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9 de outubro de 2026

Antes de inventarem a lusofonia, já eu ouvia música

Nos anos 70, do século passado, eu gostava de música lusófona. O problema é que ainda ninguém tinha inventado a lusofonia, o que me colocava numa situação bastante complicada: eu tinha gosto musical, mas faltava-me o nome científico para o justificar.

Hoje, é tudo mais fácil. Uma pessoa ouve música de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, do Brasil ou de Portugal e diz, com ar entendido: Tenho um gosto muito particular pela lusofonia.

Naquele tempo, se eu dissesse uma coisa dessas, arriscava-me a que me perguntassem se estava doente com paludismo e delirava, se tinha apanhado demasiado sol ou se precisavam de falar com o reitor para me mandar para uma consulta qualquer.

Nos anos 70, as coisas eram mais simples. Gostava-se de uma canção, gostava-se de um cantor, comprava-se um disco quando havia dinheiro e ouvia-se rádio até a família começar a ameaçar desligar o aparelho.

Eu gostava de música. E gostava particularmente daquela música que era de Angola, do Brasil, de Portugal e de outros lugares onde se falava português, embora ninguém tivesse ainda organizado a coisa numa grande família cultural, com congressos, seminários, discursos inaugurais e fotografias de grupo.

A música já se entendia muito bem sem precisar de reuniões diplomáticas.

Havia os Duo Ouro Negro, que levavam Angola para os palcos do mundo com uma naturalidade desconcertante. Havia vozes brasileiras que nos chegavam carregadas de ritmo, romantismo e uma capacidade extraordinária para nos fazer sofrer por amores que nunca tínhamos vivido. E havia a música portuguesa, que tanto nos punha a cantar como nos deixava a olhar para o horizonte com ar de quem tinha acabado de perder uma herança. 

Eu ouvia tudo.

Ou quase tudo, porque havia sempre alguém disposto a explicar-me que determinado cantor não prestava, que aquela música era comercial, que a outra era demasiado sentimental e que a terceira não tinha qualidade artística nem estrutura poética.

Essas pessoas existiram, e ainda existem. Mudaram apenas de roupa e passaram a escrever comentários na Internet.

Naquele tempo, eram especialistas de café. Tinham opiniões definitivas sobre música, política, futebol e mulheres, embora, na maior parte dos casos, as mulheres não lhes reconhecessem qualquer competência na matéria ou a gente sabia que aquilo era só teoria.

Eu, que era jovem e ainda acreditava na possibilidade de mudar o mundo, escutava-os com respeito. Depois ia para casa ouvir os discos de que gostava.

A minha paixão musical tinha também um lado geográfico. Angola não era apenas o lugar onde vivíamos. Era um universo sonoro que entrava pelas janelas, atravessava as ruas e se instalava na memória.

Em Moçâmedes, a música fazia parte da vida. Havia o rádio, os discos, a discoteca e as festas, as conversas e aquela permanente competição entre vizinhos para descobrir quem tinha o melhor equipamento de som. O que, na prática, significava quem conseguia fazer ouvir a sua música a uma distância maior. Reconheço que na minha rua não era assim. Mas que se ouvia música e muitas vezes ao vivo é verdade.

A acústica era excelente. 

Bastava alguém comprar um disco novo para a cidade inteira ficar informada. Não existiam redes sociais, mas existia o senhor da casa ao lado, que tinha o volume no máximo e uma janela estrategicamente aberta.

E depois havia os discos. Ah, os discos!

Um disco de vinil era uma coisa séria. Não se comprava com a ligeireza com que hoje se escolhe uma música no telemóvel. Era preciso poupar, procurar, comparar, negociar com a consciência e, por vezes, convencer os pais de que aquela aquisição constituía um investimento cultural de primeira necessidade.

O problema era explicar-lhes por que razão um rapaz precisava de mais um disco quando já tinha vários. Porque este é diferente, respondia eu, sem poder dizer que aquele era comprado escondido porque não se podia vender.

Era o argumento universal da juventude. Servia para discos, calças à boca de sino, camisas extravagantes e namoradas que os pais consideravam não termos idade para isso.

Quanto às namoradas, a minha argumentação era menos convincente. Mas isso é outra história, embora também pudesse ser acompanhada por música brasileira.

O mais curioso é que, sem o saber, eu andava a fazer aquilo que muitos anos depois receberia um nome pomposo: consumir cultura lusófona.

Na década de 70, porém, ninguém dizia «consumir cultura lusófona». Dizia-se que se gostava de música angolana, brasileira ou portuguesa. E, quando uma canção nos tocava, não precisávamos de saber a nacionalidade exacta do compositor, a classificação do género musical ou o enquadramento histórico da obra. Gostávamos. Ponto final. A língua portuguesa era o fio que nos ligava, mas a música fazia muito mais do que isso. Transportava ritmos, sotaques, maneiras de sentir, histórias de amor, saudades, alegrias e tristezas que atravessavam o Atlântico sem necessidade de visto.

Só mais tarde alguém se lembrou de chamar lusofonia a esta família de culturas e de línguas. A palavra é útil, tem dignidade e até fica bem em cartazes institucionais. Permite organizar festivais, promover encontros e escrever discursos com muitas referências à diversidade cultural.

Mas desconfio de que, se os músicos dos anos 70 tivessem esperado pela invenção da palavra para começar a fazer música, ainda hoje estaríamos à espera do primeiro concerto.

Felizmente, ninguém lhes pediu autorização.

Raul Indipwo e Milo MacMahon não precisaram de um gabinete de cooperação linguística para fazer os Duo Ouro Negro. Os músicos brasileiros não precisaram de uma comissão para atravessar o oceano. E os cantores portugueses não tiveram de preencher um formulário para chegar aos nossos ouvidos. A música circulava porque havia quem a tocasse e quem quisesse ouvi-la. E nós ouvíamos.

Podia ter-me tornado uma autoridade na matéria. Quem sabe, até ser consultor musical de algum organismo internacional. Passaria os dias a explicar a importância da circulação das expressões artísticas no espaço da língua portuguesa, enquanto alguém me servia um café e me perguntava se eu conhecia aquela canção brasileira que tinha ouvido na rádio. Eu responderia com ar grave:

- Conheço, naturalmente. Ouvi-a em 1973, antes da institucionalização do conceito. - E cobraria honorários. Mas não. Naquele tempo, eu era apenas um jovem apaixonado por música. Não tinha grandes teorias, não dominava o vocabulário académico e não fazia ideia de que um dia alguém inventaria uma palavra para juntar tantas coisas de que eu já gostava.

Tinha apenas discos, rádio, curiosidade e uma língua que me permitia reconhecer, em vozes diferentes, qualquer coisa de familiar. Talvez seja essa a verdadeira história da lusofonia: antes de ser uma palavra, já era uma emoção. E, se me perguntarem hoje o que é a lusofonia, posso dar uma resposta muito mais simples do que a de qualquer conferência internacional. É aquela canção angolana que me faz lembrar a terra. É aquela música brasileira que me faz acreditar que o amor ainda é possível, apesar das evidências em contrário. É aquela voz portuguesa que nos deixa melancólicos mesmo quando está sol. É o prazer de descobrir que, do outro lado do oceano, alguém canta numa língua que também é nossa, mas com uma maneira diferente de lhe dar vida. E é, sobretudo, a liberdade de gostar de tudo isso sem pedir licença a ninguém. Nos anos 70, eu já sabia. Só me faltava a palavra. E, francamente, entre ter a palavra certa e ter um bom disco para ouvir, sempre preferi o disco. Até porque a palavra não dá música. E um discurso sobre lusofonia, por muito bem escrito que seja, não substitui os Duo Ouro Negro a tocar na sala, com o vizinho a bater à porta e a minha mãe a gritar da cozinha:

- Ó rapaz, baixa isso!

Aí está uma expressão de verdadeira universalidade cultural. Em Angola, em Portugal ou no Brasil, há coisas que nunca precisam de tradução.



Sanzalando

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