Ali, entre uma matiné e outra, descobríamos que o mundo era muito maior do que a nossa rua, a praia, o deserto e o caminho para casa. Bastava comprar o bilhete, entrar na sala, sentar e esperar que as luzes se apagassem. Eu tinha a sorte de ir para o balcão, na companhia do meu avô.
E depois começava a verdadeira educação sentimental. Primeiro apareceram Joselito e a sua voz. Joselito cantava com uma força que me deixava estupefacto, não sabendo naquela altura nem soletrar a palavra. Era ele um rapazinho e cantava como se tivesse dentro dele uma orquestra sinfónica, três padres e um coro de anjos. Eu, que ainda tinha dificuldade em cantar o Parabéns a Você sem me enganar na letra, olhava para o ecrãn e pensava:
- Este miúdo é o máximo. E era mesmo. O problema é que nós, sentados no cinema, também começávamos a achar que cantar podia resolver quase tudo. Se havia uma discussão em casa, cantava-se. Se aparecia uma rapariga bonita, cantava-se. Se o professor perguntava quem tinha feito os trabalhos de casa, talvez cantar fosse uma boa estratégia para mudar de assunto.
Depois veio Marisol. Marisol não era simplesmente uma rapariga que cantava. Marisol era uma instituição. Ela aparecia no ecrãn, cantava, sorria, chorava, apaixonava-se, voltava a cantar e parecia sempre saber exatamente o que fazer da vida. Nós, pré-adolescentes, ainda não sabíamos sequer o que fazer das nossas tardes. Eu via Marisol e começava a perceber que as raparigas podiam ser perigosíssimas. Não porque fizessem alguma coisa de mal. Era pior. Faziam-nos sonhar. E um rapaz de doze ou treze anos, com sonhos românticos, era uma criatura bastante desorientada.
Havia ainda Rita Pavone. Pequenina, energética, irreverente e com uma voz que parecia ter tomado café antes de entrar em cena. Rita Pavone cantava e nós ficávamos a pensar que talvez também pudéssemos ser modernos. O problema era explicar isso aos pais ou avós.
- Onde vais?
- Vou ali.
- Ali onde?
- Ao cinema.
- Ver o quê?
- A Rita Pavone.
E o avô ficava com aquele olhar de quem estava a tentar perceber se aquilo era cinema ou uma doença passageira.
Mas o grande perigo sentimental talvez fosse Gianni Morandi. Gianni Morandi tinha aquele ar de rapaz que parecia ter saído diretamente de um postal italiano para complicar a adolescência de meio mundo. Cantava, sorria e fazia parecer que apaixonar-se era uma coisa simples e nós acreditávamos. Só mais tarde descobrimos que não era. Na verdade, apaixonarmo-nos naquela idade era uma espécie de curso intensivo sem professor. Gostávamos de uma menina da escola. Depois de outra. Depois daquela que passava na rua com um vestido bonito. Depois da prima de um amigo. Depois de uma atriz que vivia a milhares de quilómetros e que, evidentemente, nem sabia que nós existíamos. E assim surgiam as primeiras paixões platónicas. Platónicas porque não havia outra maneira. Não havia telemóveis, mensagens, redes sociais, emojis nem likes. Se gostávamos de alguém, tínhamos duas hipóteses, olhar para ela ou apenas escrever o nome dela em todos os cadernos. E mesmo escrever o nome já era uma operação de alto risco.
O Cine-Moçâmedes era, portanto, uma espécie de universidade. Ali aprendíamos geografia, porque conhecíamos países onde nunca tínhamos estado. Aprendíamos música. Aprendíamos romances e paixões. Aprendíamos sofrimento. E, sobretudo, aprendíamos que no cinema toda a gente tinha problemas muito maiores do que os nossos mas, curiosamente, quase todos acabavam a cantar.
À saída, voltávamos para a rua de Moçâmedes. O filme terminado. As luzes acendiam-se. E nós regressávamos à vida real. Sem orquestra. Sem Marisol. Sem Rita Pavone. Sem Gianni Morandi. E sem ninguém a aparecer de repente para nos dizer que éramos talentosos. Mas levávamos qualquer coisa connosco. Levávamos a imaginação.
A magia daqueles filmes foi terem-nos ensinado que crescer não era apenas ficar mais alto. Era começar a imaginar quem gostaríamos de ser. Eu, naquela época, ainda não sabia muito bem quem queria ser. Mas uma coisa sabia, se um dia a minha vida tivesse banda sonora, queria que começasse no Cine-Moçâmedes. E, se possível, com a Rita Pavone a cantar. Porque Joselito podia ter uma voz extraordinária, Marisol podia ser encantadora e Gianni Morandi podia fazer suspirar meio mundo, mas nós, os pré-adolescentes de Moçâmedes, tínhamos uma vantagem, saíamos do cinema e ainda tínhamos uma rua inteira para sonhar.
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