recomeça o futuro sem esquecer o passado

12 de outubro de 2026

A ciência não exacta de olhar para longe

Nos anos setenta, a arte de não fazer nada atingia o meu ponto mais alto na escala da precisão e do talento. Hoje em dia, a juventude precisa de ecrãs, notificações e luzes a piscar para perder o juízo. Em 1970, para viajar para fora da galáxia, basta-nos uma coisa muito mais modesta: uma falésia, o horizonte à frente e um par chinelos e uns calções.

Ser adolescente em 1970 era viver com os pés presos à gravidade da província ou da praia da infância e a cabeça a flutuar algures entre a Lua onde os americanos tinham acabado de alunar há pouco tempo, para grande desconfiança das vizinhas e um solo de guitarra de dez minutos dos Led Zeppelin ou um albúm dos Deep Purple made in Japan.

O ritual do horizonte começava quase sempre ao final da tarde. O eu jovem sentava-se num sítio estratégico, entre o tribunal e a paróquia, não fosse o diabo tecê-las. Cruzava os braços, semicerravam-se os olhos para dar aquele ar de filósofo incompreendido de que a malta tanto gostava, e começava a navegação.

O horizonte, visto de longe, parecia uma linha traçada a régua, mas que quem passou por aulas sabe que ela é curva, mas na verdade, é o melhor ecrã de cinema do mundo.

Primeiro, vinham os pensamentos profundos. O que é que o tempo é? Será que no outro lado do mar as pessoas também comem pão com chouriço às quatro da tarde? Depois, a mente derivava inevitavelmente para a mecânica das coisas terrestres: Se eu usar calças à boca de sino a minha mãe vai-me contrariar? E, claro, o mistério insondável de todos os mistérios, porque razão a Maria da Dita olhou para mim no Liceu durante mais de três segundos inteiros? Terá sido amor profundo ou tinha eu uma nódoa de pastel de nata na camisa?

A grande vantagem de navegar pelos pensamentos em 1970 é que ninguém nos podia interromper com uma mensagem de texto. As únicas interrupções possíveis eram puramente acústicas e profundamente humanas.

— Ó puto! O que sonhas aí?! - ou a voz da mãe a dizer que são horas de jantar.

Era assim. A grande odisseia metafísica pelo cosmos terminava abruptamente por causa de uma cachucho frito e de um arroz de tomate.

Mas enquanto durava... ah, enquanto durava, o horizonte pertencia-me. Não precisáva de passaporte, nem de licença de pátrio poder. Bastava o cheiro a maresia, a brisa a despenteador as longos cabelos que insistiam em não crescer ao ritmo desejado, e a certeza absoluta de que o futuro era um território gigante, luminoso e imprevisível, à nossa espera logo ali depois daquela curva na água.



Sanzalando

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