recomeça o futuro sem esquecer o passado

21 de agosto de 2026

uma peça de roupa, muito alarido

Há dias em que basta uma peça de roupa para nos pôr a pensar na história, na cultura e, sobretudo, na nossa extraordinária capacidade de complicar tudo aquilo que parece simples.

A burca, por exemplo, é uma peça de vestuário que, por razões culturais e religiosas, cobre grande parte do corpo. Quando a vemos, o que nunca me aconteceu, pensamos imediatamente no Afeganistão, no mundo islâmico, nas diferenças culturais e nas discussões sobre liberdade, identidade e costumes.

Depois olhamos para o Algarve e percebemos que também nós temos uma longa tradição de vestir a história.

Temos os trajes regionais algarvios, bioco, além das suas saias, aventais, lenços, coletes, cores e rendas. Há roupas para trabalhar, para ir à feira, para dançar, para casar e, provavelmente, algumas que tinham tanta goma que, se fossem abandonadas numa cadeira, continuavam lá sentadas sozinhas.

O traje regional não é apenas roupa. É memória.

É a maneira como uma comunidade se apresentava, como trabalhava, como celebrava e como distinguia os dias comuns dos dias de festa. Antes da moda rápida, havia roupa que durava uma vida inteira. Hoje compramos uma camisola de manhã e à tarde já estamos a pensar se não haverá uma versão mais moderna.

No Algarve, o vestuário tradicional também fala de uma região habituada ao sol, ao trabalho, ao campo, ao mar e às festas. E há uma coisa curiosa: enquanto algumas culturas cobrem o corpo por razões religiosas ou sociais, outras criaram roupas que, sem esconder completamente a pessoa, diziam muito sobre de onde ela vinha.

É aqui que percebemos que o mundo é muito mais parecido do que julgamos.

Todos temos maneiras de vestir que dizem: Eu sou daqui.

Uns usam burca. Outros usam traje algarvio. Outros usam fato e gravata. Outros ainda usam calções, chinelos e uma t-shirt onde está escrito Algarve, como se houvesse o risco de se esquecerem onde estão.

E depois há a moda contemporânea, que conseguiu a proeza de tornar toda a gente diferente exatamente da mesma maneira.

No fundo, a roupa é uma espécie de documento de identidade sem fotografia. Conta histórias, revela costumes, mostra diferenças e, às vezes, esconde mais do que devia.

E talvez seja por isso que devemos olhar para a burca e para os trajes regionais com curiosidade, respeito e algum sentido de humor. Não para os comparar como se fossem concorrentes de um desfile, mas para perceber que todos os povos têm maneiras próprias de vestir a sua cultura.

No Algarve, felizmente, ainda podemos ver esses trajes nas festas, nos ranchos folclóricos, nas celebrações tradicionais mas fundamentalmente em fotos nos museus.

E eu cá acho bonito. Porque num tempo em que tanta gente quer parecer jovem, moderna e internacional, há qualquer coisa de profundamente elegante em alguém vestir-se como os seus avós e dizer, sem precisar de discurso:

- Eu venho daqui.

E isso, convenhamos, é uma maneira muito mais interessante de estar na moda.

(da internet: Coca, o Bioco e o Capelo são três trajes de diferentes regiões, Alto Alentejo, Algarve e Ilha Terceira (Açores), no entanto, apesar da distância geográfica existem muitas semelhanças entre eles e uma história comum. Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o himation, ou seja, o manto, com o qual cobriam a cabeça. Possivelmente imitavam um costume mais antigo. O Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto à moda etrusca, isto é, sobre a cabeça. São Paulo introduz o costume das mulheres cobrirem a cabeça para que se distingam das mulheres descobertas ou meretrizes. )







Sanzalando

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