recomeça o futuro sem esquecer o passado

29 de agosto de 2026

a praia

Há um fenómeno mental fascinante que ataca a população nos dias em que o termómetro passa dos 30 graus. Em vez de nos abrigarmos num lugar civilizado com ar condicionado, decidimos, por livre e espontânea vontade, empacotar metade dos nossos bens materiais e migrar para um deserto de sal e sílica, com o único propósito de fritar em lume brando ao lado de outros dez mil desconhecidos. Chamamos-lhe de ir à praia. É o único cenário onde pagar para sofrer é considerado um direito fundamental.
A diversão começa logo no parque de estacionamento, esse inferno de terra batida e muito pó, onde os condutores perdem os últimos vestígios de educação cristã. Disputa-se um metro quadrado de sombra sob um arbusto seco com a agressividade de quem luta pelo último poço de água. Encontrada a vaga — a escassos quarenta minutos a pé da água, inicia-se a procissão dos idiotas carregados. Parecemos burros de carga em férias: uma geleira cheia de gelo que vai derreter em vinte minutos, duas cadeiras que dobram as costas, um paravento que nunca vai ficar direito e um saco com três tipos de protetores solares.
Caminhar sobre a areia a estas temperaturas é uma experiência mística. Fazemos uma corrida patética, aos saltos e a emitir pequenos gemidos de dor, enquanto tentamos encontrar um espaço livre. Mas a praia está no seu estado clássico: um campo de refugiados de verão. O conceito de espaço pessoal morre na linha de maré alta. Ficamos tão colados aos vizinhos de toalha que, a meio da manhã, já sabemos que o miúdo deles chumbou a Matemática e que a avó tem problemas de circulação e o avô sofre de reumático e detesta areia.
Vem então o momento do banho de mar, a derradeira farsa do verão. O corpo, que já está a registar uma temperatura interna digna de um reator nuclear, anseia por água. Caminhamos até à beira-mar com o peito inchado, apenas para descobrir que o Atlântico decidiu congelar a uns refrescantes 18 graus positivos. O choque térmico é tão violento que os órgãos internos tentam subir para a garganta. Mas o protocolo social obriga-nos a fingir. Ficamos ali, com a água pela cintura, a bater os dentes, a sofrer de paragem cardíaca iminente, enquanto olhamos para a areia e gritamos mentiras descaradas: Entra, que a água está espetacular depois de te habituares! Não te habituas e não está boa. O teu sistema nervoso é que simplesmente desistiu de enviar sinais de dor ao cérebro.
De regresso à toalha, começa a fase da panificação humana. O vento, esse grande humorista, encarrega-se de soprar uma camada fina de areia diretamente para cima da tua bola de Berlim com creme. Comer areia faz parte do menu de degustação do litoral, que tem sabor a açúcar. Para ajudar à festa, há sempre um espécime humano de dezoito anos que decide jogar raquetes a dois centímetros da tua cabeça, ou uma criança munida de uma pá que decide escavar um buraco atirando areia à altura dos teus olhos.
No final do dia, o balanço é glorioso: tens queimaduras de segundo grau nos ombros porque confiaste num protetor resistente à água, a tua carteira está mais leve trinta euros por causa de duas bolas de Berlim recheadas de areia e o interior do teu carro acumulou areia suficiente para abrir uma filial da Praia de Alvor na tua garagem. 
Temos de voltar amanhã

Sanzalando

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