recomeça o futuro sem esquecer o passado

29 de fevereiro de 2012

na foz do Bero

Hoje estou de cabeça a estoirar. Deve de ser o sol que me queimou, deve ser tanta coisa que nem sei mesmo que é que possa ter sido. Mas que foi foi e não tem mais discussão. Nunca fui, pela beira mar, até na foz do Rio Bero. Mais que fui foi unas salinas e me cansei que parece tinha jurado promessa de nunca mais nem me lembrar do que andei para voltar. Mas isso já foi e não vou agora chorar. Mas hoje eu quero ir na foz do rio Bero que acastanha a água do meu mar de vez em quando. E vou porque (não tem essa coisa de mostrar sentimentos pois eu sou um desastre nessa coisa de amor) não quero dar ouvidos a ninguém e não quero dar conselhos a ninguém também. Me dizem és louco e não lhes ouço. Vou! Afinal de contas eu sempre fui um às em esconder dentro de mim os meus medos e não me apetece andar por aí a espalhar que eu vou na foz do rio Bero porque eu sou grande. Na verdade eu sei que sou fraco até nos encantos e não me apetece transparentizar a minha alma. Só quero mesmo é passar os estaleiros, passar as salinas e chegar na foz do rio Bero e pensar para mim que afinal eu sou já crescido e fui na foz do rio Bero que nasce lá nas fraldas, sei e repito, nas fraldas da Serra da Chela. Mas se a minha praia acastanhou com água que veio do planalto porque é que eu não as vou ver a se misturar parece é batido de remoinho, penso eu.
Eu quero ir e ninguém precisa saber que eu nunca fui na foz do rio Bero antes. Também não vou ficar aqui a falar das maravilhas do rio se eu não lhe conheço a foz. Lhe conheço a ponte que passa ou comboio ou carro em tempos separados que ambos ao mesmo tempo é desastre. 
Vou caminhar pela beira mar e vou lá chegar. Se não chegar ninguém vai nem saber que eu tentei.
Quem quer vir comigo na foz do rio Bero? não precisa responder porque eu nem perguntei. Eu quero ir e vou. Chego ou não chego eu depois vou saber e mais ninguém.
Hoje me apetece ir na foz do rio Bero e não vou dizer aos vagabundos da Oásis que eu fui na foz. Nem os da esplanada do Hotel Turismo precisam saber e os do café Avenida nem vão sonhar. 
Os mapundeiros podem adivinhar porque eu vou ver a água deles a se afogar na salgada água deste meu mar.

Sanzalando

28 de fevereiro de 2012

a cor da lembrança esquecida

Olho o longe mar desde aqui na ponte velha. De verdade eu lhe conheci ela já era velha. Hoje ela continua velha. Se eu fosse mais velho eu ia dizer que ela nunca trabalhou porque eu nunca lhe conheci a trabalhar. Só serve mesmo é para dar mergulhos e apanhar mexilhão. Pelo menos é só assim que eu lhe conheço. Se calhar já vi aqui alguém de fio de pesca a apanhar mariquita e balhacu. Também nunca vi ninguém pescar outra coisa. Mas a verdade é que hoje estou na ponte velha que está mais velha mas ainda não tão velha que eu lhe chame de ruína arqueológica.
Mas eu vim aqui olhar o mar e chorar. Pudesse eu me deitava nestas tábuas carcomidamente velhas e chorava sem parar e sem pensar no mundo, nesse que tem lembranças que volta e meia vêem à cabeça faz de conta é martelo a te recordar de pessoas e gentes que não sabes mais o que é feito delas.
Olho à volta e se dum lado vejo areia, doutro pedras, em frente eu vejo mar azul sarapintado de barcos parados faz tempo querem descansar, mas não tenho onde me deitas sem me sujar dessas lembranças ausentes.
Aqui na ponte velha, mais velha que o meu tempo, recordo o Drs. Brandão, Balsa, Resende, e esposa do Dr. Coutinho, a Dra. Lucília Rocha, a Elsa. Nunca foram meus professores. Não sei se eram bons ou maus profs como se diz agora. Sei que nunca apanhei com eles nas aulas e não sei porquê hoje me fui lembrar deles, aqui na ponte velha onde não tenho onde me deitar.
Olho para mais longe, quero fugir deste choro calado que me veio à lembrança e vejo lá longe um barco grande que parece se vai embora. De que cor estão os meus olhos agora? pergunto-me sem se quer saber que os olhos brilhantes de lágrimas continuam a ter a mesma cor de olhos de outras horas.
Deitado na ponte velha, passo horas a pensar, está tudo sem cor porque eu vim aqui para ver o mar e chorar e afinal eu estou a me lembrar de gente que nem conheço ou alguma vez se apercebeu que eu existia. 
Não existe mais cor no lugar que eu olho de lembrança esquecida que me recordo desde aqui na ponte velha que eu conheço já velha.

Sanzalando

27 de fevereiro de 2012

Reflexões facebookianas (20)

A vida é muito curta, então não perco tempo vivendo a vida dos outros. JCCarranca reflectindo enquanto insulta um automobilista que não respeita o ciclista


Cada um sabe do peso do seu silêncio. JCCarranca reflectindo enquanto ouve uma reclamação


Vou apagar da minha vida tudo o que me faz mal. JCCarranca reflectindo enquanto come um entaladinho de toucinho


O tempo passa e a gente tem que seguir novos caminhos. JCCarranca reflectindo enquanto acerta o relógio que não tem pilha


Sorrir hoje é a melhor maneira de esperar a vida de amanhã. JCCarranca reflectindo enquanto olha para um Rx


Sinto-me como um castelo de cartas no meio um vendaval. JCCarranca reflectindo enquanto se penteia


A nossa felicidade depende mais do que temos em mente, do que pensam de nós. JCCarranca reflectindo enquanto olha a velocidade da internet


Por mais que doa, tudo o que posso fazer é sentir. JCCarranca reflectindo enquanto espera num semáforo


Sanzalando

26 de fevereiro de 2012

domingo à tarde

Fico por aqui sentado na Cábula. Vou comer um sorvete, não vou nas aulas nem vou vagabundar pelo parque infantil. Vou fazer hoje desta esquina o meu quartel general. É daqui que vou comandar as minhas mentais tropas, meus generais pensamentos e meus sargentos sonhos.
Para já, desta velha pasta de cabedal que me acompanha desde a escola 56, tiro uma sebenta de capa vermelha e uma bic azul roída na tampa. Na avenida que vai até ao colégio e vem desde a casa do Bento nem viv'alma, de carro ou a pé. Tirando eu que estou sentado nesta esplanada comendo o meu sorvete, não tem mais ninguém no mundo. Do Bairro da Mineira ninguém desce. Da cidade ninguém sobe. Vais ver é hora de ouvir rádio em família. 
Ouço os animais do parque infantil. É um pássaro que canta. Nem lhe seiu o nome e os nomes que sei não cantam, ruidam. Eu sorri olhando para a folha em branco da minha sebenta vermelha. 
Ao lado o liceu parece casa de fantasma. Nem ruído nem movimento.
Tiro a tampa da caneta, num movimento involuntário ponho a tampa na boca, e comecei a escrever.
Vou escrever um poema, decidi. Um poema à minha cidade. Voltei a sorrir.
Escrever poesia é piegas. Vou escrever mesmo em prosa, assim fosse uma carta a descrever a minha cidade que adormeceu num domingo à tarde.
Mas só consegui escrever que com todo o amor do mundo a minha cidade está ali silenciosamente à minha espera.


Sanzalando

Pôr do Sol - 34

Sanzalando

25 de fevereiro de 2012

vagueando na cidade

É um dia de sol que me queima a cabeça enquanto percorro as ruas desertas desta minha cidade desenhada com régua e esquadro. Passei na DTA e olhei as montras. É sempre bom ver imagens que tem mais mundo para além deste mundo que me rodeia. O avião lá está no seu pedestal como que a imitar que vai ainda levantar voo, mas todos os dias está ali. Não é Dakota. É mais moderno e eu um dia vou viajar nele, conhecer mundo e saber mais coisas que as coisas que sei desde aqui.
Mas já deixei o avião lá para trás, já vou a caminho do Impala sem saber se lá chegarei ou se no meia da minha conversa muda eu mude de direcção umas tantas outras vezes.
Na verdade tudo isto porque tu já me gastaste as palavras e os nossos desencontros já foram tantas vezes desenhados, tanto em folhas em branco como em mil folhas coloridas de nostalgia. Acabo de queimar uns tantos pensamentos procurando vocabulários, gramáticas e livros de rima, parágrafos, pontos e virgulas como que a querer desenhar numa tela mais umas outras palavras que possam ter sobrado desse choro calado que te choro. A minha vida esbarrou na tua e eu devia levar na cara estampado um sorriso do tamanho do mundo, mas nem o céu limpo me devolve a alegria na forma duma realização de sonho.
Transpiro, olho para cima e ainda não cheguei ao Sporting. Estou no Ferrovia que está de porta fechadas porque hoje não há baile e o Sr. Matos não vai tocar o seu saxofone.
Virei mais uma página em branco e caminhei para muito longe de mim enquanto dou uns passos perdidos rumo a lado nenhum. Tu não me ligas. Nada queres saber de mim e como sempre iniciei-me a conversár com raiva e acabo dizendo-te amor.
Oh, cidade que me atormentas e me afagas com silÊncios.



Sanzalando

24 de fevereiro de 2012

hoje chove no verão

Hoje me fico na varanda da minha casa. Tá a chover parece é Março. Hoje se está a gastar um dos três dias de chuva daqui da terra. Como não me apetece molhar eu hoje vou ficar aqui e fazer desta varanda o meu posto de observação. Vou saber a que horas ela vai chegar a casa. Vou ver se ela vai olhar para ver se eu estou a olhar à espera dela. Hoje vou ficar aqui e para cada pingo de chuva eu vou sorrir até gargalhar. Sorrir para não sofrer de amor, gargalhar para esquecer.
Hoje me fico por aqui a ver se uma guerra de sentidos é capaz de destruir um amor adolescente. Se os meus soldados de chumbo conseguem vencer as trincheiras da vaidade. 
Hoje a minha rua está deserta e daqui a pouco tem um mar lá na esquina do Reis e dos Fonsecas.
Hoje eu fico aqui, ver chover e saborear uma luta de palavras onde sorrirei para não sofrer de amor.



Sanzalando

23 de fevereiro de 2012

talvez ou não

Hoje parei ao lado da Câmara. Do outro lado da Sede do Benfica, aqui mesmo na ruína da Mocidade, antes de chegar na escola 55. Não, ainda não fizeram o prédio da Lusolanda. Tou mesmo aqui porque não sei o nome de nenhum presidente da minha Câmara. Também com esta minha idade eu vou saber o nome de gente importante mais para quê? Eu quero é saber das aulas, poucamente é certo, das miúdas, que ainda não tenho idade para esses enredos, das coisas boas da noite, que tenho que me deitar cedo que a mãe assim me mandou. Mas estou aqui sentado na ruína não para recordar algo em especial mas apenas porque estou de mãos vazias, coração vazio e vazia a ideia e assim vim recordar uma casa onde nunca entrei quando estava inteira. Agora me dizem vem abaixo e se vai construir aqui coisa grande. Mas aqui, neste silêncio da rua de sentido único, ouço bater o meu coração, ainda não submisso, talvez apenasmente ainda tolo de paixão, disseram ela vinha do meio do deserto com o vento, e, na minha ingenuidade olho para a estrada a ver se vem desde a descida dos Tendinhas algum carro que me possa distrair os olhos e alegrar o pensamento.
Aqui, onde me chega o pestilento cheiro duma casa velha abandonada, que talvez sirva de casa de banho pública em situações de emergência, olho o verde da Câmara e me entrego de corpo e alma a um abandono de mim próprio. Santa ingenuidade, digo eu. Desde criança que digo que te gosto e tu, sorriso escondido, finges não ouvir e me devolves silêncio.
Talvez um dia, cidade, te ouça dizer-te que me amas!

Sanzalando

22 de fevereiro de 2012

jogarei na saudade

Hoje me sento nas pequenas bancadas do Atlético. Faz conta vai ter jogo logo e isto vai estar que nem rebentar. Faz de conta vêm jogar as estrelas dos patins. Mas isso é só mais logo. Agora estou aqui a ver os meus botões, a recapitular os pontos negros, não os que alguma namorada mais tarde, um dia, vai forçar virem para fora. Mesmo assim, num só jeito de tentar ser feliz. Aqui sentado me tento viver sem pensar que não te tenho, que não existes num constantemente fervilhar de pensamentos. Que se existes és vento, chuva tropical, mosquito zunindo meu ouvindo ou ferrando minhas pernas desnudadas. Aqui sentado, me imagino mais logo, perdido, no meio da multidão que vai gritar os nomes, um a um das estrelas dos patins, enquanto me deslargo de ideias fixas em que tu não és corpo presente.
Aqui, mais logo, imaginariamente, vou tirar-te da minha cabeça, afastar-te do meu coração e dizer-me que é um sonho ser feliz assim. Vou deixar de estar ocupado com pensamentos teus, com inexplicáveis razões de mostrar um rosto baço e não terei preocupações de procurar os motivos de sorrir escondendo as lágrimas da saudade.
Aqui, onde num logo mais tarde, gritarei golos, como se fosse eu o herói do jogo.

Sanzalando

22-02-2012



20 de fevereiro de 2012

à conversa com a consciência

Hoje caminhei até aqui, ao Campo do Benfica, onde começa a estrada que vai deserto fora. Não me apetece aventurar caminhar a pé os 93 km que a placa diz que faltam. Fico mesmo só por aqui a ouvir a minha consciência a me murmurar sons que parecem frases feitas. 
Me ouço dizer que a vida só dá uma chance e que não vale a pena falar de amor tantas vezes se não sou capaz de amar-me. Afinal de contas a minha consciência também reclama. Não só só eu que digo que perco 24 horas em cada dia com reclamações e lamentos correndo à mesma velocidade. A minha consciência parece está vazia de sorrisos. E por quê? Para quê? 
Sigo com os olhos a areia dourada que se estende até para lá do aeroporto que dizem vai ser ali.
Me olho à volta e ali estou, encostado ao campo do Benfica, sozinho, quase como sempre. Na verdade ninguém me pode obrigar a ser feliz. Ninguém me pode obrigar a viver outra vida. Mas a minha consciência tem autonomia e autoridade para isso. Ela não vai viver feliz sem mim e ainda por cima me avisa que não tenho duas vidas. 
Olhando o amarelo mar de areia fina me dou conta que perguntei à minha consciência se a vida valerá a pena ser vida e aguardo a resposta dela enquanto me atiro de olhar para uma miragem que parece mar.

Sanzalando

Reflexões facebookianas (19)

Já perdi tanta coisa só pelo medo de as perder. JCCarranca reflectindo enquanto não se lembra onde está


Sinto saudade de gente que nem se deve lembrar da minha existência. JCCarranca reflectindo enquanto espera a sua vez de ser atendido


Se a vida fosse fácil não nos punham a chorar mal acabados de nascer. JCCarranca reflectindo enquanto pensa se vai beber um copo à beira mar


O meu erro foi deixar que o meu sorriso fosse dependente. JCCarranca reflectindo enquanto rega o jardim


Cair, todo o mudo cai, só fica no chão quem quer. JCCarranca reflectindo enquanto sai do chuveiro

A sensação de cair é bem melhor que a dor do tombo. JCCarranca reflectindo enquanto escreve um sonho

Se não puder ajudar… então atrapalho… o importante é participar. JCCarranca reflectindo enquanto se deita no sofá para uma sesta

Sanzalando

19 de fevereiro de 2012

gastar de angustia

Me sento no passeio alto do liceu velho, de lado para o tribunal, de frente para a Rua dos Pescadores e tento me reler em voz baixa páginas da minha memória. Não sei se é qualidade ou defeito, apenas sei que gosto de ser directo e objectivo. Sei o meu nome, a minha idade, o que faço, mas não sei por onde vou começar a ler essas páginas da minha memória. 
Na verdade uma angustia me invade o corpo, faz para aí uns cinco minutos. 
Leio ou esqueço as páginas da minha memória? Já fui carro de rolamentos, vagabundo nas horas livres e paraquedista numa esplanada de café. E agora? Aqui sentado, vestido com os meus calções coçados de uso, minhas sandálias gastas e remendadas, pensando em gastar o dia num dia normal, lendo sonhos e voando imagens, e afinal, estou angustiado, faz pouco mais de sete minutos.
Até agora não passou nenhum carro por aqui. Ali na curva e contra curva do tribunal se passou era silencioso que eu não dei por ele. As crianças não brincam mais na rua porque outros brinquedos inventaram e lhes fecharam em casa. Eu aqui, sentado, no passeio alto do liceu velho, descanso as horas que passam sem saber se leio as páginas da minha memória ou se me deito por aqui a esperar que o céu escureça para eu ver as estrelas que vão cintilar mais uma noite. E a angustia gastou-se em dez minutos

Sanzalando

cores de Dominingo

Sanzalando

18 de fevereiro de 2012

nos arcos com saudades

Me sento num banco dum arco, nos arcos da praia. Não estou à frente do casino mas depois. Me apetece estar aqui sozinho a ver o mar,ouvir o mar e sentir o perfume do mar, sem ter ninguém a me incomodar. Na verdade eu sou aquele que não sabe fazer batota num jogo de cartas, sou a personagem errada duma qualquer estória, contada, escrita ou inventada, sou o que fica corado quando calha receber um elogio, sou o que seja sol quando chove e chuva quando faz sol.
À noite, ouvindo o mar, sentado num banco dum arco, nos arcos da praia, desejo ver borboletas escrevendo textos que seriam canções de amor e me esqueço que o mundo gira por aí numa rotação de 24 horas.
Aqui sentado, não ouço crianças fazendo birras, adultos reclamando porque estão vivos e vivos protestando com o aparente não sentido da vida.
Me deixo embalar na noite e recordo os amigos que partiram e me deixaram aqui a sentir-lhes saudades. Eu, o miúdo calado, sem brinquedos, sem roupas de marca, que brinco com palavras porque são baratas e que quase sempre vou a pé até ao fim do arco íris, fiquei depois de os ver partir numa ida sem regresso.
Amigos, desde aqui, sentado num banco dos arcos da nossa praia, me lembro e tenho saudades de vocês, uma a um.

Sanzalando

Parismente Árthemis


Sanzalando

17 de fevereiro de 2012

ponta do Noronha

Me disseram era a ponta do Noronha. É a primeira vez eu venho aqui. Daqui vejo a cidade toda, o porto e o mar, tudo que até a vista cansada não consegue ver mais. 
Mas hoje resolvi vir aqui para poder gritar até à alma e botar cá para fora tanta coisa engasgada, do estilo de abrir a gaiola e deixar os pássaros fugirem só por irem onde lhes apetecer voar. 
Eu aqui preciso me afogar nas palavras caladas ao longo dos tempos, deixar o raciocínio se embrulhar em emoções, esfregar o informal na forma do não faz mal, sair saltando e correndo como se as palavras fossem joeiras coloridas amarradas num barbante de sapateiro e levar alto o som que me diz que te chega ao ouvido o que tenho para te dizer.
Aqui, na ponta do Noronha, onde o farol à noite brilha parece é pequeno sol que pisca e acompanha os namorados que estão por aqui a conversar em carros que dançam ao ritmo das estrelas, me deixo embalar em silabas de pijama e sonho alto todos os pedaços da minha rua, lages cimentadas ladeando um negro alcatrão, onde me entristeço na espera que um dia ela olhe para mim e me diga um simples vem cá.
Olho a cidade, é dia claro dum quase meio-dia, me tenho irracionalmente porque amanhã não sei se serei mais um eu que outro qualquer que deixou de ser jovem e se atirou no esgoto esquecido duma vida amarrotada., cansada e tristemente cinzenta.
Olho daqui a cidade e imagino como será logo à noite sem luar.

Sanzalando

bicicleta 18

Sanzalando

15 de fevereiro de 2012

reino do escorrega

No cimo do escorrega grande do parque infantil me deixo estar. O mundo está lá em baixo e eu aqui sou o príncipe deste reino a meus pés. Magro, cabelos compridos desalinhados e castanhos esfarrapados, sou rei deste castelo de ferro onde me ginastíco e dou cada malhanço para endurecer, forte guerreiro de cu deslizante e na lomba me desequilibro para mais tarde me doer.
No cimo do escorrega grande tomo conta do cavalo que balouça sob a força de quatro kambas que pensam têm asas, dos balouços que quase oscilam 360º graus de doidos varridos, do ferro que serve para caminhar mão em mão como se estivesse a fazer flexões de pernas no ar e eles se aguentam parece são tarzans.
No cimo do escorrega grande eu sou rei de observação das meninas que ainda não saíram do colégio e que me amarguram o coração num bate bate em que parece o senhor tempo, aquele que resolve tudo, se esqueceu de me resolver esta ansiedade.
Daqui, vejo a macaca zangada que outros kambas lhe desafiam com água e sustos, gostava de lhes ver dentro da jaula e ela a se meter com eles do lado de fora.
Daqui, do cimo do escorrega grande, me proclamo rei deste reino distante que um dia vou voltar a ter nos meus sonhos de verdade.

Sanzalando

Reflexões facebookianas (18)

A vida é um carrossel. JCCarranca reflectindo enquanto olha para a porta do elevador num R/C


Aproveite bem as pequenas coisas. Um dia vai saber que elas eram grandes. JCCarranca reflectindo enquanto vai despejar o lixo


Eu posso me arrepender, mas nunca me arrependerei de ter tentado. JCCarranca reflectindo enquanto olha para a temperatura exterior do automóvel


A minha morada é no eternamente. Aqui estou de passagem. JCCarranca reflectindo enquanto procura lugar para estacionar


Experimenta viver e deixar de lado as preocupações. JCCarranca reflectindo enquanto reclama com alguém


Sanzalando

13 de fevereiro de 2012

discotecamente

Bebida a imperial na Minhota subi até ao tribunal e nas suas escadarias me sentei. 
O tabaco me tirou o folgo e eu deixei-me cair no vazio dos campos minados da tentação e nos brilhantes sonhos fantasmagóricos que a imaginação me foi oferecendo. Recupero o folgo buscando palavras que me levem por trás do palácio, até aos terrenos da Igreja Paroquial onde a música me embalará numa tentativa de engatar a miúda mais gira da minha geração. 
Penso eu, desejo eu, sonho eu.
Mais uma vez falhei. O ar ofegante me aconselha a ficar aqui sentado e deixar essas estórias para os mais velhos, porque o meu tempo há de chegar.
Acendo outro cigarro como que me socorrendo duma bala de oxigénio, atiro pensamentos para o firmamento enquanto faço círculos de fumo num gastar de tempo perdido. Me fizeram feitiço, tenho a certeza. A miúda mais gira da minha geração não me sai da cabeça, nem com as minhas promessas de que mais tarde recuperarei.
É o meu vazio de sonhos ímpares, entrelinhas da palavras soltas, falhanço total que juro, aqui na escadaria deste tribunal, um dia vou recuperar todos esses sonhos, desejos e quereres.
Agora, repousado, caminho por trás do palácio em direcção à discoteca da Igreja Paroquial onde ouvirei o Because I Love you pela centésima vez este mês.


Sanzalando

11 de fevereiro de 2012

TROPICCALMENTE ÁRTHEMIS




Sanzalando

dor de saudade

Estou sentado sob as casuarinas ao lado do Clube Náutico. Me apetece ficar na sombra deste verão imaginário que me aquece a alma, ao mesmo tempo que vejo o comboio que vai no porto buscar carga que deve ser para levar lá no planalto. Me refugio, me protejo, me distraio e ao mesmo tempo vou pondo a minha vida em tempo real, sem falhas de passado a amarrotar um qualquer futuro ou um presente esquecido na lembrança apagada.
Será que tem bebida, comida ou carícia que apague a dor da saudade? Mesmo que seja a saudade da gente mesmo? Mesmo que seja a saudade imaginária?
Aqui sentado, perfumado de resina, me dizem é pinheiro, deslembro de pensar no dia de amanhã, esquecer a embriaguez do futuro sem as memórias do passado.
Aqui sentado, sob as casuarinas eu poderia dizer mil vezes que te amo porque o comboio a diesel não te ia deixar ouvir, por mais que eu gritasse.
Aqui sentado, ainda consigo ver-te a jogar ténis do outro lado da rede mal escondida pela trepadeira, respiro resina com perfume de pinheiro, vejo os comboios a passar um de cada vez e ainda aqueço a alma com o imaginário reinventado dos sonhos de menino que amenizam a dor da saudade



Sanzalando