Em 1980, a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto vivia tempos de pura efervescência política. A esquerda ortodoxa, habitualmente tão cheia de teses, comités e convicções, cometeu uma falha técnica imperdoável naquele ano: esqueceu-se de arranjar um candidato que lutasse pela Associação de Estudantes.
Foi assim que a escolha caiu sobre mim. Eu não era tipo de militante de punho erguido que passa as noites a ler compêndios ideológicos, mas tinha atributos imbatíveis: era bem-disposto, dava-me bem com toda a gente e parecia suficientemente corajoso, ou apenas ingénuo, para aceitar o desafio. A malta da esquerda olhou para mim, sorriu e disse: "És tu!" Se não foi assim foi um quase assim. Eu era irrequieto, protestava por tudo e por nada e tinha sempre uma palavra.
Do outro lado, a realidade era avassaladora. A lista afeta ao PPD não tinha apenas candidatos: tinha uma máquina de guerra. A Associação de Estudantes funcionava com uma precisão quase empresarial, tão bem gerida e eficiente que dava até um certo constrangimento intervir. Eu próprio olhava para aquela estrutura perfeitamente oleada e pensava, com os meus botões, que seria uma verdadeira crueldade e um péssimo serviço público ganhar as eleições e destruir algo que até parecia profissional.
A urna acabou por acalmar rapidamente esses meus sobressaltos morais. Quando fomos aos resultados, a contagem final parecia mais uma temperatura de febre do que uma votação política: 37 votos para a minha lista e 400 para a outra lista. Chorei? Não. Sorri? Também não.
Sim, leu bem. Nem o meu próprio voto lá parece ter aparecido. Enquanto a oposição celebrava uma vitória esmagadora, eu olhava para aquele redondo "37" com o alívio silencioso de quem preservou a eficiência da faculdade e a certeza absoluta de que, pelo menos na política, a minha vocação era ser um excelente espectador. Nunca mais ninguém se lembrou de mim.
(o ano já não sei precisar mas foi mais ao menos por aí)
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