O meu amor faz anos.
É um dia importante. Para ela, porque soma mais um ano à sua existência. Para mim, porque tenho de demonstrar que me lembro da data sem consultar o calendário do telemóvel, o que, nos dias de hoje, constitui uma prova de amor quase equivalente a atravessar o deserto do Namibe a pé, sem água e sem reclamar. Felizmente, lembrei-me. Há uma diferença entre um homem que se lembra do aniversário da mulher e um homem que recebe sinais de fumo, mensagens subliminares e perguntas aparentemente inocentes como:
- Sabes que dia é amanhã?
Se respondermos imediatamente, somos uns queridos. Se hesitarmos dois segundos, começa a investigação criminal.
- Não te esqueceste de nada, pois não?
Esta pergunta, feita com um sorriso, tem a mesma tranquilidade de um cirurgião que pergunta ao colega se trouxe o bisturi certo. Sabemos que alguma coisa pode correr mal.
O problema dos aniversários é que o amor não se mede em presentes, mas o presente errado pode obrigar-nos a rever toda a teoria. Flores? São bonitas, mas morrem depressa. Perfume? E se ela disser que prefere outro? Um vestido? Seria preciso ter coragem, conhecimentos de moda e uma fé inabalável na própria capacidade de avaliar tamanhos. Dar dinheiro dentro de um envelope? Isso não é romantismo, é uma transferência bancária com sentimentos.
Resta o jantar romântico. Uma solução aparentemente segura, desde que o restaurante seja bom, a mesa esteja reservada e eu não me lembre de contar aquela história que já contei dezassete vezes. Porque o amor tem destas coisas: ela conhece-me tão bem que, por vezes, basta eu abrir a boca para ela saber como termina a frase. E, se começo com Sabes o que me aconteceu uma vez…, o olhar que recebo informa-me de que a história já foi ouvida, catalogada e arquivada.
Mas hoje é o dia dela. Hoje, prometo ouvi-la com atenção, concordar com elegância e não discutir a temperatura do ar condicionado. Prometo dizer-lhe que está bonita, mesmo que me pergunte isso quando estamos atrasados para sair. Prometo não transformar uma ida às compras numa expedição científica e não perguntar se precisamos mesmo de comprar aquilo que ela já tem na mão. Promessas, como se sabe, são fáceis de fazer. Cumpri-las é que exige uma longa experiência de convivência conjugal. E, no entanto, há uma coisa que não precisa de promessa: continuo apaixonado.
Não necessariamente da mesma maneira que no princípio. Nesse tempo, o coração batia desordenadamente, a voz tremia e um simples olhar dela provocava-me uma desorganização interna que nenhum médico conseguiria explicar sem recorrer à cardiologia. Hoje, o coração bate com mais prudência, a voz já não treme tanto e os olhares dela continuam a provocar alterações significativas nos meus sinais vitais. A diferença é que agora também tenho de me lembrar de comprar pão, despejar o lixo e deixar arrumada a cozinha.
O amor amadurece. Aprende a partilhar o silêncio, a reconhecer os dias difíceis, a rir das pequenas desgraças e a perceber que a felicidade nem sempre chega embrulhada em papel bonito. Às vezes, aparece de robe, pergunta o que vamos jantar e avisa que deixei a luz acesa na casa de banho. E é precisamente aí que mora o milagre. Entre as zangas que passaram, as gargalhadas que ficaram, as preocupações divididas e os planos que fomos inventando, construímos uma vida. Não perfeita, porque a perfeição seria insuportável e provavelmente muito cara. Mas nossa.
Por isso, hoje, no dia em que o meu amor faz anos, quero celebrar a mulher que é, a menina que ainda guarda dentro de si e a companheira que continua a aturar este rapaz que, apesar da idade, ainda acredita que tem sempre razão. Sobretudo quando não tem.
Quero desejar-lhe muitos anos de vida, muita saúde, muitas alegrias e paciência. Muita paciência. Não por causa da idade, evidentemente, mas por minha causa, que sou uma pessoa de trato relativamente fácil, desde que ninguém me contrarie ou provoque.
E quero agradecer-lhe por continuar aqui, ao meu lado, a fazer com que os dias tenham mais sentido e as noites menos solidão. Afinal, os anos passam para os dois. Os cabelos mudam de cor ou desaparecem misteriosamente, e o espelho começa a mostrar um senhor que, por razões que desconheço, insiste em vestir-se como eu. Mas há coisas que o tempo não consegue levar. A cumplicidade. A ternura. A vontade de rir juntos. E aquele sentimento extraordinário de olhar para a pessoa que amamos e pensar: Era mesmo contigo que eu queria envelhecer.
Hoje, portanto, o meu amor faz anos.
Ela recebe os parabéns, o bolo e os beijinhos. Eu recebo a oportunidade de continuar a gostar dela. E, convenhamos, há aniversários em que o maior presente não é o que damos. É a sorte de ainda termos alguém a quem dá-lo.
Parabéns!
E não te preocupes com a idade. A idade é apenas um número. Embora, no nosso caso, já seja um número que convém não dizer muito alto… porque os vizinhos podem ouvir e começar a fazer contas!
Hoje, amanhã e enquanto me lembrar onde pus os óculos vou gostar muito de ti. O que, espero eu, seja por muitos e bons anos.
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