No ano de 1974, o Liceu estava em polvorosa com a revolução, os debates políticos e as assembleias intermináveis. No entanto, para mim, a única revolução que realmente importava acontecia nas aulas.
Eu não estava inscrito até dois anos antes na linha dos quadros de honra. Na verdade, eu era estudante dum mundo feito de circuitos, frequências e os números eram demasiados complexos, tal como a história ou a geografia. Mas tudo havia mudado quando ela me apanhou e passámos a estar na mesma turma.
Por isso, troquei a acábula dos anúncios e bobinas por um bloco de notas de capa preta e assistia às aulas sempre na carteira ao lado dela.
O problema de ir às aulas só para suspirar em silêncio é que, mais cedo ou mais tarde, a realidade cobra a sua factura. Passei a ter notas a subir. E não foi nada lentamente. Até eu fiquei admirado. Imagino os professores que tinha, alguns já me conheciam de gingeira.
Deixei de fazer caricaturas, desenhos abstratos e outras ocupações de tempo e foquei-me no perfil dela e na voz emanada dos professores. Descobri que eles até falavam coisas que nem me passavam pela cabeça.
- Ó jovem, de casaco de casaco de malha - disse o Doutor Rente, que por acaso devia ser capitão porque era o piloto da barra, apontando com a ponta do ponteiro diretamente no meu peito.
O coração falhou duas batidas, assim num mal contado por mim mesmo. Ela virou-se para o lado para ver quem era o jovem. Os olhares de ambos cruzaram-se e eu senti que ela estava a dar-me confiança. Ela olhava-me com curiosidade e com vontade de sussurrar enquanto eu sentia as orelhas a arder como dois aquecedores elétricos quase a explodir.
- Diga aos seus colegas o que sabe sobre a França continental?
Vinte e tal pares de olhos fixados em mim. Na minha cabeça, o circuito integrado tinha acabado de entrar em curto-circuito, as válvulas estavam a derreter, o calor da rua entrou todo no meu corpo e desatei a falar.
— Bom...A música francesa como Edith Piaf, Charles Aznavour, Jacques Brel e o pop francês Yé-yé de Françoise Hardy passa com frequência na rádio e como tal no Rádio Clube de Moçâmedes. Os cinemas exibem filmes da Nouvelle Vague e policiais com Alain Delon ou Jean-Paul Belmondo. - comecei, limpando a garganta com uma tossezinha e ajeitando a camisa. - A juventude académica lê entusiasticamente Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Simone de Beauvoir. A questão da... dualidade... é essencialmente uma questão de resistência...
Houve um murmúrio confuso na sala. Ela franziu o sobrolho, mas continuava a olhar para mim. Percebi que tinha entrado por caminhos não geográficos e mentalmente procurava dar a volta à questão e situar-me ali na sala. Na verdade ela reparou que eu me tinha perdido.
O Dr. Rente, que podia ser o capitão, olhou-me e perguntou se eu também ia falar do Bien-être, que era então o perfume mais falado na altura.
Dentro da minha cabeça morava o caos romântico. Olhava-a, tentava perceber o seu soletrar silencioso econtinuei.
-Metafóricamente falando também ia. Pois a França já havia perdido as suas colónias pelo que seria errado falar na França Continental. Era França e ponto final. Podia falar do champanhe mas não era essa a minha especialidade bebível. - tentei eu remendar um devaneio com outro. Na verdade fazia pouco tempo que eu era verdadeiramente aluno do Liceu, embora o frequentasse à mais anos.
A sala ficou em absoluto silêncio durante três longos segundos. O professor Rente retirou ponteiro da parede, olhou para mim com uma mistura de choque e fascínio filosófico, e bateu levemente com a mão na secretária.
- Metafórico... — disse o professor.
Respirei fundo e sentei-me, sentindo-se o homem mais sortudo à face da terra.
No final da aula, enquanto todos recolhiam as pastas de cabedal, apressei-me a sair para não ser apanhado em mais nenhuma rasteira geográfico-literária. Mas, na porta da sala, senti um toque no braço.
Era a Ela
- Olá, homem da lábia— disse ela, com um sorriso divertido que me fez os joelhos vacilarem. — Não te sabia conhecedor de tanto francês
- Eu... bem, na verdade, só falei das coisas que ouvia na rádio e via no cinema - confessei, possivelmente mais vermelho que um tomate, decidindo que mais valia perder pela verdade do que pela ignorância.
Ela soltou uma gargalhada genuína que fez eco na minha cabeça.
- Tens-te saído muito bem - continuou - é bom saber que voltaste a abrir os livros.
- Não... Sim... bem - solucei enquanto ganhava coragem que nem sabia que tinha. - Sabes, acho que me fica bem sabar algumas coisas, principalmente quando tenho colegas do quadro de honra.
Ela olhou-me de alto a baixo, ajeitou a pasta ao ombro e disse, com o olhar brincalhão:
- Sendo assim, acho que na próxima aula deves sentar-te ao meu lado.
E foi assim que um rapaz de desencontrado, sem perceber nada de literatura, geografia ou matemática aprendeu a lição mais importante dos anos 70 é que às vezes, o maior acto de coragem é simplesmente deixar a razão ir ao ar.
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