recomeça o futuro sem esquecer o passado

Programas K'arranca às Quartas no Blog

18 de novembro de 2025

o carro de rolamentos

Quando eu era criança, as tardes pareciam sempre ensolaradas e infinitas. Lá, na rua onde eu morava, o barulho mais emocionante que se podia ouvir era o “trrrr… trrrr…” dos carrinhos de rolamentos descendo a ladeira que começava na casa da D. Maria Guedes e acabava depois da curva dos Fonseca. Bastava isso e todo mundo largava o que estava a fazer e ia a correr para a rua. As mães contrariadas lá nos deixavam ir. D. Maria depois das 4 da tarde não podia descansar com o inferno à porta. Ou eram os carros ou eram as vozes e as discussões de que quem ganhou fui eu e não sei mais o quê. 

O meu carrinho era simples: tábuas reaproveitadas, pregos tortos e aqueles rolamentos que eu e meu primo fomos buscar na oficina do Abel. A direção era uma corda amarrada ao eixo onde púnhamos os pés, acho ela não era direcção, era só mesmo onde a gente segurava as mãos pois a direcção e os travões era o pé. Parece simples mas para a gente era tecnologia de ponta!

A ladeira da Dona Maria às veze incomodava o senhor Raul Gomes mas era o nosso, como se diz agora, autódromo oficial. Antes de descer, a gente se alinhava como se fosse uma corrida profissional:

— Preparar…  Já!

E lá íamos nós, o vento a puxar os cabelos para trás e os olhos semi fechados, adrenalina e medo, que era coisa que a gente ainda não sabia. Sempre tinha alguém que se esborrachava no meio do caminho, mas ninguém chorava, no máximo levantava com o joelho esfolado e gritava:

— Valeu a pena!

O melhor era quando a descida era perfeita. A gente chegava lá embaixo com aquela sensação de vitória, como se tivesse conquistado o mundo, ou pelo menos a rua inteira. E depois era só puxar o carrinho de volta lá pra cima e começar tudo de novo, até o céu ficar laranja e as mães chamarem para dentro porque era hora do banho e jantar.

Hoje, quando lembro dos carrinhos de rolamentos, eu penso que talvez a gente já soubesse, mesmo sem entender: felicidade é um pedaço de madeira, quatro rolamentos e uma ladeira inteira pela frente.



Sanzalando

17 de novembro de 2025

A Bicicleta Sem Travões


Era uma vez um menino, que por acaso até que era eu, que adorava aventuras, desde que não fosse longe de casa nem metesse matos e coisas complicadas de fazer medo.

Morava numa cidadezinha de poucas subidas e ruas quadriculadas. Um dia, sem dinheiro para mais, comprou uma bicicleta vermelha que se calhar quando era nova era brilhante, porém agora era um vermelho morto. Fora essa cor, fora não ter travões eu achara ter feito um belíssimo negócio. Acho foi o primeiro e único da vida. Assim sem consultar nem pedir conselho. Mas na verdade eu ficara tão feliz que nem nunca mais se lembrou dum detalhe muito importante… a bicicleta não tinha travões!

No começo, pedalava devagar, só para sentir o vento bater na cara e receber o vento da liberdade de movimento, mas também ver o mundo passar ao meu lado. Mas quanto mais andava, mais coragem ganhava, mais longe eu ia.

- Eu sou o ciclista mais rápido da minha casa! gritava, pedalando. Na verdade era o único.

Um dia, resolvi ir até na Torre do Tombo. Coincidência ou talvez só destino foi o dia em que deu um trambolhão que deixou marcas no corpo e na alma. Descer a maior descida da cidade, a SOS. A rua parecia uma montanha de tão inclinada. Respirei fundo, e quase dava a volta para casa, mas a coragem me empurrava para a ousadia. Pés nos pedais e… VOOOOM! A bicicleta disparou como um foguete, ganhou velocidade que não entrava nos meus problemas de matemática.!

De início comecei a rir, mas logo o riso virou susto, pânico, medo, pavor e sei lá mais o quê.

- Como é que eu paro?! gritei, com os olhos arregalados e a esperança de que o vento saído dos meus gritos travassem a descida vertiginosa que eu estava a viver.

Não passou ninguém, ninguém ouvia os meus gritos. Eu gritava. Aqueles cem metros deram para eu ver que a minha vida tinha sido curta. Como é que eu paro isto, continuava nos meus gritos a plenos pulmões.

- Se eu pudesse vendia já esta bicicleta! como se isso fosse uma maneira de recuar no tempo e não ter iniciado a descida. 

Passei os carris do comboio e imaginei dar um mergulho na baía saltando o passeio e os hexágonos e calhaus de protecção do mar. Mas eu ia bater no lancil e espalhardar-me ali.

- Que é que me deu na tola? pensei já sem forças para gritar e quase a desmaiar de medo

Tentei usar os pés no chão para travar, mas os sapatos só faziam parecer que eu acelerava. A bicicleta continuava a correr rápida que nem eu sentia mais o vento!

Quando chegou ao fim da descida… lá estava a marginal, virei à esquerda e acho só parei quando abri os olhos na cancela que vedada a entrada no porto.

Eu era pânico em todo o meu corpo.

- Porque é que não puseste o pé no pneu de trás para travar? disse-me o guarda na maior das calmas. Eu devia ser o mais branco que ele alguma vez tinha visto. Eu tremia quando balbuciei:

- Pôr o pé onde?

Ele levantou-se, veio ao pé de mim, agarrou o meu pé direito, dobrou-me o joelho, e o meu pé tocava na parte da frente do pneu de trás.

- Hã?! estupefacto consegui dizer

- Eu te vi. Te borraste de medo e não caíste porque deves ser filho de Deus. Deste a curva em zigue-zagues que nem sabes que sorte tens. sempre calmo a me dizer. 

Agradeci, ou não. Sinceramente não sei. o pânico era tanto que voltei a casa sem me sentar na bicicleta nem pôr os pés nos pedais. Acho ela esteve uns meses parada até que a minha mãe a deu a já não sei quem.



Sanzalando

16 de novembro de 2025

numa praia a sul

Era uma vez, numa ensolarada praia do sul de Angola, onde o zulmarinho encontrava a areia dourada, vivia uma menino chamado Sódeeu que ainda não tinha seis anos, com olhos brilhantes e um sorriso que podia iluminar o dia mais cinzento. O seu cabelo era cheio liso e saltitava enquanto ela corria, numa franja que cobria a testa.

Todos os dias, depois da sua mãe lhe preparar o pequeno-almoço, Sódeeu corria para a praia, num atravessar de estrada que era já ali, o seu lugar favorito no mundo. Lá, ela encontrava-se com o seu melhor amigo, um caranguejo atrevido que ele lhe chamou Cangarejo, ou Can, na forma mais clara e meiga que ele tinha. Gangarejo não era um caranguejo comum; ele tinha uma cor amarelo brilhante e, para Sódeeu, parecia que ele sorria sempre que o via.

Uma manhã, quando Sódeeu chegou à praia, Cangarejo estava a abanar as suas garras freneticamente. "O que se passa, Can?", perguntou Sódeeu, agachando-se. Can apontou uma das suas garras para o mar. Sódeeu olhou e viu algo brilhante à beira mar. Era uma garrafa de vidro antiga, com um papel enrolado dentro.

"Uma mensagem numa garrafa!", exclamou Sódeeu, os seus olhos arregalados de espanto. Com a ajuda de Can, que usou as suas garras para empurrar a garrafa para mais perto, Sódeeu conseguiu alcançá-la. Ele tirou a rolha e cuidadosamente desenrolou o papel.

Era um mapa! Mas não era um mapa comum. Estava desenhado com símbolos de estrelas do mar, conchas e peixes. No fundo, dizia: "O tesouro mais feliz de Angola espera por ti onde o sol encontra o mar ao pôr do sol."

Sódeeu e Can estavam tão entusiasmados! Decidiram que iriam seguir o mapa para encontrar o tesouro. Sódeeu segurou o mapa e Can correu à sua frente, apontando o caminho com as suas garras.

Eles seguiram os símbolos do mapa. Primeiro, o mapa indicava para seguir as estrelas do mar. Sódeeu e Can encontraram uma série de estrelas do mar cor-de-rosa e laranja que os guiaram ao longo da praia.

Depois, o mapa mostrava "atrás das conchas gigantes". Eles tiveram que saltar sobre pedras carregadas de conchas coladas, algumas maiores que  o próprio Sódeeu! Can era muito bom a escalar as rochas, e Sódeeu ria enquanto o via trepar.

Finalmente, o mapa os levou a um pequeno promontório rochoso, perfeito para ver o pôr do sol. Sódeeu e Can sentaram-se na areia, esperando, enquanto o sol começava a descer no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa que nem pintura de queimada.

Quando o sol tocou a linha do mar, um brilho dourado espalhou-se pela água. Sódeeu e Can olharam um para o outro, os seus corações saltavam cheios de alegria. O tesouro não era ouro nem joias; era a beleza mágica do pôr do sol, partilhada com um amigo.

Sódeeu e Can assistiram ao pôr do sol até que a última luz dourada desapareceu. Sódeeu abraçou Cangarejo e disse: "Obrigada, Can. Este é o melhor tesouro de sempre."

E assim, todos os dias, Sódeeu e Can continuaram a explorar a praia, descobrindo novos "tesouros" em cada canto – uma concha perfeita, uma onda brincalhona ou simplesmente a alegria de estarem juntos. E a praia do sul Angola, com o seu mar azul e areia dourada, continuou a ser o palco das suas maravilhosas aventuras, mesmo das aventuras que só aconteciam na imaginação.



Sanzalando

14 de novembro de 2025

O deserto e o mar

Em Moçâmedes, na cidade que respira a poeira e o sal do antigo Saco, vivia uma anciã chamada Dona Dina. Seus olhos eram dois poços fundos, acinzentados como a neblina matinal que beija a costa. Dina não era daqui, mas a sua alma tinha-se misturado com o pó do deserto, que aqui se estende num manto sem fim, até encontrar o mar.

Na sua juventude, ela tinha percorrido os quilómetros entre Moçâmedes e Tômbua, quando ainda era Porto Alexandre, não em automóvel, mas a pé, seguindo a linha ténue onde a vegetação teimava em nascer.

O deserto, para Dina, tinha uma voz: era o Silêncio. Um silêncio que esmagava, feito da poeira rubra do planalto, dos cumes áridos que pareciam ossos gigantescos de um passado esquecido, e do sussurro das folhas secas da Welwitschia mirabilis,  a planta-símbolo, que vive mais de mil anos, agarrada à humidade da névoa.

"O Deserto", dizia Dina, aos seus netos, "é o Tempo. Ele não corre, ele espera. E a paciência dele é a lição que o mundo moderno esqueceu."

A vida de Dina, contudo, estava ancorada não no silêncio, mas no rumor incessante do Oceano Atlântico, que beija a orla de Tômbua. Tômbua era o seu oposto: uma cidade nascida da força e da fartura do mar, do cheiro intenso do peixe fresco e salgado, e do grito das gaivotas.

Na baía de Tômbua, onde a Corrente Fria de Benguela trazia riquezas geladas do sul, a água era de um azul-escuro profundo. Essa corrente, poderosa e misteriosa, carregava a vida que alimentava as indústrias da pesca e, mais importante, a alma daquela terra e a garra das suas gentes.

O Mar, para Dina, tinha outra voz: era o Movimento. O fluxo e refluxo, a chegada e partida das embarcações, o ir e vir das marés. Era a voz da emoção, da incerteza, e da Memória.

"O Mar", dizia ela, "é a História. Tudo o que é varrido da terra, ele guarda nas suas profundezas, esperando que a próxima onda o traga de volta à luz." E um dia trás, assim como um dia ele recupera o que lhe tiram.

A verdadeira beleza, Dina sabia, não estava em Moçâmedes ou em Tômbua isoladamente, mas na faixa de transição que as unia.

Certa manhã, guiada pela neblina fria que vinha do mar e se infiltrava no deserto, Dina decidiu percorrer o caminho. No início da viagem, a areia parecia engolir tudo, até o som. O sol, ainda baixo, pintava as dunas com sombras longas e fantasmagóricas. Ela sentia-se pequena perante a eternidade do deserto.

Mas à medida que avançava para sul, em direção a Tômbua, a paisagem começava a ceder. A aridez dava lugar a pequenos arbustos raquíticos, depois a matos, e finalmente, o cheiro de sal tornava-se esmagador.

A neblina, que era apenas humidade para a Welwitschia, transformava-se numa promessa de chuva para o deserto. Era o Mar a alimentar o Deserto com o seu hálito. E o Deserto, por sua vez, com o seu silêncio vasto e o seu relevo empoeirado, protegia o Mar das pressas da humanidade.

Ao chegar a Tômbua, Dina parou na praia. Tirou um punhado de areia fina e rubra da sua velha saca de pano. Olhou para o mar, para a espuma branca a desfazer-se na costa.

"Estou aqui, Mar," sussurrou ela. "Trouxe-te o Silêncio do Deserto."

E atirou a areia para a onda que chegava. A areia desapareceu, misturando-se com a água, tornando-se, por um instante, o fundo do oceano.

Dina sorriu. Ela percebeu que a lição era essa: Não há vida sem contradição. Moçâmedes era a paciência, Tômbua era a memória. A força daquela terra, a Província do Namibe, vinha da dança perpétua entre o tempo infinito da areia e o movimento incessante da água.

E assim, Dina sentou-se na praia, sentiu o ar frio e salgado no rosto, e o calor do sol a secar as lágrimas. Ela era o elo, o ponto de encontro, a tradutora entre o Silêncio e o Movimento. E naquele momento, naquela faixa de terra inóspita e bela, o Deserto e o Mar eram, afinal, a mesma coisa.



Sanzalando

13 de novembro de 2025

O Deserto Sorriu

Já não sei quem foi mas me disseram que o deserto do Namibe é o mais velho do mundo. Nunca lhe vi os cabelos brancos nem o seu andar anquilosado. É verdade, não se mede a idade do deserto em séculos, mas em silêncios. É um lugar onde a areia, pintada em tons de ocre e vermelho-sangue ou de ouro pôr de sol, conhece a paciência. É ali, entre as dunas e o mar frio, que vive o Kuroka.

O Kuroka não é um homem, nem uma criatura de imaginação, mas a própria areia que às vezes é rio. Ele dorme sob o sol quente, e a sua rotina é a ausência de mudança. Os seus dias são medidos apenas pela névoa e sua a Ondoka, a sua voz de sabor a mar, que sobe do Atlântico e lhe oferece um beijo frio e fugaz, é o único alívio que conhece. A chuva? A chuva é uma lenda, uma história murmurada pelas poucas Welwitschia mirabilis, que esperam há mil anos que ele um dia alague todo aquele mar de areia.

Mas este ano, o Kuroka acordou com um cheiro estranho. Não era o aroma salgado e metálico do orvalho da neblina. Era um cheiro a terra velha, a poeira que se preparava para se render.

No alto do céu, onde o azul é geralmente um vitral impiedoso, uma sombra começou a crescer. Não a sombra escura e ameaçadora das tempestades tropicais, mas sim um cinzento tímido, como se o céu estivesse a hesitar.

E então, o Namibe sentiu-o.

Não foi um dilúvio, não foi a torrente impetuosa das monções de outros lugares. Foi o som mais raro e delicado que o deserto pode ouvir: gotas.

Uma. Depois duas. E tantas foram que o Kuroka estremeceu. Cada gota que atingia a areia parecia um grito minúsculo. A areia, seca até ao tutano, absorvia a água com uma velocidade voraz. O som da chuva a bater nas dunas não era o de um tambor, mas o de mil pequenos sussurros ansiosos de quem sofre em silêncio.

Por um momento, o deserto parou de respirar. As criaturas que vivem sob o manto do calor — as carochas que apanham a névoa, os lagartos de pés espalmados, saíram das suas tocas, paralisadas pela novidade. Os seus olhos negros e redondos refletiam a escuridão do céu.

A chuva durou apenas meia hora. Uma benção escassa, um piscar de olhos de humidade.

Quando o sol rasgou o cinzento e voltou a reinar, tudo parecia como antes. As dunas estavam vermelhas e douradas. Mas algo tinha mudado sob a superfície.

Em menos de 24 horas, o Namibe, o deserto que parecia condenado à eternidade da secura, começou a sorrir.

Aqui e ali, pequenos tapetes de verde — um verde que parecia roubado à memória de um passado distante, começaram a espreitar por entre os grãos de areia. Flores minúsculas, de tons amarelos, roxos e brancos, que tinham esperado meses, anos, talvez décadas, num sono letárgico, irromperam com uma urgência desesperada.

O deserto estava vivo. A paisagem havia trocado o seu manto de fogo por uma delicada pintura feita em aquarela.

A chuva no deserto do Namibe não é apenas água; é um milagre. É a prova de que a vida espera, por mais improvável que pareça a sua chegada.

E o Kuroka, que já não feito de areia correu e sentiu-se rio a correr para o mar. Ele sabia que o verde duraria pouco. O sol voltaria a reivindicar o seu trono, e o deserto voltaria ao seu silêncio de séculos e ele voltaria a ser areia. Mas, por agora, ele podia murmurar baixinho aos ventos a história daquele dia fugaz, o dia em que o céu chorou e a areia floresceu.



Sanzalando

12 de novembro de 2025

Autor - Luandino Vieira - K'arranca às Quartas 93


Sanzalando

Esta Música tem uma História 35 - Gisela João - Meu Amigo Está Longe - K'arranca às Quartas 93


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 68 - Artur Garcia - K'arranca às Quartas 93


Sanzalando

Crónica 81 - K'arranca às Quartas 93


Sanzalando

Programa 93 K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 12 de Novembro - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, apesar de todos os K'arranca às Quartas o serem. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr sobre "porque fazemos tudo a correr" 
Falei de Luandino Vieira;  Esta Música tem uma história trouxe Gisela João e Meu Amigo Está Longe, numa colaboração de José Leite; 
não faltaram os Tesourinhos Musicais hoje com Artur Garcia, 
Poema:  Poeta    Alice Neto de Sousa  
e e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.
Falei da Curiosidade e Preguiça
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

11 de novembro de 2025

Eu e os 50 anos de Angola independente


Adolescente ouvi histórias sobre a luta pela libertação e sobre os sonhos de um país livre. Hoje, ao celebrar meio século de independência, sinto que a história de Angola é também parte da minha identidade.

Angola percorreu um longo caminho — da guerra à paz, da reconstrução ao desenvolvimento. Havendo ainda muitos desafios: desigualdade, juventude desempregada, e a necessidade de fortalecer a unidade nacional.

Mas há também orgulho: os angolanos são um povo resiliente, criativo e cheio de esperança. Os 50 anos de independência são um convite a olhar para trás com gratidão e para o futuro com responsabilidade. 

Dizem que o tempo passa depressa, mas cinquenta anos é tempo suficiente para nascer, crescer, errar e recomeçar — tanto para uma pessoa quanto para uma nação.

Eu renasci com a independência, num tempo em que o hino era cantado com orgulho e a bandeira tremulava livre. Para mim, Angola sempre foi Angola — inteira, independente, com o seu jeito forte e contraditório de existir.

Quando ouço os mais velhos falarem, percebo que o país foi sonhado e nascido entre sacrifícios, mas percebo que quando falam de 1975 é assim como quem fala do nascer do sol depois de uma longa noite. Falam de esperança, de lutas, de promessas. 

Hoje, Angola faz cinquenta anos. E eu, que sou parte dessa metade de século, carrego comigo uma mistura de orgulho e inquietação. Orgulho porque Angola resistiu, porque dança mesmo quando o chão ainda é duro e irregular, porque o riso ainda vence o cansaço e a desmotivação. Inquietação porque ainda há tanto por fazer, tanta desigualdade a corrigir, tanta juventude à espera de oportunidade.

Mas talvez ser angolano seja isso mesmo: viver entre a memória e a esperança. Saber que a liberdade não é um ponto final, mas uma frase que ainda se escreve.

Eu e Angola caminhamos juntos — ela com as suas cicatrizes, eu com as minhas dúvidas e meus medos. E, juntos, sonhamos o mesmo sonho: o de um país mais justo, mais aberto, mais nosso.

Cinquenta anos depois, continuo a acreditar. Porque acreditar, afinal, também é uma forma de amar.



Sanzalando

10 de novembro de 2025

vou por aí

Vou por aí, estrada fora, levo um livro, talvez Fernando Namora. Vou sem rumo, soletrando pensamentos, daqueles tempos em que trabalhava e agora só tenho retalhos de memória que me fazem ter uma história para lembrar.
Vou por aí, dançando ao som duma música que invento, pulando ao sabor do vento, vagueando porque tenho tempo.
Vou, sem rumo, ideia fixada num qualquer lápis mental num mapa imaginário. Vou sem qualquer mal, sem pintar qualquer cenário, real ou inventado, vivido ou imaginado. Vou por aí porque não me apetece ficar aqui.


Sanzalando

9 de novembro de 2025

Inteligência artificial versus a natural, que é a minha

Agarrei num texto de 2003, primeiro ano que tenho guardado em arquivo digital, e fiz um copy-past para um verificador de uso de IA. Surpresa minha, deu 87 % de uso. Se naquela altura eu usava inteligência artificial, isto é, há 22 anos eu a usava e era mais novo, quer dizer que agora, passado esses anos e com alguns neurónio queimados, nos múltiplos stresses da vida eu devo ter muito menos de inteligência natural e muito mais de artificial, pelo que o que eu escrevo deve dar uns 110 % artificial e 120  % de delírio. E logo agora que eu pensava que ia usar o que me resta da inteligência natural...

Eu tenho 69 e um telemóvel que parece mais inteligente do que muita gente. Todas as manhãs, antes mesmo de acordar, uma música  suave me diz “bom dia” que vem do pequeno aparelho. O aparelho lembra-me de tomar os remédios, medir a tensão se eu fosse racional e até de fazer coisas durante o dia. Mas eu olho para ele e dou comigo a gargalhar porque penso se eu o programar eu deixo de pensar e eu passo a ser um robot dessa coisa pequena que antes servia apenas para telefonar.

A inteligência artificial entrou devagarinho na vida, como quem não quer incomodar. Primeiro foi o tal de relógio que contava passos que eu dava por dia; depois, a app que avisa quando o coração bate mais rápido do que devia. Só falta mesmo ele desatar a conversar comigo como a querer fazer-me companhia quando eu quero estar sozinho....

Mas há dias em que eu sinto falta da conversa verdadeira. A máquina pode responder a tudo, mas de certeza que não me vai responder se eu fizer a pergunta mais importante:  Já amaste alguém?

Eu sei que a voz é apenas um conjunto de algoritmos, frios e precisos. Falta-lhe o calor das histórias que só a inteligência natural, a humana pode construir com as lembranças, cheiros e afectos, as dores e as perdas.

Enquanto preparo um chá de caxinde, capim ou príncipe, que é tudo o mesmo chá, penso no quanto aprendi com o tempo: a distinguir o riso, aquele que vem sincero do sincero e do que vem do educado, o silêncio de quem escuta ou do silêncio de quem se cala. Nenhum algoritmo conhece esses segredos, tem essa sabedoria porque a sabedoria da vida, essa, não se programa.

E, no entanto, há algo bonito nesta convivência entre o velho e o novo. A máquina ensina-me a não me perder nos horários e eu ensino a máquina, ainda que ela não entenda, o que é ser gente.

Afinal, a inteligência artificial pode até prever o tempo, mas é a natural que sabe quando é hora de abrir ou fechar a janela.

Na verdade, continuarei, tal como até hoje, a usar a minha percentagem natural de inteligência artificial.


Sanzalando

8 de novembro de 2025

Bom Dia Mercado 9



Programa de Rádio feito no Mercado Municipal de Portimão - 08 de Novembro de 2025
Uma alegria ter a rádio em directo. Mercado super Cheio e nós cheios de coisas boas. 
Ouça-nos e visite-nos



Ouça em diferido o directo de hoje
Muito bom de ouvir. Sirva-se


 





Sanzalando

7 de novembro de 2025

na varanda com sorrisos e livros

Nem sei se tinha dezessete anos e passava as tardes a estudar na varanda, ou pelo menos fingia que estudava. Na verdade a minha mãe bem que me perguntava o que é que se passava comigo. Só podia ser doença. Assim de repente começar a estudar todas as tardes e na varanda?!

Claro está que nunca lhe disse o verdadeiro motivo de estar ali, porque dali eu tinha ampla visão para a casa ao lado. 

Não foi por acaso que ela se mudou para minha vizinha quando antes morava lá perto da 56. Acho que foi por mim. O pai lhe adivinhou, pensei eu.

A primeira vez que trocaram olhares, no recreio do liceu quando ela para o liceu foi estudar. E logo para a minha turma. Os astros estavam a montar o futuro. Ela sorriu-me e aos poucos, as conversas começaram a prolongar-se. Dali em diante inseparáveis no recreio e no caminho para o liceu, excepto quando ela ia de Mini-Honda. Eu, atrapalhado, parecia um desajeitado ao seu lado. De tanto querer fazer bonito metia as mãos pelos pés e por vezes atropelava as palavras. Éramos lindos. e falávamos de tudo.

Numa tarde, ela convidou-o para ajudá-la a pintar o muro do jardim. Entre pinceladas e risadas, os olhares se trocavam e sorriam. Ficaram em muitos silêncios, como se os corações acelerassem. O muro foi pintado num instante. 

Nas tardes, depois de chegar o liceu, era sentar na varanda e olhar em frente como quem vai adivinhar o futuro que estava mesmo ali. Os livros se abriam e se fechavam num esfolhar como quem não pensa. Ela aparecia na varanda dela, trocava uma ou duas palavras e eu... nem da varanda me apetecia sair. 

Fomos ao cinema.

Tudo parecia que a astrologia estava combinada.

Porque é que eu não colei os astros naqueles dias? Nunca mais olhei a janela, nunca mais olhei para ela, nunca mais lhe sorri nem lhe fiz os meus silêncios de olhar espantado feito parvo.


Sanzalando

6 de novembro de 2025

Castelos de Sonhos

Era uma manhã daquelas quentes, que só África sabe ter, e o sol refletia no mar como dedos de luz. Eu corria pela praia com um balde azul balançando na mão. A areia molhada não queimava os pés e deixava brincar como se fosse uma aventura.

Sentei-me perto de onde as ondas podiam chegar e comecei a construir o meu castelo. Cada montinho de areia era um pedacinho de sonho: uma torre para os desejos, um fosso para os medos, uma ponte para os pensamentos que ainda não tinham nome.

A brisa que vinha do mar soprava histórias antigas, e eu ouvia como quem escuta o mar a falar. Me dizia o mar, que cada grão de areia guarda uma lembrança de quem já passou por ali — pescadores, sereias, viajantes, poetas, namorados e náufragos.

Enquanto moldava as torres com cuidado, imaginava eu que dentro do castelo viviam os meus sonhos, um barco que podia voar, uma estrela que a ensinava a dançar, e um sol que nunca se punha, um amor que nunca acabava e uma vida sem fim.

Mas quando a maré subiu, as ondas vieram e levaram o castelo embora embora, grão por grão. Nem ruína ficou. Sobrou cicatriz na minha alma e sorri. Sabia que os meus sonhos agora navegavam com o mar, livres, como sonhava eu ser.

E naquela tarde, de olhos fechados, ouvindo o mar, sonhei outra vez em ser eterno enquanto gostar de mim.



Sanzalando

5 de novembro de 2025

Tomás Gavino Coelho - Autor - Programa K'arranca às Quartas 92


Sanzalando

Esta Música tem uma História 34 - Trovante - Perdidamente - Programa K'arranca às Quartas 92


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 67 - Helena Rocha - Programa K'arranca às Quartas 92


Sanzalando

Crónica 80 - Programa K'arranca às Quartas 92


Sanzalando

Programa 92 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 05 de Novembro - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, apesar de todos os K'arranca às Quartas o serem. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr sobre "envelhecer é radical" 
Falei da poesia de  Tomás Gavino Coelho e da sua obra; Esta Música tem uma história, com o tema Perdidamente dos Trovante, numa colaboração de José Leite; 
não faltaram os Tesourinhos Musicais hoje com Helena Rocha, 
EXORTAÇÃO   Poema de Ernesto Lara Filho – voz Domingas Monte
e e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.
Falei de Inveja, inteligência e coisas mais
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

4 de novembro de 2025

No embalo do Cardan


Era sábado à noite, possivelmente o ano era 1973. Tem precisões que perdi na poeira do tempo. O Cardan fervia com o som dos Led Zepplins, e agora inventei porque não me lembro se não eram o Deep Purple, as luzes coloridas refletiam no globo espelhado que girava no meio da sala. As garinas desfilavam de calça boca de sino ou de mini-saia e blusa mil-flores, os gajos, incluindo-me,  de camisa estampada aberta até o peito e um perfume forte que misturava loção pós-barba com Bien Etre.

Cada um, com seu cabelo despenteado, em ondas ou liso, e um sorriso meio tímido, observava cada uma, que dançava sozinha. Elas giravam devagar, sentindo a batida “do baixo ou do ritmo ou do que quer que seja”, eu a inventar novamente porque esse tempo eu desentendia esses termos, e parecia não se importarem com mais ninguém.

Depois de três músicas e dois copos de Cuba Libre, ou simples Cuca, a timidez dava lugar a uma coragem fora do normal. 

- Posso entrar nesse ritmo? — perguntei eu, tentando imitar o jeito descontraído de um futuro John Travolta, mas desajeitado porque prematuro, a quem eu anda a catrapiscar sem resultado aparente até à altura

Ela riu, meio surpresa:
- Depende... desde que seja longe de mim? respondeu-me ela peremptoriamente

- Deixar tentar, dá-me uma hipótese. repliquei em voz sumida e ruborizado camuflado pelas cores vivas que as luzes disfarçavam

Virou-me costas e foi-se para outro canto.

Embalei-me no som e chorei para dentro lágrimas evaporadas. 

- Desengataste-te? perguntou-me um camba que se aproximou de mim. 

Que sim, penso ter eu dito.

Saí do Cardan enquanto trocavam de música e as luzes deixavam ver melhor. Lá fora, o vento morno da noite misturava o cheiro de  fumos com os do mar.

E entre risadas e passos lentos, o desengate virou começo de eu ser gente, porque foi ali que me prometi ia mudar o rumo do mundo. Pelo menos do meu. 



Sanzalando

3 de novembro de 2025

Os meninos de rua da minha terra

Naquele tempo, o parque infantil e a avenida eram de terra vermelha batida. Quando chovia não viravam um lamaçal danado como as ruas e zonas de terra batida normal. Quando fazia sol, o pó se grudava na pele das pernas desnudadas e parecia tinha meia avermelhada. Mas ninguém se importava ou achava bem ou mal. Era ali que a gente se encontrava à tarde, depois da escola. Ela por ali que a gente brincava às escondidas, à apanhada, polícias e ladrões, jogava à queimada ou simplesmente sentava a contar anedotas. Tinha sempre alguém que tinha jeito. Também tinha dias que se tocava viola e se cantava. Outros dias tinha um trazia uma bola de de cabedal quase careca  de uso geracional diverso e se jogava um campeonato inventado com regras definidas no início de cada jogo.

Ao final acabado da tarde as mães gritavam das janelas ou varandas :
- já está tá escuro! Vem pra dentro!
Ouvíamos mas fazíamos de conta que não. O tempo passava depressa demais quando estávamos junto.

Acendiam-se as luzes da rua mas os ouvidos continuavam surdos selectivamente para o chamamento materno.

Às vezes, sentávamo-nos no lancil do passeio só para conversar. Falávamos de tudo: dos sonhos, dos medos e de aventuras que só existiam na imaginação. Riamos de qualquer forma e por qualquer coisa e, mesmo sujos de poeira e com o joelho esfolados, parecíamos os meninos mais felizes do mundo.

Hoje, quando passam pelas mesmas zonas, através da memória, sabemos que continuam iguais, silenciosas porque não ouvimos as nossas vozes nem as nossas gargalhadas e muito menos o chamar das mães para irmos para casa.

Sentimos saudade daquele tempo. Saudade da liberdade simples, das amizades sinceras e da alegria de brincar sem pressa. Sentimos saudade e ao mesmo tempo alegria. Foi aquele tempo que nos fez.



Sanzalando

2 de novembro de 2025

O Dia em que o Tempo Mudou de Dono

Dizem que o tempo não para. Mentira descarada, o tempo parou hoje, exatamente às 08h00, quando o nosso amigo (vamos chamar-lhe A., para proteger os inocentes) entregou a chave, desligou o computador, desinstalou-se do gabinete e suspirou num misto de mágoa e saudade: “Agora sim, estou reformado.”

É um momento histórico. O relógio dos corredores do Hospital ficaram desorientado, o Boss mais boss de todos os bosses começou a suar frio, e a máquina do café entrou de luto. Afinal, A. era o único que sabia pôr aquilo a funcionar sem manual, com rigor e disciplina.

Setenta anos, e ainda com mais energia do que muitos de vinte, embora o o cabelo branco  o atire para o Ser Mais Velho como se diz na nossa terra. Durante décadas, A. fez tudo: trabalhou, criou filhos, pagou impostos e fez promessas de “um dia descansar” embora lá no fundo ia achar era eterno, tal como quem escreve estas linhas. 

Pois bem, o dia chegou… e agora ele vai tentar perceber o que é que as pessoas fazem às 10h30 de uma terça-feira quando não estão a responder a e-mails, a disciplinar e a olear uma máquina enfraquecida, enferrujada e desgastada pela inércia do boss mais boss que o grande boss.

Os amigos já o avisaram: o primeiro mês da reforma é perigoso. A pessoa acorda cedo por hábito, faz o café, olha o relógio e pensa: “Tenho o dia todo pela frente.” E depois percebe que o dia é muito longo quando não há reuniões nem internos para culpar.

Mas o nosso A. é homem de recursos. Diz que vai “pôr tudo em ordem lá em casa”. Tradução: vai mexer em gavetas, encontrar manuais de micro-ondas de 1998 e proclamar que “um dia pode ser útil”. A S. vai-se exasperar, expulsar da sala, da cozinha e sobra-lhe o jardim, mas está a chover

A verdade é que a reforma é uma arte. Não é o fim — é o início de uma nova carreira: a de gestor de tempo próprio, com especialização em sestas e longos almoços, partidas de golf, conversas intermináveis e ideia contruíveis.

Parabéns, A.! Chegaste aos 70 com humor, saúde e, finalmente liberdade para não fazer nada com estilo.



Sanzalando

1 de novembro de 2025

Hoje é dia de todos os santos

Hoje é Dia de Todos os Santos.  Foi o calendário a lembrar-me disso, com a solenidade de quem carrega séculos de devoção, procissões, velas e flores, já que se mistura como o dia de finados que me tinham dito que era amanhã, quando eu ainda era menino de acreditar em tudo o que me diziam. É um dia em que se fala de céu e de eternidade, de virtude e de milagres. Mas eu, que tenho o hábito de procurar o sagrado nas pequenas coisas, penso noutros santos, os meus santos de carne e osso, que ainda andam por aqui, que ainda me dizem bom dia e me desejam um optimo dia pela frente, mesmo que não tenham Santos no nome.

Penso na Dona Mariana, vizinha da casa ao lado, que todas as manhãs varre o passeio e cumprimenta o mundo com um “bom dia” que parece uma bênção transportada no sorriso natural.
Penso no meu amigo Joaquim, que nunca chega a horas, mas chega sempre com um sorriso e um café quente quando mais preciso.
Penso nas professoras dos meus sobrinhos, que ensinam letras e paciência em doses iguais, e que, sem auréola nem incenso, salva pequenos futuros todos os dias. Penso nos meus colegas que ainda acordam cedinho, nos dias feriados como de semana fossem para vestirem as suas batas brancas e irem desensofrer os sofredores de maleitas e outras desfeitas. Penso naquelas pessoas qe mantém a rua limpa para eu passar em respiração normal e não em apneia. Penso naquele que de madrugada faz o pão para eu comê-lo fresco, quente, manhã cedo. Penso em tantos que nem as letras deste computador chegariam para os nomear.

Esses são os meus santos.

Não estão em altares nem em vitrais coloridos. Estão na rua, no autocarro, no supermercado. São santos do quotidiano, canonizados pelo afeto e pela coragem silenciosa de continuar.

Neste dia de Todos os Santos, há quem vá ao cemitério levar flores aos que já partiram. Eu levo o coração cheio de gratidão pelos que ainda cá estão, os santos vivos, os que me emprestam a sua fé quando a minha se distrai.
Talvez a santidade não seja um prémio póstumo, mas um gesto simples, repetido mil vezes com amor: ouvir, cuidar, partilhar, perdoar.

Por isso hoje acendo uma vela, não no altar, mas no pensamento, por todos os santos que vivem comigo.
Os santos anónimos.
Os santos imperfeitos.
Os santos que ainda me telefonam, que riem das minhas trapalhadas, que me lembram que a vida, mesmo sem milagres, já é uma bênção.



Sanzalando