O Porto em maio de 1979 não era uma cidade para saudades apressadas. Tinha a cor húmida do granito, o cheiro do Douro e ainda a andava no ar a poeira quente da revolução. Passaram cinco anos desde abril de 1974, cinco anos em que a capa e a batina de estudante tinham sido arrumadas no fundo do armário, quase num segredo de estado, como lembranças e artefactos de um passado que a nova história parecia querer dispensar.
Dizíamos nas cantinas e nos corredores das aulas que a praxe era velharia, era história de um passado e que a Queima era elitista, burguesa. Mas em 1979, a juventude universitária portuense sentiu aquela urgência irreprimível que só os vinte anos conhecem: a necessidade de ter uma festa para chamar sua.
O silêncio académico não durou para sempre. Em maio de 1979, a tradição não renasceu por decreto, mas pela vontade teimosa de quem queria celebrar o fim de uma etapa. Eu era um contra tantos.
Nas ruas da Baixa, os estudantes voltaram a sair. Não vinham como dantes, com a solenidade solene de outros tempos, segundo me disseram, mas com a vivacidade de quem inventava um novo começo. As capas pretas, resgatadas ao cheiro da naftalina, voltaram a sacudir o ar frio do Norte. Os tons das fitas de cetim da Engenharia à Medicina, das Letras às Ciências voltaram a dar cor aos rostos cansados de frequências e de noites mal dormidas.
Lembro-me do burburinho na Avenida dos Aliados. Não havia a megalomania dos grandes festivais de hoje, nem os recintos fechados. Havia a rua, o improviso e uma alegria quase clandestina. A cerveja corria em copos de plástico, o som das violas e dos cânticos rompia a pacatez dos Aliados, e as fitas dobradas no regaço dos estudantes esperavam pelo momento crucial.
Quando a primeira chama tocou o cetim na bacia de metal, o fumo subiu denso contra a fachada dos Clérigos. Queimar a fita em 1979 não era apenas cumprir um ritual passado de gerações: era um acto de libertação. Queimavam-se as cábulas, os exames, as ansiedades do futuro incerto de um país em reconstrução, mas, acima de tudo, queimavam o medo de celebrar.
A Queima de 1979 foi a ponte perfeita. Nem puramente antiga, nem completamente moderna. Foi o momento em que a Academia do Porto provou que era possível honrar a memória sem abdicar da liberdade.
Ao fim da noite, quando as cinzas das fitas já descansavam na calçada e a neblina subia da Ribeira para abraçar a cidade, ficou a certeza: o Porto tinha recuperado a sua voz mais jovem. E aquela chama, reacendida em 1979, nunca mais se iria apagar.
E eu assistiria a tudo do lado de fora, na beira do passeio, jurando a pés juntos que a burguesia jamais me dobraria.
Outras queimas houve e outras em que sempre estive no lancil a ver. Batia o pé ao som mas não pulava de alegria. Cumpria o meu dever de estudante, sem cair na tentação de fazer o que eu achava ser outra época.
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