recomeça o futuro sem esquecer o passado

Programas K'arranca às Quartas no Blog

6 de agosto de 2025

Crónica 67 - K'arranca às Quartas 79


Sanzalando

Programa 79 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 06 de Agosto, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
É um programa de verão e verão que exercitamos a mente sem transpiração nem grande agitação
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica, Falou-se de Agostinho da Silva através das palavras de Alberto Carvalho, tivemos Esta Música tem uma história, com Sara Tavares - colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com os Aqui D'El Rock, POEMA - E POR VEZES, David Mourão-Ferreira - na voz de Teresa Coutinho a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.

 

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Moçâmedes, Mar e março

Março chegou. Moçâmedes com o sal nos lábios e o vento quente sussurrando segredos antigos pelas dunas recebe os mapundeiros e afins. A cidade, de olhos voltados para o Atlântico, parecia conter a respiração todas as manhãs, esperando que o mar contasse algo novo ou talvez algo esquecido nas areia do deserto que se lhe opõem.

Maria, de pés descalços e vestido leve, caminhava pela beira-mar desde criança. Mas agora, aos dezoito, carregava uma inquietação que nem as ondas sabiam acalmar. Diziam que quem mergulhasse nas águas de Moçâmedes em março podia ouvir o que o coração mais queria dizer, mas não ousava porque temia a divulgação do seu segredo.

Naquela manhã, o céu se tingia de tons celestes. Maria entrou no mar sem pressa. A água, hoje até que morna e acolhedora, tirando pica-pica que dava comichão que nem areia servia de lixa, subia aos poucos como um abraço envolvendo o seu escultural corpo. Quando afundou, o mundo silenciou — e ali, entre o bater do coração e o sussurro das bolhas, ela ouviu.

"João."

Era a voz do marr. Era também a dela mesma.

Voltou à superfície com os olhos marejados, não de sal, mas de certeza. O mundo podia ser vasto, mas Moçâmedes era o começo de tudo.

E em março, o mar lhe respondeu e até hoje ela lhe procura, mesmo trazida no passo lento do reumatismo, na beira-mar que não esqueceu, o seu João, que nunca apareceu


Sanzalando

5 de agosto de 2025

Olhar-me de fora

Olhei na varanda. Ela não estava na varanda dela.
Sentei na cadeira de baloiço do meu avô e fiquei só assim a olhar num ponto imaginário. Os pensamentos estavam varridos e os olhos não viam, porque lá no ecran do cérebro tinha ficado fixado o retrato dela. Perguntei aos deuses porque eu era assim. O silêncio foi a resposta. 
Perguntei a mim mesmo se eu me conhecia ao ponto de me explicar porque eu ficava assim paralisado no lugar imaginativo dum futuro que não aconteceu? Porque eu não conhecia o futuro, essa coisa distante que ainda não aconteceu mas eu agora recordo como passado que eu tinha imaginado diferente.
Eu queria mesmo era acordar um dia e olhar-me de fora e ver a figurinha que fiz. 

Sanzalando

4 de agosto de 2025

Moçâmedes, 176 Anos — E Eu vivi!

Não vou nem discutir nem pôr à discussão o nome. A minha cidade, o meu recanto, não tem lá a minha placenta por contingências familiares, mas tem lá pedaços da pele dos meus joelhos, gotas do meu sangue perdido nas pedradas da saída da escola, tem gotas do meu suor nas ruas encaloradas do meu verão.

Parabéns, Moçâmedes!

São 176 anos de sol, sal e areia — e olha que eu apanhei boa parte disso tudo ainda com joelhos esfolados e chinelos derretidos, feitos de plástico de Macau ou de pneu lá para os lados do Forte ou na Torre do Tombo

Foi ali que eu cheguei de comboio ainda tinha dias de nascido nas terras do planalto, e por ali cresci e levei os primeiros calores a sério. Onde o vento do deserto batia nas pernas parecia agulhas a picar e o mar era tão bonito que até parecia mentira que ele às vezes se revoltava e galgava barreiras e inundava ruas e estradas. Aquele azul enganador que quando nele entrares e levares com aquela água gelada que te lembrava logo que era verdade.

Em Moçâmedes aprendi lições valiosas:

Que o vento podia roubar bonés, papéis da escola e até a vontade de sair de casa.

Que “passar calor” não é figura de estilo — é treino de resistência.

E que peixe fresco era mais comum que os congelados de agora.

As festas? Ah, memoráveis! Bastava umas barraquinhas, dois ou três carrosséis, cachorros quentes e um copo de Rosé, discoteca improvisada com vista para o pôr do sol mais bonito de África, não aceito debate nem contradição e festa estava montada.

Hoje, Moçâmedes faz 176 anos, e eu, que por lá andei nos meus anos mais trapalhões, deixo esta homenagem:
Obrigado por todas as estórias e pelos dias em que tudo o que havia pra fazer era viver e eu vivi. Obrigado por me teres ensinado o que era paixão, amizade e saudade

Moçâmedes, tu és aquela cidade que envelhece com a minha idade e com o teu vento porém não desapareces da minha saudade nem do meu pensamento



Sanzalando

3 de agosto de 2025

Moldando a memória

Sobem ruas as meninas de agora
Passos firmes que o futuro as decora
Com fones ao ouvido e a alma no peito
Carregam o mundo num andar perfeito

Olhos de fogo, unhas vermelhas
Riem do medo, dançam centelhas
As mochilas pesam mais que a escola
Mas logo se vê quando o coração descola

Elas vêm, sem pedir licença
Têm a pressa e a calma na mesma sentença
Elas vão, como quem já sabe
Que o tempo corre atrás de quem não cabe

Nas calçadas de pedra e asfalto
Desenham seus nomes em salto alto
Sonham longe, falam forte
Que nem o céu controla a sorte

Elas vêm, sem pedir licença
Têm a pressa e a calma na mesma sentença
Elas vão, como quem já sabe
Que o tempo corre atrás de quem não cabe

E se um dia o mundo pesar demais
Elas seguram o sol com as mãos
E seguem, como se a dor fosse jazz
Improviso entre os corações sãos

Elas vêm e vão deixando história
Meninas de agora, moldando a memória


Sanzalando

Areia, Sal e Silêncio, muita gente

Há um certo tipo de silêncio que só encontro na praia. Não é ausência de som, mas uma pausa do mundo, o burburinho abafado pelas ondas, os pensamentos dissolvidos no vai e vem da maré. Ir à praia é mais do que um passeio: é um reencontro com o essencial. Tem momentos que encontro os eus antigos, os amigos que partiram, as brincadeiras brincadas, as corridas sofridas na fuga dos medos.

Chegar cedo, quando o sol ainda hesita e a areia conserva o frio da madrugada, é um privilégio que não me calha muitas vezes. Sol forte, transpiração da caminhada e lá estou eu a espreguiçar-me à beira-mar, pés enterrados na areia húmida, enquanto o céu pintado de azul celeste me observa. É uma forma simples, poderosa mesmo, de começar de novo. Ali, cada respiração é mais funda. O tempo desacelera.

À volta, as pessoas também se transformam. Há menos pressa, menos exigência. Os telemóveis ficam esquecidos nas mochilas. As conversas ganham outra cadência. Até o corpo parece agradecer, espreguiçando-se entre o sol e a água salgada, libertando-se das tensões da cidade, dos e-mails não lidos, das notícias que pesam.

O mar, com sua força constante, lembra-nos que tudo passa. Uma onda vem, outra vai. E no meio disso, há um instante, talvez e apensas só um, em que se percebe: estar ali, sem fazer nada, é fazer tudo. É viver.

Há quem diga que ir à praia é fuga. Talvez. Mas não é de responsabilidades que fugimos, e sim da pressa de viver sem sentir. Na praia, aprende-se o valor da pausa. A beleza do inútil. A arte de simplesmente estar.

No fim do dia, o sal fica na pele, e a alma, mais leve. Leva-se areia nos pés e paz nos ombros. E quando se volta para casa, talvez nada tenha mudado, exceto por dentro.

E isso, afinal, é tudo para além das muitas recordações que eu tenho de uma outra praia, de uma outra gente, de um outro modo de olhar, inocente, curioso e intenso




Sanzalando

1 de agosto de 2025

Meus retalhos 38

Cheiro a álcool. Cheiro a betadine ou iodopovidona para não fazer publicidade a ninguém. Era sinal que eu ia calçar luvas, concentração máxima, bisturi na mão e corte e costura. Todas eram a cirurgia mais importante da minha vida. As passadas que correram bem não me vinham à memória. As que correram mais ou menos estavam sempre a vir à superfície mental. As que correram mesmo mal essas não saiam nem para dormir. Mas a mais importante era sempre aquela, a daquele instante. O bisturi é um instrumento cortante, afiado e sem personalidade própria mas por vezes parecia querer ser independente. 
Na verdade a vida daquele paciente estava agora na ponta do meu bisturi. Eu posso cortar alguém. Bem, é claro. Mas às vezes a minha confiança vacilava. Eu previa o futuro por instantes. Antecipava-o. Um erro, um tremelique, uma distracção, um momento de loucura e lá se ia o meu passado e o futuro de quem estava deitado. 
As luzes da sala quase sempre eram insuficientes. Ninguém conseguia ver o medo que eu sentia. A plateia, adormecida, não ia dizer um ai ou resmungar. Os meus neurónios ferviam na febre do medo. Era a cirurgia mais importante. Aquela, que fizera centenas semelhantes. Mas aquela ali era o instante. 
- E se me dá alguma coisa?
pergunta calada na retórica de um ser consciente.
Fechava os olhos, pedia silêncio e actuava. O medo estava lá mesmo que eu não deixasse entrar em mim. Naquela não. Eu era teimoso, mas acho ele era mais que eu.
Suspirava, inspirava. Bufava, resmungava no meu silêncio e calado continuava a pôr cá fora o meu mau feitio, como então me diziam. 
Bisturi sem tremor, arma feita ferramenta. Actuava. Era a mais importante para mim, aquele momento.
Hoje, passados dois anos e quatro meses, ainda sinto o medo que não deixava entrar em mim, ainda guardo o silêncio das memórias que não apago, que não se afastam e que me sacodem nos instantes dos meus silêncios.
Afinal de contas, o medo era uma visita constante que não se afasta da responsabilidade



Sanzalando

31 de julho de 2025

Cunene livre para o mar

E de tanta fotografia ter visto, eu que nunca fui mais a sul que Tombwa, me apeteceu contar uma estória, só assim de brincar, porque ouvi querem construir barragem nele. 

Welu era uma menina que morava perto do rio Cunene, um rio grande e brilhante que corre entre Angola e Namíbia. Ele simplesmente faz fatia do deserto. Ela adorava brincar na beira do rio, pulando nas pedras e ouvindo o barulhinho da água correndo. Disseram que mais para trás tem as quedas do Ruacaná, mas ele brinca ali, nas pedras que o rio levou a areia.

Um dia, enquanto jogava pedrinhas na água, Welu ouviu uma voz bem baixinha:
- Weluuu... Weluuu...

Ela olhou para os lados. Não havia ninguém. Só o rio.

- Quem está aí? — perguntou, com os olhos bem abertos e cara de susto falecido.

- Sou eu, o rio Cunene! — disse a voz, com um som de água cantando, parece chora também.

Welu ficou espantada. Um rio que fala? Que coisa mais estranha e maravilhosa!

- Você está triste, rio? — perguntou ela.

- Um pouquinho... — respondeu o Cunene. — Algumas pessoas querem me prender com muros grandes, e isso assusta os peixinhos e os passarinhos que vivem comigo.

Welu pensou, pensou, e teve uma ideia:

- Eu posso te ajudar! Vou contar para todo mundo como você é especial!

No dia seguinte, Welu foi até na escola e contou a sua aventura. Desenhou o rio, os peixes, os hipopótamos e até a voz misteriosa que vinha das águas. Todos os colegas ficaram encantados!

A professora adorou tanto a história que pediu para as crianças escreverem cartinhas para o rio Cunene. Welu entregou todas as cartas ao vento, e elas voaram dançando sobre as águas.

O rio respondeu com um brilho forte sob o sol e um barulhinho alegre de correnteza.

Desde então, Welu e o Cunene viraram grandes amigos. E dizem que, se você ficar bem quietinho na beira do rio, pode ouvir ele sussurrando:
- Obrigado por escutar a passagem livre das minhas águas...



Sanzalando

30 de julho de 2025

José João Craveirinha - Autor - K'arranca às Quartas 78


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Tesourinhos Musicais 53 - Roberto Carlos - K'arranca ás Quartas 78


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Crónica 66 - K'arranca às Quartas 78


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Esta Música Tem uma História 20 - Márcia e JP Simões A PELE QUE HÁ EM MIM - K'arranca às Quartas 78


Sanzalando

Programa 78 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 30 de Julho, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica, Falou-se de José João Craveirinha, tivemos Esta Música tem uma história, com Márcia e JP Simões - colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com Roberto Carlos, POEMA Viscoso Pregão de  GOCIANTE PATISSA na voz de Domingas Monteiro a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.

 

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

29 de julho de 2025

Bom Dia Mercado - Rádio Portimão no Mercado Municipal - 2


Programa de Rádio feito no Mercado Municipal de Portimão





 





Sanzalando

passeando para lá de mim

Estava sentado pertinho da Fortaleza de São Fernando, ali na falésia a olhar para lá da minha imaginação. Rebolar daqui até lá abaixo não ia ser agradável para além de me sujar de areia parece pó de arros amarelada. Se eu tivesse asas coava e me ia sentar na marginal mais pertinho do mar. Mas eu ainda não sabia que já tinham inventado a asa delta pelo que fiquei só mesmo ali a olhar para dentro. 
Daqui não consigo ver o estaleiro pelo que deve ser longe para perder os meus passos até lá. No outro lado tem o porto e está um barco a descarregar, pelo menos é o que me parece pelo movimento do guindaste. Mas se for ao contrário também não fico chateado porque tanto me faz. Eu olho e eu vejo, o resto é informação perdida. 
Levantei-me e sempre paralelo à falésia comecei a caminhar em direcção à Torre do Tombo. Os meus avós me disseram que já lá moravam e o meu tio disse que jogou hóquei em campo no Ginásio. Outros tempos que não são os meus. Ginásio para mim é rebita de sábado à noite. Vou só lá, pode ser o meu tio-avô Mário esteja à janela e me dê uma gasosa. Se não tiver também não faz mal, dou a volta, passo na 56, desço pela rua dos Chalupas, como um gelado no Lã e venho para casa que já deve ser hora de lanchar.
Cheguei na subida da SOS, olhei lá para baixo e pensei que se desço também terei que subir e desmotivei. Fui mesmo passar na 56. Na casa do Lã eu bem que tentei cravar um gelado e só quando disse que o tio Walter ia lá pagar depois é que me deram. Acham que puto ia andar com dinheiro no bolso assim? Adultos complicados. Comi o sorvete enquanto descia a rua e os Grades não estavam na varanda. Só o senhor Sopapo estava. Me perguntou se estava bem e eu lhe disse que sim. Eu estou sempre bem. Esses adultos é que às vezes costumam ficar doentes. Na casa do Sr. Martins entrei e gamei dois figos pingo de mel e o Velho Domingos não me viu pois se calhar eu ia ter de sair dali a correr e era coisa que não me apetecia. Em silêncio sai, virei e fui para casa. A avó perguntou:
- Queres lanchar?
- Claro que sim. - disse eu que estava à espera desde a hora do almoço

Sanzalando

28 de julho de 2025

Fui na Aguada comer caranguejo

Quando o sol começou a baixar e o calor da estrada arrefeceu, segui na minha bicicleta sem travões tradicionais, pois travava com a sola do sapato, fui até na Aguada saborear um dos famosos caranguejos das hortas, esses seres discretos, de casca acobreada e passos ritmados, que saem das dunas e mangues não para com, mas para contar o tempo de serem apanhados.

Daquele ponto antigo, onde os navegantes, me disseram, iam os navegantes se abastecer de água e os pescadores ainda contam as marés como os velhos contam os dias, havia estórias que eu tinha ouvido nos meus ouvidos atentos, mas nunca tinha saboreado nas minhas papilas gustativas. Uma que eu me lembro ter ouvido era mais ou menos só assim, os caranguejos das hortas não eram animais comuns. Cada um carrega uma hora do dia nas costas. Se os seguires, saberás o que o tempo tem a dizer.

Nesse entardecer resolvi esperar. Sentei-me nas pedras junto à praia e fiquei quieto, como se fosse também uma parte da paisagem. O vento soprava-me histórias do mar, e o cheiro de sal e peixe seco invadia tudo. Foi quando viu o primeiro caranguejo.

Ele andava diferente dos outros: não fugia, não se escondia. Andava em círculos lentos, como se marcasse segundos na areia. Nas costas, eu jurava ver um símbolo, como o ponteiro de um relógio parado às cinco e vinte.

Logo vieram outros, em fila, com passos calculados. Um com a hora do meio-dia desenhada no casco, outro com a meia-noite ou era irmão gémeo daquele. Contei doze ao todo, um para cada hora viva do dia. Cada um movia-se com uma graça única: o das seis da manhã saltava ágil como quem desperta o mundo; o das três da tarde bocejava e arrastava as patas como quem sofre o calor do dia. O das duas da madrugada quase não se via, pois vinha coberto de sombras.

Fui seguindo os caranguejos até uma poça secreta entre rochas. Ali, eles se reuniam e trocavam brilhos pelos olhos. E foi ali que o tempo parou.

Por alguns minutos, ou talvez horas, tudo silenciou: o mar ficou imóvel, as gaivotas suspensas no céu, o vento calado. Olhei para as minhas próprias mãos e vi que nelas se desenhava a areia como um relógio de sol. Eu agora sabia: os caranguejos não marcavam o tempo. Eles guardavam os segredos das horas que a gente esquece de viver.

Quando voltei pra casa, já era noite, a bicicleta sem luzes, a mãe preocupada e eu com medo do tempo que esqueci viver. Pedalei com todas as forças que tinha e senti que tinha vivido todos os tempos de uma só vez. 

Na manhã seguinte, o meu tio, homem de sair à noite e ir na rebita, pouco contador das suas estórias mas culto nas estórias dos outros me olhou nos olhos e sorriu quando me perguntou:

“Então tu também viste os guardiões do tempo de Moçâmedes.”

Desde então, nunca mais me preocupei com o relógio. Aprendi a escutar o som das marés, a seguir os passos lentos dos caranguejos, e a viver cada hora como se fosse única. 

E nunca comi um caranguejo das hortas.



Sanzalando

24 de julho de 2025

Fui ao Forte de Santa Rita matar saudades

O vento do mar ainda sabia meu nome. Pelo menos eu acho que ele sabe pois lhe ouvi dizer para eu ir lá para lá do cemitério visitar o padre Vaz.

Voltei ao Forte de Santa Rita depois de tantos anos, Faz para aí uns cinquenta ou sessenta que ele partiu em direcção ao patrão dele. Fui como quem retorna a um sonho antigo, rever a velha igreja por dentro e as primeiras casas de chapa que eu vi desde que passei a frequentar o cemitério todos os domingos.

Na praia as pedras da marginal gastas pelas ondas ainda guardavam o cheiro da infância, do sal e das promessas que fiz a mim mesmo sentado no parapeito, vendo o horizonte se afogar no entardecer, quando as ouvi pedir para ir ver o Forte de Santa Rita.

As paredes acinzentadas do cimento frio a precisar de repintura, me fizeram lembrar o padre Vaz e o seu velho citroen de chapa frágil.

O forte cresceu que até vou dizer ficou maior que a cidade propriamente dita

Lá, naquele mesmo canto onde costumávamos correr as corridas de corta mato, ainda ecoava o riso da minha irmã, quando eu lhe dizia que um dia ainda eu ia ganhar uma. Acho nunca dei mais que uma volta das três programadas e ela tinha razão.

Sentei, fechei os olhos. Agora tem amigos novos nestas bandas. São poetas. São Ancestrais. Gente boa existe.

Naquele instante, compreendi: não fui ao forte apenas matar saudades. Fui para reencontrá-las. E deixar que elas me abraçassem de volta.


Sanzalando

23 de julho de 2025

Saga de Um Pensador - Augusto Cury - Livro - K'arranca às Quartas 77


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Esta Música tem uma História 19 - Marisa Monte - Ainda Bem - K'arranca às Quartas 77



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Tesourinhos musicais 52 - Os Kiezos - K'arranca às Quartas 77


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Crónica 65 - K'arranca às Quartas nº 77


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Programa 77 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 23 de Julho, tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica, Falou-se, com a colaboração de Anabela Quelhas de Saga de um Pensador de Augusto Cury, tivemos Esta Música tem uma história, com marisa Monte e a canção Ainda Bem - colaboração de José Leite; não faltaram os Tesourinhos Musicais com Os Kiezos de Angola, POEMA - Quando vier a primavera, Alberto Caeiro dito por Valdemar Santos e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.

 

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Sai de casa e voltei três dias depois

Sai de casa só para ir até à esplanada da Oásis. Como sempre bebi o meu café e comi o meu pastel de nata. Naquele tempo, eu usava calções e sandálias feitas de pneu careca dum carro de alguém e tiras de câmara de ar e que me disseram se chamavam nonkacos e não sandálias, mas sendo eu da cidade fica-me bem dizer sandálias.

Ainda não tinham inventado o telemóvel e as chamadas passavam sempre pelos CTT e eram pagas e para minha carteira vou dizer eram caríssimas. O meu cabelo bagunçado, comprido, escorridamente liso e quase sempre por pentear num risca ao lado com pinta e claro está, sem chave de casa no bolso. Eu achava que voltaria para casa em dez minutos que poderiam ser meia-hora.

Na esplanada encontrei os do costume. Moreira, Reis, Xico de Olhão, Zé Pedro e Zé da Fisga, Figueiras, Luís, Victor que por acaso era irmão do Zé da Fisga. Não me lembro se alguém fazia anos. Mas isso desimporta para o caso, pois a gente comemorava sempre qualquer coisa mesmo que nada houvesse. O nada também era comemorado. 

- Vamos beber café a Sá da Bandeira? Juro que deslembradamente não sei de quem era a voz. Cortina, Seat e Hondas 750 se fizeram à estrada. Assim do nada havia uma viagem a ser feita. 

Para mim três dias se passaram como se o tempo tivesse derretido.  Alta noitada no Arco Íris. Rimos de histórias antigas, enterramos mágoas velhas, bebemos uns copos e uns fizeram-se à estrada de regresso quando o sol rasgava o horizonte num acordar preguiçoso. Eu fiquei. Dormi na casa de família, dizendo claro que tinha chegado nessa madrugada e não na véspera, e que tudo estava bem. Não tinha boleia de volta. Não tinha dinheiro no bolso e a estação de comboios não vendia bilhete fiado. Os tios e amigos da esquina amarela lá fizeram uma coleta e pagaram o bilhete a quem esteve três dias com a mesma roupa vestida, apesar de tomar o seu infalível banho diário.

Quando voltei, a porta de casa estava do mesmo jeito. A mãe me olhou como que à espera de uma explicação. Lhe olhei admirado e disse:

- Mãe, deu-me uma saudade assim de repetente que fui à casa do avô só para dar um beijinho grande nele.

Ela devolveu o olhar como que a dizer-me, batote ou olho para o lado? Olhou para o lado e eu nunca soube se ela sabia o que tinha acontecido e de facto eu soube que tinha acontecido uma coisa muito grave. Eu sei que nunca mais fiz essa pirueta e nunca mais deixei de voltar para casa antes das 24 horas terem passado.

Às vezes é preciso sair sem destino pra lembrar quem se é. E, com sorte, reencontrar o caminho de volta.



Sanzalando

22 de julho de 2025

A Rádio, Eu e a Voz

Eu fazia rádio quando era adolescente. Mas não era dessas transmissões clandestinas de fundo de quintal ou fingir fazia, era rádio de verdade. Frequência FM e AM, antena no alto para lá da Escola Industrial. Claro que era uma rádio citadina, ou do mato, como me dirá um amigo meu um dia destes. Eu fazia programa com tudo, daquelas em que metade da audiência era feita de parentes forçados a ouvir, mas ainda assim… era oficial. Acho nunca vi estatística. Mas era o melhor programa, pelo menos para mim

Meu programa ia para o ar aos domingos de manhã, no horário em que todos os adolescentes normais estavam a dormir ou já tinham ido para a praia. Chamava-se "Camaradagem!", e ninguém sabia porquê. Acho só eu sabia e sei. E vou ficar assim. 

Fui locutor, sonoplasta, editor e, às vezes, produtor musical, nas noites clandestinas de gravação de música. Uma vez, liguei o microfone por engano enquanto cantava o António Mourão o seu Ó tempo Volta para trás e eu cantarolei. Recebi duas ligações de ouvintes elogiando minha “voz de estar calado” de directores que, pelos vistos, não gostaram.

A cereja do bolo foi quando o Sr. Velin, 'dono' do emissor, porque todos os dias era ele que ligava e desligava, virou meu comentadora fixo sem querer. Toda vez que ele passava pelo estúdio, eu puxava conversa e durante uns cinco minutos aquilo ia para o ar. E ele não sabia. Ele tinha opiniões fortes sobre tudo: política, futebol, e até do tempo ele falava. Não se zangou comigo e continuou a fazer de que não sabia. Até que aquilo deu torto e me calaram dos Domingos de manhã.

No fim das contas, eu aprendi mais sobre gente e improviso ali do que em qualquer outro sítio. E mesmo que a audiência fosse pequena, pelo menos era fiel. Minha avó nunca perdia um programa e acho que a minha mãe também não, porque ela me ligava para lá logo que o programa acabava. 

E eu gostava mesmo daquilo.


Sanzalando