queirós, na estante da minha sala.

Perto da meia-noite a estante tremeu. Os personagens de Eça, com seus monóculos e um certo tédio aristocrático, ficaram horrorizados com a barulheira e o calor que vinham do cortiço carioca ou como se diria no Porto, de uma Vila no Rio de Janeiro.

- Pelas barbas de D. Pedro! - exclamou o Conselheiro Acácio - Haverá decência nesse ajuntamento de gente suada?

João Romão, do livro vizinho, nem olhou para trás: 

 - Deixe de mesura, patrício! Aqui a gente trabalha para enriquecer, não para discutir o brilho das botas!

A confusão aumentou quando eu trouxe os angolanos e moçambicanos para a mesma prateleira. Coloquei "Terra Sonâmbula", de Mia Couto, perto de um dicionário da Porto Editora

Na manhã seguinte, o dicionário estava em choque. Mia Couto tinha inventado tantas palavras novas que o pobre dicionário sentio que estava a perder o emprego ou a roda da viagem.

- Isso não é português! - reclamava o Dicionário, rígido no seu grosso volume.

- Não é português, é portuguesar o mundo - respondeu um neologismo de Mia, saltando de uma página para a outra como um cabrito ou uma qualquer cabra de leque que africanamente não se sossega.

Enquanto isso, "A Geração da Utopia", de Pepetela, tentava organizar um comitê de libertação para os livros que estavam presos na seção de Autoajuda, por erro meu.

O cúmulo do caos aconteceu quando, por já não saber como organizar a estante, empilhei Guimarães Rosa em cima de José Saramago.

Foi o silêncio mais barulhento da história.

Saramago, dizem porém sem verdade, que recusava-se a usar vírgulas ou pontos finais para reclamar o peso. As suas frases de três páginas formavam um labirinto onde eu quase me perdi.

Guimarães Rosa, trazendo o modernismo da poesia brasileira a tiracolo, apenas observava, e quando respondia fazia-o num dialeto que misturava o sertão com o infinito: 

- Viver é muito perigoso, mas ler o senhor Saramago, é um despropósito de frases compridas! 

No fim do dia, percebi que a literatura lusófona não pode ser arrumada. Ela é uma festa na cozinha: o português de Portugal traz o vinho e a etiqueta, o Brasil traz a feijoada e o samba, Angola e Moçambique trazem o ritmo e a reinvenção da alma, e Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste chegam com a poesia que une o mar.

Desisti da ordem alfabética. Agora, organizo os livros por níveis de saudade.




Sanzalando

19 de janeiro de 2026

um dia, pelo menos, sem internet

Pouquinho que passava das 10 da noite e veio o apagão das comunicações. Assim num segundo se foi a televisão e a internet. Me disseram que o rooter deu o último suspiro e a televisão transformou-se num retângulo plastificado e sem alma. O silêncio que se seguiu foi tão denso que deu para ouvir os pensamentos. No início, houve o pânico: levantei-me, reiniciei o dito, sempre sobre a máxima informática, desliga e volta a ligar. Nada.

E foi aí, no meio desse "nada", que a vida decidiu ficar engraçada.

Sem o brilho hipnótico da Netflix, os olhos demoram uns minutos a ajustar-se à realidade. Descobri, por exemplo, que o meu cão não é apenas um adereço de sofá e não deu por nada.

Acendi luzes, peguei no livro e retomei a leitura que tinha parado a meio da tarde. Meia hora depois novo desliga e volta a ligar e nada. Assistência técnica. Primeiro um diálogo  teclado com uma máquina a dizer-me para fazer o que eu já tinha feito. E com a insistência dos meus NÃO, a máquina disse-me que iria encaminhar para um operador real. Um pouco de música e a voz simpática do lado de lá. Já não estava em diálogo virtual. Já fiz, disse eu a várias questões. Ok, amanhã ou depois irá um técnico até aí para ver o que se passa. Aguarde mais um pouco. A blá blá mas agora não podemos fazer mais nada. E assim estou sem internet, sem televisão e sem o mundo saber de mim. 

A maior surpresa, porém, foi a interação humana. Sem o escudo da televisão, fui forçado a olhar para a minha parceira. 

- "Então... parece que não há rede," disse eu, com a eloquência de um homem das cavernas. — "Pois não," respondeu ela. "Queres jogar às cartas ou preferes descrever-me o teu dia com adjetivos que não incluam emojis?"

Rimos. Rimos porque percebemos que estávamos a desaprender a falar sem o apoio de um desenho, de um boneco, de uma figurinha. Acabámos a inventar biografias fictícias sobre quem passava na estrada, criando uma novela mexicana em tempo real, só nossa, sem anúncios e com muito mais reviravoltas do que qualquer série da HBO.

O mais estranho foi o sossego. Não é a ausência de som, mas a ausência de urgência. O tempo esticou. Uma hora sem internet durou aproximadamente três dias úteis. E, num mundo que corre para lado nenhum, esse abrandamento é um luxo quase subversivo. Fui-me deitar mais cedo.

Acordei sem saber as últimas polémicas do Twitter, o que me tornou, automaticamente, a pessoa mais feliz num raio de cinco quilómetros. A vida sem Wi-Fi não é um regresso à Idade Média; é umas férias forçadas de nós próprios. E, honestamente? A comida tem melhor sabor quando não precisamos de a fotografar antes da primeira garfada.



Sanzalando

15 de janeiro de 2026

o meu ferrugem de rolamentos

Não sei quantas estórias contei dos meus carros de rolamentos. Na descida dos Fonsecas, que por acaso também era a minha, era do Corado e dos Santanas, mas era assim conhecida e assim eu não vou desviar-me.  Eu tinha um carrinho de rolamentos, que tinha ido buscar à oficina do Abel, e lhe chamei de Ferrugem, era assim mais parecido com Ferrari mas era original, porque era meu, feito por mim e também por mim baptizado.

Ferrugem é claro que não tinha motor, não tinha travões para lá do tacão dos meus sapatos ou sandálias e muito menos cinto de segurança que naquela altura tudo era seguro. O volante era uma corda e mais seguro a gente não podia estar já que segurávamos a corda com duas mãos. O meu carro de rolamentos tinha uma coisa: tinha atitude. Seus rolamentos corriam numa roda viva como quem diz estou aqui mas já ali, com rapidez.

Todos os fins de tarde era corridas. Passeio de cimento lizinho que até parecia tinha sido feito de propósito para as corridas de rolamentos. Tinha o carrinho do Álvaro, do Robalo, do Corado, do Santana. Está aqui e falta alguém mas a velocidade do Ferrugem lhe deixou para trás no esquecimento. P

Tem dias ganho eu, outros ganha outro. 
— Hoje eu ganho e é só porque estou a descrever as palavras da descida com a D. Maria Guedes na janela e só abana a cabeça que estes miúdos não têm.

A simplicidade dos carros de rolamentos que a gente fazia era condicionado pelo gosto. O meu tinha direcção assistida porque era gerido com emoção, logo tinha direcção emocional.

A descida terminava numa curva a noventa graus e a velocidade tinha de ser controlada porque de contrário era um estatelado no asfalto ou no poste. 

Ferrugem deixou saudades e algumas cicatrizes. Boas memórias para além da algazarra, das reclamações vizinhas que a gente geria com um ar de inocência.

Daqueles tempo ficou uma frase:

Se a vida é uma descida, desço rindo, tendo cuidado com os rolamentos que rolam.



Sanzalando

14 de janeiro de 2026

Livro - História de Angola, de Alberto Oliveira Pinto - K'arranca às Quartas 101


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 76 - José Barata Moura - K'arranca às Quartas 101


Sanzalando

Esta Música tem uma História 43 - Sétima Legião - Sete Mares - K'arranca às Quartas 101


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (7) - K'arranca às Quartas


Sanzalando

crónica 89 - K'arranca às Quartas 101


Sanzalando

Programa 101



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 14 de Janeiro de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr a Cultura e a sua Falta
Falei do livro História de Angola de Alberto Oliveira Pinto num texto de REAT Rádio Estudantil Angolana de Transmissões
Esta Música tem uma história trouxe Sétima legião e Sete Mares, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje com José Barata Moura, o filósofo português que pôs as crianças a cantar bem
POESIA -  PASTELARIA, Mário de Cesariny na voz de Manuel Tur
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou dde Angola profundamente
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira não faltou assim como a Paciência.

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

tem dia de limpar

Todos temos um momento na vida que precisamos decidir entre parar e seguir.
Ficarmos presos a ideias, vidas, passados, amizades que nem as eram, sabemos não valer a pena sermos dependentes disso. Ficamos com medo de enfrentar a solidão, aquela maldita sensação de perda e vazio, só nós sentimos isso, as outras pessoas ao nosso não se importam e na verdade somos é um grande tanto faz.
Por vezes mentem para nos verem longe e ainda assim fica a solidão. Há pessoas que não nos merecem nada, a não ser a sua indiferença, o não se importar, o nosso tanto faz. Todos chegamos no momento de reciclar a vida, e seguir em frente. Limpar o baú de lembranças, renovar o que é mau ou faz mal ou que só ocupa uns tantos bites de memória inútil.
Meter numa caixa de esquecimento tranque tudo o que desperta a dor e comecemos a adicionar na vida o que realmente te sorrir, quem faz dançar e ser feliz.

Sanzalando

13 de janeiro de 2026

Sol de março em Janeiro

O sol de março parece queima a pele mais que qualquer sol num outro lado qualquer. Mas quando ele queimava a areia da minha praia, parecia estar a convidar as ondas a dançar na beira mar. Eu e os amigos,  cheios de energia, mal podíamos esperar para mergulhar nessa aventura. Corríamos pela areia fofa e escaldante, sentindo a velocidade suave com que corríamos na cara e o cheiro salgado do oceano estava cada vez mais próximo.

Depois era o impulso em direcção ao céu e depois um mergulho de cabeça quando não calhava ser chapão ou um estatelado por tropeçar na crista da onda faz de conta ela era galo.

Depois construíamos um castelo de areia outras vezes era só mesmo um buraco, que rapidamente as ondas de março faziam desaparecer.

Se fosse hoje, era chegar à praia, sentar, olhar o mar e calcular a temperatura da água, rever a estratégia para lhe chegar sem queimar os pés e calmamente caminhar em direcção aele e nele chegado, entrar calma e serenamente, abrindo alas como quem nada bruços. Se a água estivesse suportável, mergulhar na vertical para baixo e logo pentear os poucos cabelos que têm memória de se despentear. As ondas eram perfeitas para a diversão, e agora são matreiras em pregar rasteiras ao descuido acidental.
Mas a verdade é que eu gosto do sol de março na minha praia, embora ainda seja janeiro.

Sanzalando

12 de janeiro de 2026

O arco e o pião

Na minha terra não tinha sol de agosto, que era para aí em janeiro ou fevereiro que ele ia alto, mas a gente tinha escola e por isso no cacimbo de agosto a gente se encontrava na avenida ou no parque infantil. Na mão direita, trazia o meu bem mais precioso: um pião de madeira comprado no Passa Fome, com a ponta de ferro ainda brilhante de tanto bater no chão e não ficar esquecido numa qualquer gaveta, que era o que acontecia quando a gente se fartava. Às vezes eu ia para lá, avenida ou parque infantil, conduzindo o meu arco, o que me fazia ir a correr, com uma perícia que deixava os mais velhos boquiabertos, e às vezes a mim também.

- Duvido que consigas pô-lo a girar na palma da mão! - tinha sempre um que desafiava, agarrando o aro que servia de arco e ia dar uma volta enquanto eu ficava a atirar o pião.

Raramente respondia, mas enrolava a guita com o cuidado de um cirurgião, mal sabendo o futuro que estava à minha espera. Com um movimento brusco e certeiro, lançava o pião. O som parecia música: um zumbido constante enquanto a madeira rodopiava furiosamente, parecendo estática de tão rápida. Com um jeito de mestre, passava a guita por baixo do pião e elevava-o. O pião saltava para a mão, continuava a girar, provocando a primeira vaga de gargalhadas e aplausos que faziam eco no meu ego. 

Depois de meia dúzia de vezes a fazer os meus números de pião, o pessoal fartava-se e íamos fazer corrida de arcos, quando ele caía ou esbarrava tinha que se parar e acorrida terminava ali, a daquele arco. Mas não era por questão de afinação do arco, era mesmo por falta de pulmão que eu desistia à segunda ou na terceira volta. Raramente perdia o controlo. Era lindo ouvir o barulho do metal e o respirar ofegante. O suor escorria que nem mulola, mas a alegria fazia esquecer o cacimbo daquele mês de agosto.

Às vezes, exaustos, deitávamo-nos na relva, riamos só porque sim, ou então porque estávamos vivos, ou porque alguém tinha caído num rasteira gramatical ou numa poça de infantilidade. 

Quando a cor do céu passava de azul a cor de laranja, a nos dizer que ia embora, era hora de voltar para casa, arco na mão, pião no bolso e alegria na alma. 

Depois, muitos agostos depois, veio a adolescência e se foi a inocência. Nasceu a paixão e se foi a alegria infantil das tardes passadas na avenida ou no parque infantil.

As gargalhadas, quando voltavam, eram mais suaves, mais contidas e quando caminhávamos para casa, sabendo que a felicidade ia intervalar durante a noite me lembrava que anos atrás, afinal essa felicidade, cabia toda no arco de um círculo e no bico de um pião.


Sanzalando

11 de janeiro de 2026

Na esplanada também há pastei de nata

Numa esplanada, na minha pequena cidade que não era mais pequena porque o mar trazia gente até ela, três pastéis de nata estavam na mesa, cada um o seu futuro mastigador, que, como quem não quer a coisa, os deixavam a arrefecer e filosofavam.

- Digo-vos já — começou o Um, olhando para o estaladiço e vaidoso pastel que até parecia o olhava - que nasci para ser conhecido, sem condimentos nem cunhas apesar de achar que a vida sem canela, pimenta ou gidungo, é vazia.

- Discordo — respondeu o Dois, mais babando-se no seu existencialismo. O verdadeiro sentido da vida é o equilíbrio entre a massa e o conteúdo. A canela, pimenta, sal ou gindungo são meros acessórios emocionais.

O  Três, que já tinha entretanto dado uma dentada indeciso, suspirou:
-Vocês falam porque ainda estão puros. Quando já se perdeu um bocado de nós, percebemos que o destino de todos é a solidão, o vazio, o insonso, a dieta pobre em quase tudo.

Entretanto, o empregado, que hoje não se chama Acácio, mas podia ser o Figueiras, aproximou-se com um café pingado.
- Então, meus senhores, estão prontos?

Os pastéis estaladiços crocantes aparentemente perderam a sua crocância e gelaram. Literalmente e metaforicamente.

- Eu ainda não fotografei o meu para o Instagram! — gritou o Um.
- Ninguém aprecia a minha complexidade interior, a utilidade de suprir o básico da existência! — lamentou-se o Dois.
- Ao menos que sejam rápidos — disse o Três enquanto devorava o seu. - Se este tivesse ao menos açúcar em pó, eu chamar-lhe-ia que nem um figo. Sempre quis saber como eram os pasteis da Metrópole..

O empregado, sem ouvir nada disto (como é hábito dos empregados), olhou-os e para a mesa ao lado. Um senhor de bigode sorriu, pediu uma nata e disse:
- Nada como um pastel de nata numa esplanada. A vida até parece melhor.

E parecia mesmo. Pelo menos durante duas dentadas e meia, enquanto o Um, o Dois e o Três se emudeceram por verem a rapidez como aquele estranho havia devorado o seu pastel, sem filosofias.



Sanzalando

10 de janeiro de 2026

pequeno almoço na esplanada

A esplanada estava cheia. De um lado, o Sr. João, de alcunha o Malcriado, um cliente de raiz que frequenta o local pelo menos desde que eu nasci, e acredita que o café deve custar 50 centavos para sempre. Do outro, o Acácio, um empregado novo que decidiu aplicar técnicas modernas de atendimento.

Acácio aproxima-se com um bloco de notas e um sorriso de quem leu todos os manuais de hospitalidade. 

- Boa tarde, senhor. Bem-vindo à nossa experiência sensorial. Posso oferecer-lhe a nossa carta de infusões botânicas ou prefere explorar a nossa seleção de grãos de origem única com notas de avelã tostada e solo vulcânico?

O Sr. João, de alcunha o Malcriado, olha para o rapaz como se ele estivesse a falar chinês. 

- Ó filho, deixa lá o vulcão em paz. Quero uma bica curta, bem escaldada a chávena, que até pode ser no vulcão, e uma torrada com muita manteiga a derreter que nem lava a escorrer. Mas muita mesmo, que eu não quero uma torrada, quero uma esponja amarela fumegante.

Acácio suspira, mantendo o profissionalismo:

- Com certeza. Informo apenas que a nossa torrada é feita de pão artesanal de fermentação lenta (48 horas), com manteiga biológica de vacas de pasto, finalizada com cristais de flor de sal.

- Quarenta e oito horas para fazer um pão? - pergunta o Sr. João, de alcunha o Malcriado, chocado. - O padeiro trabalha em câmara lenta ou está maneta? E guarda o sal para as batatas, eu quero é gordura e sem flores! Pensas que eu sou quê?

Dez minutos depois, Acácio está de volta. Traz o café numa chávena de design minimalista (sem asa) e a torrada... bem, a torrada era uma estrutura arquitetónica. Três fatias de pão escuro, empilhadas, com uns raminhos de alecrim por cima para decorar.

O Sr. João, de alcunha o Malcriado, olha para a mesa. Toca na chávena e queima os dedos, já que não havia asa. 

- Mas o que é isto? Onde é que se agarra esta geringonça? Agora fazem chávenas com a asa para dentro? É para beber ou para fazer um transplante de pele?

- É uma peça ergonómica, senhor - explica Acácio - Foi desenhada para que a mão sinta o calor da bebida em comunhão com o espírito.

- O meu espírito está a ficar com bolhas e está aqui está a rebentar! — grita o Sr. João, de alcunha o Malcriado. - E este mato em cima do pão? Eu pedi uma torrada, não pedi para o meu pequeno-almoço vir decorado com o jardim da rotunda nem com o matagal da virgem!

Nisto, passa uma pomba, a verdadeira dona das esplanadas. Com uma precisão de sniper, a pomba faz o que as pombas fazem, acertando precisamente no topo da arquitetura de pão artesanal de 48 horas de fabrico.

O silêncio instala-se. Acácio fica pálido. O Sr. João, de alcunha o Malcriado olha para a torrada, olha para a pomba e depois para o empregado.

— Olha, Sr.... ( os três pontos são para serem substituídos por todas as palavras do vernáculo português, inglês ou chinês - diz o sr. João, de alcunha o Malcriado, com os olhos a saltarem da cara. - Podes levar a conta para a... (continuam as palavras vernaculares conhecidas e outras que não cabem na imaginação).

- Mas senhor, eu posso trocar a torrada! Foi um acidente biológico! - disse Acácio que aprendera na escola que a paciência e a calma eram uma virtude.

- Não vale a pena — responde o Sr. João, de alcunha o Malcriado, levantando-se. A pomba foi a única que percebeu o que faltava aqui.

— O quê, senhor?

O molho. Pelos vistos, até os pássaros acham que este teu pão de 48 horas estava um bocado seco.


Sanzalando

9 de janeiro de 2026

O James Bond da Esplanada

A minha cidade não era movimentada, nem se pode dizer que ela mexia com os nossos nervos. Era assim mais uma teste de paciência e de solidão intervalada por um carro ou outro que passava. Mas tinha uma menina, que vou chamar de chamada Sofia, que tinha um talento especial para transformar os encontros mais comuns em situações hilariantes. Ela era divertida, bonitinha, um pouco desastrada e até desconcertada da cabeça.

A sua última aventura começou com um encontro ao acaso com um desconhecido chamado Leopoldo. Uma amiga de Sofia tinha-lhe dito que ele era culto, inteligente e e até dava para fazer um filme de James Bond. Sofia imaginou um homem alto, moreno e misterioso, talvez um pouco como um intelectual e chato, e por isso não ocupou espaço na sua memória.

Uns dias depois, na esquina da pastelaria habitual, ela com a sua saia rodada, gasta de tanto usar, olhou e viu, sentado na esplanada um jovem de óculos, com um pulóver de malha, corte fino e um livro de poesia na mão. Ele olhou e pensou que aquela figura não era definitivamente o tal que podia ser o James Bond, mas tinha uma cara diria simpática.

Sentou-se na mesa ao lado. Pediu o seu café e olhando para ele:

- Leo qualquer coisa? ela perguntou.

Ele se levantou-se, estendeu-lhe a mão perguntou:

- Poldo, Leopoldo. E tu?

E sentaram-se e aquele, ao acaso encontro, começou razoavelmente bem. Conversaram sobre livros, viagens e até sobre a paixão de Leopoldo por puzzles. 

O empregado trouxe o café de Sofia. Num momento de distração, enquanto gesticulava sobre sua aversão a já não sei o quê, Sofia derrubou acidentalmente o café, que voou por toda parte, cobrindo a mesa, o pulóver e partindo a chávena ao bater no chão .

- Ai, meu Deus! Desculpe-me, desculpe! - Sofia exclamou, pegando em guardanapos para tentar limpar a asneirada.

Leopoldo, em vez de ficar chateado, começou a rir. 

- Não te preocupes - disse - Pelo menos agora cheiro a café.

Sofia não conseguiu evitar rir também. 

- Se tivesse posto açúcar poderia dizer que pelo menos tinha adoçado o teu dia. - disse Sofia sorridente com um pequeno tremelique na voz.

Apesar do incidente cafeinado, o encontro continuou e tornou-se cada vez mais divertido. Eles descobriram que tinham um humor semelhante e, mesmo que Leopoldo não fosse o James Bond que ela tinha imaginado, ele era muito mais autêntico e engraçado.

Quando a noite chegou, Leopoldo acompanhou-a até a porta de casa. 

- Apesar da chuva de café, eu realmente passei uma tarde agradável - disse ele sorrindo.

- Eu também - disse Sofia - prometo que se houver uma próxima vez, eu tento não transformar-te nem te baptizar

Leopoldo riu. 

- Não te preocupes, eu gosto de ser vítima. Que tal um reencontro na próxima semana? Talvez num lugar onde não haja café nem açúcar para ser derramado.

Sofia sorriu. 

- Eu adoraria e acaso ditará - disse Sofia sorridente

E assim, Sofia, com sua propensão para o caos adorável, encontrou alguém que não apenas tolerava seus pequenos desastres, mas achava-os engraçados. E Leopoldo, o James Bond intelectual, com um amor por puzzles, descobriu que Sofia era uma adolescente com tudo mas menos chata que as que normalmente o rodeavam. 



Sanzalando