No início dos anos 80, do século passado, o Porto não se descobria na ecran de um telemóvel; descobria-se pelo faro, pelo bater do vento nas esquinas da Cedofeita e pelo ruído cadenciado dos elétricos a ranger nos carris, subindo os Clérigos ou descendo a Boavista. Chegar aqui para estudar Medicina, vindo de um lugar bem distante, era como saltar de um avião sem grande instrução prévia: éramos um grupo de miúdos caídos de pára-quedas, aterrados diretamente entre a bruma da Foz, as fardas brancas do Hospital de São João e as mesas de madeira gasta dos cafés, como o Piolho.
Namorar nessa altura era um exercício de paciência e de presença absoluta. Não havia mensagens instantâneas a perguntar onde estás". A certeza do encontro baseava-se numa promessa feita na véspera, à saída duma aula teórica de Anatomia: às seis na Praça dos Leões, ou na RUF, conforme fosse o plano. E lá ficávamos, de golas do casaco levantadas contra o frio nortenho, a ver as horas passar no relógio de pulso, com o coração a dar saltos a cada figura que emergia no horizonte. Se o outro se atrasava vinte minutos, a angústia era real, mas a recompensa de ver chegar trazia uma densidade que o mundo digital jamais conseguirá reproduzir.
A vida de estudante era um malabarismo entre o rigor assustador dos livros espessos e a descoberta da liberdade. Dividíamos apartamentos velhos de teto alto no Marquês, na Boavista, na Álvares Cabral, na Areosa ou sei lá mais onde´o frio entrava pelas frestas das janelas e a comida era uma invenção dominical à base de atum e massa ou frango no forno, porque durante a semana éramos salvos por uma cantina. Vivemos a transição do país, mas para nós o mundo resumia-se àquela irmandade de estrangeiros na cidade invicta. Aprendemos as gírias portuenses, o orgulho nortenho e a solidariedade crua de quem partilha o mesmo destino.
Os encontros amorosos desenrolavam-se ao som de cassetes gravadas à mão — com fita ajustada à ponta de uma caneta Bic. Namorava-se na penumbra do Piolho, entre fumaça de cigarros e copos de cerveja, trocando olhares por cima das sebentas marcadas a amarelo. O primeiro beijo acontecia muitas vezes nas escadarias dos Clérigos ou ao longo da Ribeira, quando o Rio Douro ainda pertencia aos barcos e aos habitantes. Não me lembro de ver turistas naquelas bandas.
Olhando para trás, esse namoro dos anos 80 no Porto tinha a cor das fotografias em papel e o cheiro a maresia misturado com desinfetante hospitalar. Éramos jovens, estávamos longe de casa e tínhamos o futuro inteiro para diagnosticar. Mas, por entre os corredores do São João e as noites longas na Baixa, a maior lição que a Medicina nos deu foi a de que nada cura melhor a nostalgia do que o abraço certo numa tarde cinzenta de inverno nortenho.
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