recomeça o futuro sem esquecer o passado

25 de maio de 2026

Será?

Olho agora lá para trás. Me vejo e se fosse hoje?

Naquele tempo, brincar na rua era uma profissão de risco. Não havia capacetes, joelheiras, protetor solar nem psicólogos especializados em traumas provocados por quedas de bicicleta. Havia apenas duas coisas essenciais: joelhos esfolados e mães à janela a gritar o nome quase completo dos filhos, o que já significava que a situação estava grave.

A nossa rua era um autêntico parque temático da imaginação. De manhã era pista de carrinhos de rolamentos, à tarde campo de futebol e à noite território de cowboys internacionais, pelo menos segundo a nossa imaginação. Uma vassoura servia de cavalo. E um pneu abandonado era motivo suficiente para três horas de felicidade gratuita.

Hoje fala-se muito em brincadeiras educativas. As nossas eram educativas porque ensinavam logo física, medicina e sobrevivência. Aprendíamos gravidade quando caíamos de um muro. Anatomia quando descobríamos músculos novos depois de jogar à bola. E diplomacia quando era preciso decidir quem levava a bola para casa sem provocar uma guerra civil. Acho que não foi por isso que possa ser mal educado.

Havia sempre um rapaz mais velho que mandava em tudo. Tinha um joelho permanentemente ligado com adesivo castanho e dizia frases misteriosas como:
- Eu cá já fui às furnas sozinho. - ou qualquer outra coisa que era ousada para nós.

Ninguém sabia se era verdade, mas aquilo dava-lhe estatuto de aventureiro internacional.

Os jogos eram simples. Jogava-se à apanhada, às escondidas e ao futebol. Ah… o futebol! O grande problema do futebol de rua era a baliza. Nunca havia postes verdadeiros. Usávamos pedras, chinelos ou pastas da escola com livros dentro.

E havia sempre um vizinho que odiava bolas. Bastava a bola tocar no muro dele para surgir à janela como um juiz:
- QUALQUER DIA FURO ESSA BOLA! - que até se ouvia na rua ao lado

Curiosamente, ameaçava aquilo desde 1900 e nunca furava nada, pelo que contavam os mais velhos que ali também moravam e já ali tinham brincado. Talvez porque também estivesse entretido a ver o jogo ou se lembrasse que também já foi jogador daquela idade.

As bicicletas merecem um capítulo à parte. Naquele tempo havia sempre uma bicicleta comunitária. Não tinha travões, o selim estava torto e a corrente saía a cada dez metros. Mesmo assim era tratada como um Ferrari italiano legítimo.
- Dá uma volta mas não estragues! - dizia o dono que o era numa décima mão.

E as correrias? Corríamos por tudo e por nada. Corríamos atrás da bola, atrás da tifa, do carro do Lã dos gelados, atrás do amigo que tinha roubado um berlinde… e às vezes corríamos apenas porque alguém começava a correr. Ninguém perguntava porquê. O instinto dizia:

“Se os outros fogem, foge também.”

As mães tinham métodos educativos muito avançados. Hoje existe controlo parental. Antigamente existia:
- Às oito em casa! - sabendo elas que nenhum de nós tinha relógio. Mas era indiferente. Não importava onde estivéssemos. Às oito menos cinco começávamos todos a regressar lentamente, suados, sujos e felizes, como pequenos mineiros.

O mais extraordinário era isto: passávamos o dia inteiro na rua sem telemóveis, sem internet e sem baterias portáteis. A única bateria que interessava era a da lanterna quando faltava a luz e alguém dizia:
- Vamos contar histórias de fantasmas!

Cinco minutos depois já estava tudo borrado de medo, mas ninguém admitia.

Hoje, quando vejo uma criança a carregar um tablet maior do que ela, penso com ternura nos nossos tempos. Nós não tínhamos Wi-Fi ou telemóvel, mas tínhamos uma coisa muito mais forte: o assobio. Esse sim… era a verdadeira notificação da felicidade.

Será que eu hoje conseguia brincar como brinquei?

Sanzalando

Sem comentários:

Enviar um comentário