recomeça o futuro sem esquecer o passado

27 de setembro de 2026

Fui passear na avenida e dei-me bem

O sol do final de tarde batia na terra vermelha da avenida, mas a verdadeira luz vinha do fato de domingo do meu avô, um azul-petróleo de pano tão rijo, que acho que se o avô se dissolvesse no ar como que por magia, o fato continuava de pé, sozinho, a cumprimentar os passeantes. Corria o ano de 1970, mais coisa menos coisa, e passear na avenida com os meus avós não era um mero exercício físico nem obrigação social, era um desfile militar de etiqueta, vaidade e absoluta desconfiança em relação ao futuro.

O meu avô, sereno e sério, caminhava com a postura de quem tinha fundado o concelho, usando o cabelo grisalho penteado para trás, com brilhantina, sapato de verniz que no fim ia ficar parecia era tijolo, costas direitas, olhos abertos como que a olhar para dentro das pessoas. Não era maldade ne, estava zangado com o mundo. Era só mesmo a pose natural de ser dele. Ao seu lado, a minha avó desfilava de permanente impecável, feita no sábado no salão da D. Carlota, e eu achava que ela dormia sentada para não despentear aquela estrutura arquitetónica à prova de furacões e ventos vespertinos, segurava a mala delicadamente na mão contrária ao lugar do meu avô. D. Leovegilda era primorosa na seu fato de xadrez branco e preto

A avenida em 1970 era o epicentro do choque geracional. De um lado, rapazes de cabelos compridos e patilhas gigantescas para além das calças à boca-de-sino que pareciam varrer a areia vermelha bem pisada à sua passagem. Do outro, o meu avô, que olhava para aquelas bainhas voadoras com o desgosto de quem prevê o fim da civilização. 

- Olha para aquilo -  resmungava ele tocando-me no ombro - gastam o dobro do tecido para parecerem um sino de igreja e nem um nó de gravata sabem fazer!

Cada dez metros, pelo menos na minha cabeça, exigiam uma paragem estratégica para uma saudação protocolar. O meu avô levantava acenava a cabeça com uma precisão cirúrgica. 

- Muito bom dia, Sr. Doutor! Como está minha senhora. - para a senhora que ele sabia perfeitamente ter falado mal da nossa família em 1958 ou mesmo antes de eu ter nascido. Mas ele não tinha zangas, nem amuos, nem maus fígados.

A minha avó, pelo seu lado, desempenhava o papel de radar de intriga social. Não olhava em frente; olhava na diagonal, medindo a bainha dos vestidos das vizinhas e descobrindo escândalos através do movimento das cortinas das janelas. 

- Viste a filha do barbeiro?-  cochichava ela sem mover os lábios para a minha mãe  que caminhava do lado da mala da minha avó. Acho eu que esta técnica de falar baixinho tinha sido apurada nos muitos anos de rezar o terço. - Olha aquela, trouxe uma saia dois dedos acima do joelho. O pai deve estar cego.

O ponto alto da expedição era sentar num banco corrido, de baixo do caramanchão de buganvílias que bordavam um dos lados da avenida. Ali iam passar todos os que iam e vinham nos domingos de tarde no seu passeio pela avenida. A minha mãe, provocadora estava alerta para mais uma qualquer brincadeira com uma sua amiga que estava descuidadamente a passear. Era susto sobre susto. E ainda por cima ria enquanto me olhava.

- Mãe, isso não se faz. As pessoas podem ficar gagas! - repreendia eu a minha mãe. Mais ela fazia. 

Passear na avenida em 1970 com os meus avós era a garantia de que o mundo podia estar a mudar a um ritmo vertiginoso lá fora, mas ali, entre quem ia de norte para sul ou vice versa, a autoridade máxima continuava nas mãos de quem guardava rebuçados de mentol no bolso do colete, o meu avô.



Sanzalando

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