recomeça o futuro sem esquecer o passado

17 de outubro de 2026

A menina que namorava os livros e deixava os rapazes a estudar sozinhos

Nos anos 70, era eu adolescente armado aos cágados e havia uma menina que tinha uma missão na vida que era nem mais nem menos que estudar.

Não estudar para saber mais do que os outros, embora soubesse. Não estudar para impressionar os professores, embora os impressionasse. Nem sequer estudar para arranjar um bom emprego, embora essa fosse uma possibilidade que os pais viam com muito bons olhos. Não. Aquela menina estudava porque estudar era a sua paixão. Enquanto as outras raparigas da turma começavam a descobrir que os rapazes tinham uns olhos bonitos, umas mãos interessantes e uma voz capaz de provocar certas tonturas, ela descobria os encantos da matemática, as delícias da gramática e o erotismo moderado de uma equação do segundo grau. Vistas as coisas era uma questão de prioridades.

Nós, os rapazes, coitados, não estavámos preparados para semelhante concorrência. Naquele tempo, um rapaz apaixonado tinha poucas armas de sedução. Não havia telemóveis, mensagens de WhatsApp, fotografias com filtros nem declarações de amor nas redes sociais. Havia cartas dobradas em quatro, bilhetinhos passados por baixo da carteira e olhares furtivos que, quando descobertos pelo professor, davam direito a uma chamada de atenção e, em certos casos, a uma visita pedagógica à orelha. Um rapaz tinha de improvisar. O primeiro admirador da menina chamava-se, ai que agora esqueci, porque não me lembro como ela me chamava. Nome de família ou como a família me chamava? Era um rapaz de cabelo descuidadosamente penteado, porque rebelde e teimoso o cabelo, camisa aberta no primeiro botão e uma confiança em mim próprio que não encontrava correspondência nas notas mas também não me esforçava por isso.  Um dia, cai-me do céu coragem e aproximei-me dela à saída do Liceu.

-Olha posso acompanhar-te até casa, já que moramos quase lado a lado?

Ela nem levantou os olhos do livro.

- A que horas?

Ele sentiu que o destino lhe abria uma porta e sorriu.

- Às cinco, depois da aula de matemática.

- Não, vem o meu pai buscar-me.

- E às seis podes vir até à rua conversar?

- Tenho de estudar História.

- E logo a seguir ao jantar?

Ela finalmente olhou para ele, com a expressão de quem acaba de descobrir um erro num exercício.

- Tu não tens mais nada para fazer?

Eu fiquei tão abalado que, durante uma semana, estudei História. Não por interesse na matéria, mas na secreta esperança de ter um assunto de conversa com ela quando saísses as notas.

Foi um esforço inútil. Sairam as notas. Bati o meu recorde e enquanto discutia com ela a Revolução Francesa, ela corrigiu-me três datas e perguntou se já tinha lido o capítulo seguinte.

Nunca mais voltei a falar da Revolução Francesa. Digo mesmo que, anos mais tarde, ainda estremeço quando ouço a palavra guilhotina.

Mas eu não estava sozinho na desgraça. Havia também o Beto, que tocava viola e acreditava que nenhuma mulher resistia a um rapaz capaz de cantar uma canção romântica com sentimento. Passava as tardes a ensaiar músicas, imaginando a menina encostada ao seu ombro, enquanto o vento lhe agitava os cabelos e o mundo inteiro desaparecia. Na realidade, quando ele começou a cantar para ela no recreio, ela interrompeu-o:

- Beto, sabes que estás a desafinar?

- É da emoção — respondeu ele, procurando salvar a dignidade.

- Então controla a emoção. Temos um teste amanhã.

O Beto guardou a viola e foi estudar Física. Foi a primeira vez que alguém conseguiu transformar uma serenata numa sessão de recuperação escolar.

Havia ainda o Carlos, que era mais sofisticado. Levava-lhe flores, emprestava-lhe livros e escrevia poemas onde a palavra amor aparecia tantas vezes que o professor de Português lhe recomendou variar o vocabulário. A menina agradecia tudo com uma educação irrepreensível. As flores colocava-as num copo com água, os livros lia-os e os poemas corrigia-os a vermelho.

Uma vez, Carlos escreveu-lhe: És a estrela que ilumina a noite do meu coração.

Ela devolveu-lhe o poema com uma nota à margem: Imagem interessante, mas pouco original. Tenta outra metáfora mais original.

Carlos passou o resto do dia a pensar numa metáfora nova. Acabou por escrever:  És a tabela periódica da minha existência. 

Nem assim foi um sucesso. Ela perguntou-lhe se aquilo era uma declaração de amor ou um pedido de ajuda em Química.

E assim se passaram os anos setenta. Os rapazes galanteavam, ela estudava. Os rapazes suspiravam, ela sublinhava. Os rapazes sonhavam com beijos roubados atrás do pavilhão, enquanto ela sonhava com uma nota máxima nos exames.

Quando chegava a época dos testes, era impossível aproximar-se dela. O seu coração parecia ter sido temporariamente convertido numa biblioteca pública, silêncio obrigatório, entrada condicionada e proibição absoluta de perturbar os leitores.

Houve até quem tentasse conquistá-la oferecendo-lhe sebentas, apontamentos e resumos. A estratégia teve algum êxito, mas por razões que não abonam muito a favor do romantismo. Ela aceitou os apontamentos, agradeceu e passou a emprestar ao rapaz os seus próprios resumos. O pobre apaixonado acabou a trabalhar para a mulher dos seus sonhos sem receber sequer um beijo como gratificação.

Entretanto, os anos foram passando. Os rapazes cresceram, alguns casaram, outros já se divorciaram e alguns descobriram que a viola não pagava a renda e outros perceberam, demasiado tarde, que a Revolução Francesa não era assim tão importante para conquistar uma mulher.

Ela também cresceu. Tirou boas notas, fez os seus estudos, construiu a sua vida e continuou a acreditar que o conhecimento era uma das coisas mais importantes do mundo. E tinha razão. Mas, muitos anos depois, numa reunião de fim de Universidade, aconteceu uma coisa extraordinária.

Eu, cabelo curto, ar de quem acompanhou a revolução por dentro, aproximei-me dela.

- Sabes uma coisa? Naquele tempo, eu era doido por ti.

Ela olhou, mediu e disparou.

- Conheço-o?

Fiquei surpreendido.

- Sou eu! - em espanto porque afinal só tinham passado cinco anos.

- Claro que é. Mas é um desconhecido e desculpe-me... virou costas e partiu

Pensei um instante, como se estivesse a resolver um problema de matemática do último ano. Senti-me a cair num buraco sem fundo. Murmurei:

- Isso é cruel! Mas eu estudei por tua causa!

Ela olhou para trás.

- Então sou responsável por seres quem és? - deixei de a ver, de a ouvir. 

Quarenta anos depois, ainda não consegui vencer aquele exame. E aquela menina apaixonou-se primeiro pelos livros. Os rapazes ficaram para segunda época e outros chumbaram para sempre.



Sanzalando

Sem comentários:

Enviar um comentário