Sempre tive a ideia que a minha adolescência daria um best-seller de literatura à séria. Não uma daquelas biografias solenes e em papel encorpado, cheias de fotos de um rapaz contemplativo a olhar a linha recta que é curva ou a saborear a maresia do zulmarinho. Não. O meu livro de memórias juvenis pertencia, por direito próprio, ao género da comédia trágica, com forte pendor para o absurdo e um toque de drama do estilo telenovela.
O título está pensado há anos: Tinha Tudo Para Dar Certo - As Inconfessáveis Memórias de um Genio Incompreendido.
O problema para escrever esse livro é que a memória é uma aldrabona de primeira categoria. Quando fecho os olhos para recordar os meus gloriosos catorze anos, a minha mente tenta vender-me a imagem de um jovem rebelde, de casaco de malha e sandálias de pneu, olhar misterioso e postura de melancólico. Depois cai a ficha da realidade e lembro-me: o casaco de malha era da feira, o olhar misterioso era apenas um disfarce de quem finge que não vê mas dá conta de tudo e a postura de nostálgica devia-se a uma escoliose provocada por uma má postura no dia a dia.
Se a vida é uma praia, a adolescência é a maré baixa em que toda a gente tropeça nos rochedos e fica com a sola dos pés cheia de cortes e raspaduras.
No meu livro, dedicaria um capítulo inteiro às minhas técnicas de sedução. Um compêndio de três páginas sendo que duas seriam em branco para dar luz à sombria existência desse tal D. Juan. Recordo-me de passar tardes inteiras a treinar à frente ao espelho do quarto a forma como encostaria o ombro ao armário para falar com a rapariga da carteira ao lado. Na minha cabeça, o gesto transbordava charme urbano. Na prática, quando chegou o momento, calculei mal a distância, bati com o cotovelo no caixilho da porta, derrubei um ponteiro e o apagador do quadro e limitei-me a tossir pó de gis enquanto lhe perguntava se por acaso ela sabia a matéria para o teste de Geografia. Ela mudou de passeio. Compreensível.
Haveria também espaço para a análise sociológica das festas de garagem. Aqueles eventos épicos onde a iluminação era assegurada por uma lâmpada vermelha roubada do candeeiro da avó de alguém e a mesa de mantimentos exibia três pacotes de batatas fritas de marca branca e uma garrafa de refrigerante de ananás sem gás. Ficávamos ali, em pé, encostados às paredes húmidas, a fingir que percebíamos as letras das músicas em inglês e a rezar fervorosamente para que ninguém nos tirasse para dançar um slow, sob o risco iminente de revelarmos ao mundo a nossa total incapacidade de coordenar dois pés no mesmo ritmo.
E os pais? Ah, os pais no meu livro teriam o papel de vilões involuntários. Para um adolescente, não há figura mais perigosa do que um pai com uma câmara fotográfica nos anos 70, ou uma mãe que decide gritar pela janela da rua, à vista de toda a turma: Não te esqueças de vestir a camiseta que está vento!. Aquela simples frase tinha o poder destruidor de aniquilar anos de construção de reputação social em escassos três segundos.
Gostaria muito de escrever esta obra. Já me vejo na Feira do Livro, a assinar exemplares para leitores que balançam a cabeça em sinal de empatia. Mas depois penso: e se os meus amigos da altura leem o livro e resolvem publicar a versão deles?
Aí, meu caro leitor, a história muda de figura. E o meu best-seller arrisca-se a ser desmentido pelo capítulo mais temido de todos: A verdade sobre o dia em que ele tentou saltar o muro da escola e ficou preso pelos calções.
Acho que vou adiar a escrita mais uns anos. A humanidade ainda não está preparada para tanta revelação.
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