recomeça o futuro sem esquecer o passado

Programas K'arranca às Quartas no Blog

21 de julho de 2025

À Beira do Abismo

O sol ainda não tinha acordado completamente por detrás das serras quando pus os pés na borda da Tundavala. O vento ali sopra diferente, muito diferente do vento do deserto, não como uma brisa carregado de alfinetes de areia, mas como um sussurro antigo, trazendo histórias do abismo, contos e estórias de mais tempo que o tempo que tenho..

A paisagem abriu-se diante de mim como uma pintura viva: a falésia rasgava a terra num corte profundo, e o mundo se estendia em silêncio até onde a vista cansava. Por um momento, juro que foi um instante, eu ouvi a serra a se rasgar e senti que podia cair, não de medo, mas de admiração e espanto. Acho o tempo parou para me deixar olhar.

Fechei os olhos. Ouvi os gritos das aves, o murmúrio das folhas, e talvez, quem sabe, um eco distante da minha própria alma, respondendo à chamada da imensidão que os meus olhos mentais imaginaram..

Voltei dali diferente. A Tundavala não é só um lugar, é o meu espelho do infinito.



Sanzalando

18 de julho de 2025

palavras e parágrafo solto

Me sento só assim por sentar. Caneta na mão, comecei por desenhar. Desgostei. Não tinha forma nem interpretação. Eram riscos apenas. Segurei a caneta e desenhei uma letra, como fazia o meu avô. Gostei embora não fosse igual à dele. Tentei outras. Li-as. Perfeitas, porem não eram caligrafia. Eram apenas letras escritas. Repensei. Escrevi uma frase. Fazia sentido. Dei corpo e fiz um parágrafo. Pareceu-me bem. Guardei o papel. Talvez um dia volte a pegar neste papel e se as palavras se sentirem felizes eu talvez consiga escrever o que me vai na alma. Até lá, este papel vai ficar guardado, só porque sim.


Sanzalando

17 de julho de 2025

fui visitar o quartel tuga

O sol do Namibe batia seco e direto, como se me quisesse arrancar a pele queimando-a. O velho quartel português ainda resistia, encardido de tempo e no silêncio. As paredes estaladas, cobertas de poeira vermelha, guardavam mais do que tijolos — guardavam ecos. Que estórias ali terão acontecido? Que nomes por ali passaram.

Fui entrando devagar, como quem pisa solo sagrado. O cheiro de ferrugem e terra quente trouxe-me ao pensamento um nome apenas, Joaquim, soldado da metrópole, enviado para Angola num ano qualquer. Podia ser Manuel, Silva ou tro qualquer mas eu fiquei no Joaquim. Nas paredes do refeitório abandonado, o tempo estava congelado e imaginei vê-lo ali sentado. Numa parede, rabiscado a carvão, li ou imaginei que li qualquer coisas assim "Joaquim 14/03 Se eu morrer, digam à Rosa que sorri até ao fim". Quis confirmar mas desencontrei as letras. Acho foi só a minha imaginação que fez ler uma frase que ali não estava. Ou terá sido uma insolação que me fez delirar? Parei no meio da parada. O mesmo nome não me saia da cabeça. As paredes falaram comigo de certeza quase absoluta. Não com som, mas com presenças. Ali, no silêncio estalado do quartel, encontrei algo mais profundo que qualquer fotografia: o rastro da esperança no meio da guerra.

Sorri. Sai do quartel com o coração mais cheio do que quando entrei. E, no céu do Namibe, uma brisa quente pareceu dizer:

— A Rosa soube.


Sanzalando

16 de julho de 2025

Esta Música tem uma História - 18 - GNR - Eu não sou assim - Programa K'arranca às Quartas


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Filipa Amorim, Lourenço Seruya e Bruno M. Franco - Autores - Programa K'arranca às Quartas


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Tesourinhos Musicais 51 - Paula Ribas - Programa K'arranca às Quartas


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Crónica 64 - Programa K'arranca às Quartas


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Programa 76 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 16 de Julho, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica, três escritores, Filipa Amorim, Lourenço Seruya e Bruno Franco foram entrevistados ou conversados a quando da sua passagem pela Feira de Livros de Portimão, tivemos Esta Música tem uma história, com os GNR e a música Eu não sou Assim - colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com Paula Ribas, o poema Namoro de Viriato da Cruz dito por Domingas Monteiro, tivemos Microfone Livre com o Poeta dos Mortos Ancestrais e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.

o som está muito melhor

 

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

15 de julho de 2025

Passeei no deserto

Passeei no deserto. Sozinho. Fui de burra, bicicleta ou chica até no velho estaleiro do Guerra que fez a estrada deserto fora. Para mim era muito longe, enquanto hoje eu ia dizer que fui só até ali.  Era já deserto dentro e agora é quase no meio da cidade. Outros olhos e novos pensares. O vento soprava em remoinhos suaves, levantando pequenos véus de areia que dançavam à minha frente como se tivessem vontade própria. O calor ondulava no horizonte que até parecia eram lagoas, e o céu, azul sem mácula, parecia indiferente à minha presença. E foi aí, no silêncio vasto e antigo, que comecei a pensar. Longe de casa, pernas cansadas, pensei devagar.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi o tempo. No deserto, ele não tem pressa. As dunas mudam, sim, mas numa paciência milenar, não porque eu tivesse visto mas todos me diziam. Na cidade os segundos correm como cães soltos atrás dos burras que até faz dar pontapés no ar, aqui os segundos rastejam como serpentes, calmos, seguros de que não precisam chegar a lugar algum. Eles se gastam sem sair do tempo.

Pensei depois na solidão. No deserto, ela não pesa, ela abraça. Diferente da solidão das salas cheias de gente, esta é honesta, quase reconfortante. Aqui, não é preciso disfarçar quem se é. Ninguém está a olhar. Nem sequer o próprio deserto. Ele simplesmente existe, como uma verdade que não precisa de ser provada. Eu ali era mesmo eu. Magro, perna estreita a começar a ter pelos, cicatrizes nos joelhos, cabelo grande despenteadamente solto na brisa, sonhador de sonhos desamarrados. Era eru no mesmo intimo de gente.

E pensei ainda na procura. Todos procuramos algo, um sentido, uma resposta, um nome. Mas no deserto percebi que talvez a resposta seja justamente a procura. Talvez o vazio que tanto medo nos causa, seja afinal, o espaço onde tudo pode acontecer. Desencontrei resposta directa por muito que tenha procurado.

A areia escorria por entre os meus dedos como as certezas que eu já tive. Percebi que não saber também é um caminho. E que, às vezes, é preciso perder-me para me encontrar. Sabendo quem sou, o que queria e onde estava, olhei-me incerto e deixei-me assim estar até que um futuro me ia dizer que passado eu tive.

Quando o sol começou a descer, pintando o céu de fogo e sangue, sentei-me na burra, bicicleta ou chica e respirei fundo quando comecei a pedalar para casa.

Pelo caminho pensei que passeei no deserto a pensar. E talvez nunca tenha pensado tão bem.



Sanzalando

10 de julho de 2025

Cheguei ao Porto 15 e não sei se acabo aqui

Eu não era dado a grandes passeios. Vindo da cidade pequena os meus limites eram areia e mar. No Porto eu estava perdido, enclausurado na liberdade toda que tinha.
A zona da Ribeira era marcada por actividades portuárias e por uma degradação urbana. Ainda assim, já havia o encanto das casas coloridas encavalitadas umas nas outras e os barcos rabelos, quase sempre os vi parados, carregando pipas de vinho do Porto, não eram para passeios turísticos. As esplanadas eram tão poucas que poucos eram os turísticas, eram lugares simples, frequentados por moradores e trabalhadores e um ou outro estudante em dia de folga ou de comemoração de qualquer coisa, após receber a bolsa de estudo.
A Avenida dos Aliados já era o coração da cidade, mas o trânsito era intenso e o ambiente, menos polido que hoje. Os cafés, como o Café Majestic, mantinham a aura Belle Époque, mas eram sobretudo frequentados pelos portuenses, não por turistas. Eu entrei olhei e não frequentei pois tinha medo de não ter estatuto para tanto.
Os tróleis e os electricos ainda funcionava e circulavam. Passear neles era uma experiência autêntica, com janelas de madeira, bancos rijos e o tilintar característico descendo a Avenida da Boavista. Era um passeio para manhã de domingo quando o tempo permitia.
O comércio tradicional dominava: mercearias, retrosarias, lojas de ferragens, alfaiates e confeitarias. Será que havia pastelarias? Não me lembro e nem vou vasculhar. Locais como o Bolhão fervilhavam de vendedores e freguesas carregando cestas e muitos palavrões à mistura.
Nos anos 1980, muitos edifícios estavam em mau estado de conservação, sobretudo no centro histórico.
Mas afinal de contas eu estava ali para estudar, talvez namorar. Este ponto tenho marcado no esquecimento que até parece que não o vivi. Coisas da idade!
A francesinha já era um clássico para os dias de festa, de comemoração ou simplesmente para matar a fome naqueles domingos em que a carteira ainda não chorava de vazia,  ou então comer uma boa tripas à moda do Porto ou  com um fino fazia parte do clássico festim.
Mas relembro que eu estava no Porto apenas para estudar. Sorte sorte foi ter os meus mecenas em cada amigo que tive naqueles anos enclausurado na minha liberdade estudantil.


Sanzalando

9 de julho de 2025

Tesourinhos Musicais 50 - Os Demónios Negros


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Esta Música tem uma História - Tozé Brito e Paulo de Carvalho - Olá, Então como vais?


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Pedro Chagas Freitas - Autor em voz própria - Programa K'arranca às Quartas 75


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Crónica 63 - K'arranca às Quartas 75



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Programa 75 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 09 de Julho, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica, Pedro Chagas Freitas foi entrevistado ou conversámos(?), tivemos Esta Música tem uma história, Tozé Brito e Paulo de Carvalho em Olha entáo como estás? - colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com o Rock de Os Demónos Negros de Luís Jardim, tivemos a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira bem como o poema - Apresentação de Cecília Meireles

o som está muito melhor

 

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

8 de julho de 2025

divagação

Aprendi a viver com a solidão, a abraçá-la como uma velha amiga, a encontrar consolo no seu silêncio.
Mas depois, assim num vazio apareceste, deixei de lado a solidão e ter-te como companhia. Sequei as lágrimas, afastei saudades, pintei em cores  novos sonhos e assobiei canções que talvez tenha ouvido na adolescência. 
Ouço o mar, ouço vozes que falam na cidade, ouço crianças que cantam, ouço vida. 

Sanzalando

7 de julho de 2025

Milagrei um sonho

Na praia das miragens, olhei-a como quem olha algo que talvez nunca tenha existido. Era fim de manhã, a luz era intensa e brisa espalhava areias que pareciam pó de um outro tempo. Nem mesmo eu sabia muito bem onde começava o mar e acabava a imaginação, naquela praia tudo se confundia.

Ela estava ali, parada, tão real que chegava a doer. Talvez fosse só uma projeção de saudade. Talvez fosse apenas o reflexo do que eu precisava ver. Dizem que a praia das miragens devolve ao visitante aquilo que ele mais teme ou mais deseja. Eu não tinha decidido em qual desses extremos me encontrava.

O silêncio era tão pesado quanto a nostalgia. Havia gaivotas, mas não havia som. O horizonte tremeluzia como se fosse feito de vidro quente. E ali, entre a espuma e o vazio, estava ela, a menina que tantas vezes me visitou em sonhos e que, agora, parecia querer ganhar carne e voz.

Fiquei parado, sem coragem de avançar. Às vezes, é mais seguro contemplar de longe aquilo que nos arde no peito. Porque, se chegarmos perto demais, corremos o risco de descobrir que não passa de miragem.

E talvez seja melhor assim: deixar que a praia guarde os seus fantasmas e que cada um de nós conserve o consolo da ilusão. Foi assim que passeei na Praia das Miragens e milagrei um sonho que até neste agora não sei se foi real. 


Sanzalando

2 de julho de 2025

Programa 74 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 02 de Julho, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Ouça com atenção e pense ( o som ainda não recuperou do apagão de 28 de Abril pelo que peço desculpa)
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica, Fátima Lopes falou dos seus livros, ele mesmo, tivemos Esta Música tem uma história, com Paulo Gonzo e Ana Carolina e Nós os Dois - colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com o Rock de Raul Seixas, tivemos a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira bem como o poema - Mãezinha de António Gedeão

 

Tudo imperdível, menos a qualidade do som.
Mesmo assim vale a pena

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Esta Música tem uma História 16 - Paulo Gonzo e Ana Carolina - Nós os dois


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Fátima Lopes - Autora - K'arranca às Quartas 74


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Tesourinhos Musicais 49 - Raul Seixas - K'arranca às Quartas 74


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Crónica 62 - K'arranca às Quartas 74


Sanzalando

Ser amigo é

Ser amigo é estar quando ninguém mais fica. É saber ler nos silêncios, o que as palavras não dão conta de contar. Há quem pense que amizade é só riso fácil, fotografias nas rede sociais, histórias partilhadas que se tornam grandes entre grupos. E é também tudo isso. Mas, sobretudo, ser amigo é abraçar a parte feia do outro, o mau humor, as crises, os dias em que a vida parece um quarto desarrumado que ninguém tem forças para arrumar.

Ser amigo é ouvir o mesmo desabafo cem vezes e ainda assim perguntar: “Queres falar de novo sobre isso?” É ter paciência para as repetições e carinho para as incoerências. Amigo é quem vê o teu lado mais frágil e não usa isso contra ti. Pelo contrário, usa isso para te proteger, para te lembrar que és humano, que não tens de ser perfeito.

Ser amigo é aparecer sem convite quando tudo desaba, e também saber desaparecer quando é preciso espaço. É reconhecer limites. É compreender sem julgar. É rir até doer a barriga, mas também chorar junto quando a vida aperta.

Na pressa dos dias, esquecemos o valor de uma amizade honesta. Achamos que amigos são garantidos, que estarão sempre ali. E, às vezes, só percebemos o quanto precisamos deles quando a solidão nos faz companhia.

Ser amigo é dizer a verdade que ninguém quer ouvir, mas fazê-lo com cuidado. É incentivar sonhos, mesmo quando parecem descabidos. É guardar segredos como quem guarda um pedaço do outro.

Ser amigo é, em última análise, um pacto silencioso de lealdade. Uma forma de amar que dispensa contratos. Uma promessa que se renova a cada abraço, cada conversa, cada silêncio partilhado.

E talvez seja isso: ser amigo é escolher o outro, todos os dias, mesmo quando a vida convida ao afastamento. É permanecer.




Sanzalando

1 de julho de 2025

Cheguei ao Porto 14.... que não sei se acabou

Se eu falei da aula de Medicina Legal, do Professor Pinto da Costa, já de currículo feito, me lembrei que também falei com um professor que estava a começar a sua carreia. Acho ele tinha regressado do estrangeiro e era o primeiro ano dele.

Eu era um jovem aluno de medicina, cheio de curiosidade e receios, quando o Professor Sobrinho Simões, o filho, que não tinha a voz do pai, mas tinha uma simpatia que até fazia descontrair, dava os primeiros passos na sua carreira de professor. Recordo-me bem daquele entusiasmo contagiante que ele trazia para cada aula. Tinha o olhar atento de quem queria não apenas ensinar, mas também aprender connosco.

Numa época em que a medicina ainda não se transformava rapidamente, ele já mostrava uma dedicação exemplar ao estudo e ao rigor científico, mas também uma proximidade humana que nos fazia sentir parte de algo importante. Para nós, alunos, era inspirador ver alguém tão jovem e ao mesmo tempo tão determinado a abrir caminho no ensino e na investigação. A vida dele parecia estar dentro de um microscópio porque sempre o vi ao lado ou a espreitar num.

Ao longo do tempo, fui percebendo que a paixão pelo conhecimento e o compromisso com os doentes que ele transmitia seriam exemplos que ficariam comigo. Hoje, ao recordar esses primeiros anos, sinto gratidão por ter testemunhado o início de uma carreira que haveria de marcar gerações. E o Professor Maia, sim, aquele que não teve tempo para tirar a carta de condução porque ia perder tempo de estudo? Ele sabia isso e mais aquilo que eu nunca tinha nem imaginado. Não posso fazer aqui uma lista porque ia ser só elogios e alguns até que podiam falhar porque simplesmente esqueci.

E como é que está a vida nocturna agora? Naquele meu tempo não tinha. Tirando a Japonesa que nas noites de calor nos dava música até quase de madrugada eu desconhecia mais coisas. Também a guita não dava para essas coisas que há agora, se é que havia naquele tempo.



Sanzalando