recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de setembro de 2026

era assim a rádio

Ainda me lembro de com os meus cerca de 10 anos sentar-me a ouvir rádio na sala da casa do avô. Era rádio e giradisco, um móvel completo com quatro delicados pés. Era lindo. O ponteiro vermelho navegava a passo de lento pela escala do rádio a válvulas que ocupava o lado direito daquele móvel Pousado na sala, contra-lateral ao móvel dos cristais que mais não eram que um serviço de copos finos, bem como um serviço de mesa que devia ter sido prenda de casamento da minha mãe. Era o mais importante e mexido móvel daquela sala.

Depois de alguns minutos de um chiar que parecia o fritar numa frigideira gigante, um estalido de válvulas em sofrimento e a voz: pontual, nasalada e com uma dicção tão empolada que parecia ter sido engomada com o ferro de engomar a carvão que a minha avó tinha.

"Da Emissora Nacional, transmitimos para todo o Ultramar... e territórios adjacentes!"

Nos anos 60, nas terras de Angola, o rádio não era apenas um aparelho: era o único parente saudável da família. Chegava a todo o lado. Nas roças de café, nos postos administrativos onde o administrador já falava sozinho há três meses, e nas varandas onde a malta se juntava para beber uma Cuca bem fresca enquanto tentava perceber o que se passava no mundo.

O programa começava invariavelmente com uma marcha militar para acordar os mortos, seguida pelo momento mais alto do dia: as mensagens e ofertas musicais. O locutor, com uma gravidade de quem está a ler o Testamento do Rei, começava a desfiar a lista:

“A D. Gertrudes, em Silva Porto, envia saudades ao seu afilhado Tonito, recém-chegado no paquete Vera Cruz, e oferece-lhe a canção ‘Cheirinho a Alecrim’. Nota da redação: a D. Gertrudes lembra também ao Tonito que ainda não pagou a dívida do alfaiate.” É evidente que esta parte já é delírio meu mas que às vezes apetecia brincar apetecia.

Depois também havia as grandes rádios provinciais que entre a publicidade indispensável ao sabão Clarim que garantia lavar desde o fato de domingo até ao motor da carrinha e uns comprimidos milagrosos para a malária que sabiam a sabão de lavar a roupa, lá vinha a música. As emissoras oficiais tentava impingir o fado corporativo e umas orquestras de salão que punham qualquer um a dormir em pé, mas o rádio tinha vida própria. Assim que a Emissora Oficial abrandava o cerco, o ponteiro saltava para as rádios privadas ou vizinhas. E aí a confusão era gloriosa: Roberto Carlos a berrar sobre o seu calhambeque, o semba a começar a partir tudo nos musseques, guitarras elétricas desafinadas dos conjuntos académicos locais e, se o vento soprasse a favor de Brasavile, um rumba congolesa com tanto ritmo que fazia até o cão da família abanar a cauda em contratempo ou a Voz Combatente que dava informações que nós não podíamos ouvir e nunca comentar.

Às nove da noite, no rádio clube local era a hora do Tic-Tac. A família inteira calava-se para ouvir histórias de  embalar ou episódios recorrentes na cidade com a malícia própria do Sr. Director da Rádio que tinha um paleio que, acredito vendia areia no próprio deserto. Era hora sagrada de ouvir rádio

À meia noite, quando a A Portuguesa tocava e o sinal se afundava de novo na estática, ficava apenas o som dos tubos a arrefecer com um estalido suave e o rumor dos pirilampos que eu pensava não existirem. A emissão terminava mas com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, à mesma hora, o Sr. Tonito continuaria sem pagar ao alfaiate e os discos pedidos iam voltar...



Sanzalando

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