Há um dogma antigo, trespassado em tom de aviso solene por tias, primos e empregados de mesa com anos de casa, que diz com todas as letras: Sobre política, religião e futebol não se discute.
Pois bem. Eu levei a lição tão a sério que fiz dela o meu refúgio e o meu mantra. Em qualquer jantar de grupo, ajuntamento familiar ou conversa de café ao fim da tarde, sou aquela figura exemplar que acena com a cabeça, sorri com benevolência universal e passa travessa do cozido com a destreza de quem manuseia porcelana fina. Olham para mim e pensam: Ali está um homem de paz, uma alma sem dogmas, uma mente leve que flutua acima das paixões terrenas.
Coitados. Se soubessem o vulcão de certezas absolutas que fervilha debaixo deste ar de monge franciscano, feito santo de pau carunchoso.
A verdade é que eu não sou isento; sou apenas um estratega do silêncio. Tenho sobre a política, a fé e a bola ideias tão redondas, bem formadas e afiadas que, se as pusesse em pratos limpos, a mesa de jantar transformava-se na Terceira Guerra Mundial antes do café.
No futebol, por exemplo, vejo pessoas a esganarem-se por causa de um fora de jogo de dois centímetros, a esbracejarem contra o ecrã do televisor e a insultarem os antepassados, os presentes e futuros do árbitro. Eu fico calado, a mastigar lentamente o meu croquete, rissol ou croassant. Mas, por dentro, o meu treinador interno já fez uma análise cirúrgica do jogo, identificou que a defesa está a jogar com o bloco demasiado alto, concluiu que o meio-campo não dobra os alas e já despediu o treinador três vezes antes do intervalo. Apenas não digo nada. Para quê estragar o croquete, o rissol ou o croassat?
Na política, a ginástica é ainda mais acrobática. Quando a conversa envereda pelos caminhos da governação, das ideologias e dos orçamentos, o ar da sala fica imediatamente denso. É ver quem grita mais alto para provar que o mundo está a cair aos bocadinhos. Eu limito-me a beber um gole de água, a olhar para o tecto com ar reflexivo e a soltar uma frase neutra e devastadora do género: Pois... é a conjuntura. Ninguém sabe o que significa, mas todos concordam. Ninguém desconfia que, na minha cabeça, tenho um plano de reestruturação socioeconómica tão perfeito e detalhado que resolveria o défice, a habitação e a carga fiscal antes do próximo trimestre. Simplesmente guardo-o para mim. O país ainda não está preparado para a minha clarividência.
E na religião? Ah, o terreno sagrado. Quando a discussão entra pelo mistério da fé, pelo cosmos e pelo destino das almas, eu recuso-me a entrar no debate de terço na mão ou de bandeira ateia ao vento. Contemplo o horizonte, dou um ar de profundidade filosófica e sussurro: O importante é sermos boas pessoas. Ganho a simpatia dos crentes, a aprovação dos agnósticos e a trégua de todos. Mal sabem eles que a minha teologia pessoal é um tratado de tal forma rigoroso e lógico que faria São Tomás de Aquino pedir uns dias para pensar.
O segredo não é a falta de convicção. É a poupança de energia.
Tenho a opinião tão bem formada, mas tão bem formada, que gastá-la numa discussão ruidosa entre a sobremesa e o digestivo seria um sacrilégio. Prefiro a posição confortável do observador silencioso. Enquanto o resto da mesa se debate entre cartões vermelhos, reformas fiscais e a existência do além, eu peço mais uma mousse de chocolate. Se há coisa sobre a qual a minha opinião é verdadeiramente inabalável, é que a tarte de maçã não é a minha preferida. E sobre isso, garanto-lhe, não há discussão possível.
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