recomeça o futuro sem esquecer o passado

23 de setembro de 2026

Eu, menino, queria ser grande

Nos anos 70, eu, menino, tinha muita pressa de crescer. Não era uma pressa qualquer. Era uma espécie de urgência. Queria ser grande para poder fazer tudo aquilo que os adultos faziam, ficar acordado até tarde, conduzir um carro, entrar num café sem ninguém perguntar se já tinha feito os trabalhos de casa e, sobretudo, apaixonar-se sem ter de esconder a paixão atrás de uma bola, de uma ida à mercearia ou fazer piruetas na rádio para ser notado. Naquele tempo, ser adulto parecia-me mesmo ser uma profissão muito interessante. Os adultos tinham dinheiro no bolso, chaves de casa, relógio no pulso e uma autoridade que parecia vir incluída no estatuto.

Eu olhava para eles e pensava:

- Quando eu for grande, vou ser assim.

Não sabia ainda que alguns adultos passavam a vida a procurar as chaves que tinham acabado de pousar em cima da mesa. Nem que o dinheiro desaparecia misteriosamente. Nem que o relógio servia para perceber que já estava atrasado. 

Mas havia outra coisa que eu queria experimentar: o amor. E aí começou cedo. Muito cedo. Tive a primeira paixão platónica por uma menina que provavelmente nem sabia da minha existência. Eu sabia tudo sobre ela. Sabia como ela prendia o cabelo, que carteira levava para a escola e até a hora aproximada a que aparecia à janela. Ela, em contrapartida, sabia apenas que havia um rapaz que passava muitas vezes naquela rua. Era uma relação profunda, pelo menos da minha parte.

Depois vieram outras paixões. Houve uma por uma colega de escola que me sorriu duas vezes. Duas vezes! Na minha cabeça, aquilo já era praticamente um noivado. Passei três noites a imaginar o futuro. Na primeira, cassávamos. Na segunda, tínhamos filhos. Na terceira, discutiamos porque eu tinha deixado as meias no chão, a sala desarrumada. Tudo isto sem ela ter sequer sido informada do romance.

Foi então que descobri uma das primeiras grandes leis da vida - o amor pode ser platónico, mas a concorrência é muito concreta. E assim fui crescendo, entre paixões impossíveis, bilhetes nunca entregues, olhares interpretados como declarações de amor e algumas tentativas que acabaram desconseguidas. Uma delas foi particularmente educativa. Criei coragem, aproximei-me da rapariga de quem gostava e, depois de vários minutos a ensaiar mentalmente uma frase brilhante, conseguiu dizer:

- Queres ir comigo ao cinema?

Ela olhou para mim. Sorriu. E respondeu:

- Com quem?

Foi nesse momento que percebi que, afinal, ainda precisava de crescer bastante. O tempo passou. Cresci. Tirei a carta, estudei, fui trabalhar, tomei decisões, paguei contas e percebi que os adultos não tinham assim tanta certeza sobre aquilo que estavam a fazer. Olhei para trás e percebei uma coisa curiosa - tinha conseguido ser grande. Era aquilo que tinha desejado desde a infância. Era adulto, tinha responsabilidades, tinha histórias, tinha algumas cicatrizes, tinha amores que deram certo, outros que deram errado e alguns que nem chegaram a dar. Mas  tinha conhecido pessoas que ficaram e outras que desapareceram como certas paixões de adolescência: sem deixar morada para correspondência e então percebi a grande ironia, quando era pequeno, imaginava que ser grande era deixar de ter dúvidas agora sabia que ser grande era aprender a viver com elas. Imaginava que os adultos sabiam sempre o caminho mas descobri que muitos andavam com o mapa ao contrário, imaginava que o amor seria simples e descobriu que algumas paixões precisavam apenas de coragem, outras de sorte e algumas, francamente, precisavam de um milagre. E, sobretudo, imaginava que quando fosse grande deixaria de ser aquele menino. Enganei-me. O menino continua cá. Continuo a apaixonar-me por coisas impossíveis, embora agora tenha mais experiência para reconhecer o perigo. Continuo a sonhar, a olhar para o mundo com alguma curiosidade e, de vez em quando, ainda penso:

- Se eu tivesse vinte anos...

Hoje, quando recordo aquele menino dos anos 70, não sei se lhe diria para ter mais pressa ou mais calma. Talvez lhe dissesse simplesmente:

- Aproveita, porque vais crescer, vais ser grande, vais apaixonar-te, vais desapaixonar-te, vais acertar, vais fazer asneiras, vais conhecer pessoas extraordinárias e outras que devias ter conhecido apenas por fotografia. E vais descobrir que a vida adulta não é o lugar onde os sonhos acabam. É o lugar onde finalmente percebemos que alguns sonhos eram mesmo para cumprir.


Sanzalando

2 comentários:

  1. Diabruras da adolescência que, mesmo em adulto, elas continuam a existir! Amores desamores, encontros desencontros, visões e sonhos que, por vezes, se entrelaçam, mesmo em idades bem adultas!!!
    Parabéns por tão belo sanzalar!
    Abraço meu

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  2. O meu obrigado e continue a visita por aqui que vai sempre aparecendo coisinhas

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