recomeça o futuro sem esquecer o passado

19 de outubro de 2026

O carro dos meus sonhos e a menina lá dentro

Naquele tempo, ser adolescente era uma doença sem cura conhecida. Era doença crónica que não matava, felizmente, mas provocava sintomas graves, suspiros sem motivo, distração nas aulas, uma tendência inexplicável para olhar para o vazio e, nos casos mais agudos, uma incapacidade absoluta de conversar normalmente com raparigas bonitas.

Eu padecia de tudo isso. E o diagnóstico tinha nome, rosto e um lugar cativo no banco de trás de um automóvel.

Ela era a menina mais bonita que eu conhecia. Pelo menos, era o que eu pensava. E, como acontece com todas as grandes verdades da adolescência, não admitia discussão, muito menos uma segunda opinião.

Todas as tardes, os pais levavam-na a passear de carro pela cidade. Não sei se era para apanhar ar, ver as montras, visitar amigos ou simplesmente cumprir uma tradição familiar. O que sei é que aquele passeio vespertino se transformou, para mim, no acontecimento mais importante do dia.

Havia quem esperasse pelo noticiário, quem aguardasse a chegada do jornal e quem consultasse o relógio para saber a hora de uma coisa qualquer. Eu não. Eu esperava concretamente pelo carro. Aquele carro.

Era um automóvel que, aos meus olhos, reunia todas as qualidades de uma máquina extraordinária. Tinha rodas, motor, matrícula e, sobretudo, transportava a criatura que me roubava a tranquilidade. Se o carro fosse uma carroça puxada por dois burros, suspeito que eu teria desenvolvido uma súbita paixão pela vida rural.

O passeio começava sempre à mesma hora. E eu, que até aí não tinha grandes compromissos com a pontualidade, passei a ser um relógio suíço. À hora marcada, já estava na rua, penteado, lavado e com uma expressão de quem não esperava coisa nenhuma.

Era importante manter a dignidade.

Um apaixonado pode perder o sono, o apetite e até a capacidade de fazer contas de dividir, mas nunca deve parecer que está à espera de uma rapariga. Deve estar ali por acaso. Um acaso que se repete diariamente, à mesma hora, no mesmo passeio e com os olhos postos na mesma esquina.

Quando o carro aparecia, o meu coração começava a trabalhar como um motor de camioneta carregado, a subir uma ladeira da SOS.

Lá vinha ela! Sentada no carro, talvez a conversar com os pais, talvez a olhar para as casas, talvez a pensar no que faria no dia seguinte. Não sei. Nunca tive oportunidade de lhe perguntar. Naquela época, a comunicação entre mim e ela era sobretudo visual, e mesmo essa dependia da velocidade do automóvel e da minha localização estratégica. Eu ficava num ponto da cidade. O carro passava. Eu olhava. Ela seguia. E eu corria para o ponto seguinte. Sim, porque o meu amor tinha uma componente desportiva que hoje faria inveja a qualquer treinador de atletismo. Se o carro passava pela avenida, eu atalhava por uma rua. Se virava junto à praça, eu disparava pela travessa. Se seguia para o outro lado da cidade, lá ia eu, adolescente apaixonado, com as pernas a trabalhar e o coração a fazer horas extraordinárias. Era uma espécie de perseguição automóvel sem automóvel. Os pais dela passeavam a filha. Eu passeava a paixão. Eles tinham gasolina. Eu tinha esperança. Eles dispunham de quatro rodas. Eu dispunha de duas pernas, ambas cada vez mais cansadas. E assim fui descobrindo a geografia da cidade. Aprendi os cruzamentos, os atalhos, as ruas secundárias e até a localização de alguns estabelecimentos comerciais que nunca me tinham despertado o menor interesse. Se alguém me perguntasse onde ficava determinada mercearia, eu sabia. Onde se vendiam jornais? Também. Qual era o caminho mais rápido entre a praça e a avenida? Conhecia três. Não era um adolescente apaixonado. Era um guia turístico em formação, especializado em itinerários de automóveis familiares.

O mais extraordinário é que eu não precisava de falar com ela. Bastava-me vê-la. Um olhar de dois segundos alimentava-me durante a tarde inteira. Se por acaso ela olhava na minha direção, eu passava imediatamente a considerar que havia qualquer coisa no universo a trabalhar a meu favor. Se sorrisse, então era uma catástrofe. Um sorriso podia significar simpatia, educação, reconhecimento ou simplesmente que alguém lhe contara uma piada dentro do carro. Mas eu não perdia tempo com interpretações prudentes. Para mim, aquele sorriso era praticamente um pedido de casamento, embora ainda não tivéssemos trocado uma única palavra. Chegava a casa com a felicidade estampada no rosto.

A minha mãe perguntava:

 - Onde estiveste?

- Por aí. - e era verdade, era a resposta oficial dos adolescentes, uma expressão que podia esconder desde uma ida à mercearia até uma paixão capaz de comprometer a estabilidade emocional de um continente.

- E porque estás tão cansado?

- Andei muito. Há muitos aís nesta cidade.

O que era verdade. Nunca uma paixão platónica me obrigara a fazer tantos quilómetros sem sair da cidade. O pior era quando o carro não aparecia. Nesses dias, começava a imaginar desgraças. Talvez estivesse doente. Talvez tivesse ido visitar uma amiga. Talvez os pais tivessem decidido mudar o passeio para outra hora. Ou, hipótese verdadeiramente aterradora, talvez tivessem ido para outra cidade! A última possibilidade deixava-me de rastos. Eu ainda não tinha idade para compreender que as pessoas podiam viajar sem consultar previamente os sentimentos dos outros. Ficava de trombas, comia pouco e olhava para a rua como um viúvo que ainda não tinha recebido a certidão de óbito.

No dia seguinte, porém, lá aparecia o carro, e o mundo recuperava a ordem natural das coisas. Com o tempo, comecei a aperfeiçoar a estratégia. Já não bastava estar num ponto da cidade. Era preciso escolher o local onde as probabilidades de um encontro visual fossem maiores.

Fazia cálculos mentais, estudava percursos, avaliava horários. Se tivesse conhecido naquela altura a estatística, talvez tivesse elaborado uma tese sobre a frequência dos passeios familiares e a incidência de paixões adolescentes.

Mas havia um problema: eu não sabia se ela reparava em mim. Talvez me conhecesse de vista. Talvez me achasse um rapaz simpático. Talvez pensasse que eu tinha uma enorme quantidade de assuntos para tratar em ruas tão distantes umas das outras. Ou talvez nunca tivesse dado pela minha existência. Esta última hipótese era tão dolorosa que eu a afastava imediatamente da minha apaixonada cabeça. Um apaixonado pode aceitar muitas derrotas, mas não aceita facilmente a possibilidade de ser invisível.

Hoje, quando recordo aqueles passeios, sorrio com ternura e alguma compaixão pelo rapaz que fui. A vida ensinou-me entretanto que o amor é uma coisa complicada, que as mulheres têm vontade própria e que nem todos os olhares significam o início de uma história de amor. Ensinou-me também que andar atrás de alguém não é necessariamente o caminho mais curto para chegar ao seu coração. Mas, naquela época, eu não sabia nada disso. Era apenas um jovem adolescente, com o coração cheio de sonhos e a cabeça cheia de certezas, convencido de que o destino podia ser encontrado numa esquina.

Ela passeava de carro com os pais. Eu seguia-a, todo o percurso com os olhos, o corpo e a alma, atravessando a cidade como quem procura um tesouro escondido. Nunca soube se ela chegou a perceber o que se passava comigo. Talvez tenha percebido. Talvez não. O que sei é que, durante algum tempo, a cidade teve para mim um mapa secreto, cada rua era uma possibilidade, cada esquina uma esperança e cada automóvel que se aproximava fazia o meu coração perguntar:

- Será ela?

E se não fosse, eu continuava à espera. Porque a adolescência tem destas coisas: ainda não sabemos conduzir a vida, não temos dinheiro para comprar um carro, não sabemos muito bem o que fazer com as raparigas, mas já somos perfeitamente capazes de percorrer uma cidade inteira por causa de um sorriso que talvez nem fosse para nós. E, se me perguntarem hoje qual foi o automóvel mais importante da minha juventude, não hesitarei na resposta. Não era meu. Não o conduzi. Só muitos tempos depois eu me sentei nele. Mas foi o único carro que me ensinou a correr atrás do amor sem nunca sair verdadeiramente do lugar.

E a ela?

Ela continuou a passear. Eu é que, muitos anos depois, finalmente aprendi a parar.



Sanzalando

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