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Conversas à Mesa
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12 de janeiro de 2021
livre
E se queima lenha nesta lareira de inverno no hemisfério norte enquanto a minha arejada tola vai-se vagabundando em pensamentos soltos, paragáficos ou textualizados. Pouco me importa desde que eu seja livre de os trazer à mente. Tantas flores e plantas que cuidei e que murcharam enquanto outras, com o mesmo carinho e tratamento florem por aqui sem estação do ano nem apeadeiro local. Quanta luz entra em salas que fechei nas tardes frias deste inverno? Quantas brisas viraram tempestades mentais nas minhas vagabundagens? Quantas vezes me abandonei para me sentir só e desconsegui? E os sorrisos que viraram lágrimas e vice versa? Mas eu sou livre de ter à mão de semear os meus pensamentos, o meu refrescado sorriso e as minhas frases simplesmente simpáticas. É a vontade de poder ser livre que aquece o meu coração.
11 de janeiro de 2021
assim e depois
Mantendo a lareira acesa até me esqueço em que altura do ano eu estou. Às vezes até me dou comigo a viver para lá da minha visão, no tropical calor da minha terra. Não é fácil acordar desse divagar mental. Não é dócil nem meigo e nem delicado. É abrupto entrar na realidade, nos meus abraços, sorrisos e frases simples de pensamentos divagados. É, somos recompensados pela erudição, educação, disciplina e clareza. A realidade é isto, sem ses ou outras condicionantes. Estes valores são a nossa sina.
Eu sou assim e vou fazer mais como então?
Sanzalando
10 de janeiro de 2021
pensamentos que ainda não pensei
E o frio deu forte que nem a lenha que tenho consegue aquecer. Acho que este frio tem um nome: saudade. Só pode ser porque frio que é frio desaparece com uma mantinha nas pernas. este não desaparece nem de noite nem de dia. A lareira parece é pequena para tanto frio assim. Com frio como posso ter tempo para pensar? Só penso frio e pensamento frio não parece uma ideia genial. Eu sei que assim tenho tempo para descansar os poucos pensamentos que ainda não pensei.
9 de janeiro de 2021
8 de janeiro de 2021
Fui chipado e não sabia
A hoje uma aplicação deu-lhe para me dizer por onde andei. Eu não tenho chip mas chipei-me com esta modernice de alguém saber onde estou mesmo que eu não saiba. E daqui me ter lembrado que a vacina contra o SARS-COV2 mais não seria que a implantação dum chip para isto e aquilo. Mas mais para quê. Conferi 2019 e estava certo também e ainda não havia essa do COVID19. Foi um ano que andei pouco, que não deixei que os meus olhos absorvessem outras paisagens, outras gentes e culturas. Foi um ano que mais uma vez o meu coração latejou porque não foi lá em baixo que nem aparece neste mapa por onde andei. Foi mais um ano em que de ausência mais cresceu a minha saudade. E foi neste mapa que eu descobri onde fica a linha recta que é curva e não me deixa olhar para o meu destino.
Fiquei a saber que caminhei 106 km (24 h), que fiz 7 141 km (308 h) de carro, 1 392 km (100 h) de bicicleta, que fui a 60 restaurantes, a 29 lojas fazer compras e que visitei montes de sítios, sendo apenas um fora de Portugal. E preciso de chip para quê?
7 de janeiro de 2021
vagabundo da mente e não um vadio demente
Aqui está frio. Lá está calor. À lareira está quentinho mimado. Assim posso meditar sobre tudo e sobre nada com descanso da mente e do físico. Vou só vagabundar-me sem ideias e sem preconceitos. Vou, assim num deus dará. Não tenho que ouvir estórias nem lhes fazer. Não preciso principio nem fim. Vagabundo na mente como num aleatório estado do mesmo sítio. Se ouvir o capuchinho vermelho o mau da fita é o lobo. Hoje não preciso de estórias. Nem de ideias. Vou sem fazer ideia para onde. Imagino-me um vagabundo da mente e não um vadio demente.
6 de janeiro de 2021
saudade
Hoje desconsigo ficar sem lareira bem acesa e forte. Faz frio que até a alma se congela se não a cuido e depois eu não posso olhar para as minhas estrelas mentais e poderei sentir outras coisas para além da saudade. Saudade não é tristeza. Saudade é desabafo mental, é memória que vem à superfície para a gente olhar no dentro de nós mesmo. Hoje somos um somatório de saudades, mesmo daquelas que nós não sabemos que temos. Tem dias que nós vamos dormir para não sentir saudade e acaba por sonhar essa saudade. Destino ou fado da memória.
5 de janeiro de 2021
lareira
E a lareira pouco me aquece com o frio que sinto. Mas mantendo-me ocupado em deambulações pensantes finjo-me sentir bem e confortável. Não é um fingir de mentira, é só mesmo uma constatação de que a realidade não se pode sobrepor ao meu estado de espírito. Sabes que mesmo á noite o zulmarinho é azul? As pessoas se enamoram não importa a altura do ano ou as estações? A escuridão se apaga ao acender da luz? À luz do sol pouca tristeza se apega? As sombras não me metem medo mesmo que às vezes me assustem? Tudo isto são silhuetas da existência, mostras de vida. Todos os sonhos cabem na vida, mesmo quando a lareira parece se apagar.
4 de janeiro de 2021
momentos
E hoje quase era enganado pela visão. O sol brilhou como quando era verão. O corpo ao entrar na rua estremeceu e me lembrou era inverno no lado de cá. Arrepiei caminho e me sentei novamente a olhar as labaredas dançantes da minha lareira e fui de pensamento em pensamento como se fosse o primeiro dia da minha vida. É que é para nós, humanos, difícil entender que a vida é finita. Custa entender que cada momento é vida, que cada momento é esperança. É que a gente não pode perder cada segundo daquilo nos prende cá: a vida. Altos e baixos são momentos insignificantes por mais tempo que tenham. Antes que finde vou viver, mesmo ao frio aquecido da minha lareira.
3 de janeiro de 2021
simples
Calorzinho bom nesta sala virada meditatório. Assim eu vou conseguir deixar-me navegar por pensamentos calmos e serenos, como serena quero a minha vida. Eu acho, num por assim dizer, que cada um merece receber o amor que quer dar. Reciprocidade. Palavra cara porém não custosa de dar. Não há necessidade de haver guindastes ou gruas para ir buscar na profundeza dos desespero um gajo. Uma pessoa dá, recebe igual em troca. Assim simples e sem ter de mendigar ou solicitar com vénia e faz favor. A vida tem de ser simples ou simplesmente a gente se afunda.
2 de janeiro de 2021
sábado num fim de tarde encalorado
Quanta lenha vou precisar para manter a lareira acesa este inverno? Eu preciso mesmo é de me manter quente para poder deixar o meu pensamento vagabundear por aí, sem arrepios e nem mendigando aconchego em colos alheios. Gosto-me quando penso tontarias, quando meto os pés pelas mãos em datas e alturas. É sinal que já vivi um bom bocado e que essa base fez-me ser o que sou agora. Amanhã logo se verá, tal como a lenha.
Na verdade hoje faz anos que eu vagabundei na minha cidade, de noncacos ou de burra, a pé ou de citroen. Não me lembro quantos anos nem me lembro como é que foi. Sei que foi que percorri todas aquelas ruas num fim de tarde com o pensamento nela. Já não sei se trocamos palavras ou frases, sei só que passeamos o que chamavam o passeio dos tristes. E nós ali tão felizes. Eu devo ter dito qualquer coisa engraçada porque me lembro que rias. Ou rias apenas porque estavas feliz? Não importa a não ser o facto de rires e seres feliz.
Era sábado num fim de tarde encarolado.
1 de janeiro de 2021
e chegou 2021
Sentado à lareira, mantinha sobre as pernas, mantendo-me quente como se estivesse lá nos meu sul, embora a sensação térmica não se compare com a sensação mental. Hoje já fui ver o meu zulmarinho, aquele caminho que um dia me levará para lá, onde não estarei à lareira mas à beira dum horizonte infindável, descrevendo passados e presentes de outrora. Hoje já fui fazer exercício para não obesidar o meu corpo físico deteriorando a mente em esforço. Agora aqui, neste quente aconchegado e belo me delicio a navegar por mim, a rever os momentos que quero recordar para sempre, um bom vinho bebido, uma música que não sai do ouvido, os amigos que estão na memória, as ilusões que sobraram.
Hoje, aqui sentado, festejo a chegada do ano novo, aquele em que eu serei o meu herói, capaz de derrotar o inimigo invisível chamado tempo, que nos desgasta e consome.
Hoje, aqui sentado, relembro o ano passado e todas as coisas que com ele aprendi. Há humanidade.
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