recomeça o futuro sem esquecer o passado

22 de setembro de 2008

para ti

Olho para a minha letra e vejo-a tremida, para as minhas palavras e vejo-as confusas, para as minhas frases e sinto-as ambíguas. Muitas vezes tento que quem as lê pense que lhe escrevo assim num directamente.
Mas hoje é especial porque vou dirigir-me directamente a ela mesmo não sabendo se ela me lê, mesmo não sabendo se ela sabe que eu existo ainda. Hoje não vai haver ambiguidades porque as minhas letras vão ter nome próprio. Hoje as minhas letras, palavras e frases vão dirigidas a ti, que me deslumbras entre quem me rodeia, que me odiaste tanto quanto eu te amei, que me viste chorar enquanto gargalhavas, que perfumas-me com todos os odores até da escuridão. A ti, com teu nome de Mulher.

Sanzalando

20 de setembro de 2008

40 - Estórias no Sofá - Maria da Ilha

Seu nome é Maria e me disseram que morava lá para os lados na Ilha. Eu lhe conheci quando ela chorava num chorar que não tinha maneira de acabar. Lhe sorri. Lhe falei palavras mais doces que os doces que vóvó fazia quando eu era um kadengue, mas ela só lhe apetecia era xingar o mundo, abrir uma qualquer janela e se mandar como se fosse um pássaro que não sabia voar, de verter umas e outras até já não saber mais quem era.
Maria só queria mesmo era que mais atrás no tempo lhe tivessem ouvido, lhe tivessem dado um segundo de atenção. Ela sabia que o seu mundo não era ficar na Ilha onde seus caprichos se lhe afundavam. Ela tinha certezas que ali o seu tempo era tempo gasto num à toa de servir para nada. Era ali era apenas mais uma que entrava na vida fácil do difícil mundo de sobreviver.
Maria sabia, fazia muito tempo lá para trás, que tinha capital para se engajar na cidade da sabedoria. Mas ninguém que lhe ouviu, que lhe tenha percebido as potencialidades como agora se diz.
Agora Maria já não tem catorze para ser uma zinha, já não tem sorriso quanto mais o doce sorriso que me disseram ela tinha.
Maria está velha nos seus vintes banhado em lágrimas que um dia vão acabar por afundar a Ilha donde não lhe deixaram sair quando Maria queria ser senhora. Maria já não tem sombra porque parece já chegou no finito dela.
Eu conheci Maria ao lhe enxugar as lágrimas que já não caiem com a força doutros tempos, seu corpo de ossos já não lhe segura o equilíbrio.
Me disseram que Maria tinha sido apanhada, sem nunca ter saído da Ilha.



Sanzalando

19 de setembro de 2008

eu só quero

Os dias caiem numa falta de sentido, as tardes surgem atrás dum cheiro nauseabundo e os pensamentos floram-se em espumas de vingança. Já sei que tudo é uma figura de estilo destilada num pensamento perdido.
Na verdade o que eu espero é receber umas migalhas, um calor que me afague, um caminho onde meus passos não tropecem nas rasteiras da vida.
Na verdade o que eu quero é que as decisões já se me apareçam tomadas, vazias de lágrimas futuras mesmo que eu descubra ser um bastardo de mim.
Na verdade o que desejo é que o céu não se me apresente com nódoas, manchas de medo e ódio.
Na verdade eu só quero é amar.

Sanzalando

18 de setembro de 2008

ao fim de tarde

É de tarde e, como todas as tardes, avança-se vagarosamente até à noite, tranquilidade desejada e tão esperada. Aqui chegados penetramos nos pequenos sulcos da estória que tentamos esquecer e regressamos à vida que desejávamos ter engrandecida de sonhos que construímos nos bairros velhos da nossa imaginação. Até parece o tempo viajou dentro de nós saídos do presente na dedução dum futuro.
É neste lusco fusco que a vida magnânima da tranquilidade se mescla com o túnel da imaginação num passo lento, sabor a café, perfume de terra acabada de molhar, leveza dum fumo de cigarro que não fumámos.
De vez em quando abrimos um olho da realidade e logo o fechamos para continuar a nossa viagem para lá da realidade. Tranquilidade ininterrupta do desconhecido desfecho da imaginação.

Sanzalando

17 de setembro de 2008

Esboço. Esquiço. Isso

Vou fazer um esboço. Ou será um esquiço? Isso! Uma das duas e não discuto mais comigo que isso também me cansa e cansado já ando eu com a vida.
Eu sei que ultimamente não lhe tenho ligado a mínima e eu já devia ter dado a notícia que suponho que eu passei à estória. Fui-me embora e lá vive ela no outro hemisfério, outra galáxia, outra coisa bem mais longe que nem me lembro já onde é que fica mesmo. Já sei, no raio que me parta. Eu sei que de vez em quando lá recebo um recadito, uma foto da modernaça mudança que vai sofrendo a favor no tempo, actualidades actuais de coisas que mais. Mas na verdade é que até agora ainda não falou de nós, não me ligou assim num directamente a ela. Pelo que dá para eu ver que os nossos corações estão a bater assim num ritmo que não é o mesmo.

Sanzalando

16 de setembro de 2008

destempo

Já tentei bater com a cabeça na parede tantas vezes quantas as eu conscientemente conseguia. Acho eu fazia um haraquiri se eu soubesse que isso ia dar certo. Acho mesmo eu só queria tirar-te da minha cabeça enquanto não se decide se entra de vez ou se desaparece.
É, eu já não tenho todo o tempo do mundo.

Sanzalando

15 de setembro de 2008

a dúvida

E a dúvida paira no ar.
Amo com amor de até sofrer ou amo só de dizer amor?
O sorriso se vai amarelando num esforço de manter a cara alegre ao mesmo tempo que ajeito as melenas que me caiem sobre os olhos, gesto nervoso instintivamente repetido, cada vez que me aprofundo mais nesta dúvida.
Às vezes custa compreender que o amor está mesmo na nossa frente e que é absolutamente simples. É tudo tão subtil quanto perceber qual a primeira estrela hoje apareceu a brilhar no céu escura da noite anoitecida faz pouco tempo.

Sanzalando

14 de setembro de 2008

fotos

Me atiro para o sofá. Literal e concretamente assim mesmo num atirar de peso quase morto. Corpo cansado dum trabalho feito paixão que se vai esmorecendo com o passar dos anos, dissabores e outros odores. Atiro o braço para agarrar qualquer coisa que me faça sair dali sem me mexer, sem me esforçar.
Pego no que o meu extenuado braço consegue alcançar.
Por acaso é um álbum de fotos.
Olho-as e fico a pensar na magia do momento em que aquele clique foi tirado. Fragmento da minha estória, alguns são a cores, outros a branco e preto. Raros são os fragmentos em que apareço uma vez que foi o meu dedo que clicou. É impossível ficar em branco na imaginação da emoção daquele momento. É impossível deixar de me lembrar de ti, sentir o teu perfume. Não consigo livrar-me da tua lembrança.
Acho mesmo que eu devia era queimar todas estas fotos.

Sanzalando

12 de setembro de 2008

dia dos diabos

Um dia destes dou cabo do diabo. Lhe mato de morte certa. Mas aqui se me levanta uma pergunta. Qual diabo mesmo eu lhe vou matar? Há muitas perguntas e outras muitas respostas e eu não sei qual é a pergunta certa para saber qual é mesmo o diabo certo de lhe matar de morte certa. É mais ou menos assim como os dias que parecem que são iguais, parecidos, mas por instantes, além de terem o mesmo tempo, a gente lhes vê uma diferença num ponto qualquer, nem que seja ver um disco voador quando se passa pelas brasas na hora pesada de depois do almoço.
Mas um dia destes eu lhe dou cabo dele.
É que hoje foi um dia dos diabos!


Sanzalando

11 de setembro de 2008

que desespero de delírio

Já sei que vais pensar que eu me passei e outras coisas assim como não sei mais o quê, tas a ver.
Em abono da verdade a facilidade me desanima. Ter o mesmo que os outros não me faz ser especial.
A dificuldade me desmotiva. Não ter o mesmo que os outros não me faz ser especial.
Sobra-me a normalidade. Essa então desespera-me.

Sanzalando

10 de setembro de 2008

adiado delírio

Há momentos em que algo me parece dizer que devo deixar para depois o que eu tenho para fazer, mas teimosamente eu forço-me a fazer e depois sai um desastre. Portanto vou eu neste momento fazer ouvidos a este algo e não vou delirar. Delirarei um dia mais tarde na indefinição do tempo.

Sanzalando

8 de setembro de 2008

desejo

Reina um silêncio à minha volta. Praticamente só se ouve o meu respirar neste cair da tarde quase noite. Desejo ansioso a chegada da noite, a tonalidade negra substituindo as múltiplas tonalidades alaranjadas deste entardecer.
Desejo ardentemente poder sentir-te minha quando pousar a cabeça sobre a almofada, imaginar o teu ar quente e húmido.
Desejo estar no profundo silêncio da noite e viver-te nos meus sonhos quer um dia vão ser realidade.
Desejo-te hoje tanto ou mais que ontem.

Sanzalando

6 de setembro de 2008

Afinal não te escrevo uma carta

Te escrevo uma carta que sei que nunca a vais ler porque eu não ta vou mandar. Mas escrevo na mesma para limpar os meus pensamentos. Nunca ninguém saberá desta carta além dos meus olhos e do que me resta da memória. Nunca saberás o que te escrevi quando já tinha o cabelo cinzento muito claro, a pele mascarada de socalcos enrugados e o olhar esforçado de ver longe de mais.
Te escrevo uma carta enquanto espero o sol que eu sei que nunca saberás se chegou ou não.
Enquanto penso no que te escrevo dou uma olhadela para a janela e revejo o que já vivi, as ondas melancólicas do passado e a tristeza da solidão.
Rasgo da cabeça as palavras pensadas e não te escrevo uma carta que eu sabia que nunca a ias ler porque eu nunca ta mandaria.

Sanzalando

5 de setembro de 2008

novo contrato

Acho chegou a hora de despedir do zulmarinho, dizer adeus à linha recta que é curva, pensar noutros ares que se me dão. Sei que lhe vou sentir a falta do perfume da maresia, de passar as mãos pelo cabelo revoltado no vento que sopra mais forte que a brisa. Acho que chegou a hora de juntar à eterna nostalgia a nostalgia deste zulmarinho que me serve de ponte, elo de ligação ao início dele, porta voz das vozes das kiandas.
Mas assim decidido fica também manifestado a intenção de selar um pacto de amor em que me comprometo a respeitar o mais amplo sentido das palavras e dos silêncios; nenhum de nós manterá malentendidos que possam causar dano no nosso fiel propósito de nos amarmos; ambos teremos direitos a carícias e mimos com o simples propósito de renovar este contrato; estão permitidos os silêncios desde que não por birra ou zanga; os actos de amor nunca serão escondidos.

Sanzalando

3 de setembro de 2008

Poema de Outono

Me inspiro no céu com letras imprecisas dos passos que dou em sentido lato.
Não ouvi ruídos de guerra, não vi corpos em cinza, não senti o perfume do medo.
Não vi leões de corpo humano sedentos de sangue devorando adeuses.
Não vi mundos caídos em tornados de fim do mundo.
Não vi corpos de anjos voando à minha volta escravizados na imortalidade.
Não vi genocídios escondidos em esperanças perdidas, não vi ódios, não vi raivas.
Me inspiro no céu para pôr em letras os caminhos que calcorreio de imaginação em imaginação directo à esperança.
Me inspiro no céu da cor do zulmarinho para dizer adeus, até mais logo.

Sanzalando

1 de setembro de 2008

solitário

Caminho solitário e solidário. No meu diálogo interno e intenso descubro que a paixão e o amor são necessidades básicas de mim. Ou o amor e a paixão que a ordem aqui não tem interesse. Mas num repente tropeço na ideia que sou capaz de viver sem amor, que sou capaz de o imitar, argumentar, imaginar ou falsear. Lhe sou capaz de inventar até. Mas paro a caminhada para pensar melhor e concluo que com a paixão isso eu não consigo. Porque a paixão ou é ou não é!
E assim caminho solitário.

Sanzalando

30 de agosto de 2008

39 - Estórias no Sofá - te sonhei

Mais uma vez vou-te caminhar as palavras que sonhei. Num vou nem me importar de saber alguém vai ouvir os meus passos ou ainda ouvir os meus segredos de secreto amor público. Me apetece te contar que hoje eu sonhei e não faço ideia quando é que tinha sido mesmo a última outra vez que isso aconteceu.
Mas eu te conto nos pormenores mais pormenorizados para tu sentires o que eu mesmo senti. Sonho não é sair do chão e ir em lugar distante porque isso é mesmo o avião. Este sonho mesmo é de estar a dormir e ver um filme que dizem é a preto e branco mas eu desconsigo lembrar esse pormenor. Esse filme é como que nem passado num lugar que eu desconsigo de ver qual é, pois até que penso foi só cenário para este sonho.
Estava assim muita gente até parecia uma reunião de gente importante porque até a roupa era um vestir de gente importante.
Ela estava lá. Ela, a do biquini azul, que nunca mais nem me olhou quanto mais me disse uma palavra. Ali estava na sua altura e no seu porte de quem nem é hoje me vai dar confiança. Se cruzou num para lá e para cá comigo que eu nem parecia estar ali. Me senti fantasma de ver e não poder ser visto. Me apeteceu gritar até os pulmões saírem cá para fora. Mas me calei porque acho queria ver o filme até ao fim e lhe tinha um bom percentimento.
Pouco a pouco foram saindo. O lugar desconhecido começou a ficar parecia bem maior e ainda mais eu lhe desconhecia o lugar. Ela ainda estava ali a conversar com mais ns outros.
'Me vou lhe perguntar se ela se lembra ainda quem eu sou' falei-me assim num sussurrar tímido de um medo pavoroso. Mas a conversa estava animada e se eu chegasse ali ia levar berrida estou na certeza.
'Esquece' me mentalizava eu.
Bati com as costas no momento e decidi que eu ia fazer assim como os outros e me ia dali embora, logo ia saber o caminho para uma volta a casa.
Na rua, amplo parque de estacionamento, só restavam meia dúzia de carros. Procurei onde eu pensava estava o meu e lhe encontrei lugar vazio. Procurei tudo e e dele nem a sombra tinha lá ficado. Agora aqui gritei toda a raiva eu sentia que todos os que ainda estavam na casa grande de cenário vieram ver o que estava a acontecer. Um a um fui contando. No último não contei porque era ela e ela não estava ali nem perto para me ouvir. Mais uma vez eu lhe era um fantasma que ela não acredita nessas coisas.
Os carros poucos que estavam foram arrancando um a um numa fila parecia estava combinada. Eu era o único que não podia seguir. Tentei com o telemóvel ligar num socorro qualquer e do outro lado da linha me diziam tinha de aguardar. Eu ia ficar ali naquele cenário desconhecido, complexo de fantasma e ainda por cima apeado.
Um carro parou. Me baixei ao nível da janela e se eu ia dizer alguma coisa fiquei mais mudo que sem corda vocal. Era ela. Disse-me qualquer coisa que eu vi a sua boca mexer mas meus ouvidos estavam que nem eu numa paralisia mortal. Pelo gesto percebi que era para entrar e foi o que fiz e não sei como me consegui mexer.
Arrancou. Acho o carro nem tinha motor que eu ouvia o silêncio era total.
Sempre olhou na estrada que tal como a casa era feita só para este filme pois eu acho ela não podia nem existir. Bela para não dizer belíssima.
Aos poucos o meu corpo foi parecia estava a acordar de ser morto. Aos poucos eu estava a consegui ser eu outra vez. Lhe ia dizer que ela estava ainda bela como a última vez que eu lhe tinha visto fazia aí uns vinte anos e que acho devia acabar a minha prisão perpétua, foi quando o sonho acabou e o despertador me disse em altos berros que era hora de acordar.
Sanzalando

29 de agosto de 2008

Vou caminhando

Vou caminhando que um dia vou chegar lá. Num lá que fica para lá do desejo, para lá da branca noite dum poema de amor, do branco silêncio do encontro de duas almas gémeas.
Vou caminhando sobre as palavras, equilibrado na sombra das recordações perfumadas de maresia.
Tu e eu num movimento perpétuo, luta corpo a corpo, sombras sombreadas de vida.
Vou caminhado até lá chegar.

Sanzalando

28 de agosto de 2008

sobre linhas

Os meus caminhos são percorridos entre duas linhas. É, parece eu sou um equilibrista que caminha sobre corda, dando os meus passos na busca do equilibrio dos pensamentos, sentimentos e do que faço ou não.
Tem dias que é dificil e nem sempre consigo.
Hoje é um dia destes.


Sanzalando

27 de agosto de 2008

às vezes

Aqui vou eu neste incerto caminho das palavras e ideias. Às vezes aqui estou apenas por medo que notes a minha ausência, que sintas que o meu corpo não está nos teus braços. Às vezes me apavoro de pensar que possas pensar que eu não te estou a contemplar, a te adorar. Às vezes cubro-me de silêncio para que não vejas as lágrimas que deixo fugir de mim.
Aqui estou na viagem do teu corpo, sílaba por sílaba, sem ter tempo para ter tempo e às vezes sem futuro.
Sanzalando

26 de agosto de 2008

sonhos

Te parto todo com esse teu trim que me acorda ainda não são 7 da manhã.
Acordar é uma maneira de dizer. Como que é que eu podia dormir se eu pensei que estava toda a noite contigo?
De olhos fechados te olhei e te admirei ver enquanto dormias e eu entrava nos teus sonhos. Te deixei adormecer fingindo eu que dormia, te enrolaste a mim num abraço forte como se eu fosse o teu boneco de criança. Desconsegui mexer-me e quase não respirava para não te incomodar.
Me deixei assim ficar a te admirar até que esse trim agora me manda ir pelo caminho, olhar o zulmarinho e com o sabor da maresia saber que eu tinha sonhado mais uma vez contigo.

Sanzalando

25 de agosto de 2008

38 - Estórias no Sofá - estória com moral

Era uma vez uma mulher linda dum país livre que vivia num país menos livre, numa povoação pobre e tranquila, tão pequenina que lhe preocupava o facto de não encontrar um homem caso houvesse necessidade.
Na verdade a mulher estava em idade de merecer todos os cuidados e algumas urgências. Como era um ano Olímpico se lhe passou pela cabeça organizar uma competição entre todos os homens que conseguia contactar pela Internet. O vencedor seria aquele que lhe chegasse primeiro à sua intimidade.
Todos eram recrutados com o ‘abanar’ do prémio, com muita paixão prometia a cada um ser o vencedor sem que cada outro soubesse. Cada um se entusiasmava pois o homem é um ser simples que evolui no desejo dos recursos naturais das senhoras e das coisas aparentemente menos atingíveis.
Aos poucos uns foram desistindo, outros por isto e por aquilo ficaram pelo caminho. Ficaram dois finalistas ou talvez um pouco mais que eu dessas coisas intimas não sou de olhar. Estavam quase a atingir a pérola. Um aqui, neste exacto momento gritou que desistia da competição. Apenas ele sabia o motivo, aparentemente. Ela aceitou a desistência com pesar e alguma desilusão.
A linda mulher dum país livre que vivia num país menos livre ficou com um finalista que era um homem dum país menos livre que impulsionado pela abstinência se sagrou vencedor.
Moral: há sempre alguém para contar a estória.

Sanzalando

24 de agosto de 2008

(02) Texto Pedido - ORIGENS

Aqui estou eu caminhando palavras e imagens de sonhos quando vejo que o sol está a pintar-me sombras como se eu fosse uma tela em branco.
Assim, ao domingos e quando tiver textos pedidos, publicarei textos alheios.
Vá lá, quem tem mesmo uma caixinha com eles assim num esconde esconde manda para mim…


Eu vim da terra dos traídos
Vim dum monte de sonhos destroçados
Vim de cidades em ruinas
Dum bando de famintos revoltados.
Amei os pobres, as crianças, as mães amarguradas.
Fui choro, fui pranto de muitos lares,
Fui o roçar de facas, de chibatadas.
Entrei nos templos, p'ra achar pureza,
Desci às ruas, p'ra conhecer tristeza.
Fui bandeira branca, desfraldada,
Fui lágrima de noiva abandonada.
Fui grito de dor, brado de morte,
Fui brinquedo morrendo com um menino.
Fui solidão e fui miséria
Fui flor de sangue derramado.
Eu vim da terra dos traídos...
Da terra sem lares, ou maternas mãos...
Sem portos, sem ruas, sem amores,
Sem Credos, sem Deus, sem alvoradas...
Vim dum bando de crianças inocentes
Qu´esperavam com fé p´la madrugada,
Que não conheciam ódios raciais
E tinham direito à sua sobrevivência.
Eu sou a que está convosco, incompreendidos,
Que não querem curvar-se ao cativeiro,
Que querem ser livres, encontrarem-se,
E acreditam que num futuro aurifulgente,
Num mundo sem ódios, nem concessões,
Tudo será melhor, será diferente.
Vera Lucia

Sanzalando