Há dias em que basta uma peça de roupa para nos pôr a pensar na história, na cultura e, sobretudo, na nossa extraordinária capacidade de complicar tudo aquilo que parece simples.
A burca, por exemplo, é uma peça de vestuário que, por razões culturais e religiosas, cobre grande parte do corpo. Quando a vemos, o que nunca me aconteceu, pensamos imediatamente no Afeganistão, no mundo islâmico, nas diferenças culturais e nas discussões sobre liberdade, identidade e costumes.
Depois olhamos para o Algarve e percebemos que também nós temos uma longa tradição de vestir a história.
Temos os trajes regionais algarvios, bioco, além das suas saias, aventais, lenços, coletes, cores e rendas. Há roupas para trabalhar, para ir à feira, para dançar, para casar e, provavelmente, algumas que tinham tanta goma que, se fossem abandonadas numa cadeira, continuavam lá sentadas sozinhas.
O traje regional não é apenas roupa. É memória.
É a maneira como uma comunidade se apresentava, como trabalhava, como celebrava e como distinguia os dias comuns dos dias de festa. Antes da moda rápida, havia roupa que durava uma vida inteira. Hoje compramos uma camisola de manhã e à tarde já estamos a pensar se não haverá uma versão mais moderna.
No Algarve, o vestuário tradicional também fala de uma região habituada ao sol, ao trabalho, ao campo, ao mar e às festas. E há uma coisa curiosa: enquanto algumas culturas cobrem o corpo por razões religiosas ou sociais, outras criaram roupas que, sem esconder completamente a pessoa, diziam muito sobre de onde ela vinha.
É aqui que percebemos que o mundo é muito mais parecido do que julgamos.
Todos temos maneiras de vestir que dizem: Eu sou daqui.
Uns usam burca. Outros usam traje algarvio. Outros usam fato e gravata. Outros ainda usam calções, chinelos e uma t-shirt onde está escrito Algarve, como se houvesse o risco de se esquecerem onde estão.
E depois há a moda contemporânea, que conseguiu a proeza de tornar toda a gente diferente exatamente da mesma maneira.
No fundo, a roupa é uma espécie de documento de identidade sem fotografia. Conta histórias, revela costumes, mostra diferenças e, às vezes, esconde mais do que devia.
E talvez seja por isso que devemos olhar para a burca e para os trajes regionais com curiosidade, respeito e algum sentido de humor. Não para os comparar como se fossem concorrentes de um desfile, mas para perceber que todos os povos têm maneiras próprias de vestir a sua cultura.
No Algarve, felizmente, ainda podemos ver esses trajes nas festas, nos ranchos folclóricos, nas celebrações tradicionais mas fundamentalmente em fotos nos museus.
E eu cá acho bonito. Porque num tempo em que tanta gente quer parecer jovem, moderna e internacional, há qualquer coisa de profundamente elegante em alguém vestir-se como os seus avós e dizer, sem precisar de discurso:
- Eu venho daqui.
E isso, convenhamos, é uma maneira muito mais interessante de estar na moda.




Sem comentários:
Enviar um comentário