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17 de agosto de 2026

no Lar da Álvares Cabral

No lar da Rua Álvares Cabral, no Porto, havia tradições que não estavam escritas em lado nenhum, mas que toda a gente conhecia. Uma delas era o julgamento dos caloiros. Outra era a lerpa à sexta-feira. E havia ainda uma terceira, muito mais misteriosa: aos sábados, apareciam ao pequeno-almoço muito mais residentes do que durante toda a semana.

O Lar tinha uma população curiosamente internacional. A maioria tinha vindo de Angola, com a experiência de quem já conhecia outros céus, outros calores e outras maneiras de olhar para o mundo. Do Norte de Portugal eram poucos, suficientes, contudo, para garantir que ninguém se esquecia de que estávamos no Porto.

Quando chegavam os caloiros, começava o julgamento. Não era exactamente um tribunal apesar de parecer e tivesse acusação, defesa, testemunhas, sentença e uma boa dose de arbitrariedade. Os veteranos assumiam a nobre missão de avaliar os recém-chegados, como se a entrada na universidade exigisse, além das matrículas e propinas, uma espécie de certificado de sobrevivência social.

Os caloiros eram chamados a responder por crimes que ainda não tinham cometido, intenções que talvez nunca tivessem tido e, sobretudo, pela imperdoável falta de conhecimento das regras da casa que digamos eram criadas na altura. Havia perguntas embaraçosas, provas ridículas e acusações inventadas no momento. O objectivo não era propriamente humilhar ninguém era, sobretudo, estabelecer rapidamente uma hierarquia e garantir que, dali em diante, ninguém poderia dizer que não conhecia os costumes. A Sangria e a Santa Cerveja não faltavam. Não fossem os veteranos desidratarem ou os caloiros utilizarem o silêncio para benefício próprio.

E costumes não faltavam embrar não estivem escritos.

À sexta-feira, por exemplo e por regra, havia os jogos de lerpa. A lerpa tinha a extraordinária capacidade de transformar estudantes aparentemente pobres em banqueiros de alta finança durante algumas horas. As moedas mudavam de mãos com uma rapidez suspeita, surgiam estratégias que ninguém percebia e havia sempre alguém que jurava que, naquela noite, tinha sido vítima de uma injustiça.

Na realidade, a única coisa certa era que, no fim, havia menos dinheiro no bolso de uns e mais conversa fiada no bolso dos outros.

Mas um outro mistério do Lar acontecia aos sábados de manhã.

Durante a semana, o pequeno-almoço era uma cerimónia quase deserta. Havia sempre uns quantos resistentes, evidentemente os mais disciplinados, os mais famintos ou simplesmente aqueles que ainda não tinham descoberto que as aulas começavam a horas.

Ao sábado, porém, dava-se o milagre. Apareciam quase todos. Só não iam os que tinham aproveitado a tarde de sexta para irem a casa. O que eram poucos entenda-se.

A senhora que tomava conta do Lar durante o horário normal de expediente começou a reparar na coisa. Durante a semana, parecia que alimentava um grupo de fantasmas universitários: pouca gente, poucas cadeiras ocupadas, silêncio relativo. Chegava o sábado e, de repente, o refeitório enchia-se.

Aquilo intrigava-a.

- Mas por que é que ao sábado vêm tantos tomar o pequeno-almoço?

Era uma pergunta perfeitamente legítima. O problema é que ninguém parecia disposto a responder com a verdade.

Porque a verdade era simples: na sexta-feira à noite ninguém dormia.

Havia a lerpa, havia as conversas, havia as visitas aos quartos uns dos outros, havia histórias de Angola e do Porto, havia namoros e as noites de namorada, discussões, gargalhadas e a inevitável promessa de só mais um bocadinho, como dizia o Sérgio Godinho. Quando finalmente era hora de ir dormir coincidia com a hora do dito pequeno-almoço porque já o sábado ia bem avançado. Esperávamos a chegada dela. Pequeno-amoçávamos e então era dormir até hora de procurar cantina para o almoço.

E, depois de uma noite dessas, quem é que tinha forças para se levantar?

Pois precisamente: todos.

O pequeno-almoço de sábado era, portanto, mais uma refeição em continuação oficial da noite anterior.

A senhora, naturalmente, não podia saber disso. Dentro das horas normais de expediente, havia regras, horários e alguma preocupação com a ordem. O que acontecia depois, quando os estudantes começavam a viver verdadeiramente, pertencia a outra administração a administração da juventude.

E talvez tenha sido essa a grande aprendizagem do Lar Álvares Cabral: os caloiros podiam ser julgados, os jogadores de lerpa podiam perder dinheiro, e os estudantes podiam desaparecer misteriosamente durante a semana. Mas, chegado o sábado de manhã, lá estavam quase todos, de olhos pequenos e consciência tranquila, sentados à mesa.

Como se nada tivesse acontecido.

E talvez não tivesse mesmo acontecido.

Pelo menos, oficialmente.



Sanzalando

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