recomeça o futuro sem esquecer o passado

13 de outubro de 2026

Uma estória de amor, saudade e outras calamidades da adolescência

Em 1975, eu tinha aquela idade perigosa em que um gajo julga que já sabe tudo sobre a vida, embora ainda não saiba fazer a barba sem deixar a cara como se fosse um mapa de guerra. Era adolescente, tinha o cabelo comprido, umas calças à moda e uma paixão tão grande que, se fosse possível exportá-la, Angola teria resolvido parte dos seus problemas económicos dos anos seguintes.

Chamava-se ela... e assim num repente esqueci.

O que eu me lembro é que ela tinha uns olhos que me desarrumavam o pensamento, um sorriso capaz de me fazer esquecer o meu próprio nome e uma maneira de dizer olá que eu interpretava como uma promessa de casamento, três filhos e uma vivenda com quintal num qualquer paraíso celestial. Ela dizia olá a toda a gente porque para além de tudo também tinha simpatia. Foi a minha primeira grande desilusão amorosa. E eu ainda nem tinha começado a namorar! Naquele tempo, Angola vivia dias conturbados. Falava-se de política, de independência, de partidos, de tropas, de partidas e de chegadas. Os adultos reuniam-se à volta das mesas, discutiam o futuro da pátria e baixavam a voz quando os miúdos se aproximavam. Nós, os adolescentes, discutíamos coisas igualmente importantes: quem tinha uma mota, quem conseguia entrar no cinema sem pagar e quem tinha beijado quem atrás do muro da escola, quem no liceu era o mais sortudo. Tínhamos assunto constantemente. Na verdade eu, por exemplo, estava muito mais preocupado com o destino dela do que com o destino da nação. Não por falta de patriotismo, mas porque a nação, até então, nunca me tinha dado a mão nem me tinha permitido segurar-lhe a cintura numa dança lenta. Ela, porém, começou a aparecer menos.

Primeiro, deixou de vir à rua onde nos encontrávamos. Depois, faltou a um aniversário. Finalmente, soube que a família ia partir. Partir de Angola. A palavra caiu-me em cima como um piano de cauda que tenha caído do prédio mais alto da cidade. Felizmente a cidade não tinha muitos prédios.

-Partir para onde? - perguntei ao meu amigo Manel, que tinha o talento extraordinário de saber tudo sobre toda a gente, incluindo coisas que ainda não tinham chegado ao conhecimento da gente

- Para Portugal, pá! Estão a ir todos!

Todos, não me importam. Ela sim. Não pode!

Eu não queria saber dos outros. Podiam partir presidentes, ministros, generais, jogadores de futebol e até o senhor que vendia gelados na praia. Mas ela não. Ela tinha de ficar. A história podia fazer o que entendesse, desde que respeitasse os meus sentimentos. Naquela noite, tomei uma decisão: ia declarar-lhe o meu amor. Era uma decisão corajosa, sobretudo porque nunca lhe tinha declarado coisa nenhuma. Tinha passado meses a treinar frases no silêncio e solidão do meu quarto, mas, sempre que a via, o meu vocabulário reduzia-se a três expressões: Olá, Tudo bem? e Também acho.

A minha mãe percebeu que eu andava estranho. Pouco saía de casa. As anedotas não surgiam, a piada rápida não saía. Humm.

- Que tens, rapaz?

- Nada.

- Estás doente?

- Não.

- Então por que é que estás a olhar para o prato como se tivesses perdido alguém importante?

Não respondi. Como explicar à minha mãe que o filho dela estava a viver uma tragédia sentimental sem sequer ter conseguido dar o primeiro beijo? A minha mãe, que tinha atravessado dificuldades bem maiores do que as minhas, provavelmente recomendaria um chá de limão e mandava-me estudar matemática ou química. Mas eu não precisava de matemática nem química. Precisava era dela.

No dia da partida, fui ao aeroporto. Acho até que fui no carro com ela, com a mãe dela e o pai bem como a irmã. O silêncio era total. Nem o carro ousava fazer barulho.

Levei comigo uma camisa que a minha mãe tinha acabado de passar a ferro, umas gotas de perfume e uma coragem de empréstimo, que ameaçava dissolver-se a qualquer momento.

Ela, rodeada de malas, caixas e daquela confusão triste de quem tenta meter uma vida inteira dentro de bagagens que nunca parecem chegar. Aproximei-me dela na placa do aeroporto. Ela sorriu-me como nunca tinha sorrido. Aquele sorriso que me fazia derreter e que bloqueava por completo o meu pensamento! Ainda hoje desconfio de que foi o sorriso mais caro da minha vida. Custou-me anos de recordações.

- Vais mesmo embora? -perguntei, com a inteligência de quem pergunta a um passageiro se o avião vai voar.

- Vou.

 - E voltas?

Ela encolheu os ombros e sorrindo-me disse

- Não sei. 

Não sei! Duas palavras. Duas palavras capazes de destruir um adolescente com mais eficácia do que qualquer discurso político.

Quis dizer-lhe o quanto lhe gostava. Quis contar-lhe que pensava nela quando ouvia música, quando ia à praia, quando passava diante da escola. Quis explicar-lhe que, desde que a conhecera, tinha desenvolvido uma estranha incapacidade de prestar atenção a qualquer outra rapariga. Mas, quando abri a boca, saiu-me:

- Está calor hoje, não está?

Ela riu-se.

E eu, que estava preparado para uma declaração digna de um poeta, acabei a falar do estado do tempo. Talvez tenha sido melhor assim. O meu coração não estava preparado para tamanha exposição pública. Chamaram os passageiros. Ela abraçou-me. Entregou-me um pedaço de papel.

Um abraço breve, daqueles que duram poucos segundos para quem os dá e uma eternidade para quem fica. Eu senti o perfume dela, o calor dos seus braços e uma vontade desesperada de lhe pedir que não fosse. Mas havia uma família à espera, um avião a chamar e um país inteiro a atravessar um dos períodos mais difíceis da sua história. Não havia ali lugar para os meus caprichos de adolescente.

-Escreve-me — pediu ela.

- Claro, se me deres a morada para onde o fazer!

- Está nesse papel.

Respondi com uma segurança que não tinha. Eu escreveria, sim. Escreveria cartas enormes, poemas, declarações, talvez até um romance. Naquele instante, senti que a literatura portuguesa estava prestes a ganhar um grande autor. A verdade é que passei três dias sem conseguir escrever mais do que Querida. Olhava para a casa dela com a esperança que as janelas se abrissem e ela aparece numa delas. O resto era sofrimento, e o sofrimento, como se sabe, não respeita a gramática.

A vida continuava. Havia jantar, havia adultos preocupados com notícias e havia sempre alguém a perguntar por que razão eu estava tão calado. Eu, que até então falava pelos cotovelos, descobri a melancolia. Foi uma descoberta importante. A melancolia dava-me um ar interessante, embora em casa suspeitassem que eu estava com febre. Durante semanas, ouvi as mesmas músicas. Cada canção romântica parecia ter sido composta exclusivamente para mim. Se o cantor falava de saudade, era ela. Se falava de distância, era ela. Se falava de um amor impossível, era ela outra vez. A certa altura, cheguei a desconfiar de que os músicos tinham acesso à minha correspondência.

Entretanto, Angola tornava-se independente. O mundo mudava, as pessoas partiam, outras ficavam, e cada família tentava descobrir como recomeçar a vida no meio da incerteza.

Eu também tive de recomeçar. Continuei a crescer, fui aprendendo que o amor nem sempre chega a acontecer para deixar marcas profundas. Que há pessoas que passam pela nossa vida durante pouco tempo e ficam instaladas na memória como se tivessem escritura da casa e ali morassem permanentemente. E que a adolescência tem esta particularidade maravilhosa, transforma uma despedida num fim do mundo e um sorriso numa promessa eterna.

Ela nunca soube que, durante muito tempo, fui capaz de reconhecer a sua ausência em cada canto da cidade. Também nunca soube que eu tinha planeado casar com ela, embora não tivesse dinheiro, profissão, casa nem sequer autorização para chegar depois das dez da noite. Era um projeto ambicioso. Faltava apenas convencer a noiva.

Hoje, quando olho para trás, tenho vontade de rir daquele rapaz. Tão cheio de certezas, tão pobre de experiência, tão convencido de que o amor se resolve com coragem e uma frase bem construída.

Se pudesse voltar a 1975, talvez lhe dissesse para não ter medo. Para dizer a ela o que sentia. Para não desperdiçar o momento a falar do tempo. Mas também lhe diria outra coisa: que não tivesse vergonha de sofrer. Porque aquele coração partido, por mais ridículo que lhe parecesse na altura, fazia parte de uma história muito maior. Uma história de juventude, de partidas, de um país em mudança e de pessoas que tiveram de deixar para trás lugares, casas, amigos e amores. E talvez lhe dissesse ainda que a vida tem um sentido de humor extraordinário. Passamos anos a imaginar a mulher da nossa vida, fazemos planos para o casamento, escolhemos mentalmente os nomes dos filhos e, no fim, ela vai-se embora num avião sem que tenhamos conseguido sequer beijá-la. É uma maneira cruel de aprender a humildade.

Mas há uma coisa que o tempo não conseguiu levar, a memória daquele abraço no aeroporto, o acenar dela e o rapaz que ficou para trás, convencido de que nunca mais seria feliz.

Foi feliz, sim. Voltou a apaixonar-se, voltou a fazer disparates e, como todos os adolescentes que sobrevivem à primeira paixão, descobriu que o coração tem uma capacidade de recuperação superior à de muitos hospitais. Só nunca voltou a ouvir a expressão está calor hoje sem se lembrar dela.

E, se um dia ela ler estas linhas, gostaria que soubesse uma coisa: em 1975, quando partiu de Angola, levou consigo malas, roupas, fotografias e talvez os sonhos dele, mas deixou lá um rapaz que passou muitos anos a acreditar que tinha perdido o grande amor da sua vida. O rapaz cresceu. O país mudou. A História seguiu o seu caminho. E ela, sem saber, tornou-se a protagonista de uma estória que eu nunca tive coragem de lhe contar. Porque há amores que não chegam a começar, mas passam uma vida inteira a acontecer dentro de nós. E há adolescentes que, mesmo cinquenta anos depois, ainda gostariam de ter dito, naquele aeroporto:

- Amo-te.

Embora, conhecendo-me como me conheço, seja bem possível que acabasse por perguntar:

- Achas que ainda vamos a tempo de comer um gelado?




Sanzalando

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