Há quem pense no que o que será que me deu para ter mudado o que escrevia para o que agora escrevo. Respondo simples: apeteceu e desenvolvo, justifico e comento.
Há uma coisa extraordinária na liberdade de expressão que é permitir-nos dizer aquilo que pensamos. E há outra ainda mais extraordinária nessa frase, permite-nos pensar antes de dizer.
Mas o grande problema é que esta segunda parte parece estar a cair em desuso.
Vivemos num tempo em que algumas pessoas confundem liberdade de expressão com licença para dizer tudo, sobre todos, a qualquer hora e, se possível, em público, mesmo que seja atrás de um teclado no silêncio da solidão. Como se a liberdade viesse acompanhada de um megafone e da imunidade diplomática.
A liberdade de expressão é um direito fundamental. Mas não é um salvo-conduto para a calúnia, a mentira ou a ofensa. Posso dizer que não gosto de alguém. Posso criticar o que essa pessoa fez. Posso até dizer que o acho um péssimo cozinheiro, se tiver provas suficientes depois de experimentar o arroz, a batata ou o suflé.
O que já é outra coisa é inventar factos, espalhar falsidades ou destruir a reputação de alguém apenas porque me apetece ou porque não gosto dele.
A diferença parece simples - opinião não é mentira, crítica não é insulto e liberdade não é impunidade.
Antigamente, para espalhar uma calúnia era preciso encontrar três pessoas no café, contar-lhes a história e esperar que elas a contassem aos seus cem melhores amigos. Hoje basta um telemóvel, um dedo e cinco segundos de desnorte mental.
E a mentira viaja depressa. Às vezes chega antes da verdade, instala-se confortavelmente no sofá e ainda pede um café, cruza as penas e fica a olhar.
Há também quem diga: Eu só estou a dar a minha opinião.
É uma frase muito útil. Serve para tudo. Serve para a crítica, para o insulto, para a invenção e até para aquela barbaridade que alguém acabou de publicar e que, cinco minutos depois, já está arrependido de ter escrito, apaga mas há sempre alguém que teve tempo para fazer um print-scren préviamente.
Mas uma opinião não transforma uma falsidade em verdade. Dizer acho que ele é incompetente é uma opinião. Dizer que ele roubou é uma acusação de facto. E entre uma coisa e outra existe uma enorme diferença, felizmente, porque senão qualquer discussão de café acabava no tribunal.
Também podemos discordar sem humilhar.
Aliás, talvez essa seja uma das grandes artes que estamos a perder, discordar de alguém sem querer destruí-lo.
Podemos combater ideias sem atacar pessoas. Podemos dizer não concordo sem acrescentar e quem pensa assim é um idiota. Podemos criticar uma decisão sem transformar o autor da decisão num inimigo pessoal.
A liberdade de expressão não fica mais forte quando gritamos alto. Fica mais forte quando conseguimos usá-la com responsabilidade.
Porque as palavras, depois de ditas, não voltam para a boca. E há palavras escritas na internet que parecem ter comprado casa própria e direito a primeira página.
No fundo, talvez precisemos de recuperar uma velha e sábia tecnologia, anterior ao telemóvel, às redes sociais e aos comentários instantâneos: o bom senso. Não precisa de bateria, não exige actualização e, tanto quanto sabemos, ainda não ficou fora de prazo.
Liberdade é podermos falar. Responsabilidade é sabermos o que estamos a dizer e respeito é lembrarmo-nos de que, do outro lado da frase, também está uma pessoa.
Até porque a liberdade de expressão é demasiado importante para ser confundida com a liberdade de ofender. E a verdade é demasiado preciosa para ser deixada à toa de quem tem pressa de publicar.
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