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Conversas à Mesa
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14 de fevereiro de 2007
13 de fevereiro de 2007
Absorver e habituar
Eu conto cada obstáculo ultrapassado. Um de cada vez, o somatório, as parcelas, tal como se fosse uma simples conta de somar que se vai diminuindo.
Enfim, todos nascemos loucos, outros continuam-no para sempre. Eu procuro-me no meio do termo.
Hoje fez sol daquele sol que derrete a sola do sapato. Mas caminhei na minha caminhada de velocidade cruzeiro uniformemente desacelerado. Novos caminhos porém ainda não totalmente abertos. Será que lhes conseguirei abrir? Bem, não tem mais nada que fazer do que dar tempo no tempo.
Mas que importa mais do que estou a caminhar com os meus pés no lugar que quero, como quero e com quem quero.
Mas falar da cidade, bem, aí me dá um aperto no peito… Não gosto de nenhuma das Luandas que conheço. Pode ser só uma questão de hábito, de habituação. Gosto mesmo é das minhas cidades lá do sul. Vou ter que arranjar tempo para lhes abraçar.
Sanzalando
12 de fevereiro de 2007
Hoje faz de conta
Às 5.20 da madrugada acho o céu queria cair, mas por volta das sete se arrependeu. Minha memória meteorológica é demasiado fraca para dizer que não via chover assim faz muito tempo, mas que a chuva era de pingo de quilo eu não vou esquecer assim dum pé para a mão.
Mas hoje o dia não me deu nada de novo, tirando essa madrugada chuva.
Ontem não te falei porque andei pela província do Bengo, uma divisão da antiga província de Luanda, deixando esta última só mesmo esta cidade. Ou será estas cidades?
Para mim existem 3 Luandas. A cidade velha, com as velhas ruas rodeadas de novos prédios ou torres, as estradas engarrafadas que nem linha de produção de refrigerantes em horas de verão, ar de fumo irrespirável por aqueles que escolhem a maneira mais saudável de se deslocar, que é a pé. Uma cidade em constante limpeza mas que não deixa de ter pó. Eu sei que hoje era mais lama, mas mesmo assim os de amarelo vestido não largaram a sua vassoura metálica e os seus apeadeiros de sacos de plástico à espera do velho tractor que lhes vem recolher. Não sei se é velho de ser idoso, mas o seu fumo negro mostra muitas voltas dadas na vida daquele engasgado motor.
A outra Luanda é dos milhões de pessoas que se acotovelam nos bairros de lata feitos de cimento e sem estudos de pormenor, sem esquadria, sem forma geométrica definida. Esta Luanda doente, deslimpa, porém com alma e com identidades. Esta Luanda herdada de outros eras porém muito crescida por tempos quentes doutros domínios. Mas hoje não há capacidade de mobilização, convencimento de mudanças. Hábitos adquiridos que só a força poderia vencer, mas que não é politicamente correcto fazer. Talvez um dia se consiga usar a esquadria. Esta Luanda não lhe conhecia e não lhe conheço senão menos que um décimo ou centésimo.
A outra, fica para os lados do Sul e lhe desconheço ainda na totalidade, só mesmo ter lhe ouvido falar.
Mas tirando o facto do papel X ter acabado de chegar, o dia de hoje não existiu.
Sanzalando
11 de fevereiro de 2007
10 de fevereiro de 2007
Um conto de S. Tomé
O sol brilhava, intenso, naquela manhã de domingo, na praia junto à fortaleza velha. Estirados sobre a areia, os garotos brincavam, descontraídos, com a água morna do mar da Praia Perigosa, que nem pelo nome lhes parecia meter qualquer receio.
- Eh pá! Água está tão fixe hoje que coisa não dá gente vontade de sair de praia! – Bube gostava dos dias assim, o sol todo aberto no céu espelhando-se nas águas calmas da baía, o vento brando, os falcões voando baixo, atentos a um ou outro peixe mais distraído.
- Está fixe, mas mais fixe ainda é logo quando gente ir pá Correia…- Cache antegozava o prazer da tarde nos confins do mato, o verde luxuriante da paisagem, o bulício à volta do quintal da festa…
- Mas é melhor gente ir cedo, porque quintal vai estar cheio depois de caça…- disse Kununo, em tom prudente. Os outros presumiram logo que falava do tchiloli, sua paixão comum, e todos sabiam como ele que era após a cena da caça que o tchiloli ganhava animação própria, o desfile ininterrupto das personagens,
a sequência mágica dos sons, o enredo da estória prendendo um a um todos espectadores.
- Chê, gente tem que ir desde princípio? Eu digo vocês, se fosse só p’ra mim gente via só parte de fim… - retorquiu Mingo, como sempre irrequieto nos seus onze anos. Ainda que se tratasse do tchiloli, custava-lhe estar parado horas a fio num mesmo lugar.
Eram horas de partir. O sol já perdia brilho quando, bordejando a praia pelo seu flanco sul, começaram a caminhar despreocupadamente pela avenida. Por mais que os pudesse tentar a vontade de ganhar algum dinheiro, no código por todos respeitado domingo não era dia de trabalho e, por isso, tomaram logo o pequeno atalho que os conduzia à Chácara, onde habitualmente se concentravam para comer e descansar após as lides da venda.
O sono, porém, os enganara. A tarde já ia um tanto ou quanto avançada quando tomaram o caminho da Boa Morte, rumo à Correia, pelo que tinham de se apressar para não perderem o melhor da festa.
A meio do percurso começou a chegar-lhes a música viva e mágica que, vinda do quintal pejado de bananeiras e jaqueiras do
velho Nenené, invadia toda a área em redor, infiltrava-se pelos quintés, para finalmente se perder algures nas grotas que conduziam ao vale. A pequena clareira do mato era o palco onde contracenavam os actores, e os assistentes, de tanto conhecerem a peça, quase que se confundiam com aqueles na arte de representar.
A uma rápida troca de olhar, compreenderam que tinham chegado no momento próprio. Aqueles acordes eram inconfundíveis, pelo que fizeram a correr a última parte da caminhada para viverem em pleno o que estava para acontecer.
A multidão comprimia-se, entusiasmada, em redor do pequeno espaço. A animação chegava ao rubro. Por entre a poeira que se levantava do chão, Bube e os amigos conseguiam ainda assim espreitar a figura franzina do Moçu Kata, todo de branco vestido, toalha de linho presa ao pulso, escapulindo-se à obstinada perseguição que lhe movia Reinaldos de Montalvão. À medida que o miúdo driblava os intentos da temível personagem, a assistência exultava, crescia o ritmo da música bem como os aplausos dos presentes.
Bube vivia como sempre um momento especial. A paixão pelo tchiloli vinha-lhe desde muito cedo, quando pela mão da
mãe, em Madre de Deus, indiferente ambos aos raios inclementes do sol, passavam horas a fio embevecidos ao som arrebatador dos tambores e dos pitu doxi.
De uma coisa não podia haver dúvidas: ele e os amigos, meninos endurecidos pelas pelejas da rua, gostavam do garoto de onze anos que desafiava a figura mais tenebrosa da corte baixa, as roupas negras, o bigode insistentemente repuxado com gestos bruscos, as passadas largas como as do galope de um cavalo em plena pista. Sentiam-se bem ao assistir à luta tão desigual e, como tinham sensivelmente a idade do Moçu Kata, era como se o exemplo deste os estimulasse a enfrentar a vida dura nas ruas da capital, a algazarra dos carros, o frenesim dos vendedores entrechocando-se nos passeios:
- Chê, freguês, não sai nada? Vê, caldo está quase cabá …!
Bube habituara-se àquela agitação desde que, dois anos antes, a mãe sucumbira a um acidente junto à igreja da Conceição, em que ele próprio escapara por milagre. Tia San Doquê, uma mulher de feitio inconstante, ainda o recebera em casa nos primeiros tempos, mas durou pouco a convivência entre ambos: ela era amiga da bebida, quando não havia ússua entrava na cacharamba e vice-versa, o ar néscio e os olhos de um vermelho
lúgubre fixos sobre ele a anunciar violência iminente. Quando assim era, batia-lhe com persistência e raiva, como se fosse ele a razão de ser de uma vida que há muito se transviara e perdera qualquer sentido. Daí, a fuga para a liberdade da rua.
Uma vibrante exclamação corta, de súbito, o ar. Um lampejo de frustração invade por momentos os assistentes. Na luta do fraco contra o forte, eis que os factos apostam em trazer-lhes de regresso ao mundo real. Uma vez mais parece ter-se cumprido o destino: o Moçu Kata é preso, rebuscam-lhe os bolsos e sacam-lhe a misteriosa carta, motivo da perseguição. Sai vencedor o odioso Reinaldos.
Os garotos entreolharam-se, entristecidos. Mais do que qualquer outro, Bube está desolado. Invade-o a desilusão e a raiva pelo desfecho, embora já conhecido. Uma lágrima furtiva irrompe-lhe pelo canto dos olhos. Sabe que costuma ser assim, “desde que o tempo foi tempo”, como lhe dizia a mãe, de que nunca se esquecia.
Mas lá bem dentro de si mantinha aceso o desejo de que o mais fraco pudesse um dia triunfar, para contentamento dele e de muitos. Será que nem no mundo fascinante do tchiloli, em que, num acto de justiça, o Rei chega mesmo a condenar o próprio
filho, poderia acontecer, uma vez que fosse, que Reinaldos perdesse para o pequeno mensageiro?
Passava das sete da tarde quando deixaram Correia. A noite ameaçava cair, mas curiosamente crescia neles a esperança de que, um dia, tudo poderia vir a ser diferente.
Albertino Bragança
Sanzalando com MC
9 de fevereiro de 2007
Hoje vos folgo
Parei numa esplanada, longe do mar, e ali, saboreando a minha fanta supergeladinha, fui admirando as bundas que abundam num vai e vai de quem muito tem de andar nestas intermináveis ruas desta cidade.
Hoje me folguei e lhes dou folga nos ouvidos de me ouvirem.
Hoje é o dia 8 da minha vida…
Sanzalando
8 de fevereiro de 2007
Novo dia novo
Caminho quilómetros arrastando a minha angústia contida, nostalgia doentia, sonhos mais sonhados e revistos em nova versão.
Hoje caminhei como novo. O ontem, dia vão, não foi vão de escada mas arrefecimento útil da máquina que transporto-me.
Cada dia um degrau, um pedaço de caminho.
Um SMS me diz que o documento X tá pronto e segue. Um sorriso se estampa no rosto. Um degrau que falta par aquele lance de escada estar concluído. Aos poucos tudo vai tendo forma, se descortina a definição geral, panorâmica em 3 D. Será que eu mereço os amigos que tenho? Eles sabem e eu nem lhes pergunto.
Mas hoje entrei por ruas novas, que existem há séculos, pás no passear de caminhante têm outra vista. Descobri mais uma vez que o mundo é redondo. O caminho de ida é sempre mais longo que o de volta. É mesmo só porque eu não conheço e para não perder vou pelas referências mentais. Depois revejo e digo, pôpilas, andei o dobro que o necessário. Mas ao menos exercito os músculos lachos da falta de uso.
Bem na verdade, outra coisa boa está a acontecer, o número de cigarros/dia diminuíram de forma acentuada.
Descubro um lugar. O meu lugar, o lugar que sempre esteve parece à minha espera. O sorriso deu lugar ao riso. Os olhos têm brilho e não são já tão baços como eram. Ainda não têm o brilho brilhante que vão ter, a expressão expressiva de felicidade. Mas falta pouco. Adivinho o que sei vai acontecer. Se me enganar me enganei, mas eu sinto a corrente sul.
Será que eu mereço os amigos que tenho?
Sanzalando
7 de fevereiro de 2007
Hoje desconsegui
Hoje amanheceu, acho eu, mais quente. O dia tinha dois programas e avanço já na narrativa que não cumpri nem que um só.
Na hora que virou habitual de cerca das nove horas aí eu vou eu dar corda nas minhas pernas pelas limpas ruas da Cidade de Luanda. Pois é, os homens e mulheres de amarelo, mesmo no meio do trânsito, não param de varrer as ruas. Pelo menos naquelas que os meus pés pisam.
Lá entrei eu no meio dos carros que marcham em velocidade de cruzeiro de 10 metros em cada 10 minutos. Por isso a minha escolha de dar corda nas pernas e não sentar a bunda sobre rodas e ar concessionado. Ainda não tinha andado metade do primeiro caminho e algo de estranho estava a começar a passar. A cidade à minha frente baloiçava. Que me deram a mais no café? me perguntei eu mesmo só para mim. Mas lá fui numa velocidade mais lenta, vendo tudo baloiçando como num qualquer parque infantil ou num navio em alto mar. Mas foi de pouca dura. Desconseguia mesmo já de ver a proa do navio. Me encostei numa árvore, acho era acácia, que me esqueci de lhe perguntar. Não sei de onde veio mas me apareceu um camba a me perguntar o que tinha pois me viu baloiçar no passeio que até está direitinho. Lhe olhei mas ele não estava bem direito. Ele me sentou no passeio e me disse que eu estava descabeçado. Lhe olhei com ar de agradecido. Falou mais comigo e me disse vamos na Farmácia Africana. Apoiado nele para não ziguezaguear que até parecia eu tinha bebido este mundo e um outro qualquer, lá fui. Ele explicou na Farmácia mesmo o que tinha visto e me mediram a tensão. Hué, assim o sangue não lhe vai na cabeça e por isso ele estava descabeçado, ouvi eu da voz do bom camba. Agora lhe tinha entendido. Agora vais fazer mais como? Assim não podes andar na rua, pá. Pensei e disse que tinha de ser pois não tinha outra forma de voltar atrás. O camba saiu da Farmácia e depressa voltou. Anda daí, meu amigo te vai levar. Assim foi. Num Toyota Corola voltei para casa, acompanhado pelo camba e o seu amigo.
- Quanto lhes devo?
- A vida não tem preço! e arrancaram e eu nem sei se disse obrigado ou não.
Sanzalando
6 de fevereiro de 2007
Um dia normal
Passo a explicar que tou a ver a tua cara de espanto.
Os carros estavam em fila e não andavam. Para passar para o outro lado foi necessário gincanar por no meio deles, fazer raviangas nas pessoas que vinham do outro lado para cá no mesmo método. Mesmo no meio da estrada, porque um carro começou a andar eu dei um salto para o lado e fui de ombro contra outro que vinha em sentido contrário. Num automático pedi desculpa e ele, mais velho que nem eu, me respondeu:
- Somos homens e aguentamos cargas de ombro
olhei bem para trás, gargalhei e mais ainda depois de ter visto que ele levava vestido uma camisola do Benfica, melhor, do Mantorras. Tive mesmo que parar, rir e andar neste calor de sauna ao ar livre são coisas que não combinam.
Recuperado lá segui no meu destino.
Aí tive que começar a fazer perguntas para entrar na porta certa. Mais uns quilómetros de marcha, porque era mesmo do lado de lá em relação onde me iniciei nas informações.
Cheguei, perguntei onde podia encontrar a pessoa que eu ia ver e conversar. Está a fazer exames, mesmo desses que chumbam. Esperei. Uns 15 minutos depois me apareceu. Só lhe conheça de nome e de História. Minha timidez veio na superfície da minha pele suada que logo ali secou. Como lhe devo tratar mesmo, me assaltou a duvida. Mas a sua simplicidade e simpatia me devolveram no normal.
Hoje já tinha reprovado 50% dos que lá tinham ido, sendo que um era a 4ª vez que lá ia. Me pensei ele está com azia. Coisa de professores, imaginei logo o filme recordando outras eras, outros tempos.
Mas que nada. Falámos pouco pois ele tinha de continuar. Combinamos um café para amanhã ou coisa assim. Estou ansioso. É o que se chama poder falar com a História.
Saído dali me dirigi ao segundo ponto da ordem de marcha.
Mais uma corrida, mais uma viagem que é grátis.
Cheguei lá e depois de escrever uns papeis me disseram são precisas três fotografias. Procurei na carteira o envelopezinho e nada de lhas encontrar. Não, não vou voltar atrás e depois à frente. Não me ia aguentar. Entrei numa pequena loja de fotografias, fotocopias e cabeleireiro. Disse que queria fotos para isto. Me disse ele na sua pronuncia chinoangolana que precisava gravata. E agora? Ter aqui.
Sanzalando
5 de fevereiro de 2007
Notas soltas
Como que é data histórica lhe comemorei com amigos que eram já amigos e amigos que passaram a ser agora amigos.
Eram mais ou menos aí nas onze horas da manhã lhes me juntei lá para os lados do Futungo. O tema principal era mesmo uma feijoada que foi acompanhada de muita conversa que, como nas cerejas se foi desenvolvendo nas aventuras e desventuras da História, nos entremeios de cada estória de cada um e mais de um outro tantos que ali não estavam.
Na verdade foram para aí uma onze outras horas em que fiquei a conhecer estórias da História que nem cheirava.
O zulmarinho ali a meia dúzia de metros não convidava a um mergulho pois ainda se nota os efeitos das chuvas que fizeram estragos de muita monta e que ainda lhes olhei com os olhos de bom ver.
Assim mesmo, sentado num degrau ali estivemos no blá mais blá que as horas apenas voaram velozes contribuindo para a construção do meu edifício mental, para a edificação do meu castelo de decisões, apreensões e certezas.
Mas hoje mesmo é que as coisas estão piores. Não dá nem para sentar direito. O degrau acho esparramou o lugar mesmo onde as costas mudam de nome.
Assim, na manhã do dia de hoje, aproveitei para mais uma caminhada aqui nas redondezas e deu para ver que ontem acabaram de limpar o leito do Rio Seco, a brigada de limpeza, vestida de amarelo continua de vassoura, tractor e outras máquinas na limpeza, penso eu que deve estar alguém com medo que venha outra coisa do mais igual ao das passadas semanas.
Pena mesmo é que os anos de cigarro impeçam de caminhar mais um pouco mais de tempo. Mas acho que, com este treino, daqui a uns dias ando a maratona e volto. Gargalhei-me.
O tempo está mesmo para assar ananases e fritar mioleiras pelo que agora me refrescarei ao ritmo de uma loira tropical bem geladinha.
Sanzalando
4 de fevereiro de 2007
3 de fevereiro de 2007
Dia 1, que é 2 mas afinal é 1 (2)
- Sim senhor. Então vamos precisar disto, disto e disto.
Vamos? A Senhora também vai precisar? Eu não disse, só pensei e desta vez confirmei-me que pensava só para mim.
- Temos um problema. Me falta isso aqui. Vou ter que mandar vir de lá.
- Por agora não podemos fazer nada. Aguardemos então.
- Claro. Vamos fazer mais como? isto era eu a tentar ganhar tempo para não ir já para a rua banhar-me no bafo quente que até parece empurra a gente para trás.
- Quando tiver os documentos todos, volte cá para darmos início ao processo.
Não tive mais hipóteses e tive mesmo que entrar na minha luta de sobrevivência. Ponto 3 estava só pensado para a tarde…
No passeio olhei na direita, na esquerda e em frente. O mais fácil mesmo era ir em frente, avenida larga e com poucos carros que passam velozes. Assim ficava ali passadinho a ferro e não ia mais sofrer porque não tinha o documento X e nem dificuldade de meter ar dentro de mim.
Mas isso seria o mais fácil e eu não gosto das coisas assim fáceis.
Decidido segui na direita a caminho do ponto 3. Desconsegui lá chegar. Me apareceu assim na frente uma esplanada com um telheiro que só de olhar já me imaginava refrescado. Fui lá e me sentei. Com este calor ia mesmo uma geladinha. Mas que nada. Uma Fanta nacional. Que delícia. Me refrescou até a alma e me fez lembrar da IR e lhe mandei uma mensagem a pedir o documento que falta. Logo logo na volta um SMS a me dizer que sim pois claro. Quem tem amigos é rico. Aqui neste campo eu sou mesmo muito rico.
Sentado na Esplanada, já com o cérebro a funcionar resolvi mandar SMS nos amigos daqui só mesmo para dizer que estou mesmo aqui.
Hué…. Respostas logo em voz a dizer que tinham recebido e que coisas e tal… e já com combinações para isto e aquilo bem obrigado mas me deixa só aprender a respirar esse calor, que até a bateria do dito telefone estava a ficar assim que nem eu antes de me sentar na Esplanada, vazia de energia.
Hora do almoço chegou e nessa hora eu estava já em casa. Quem sofre assim tem de meter combustível sólido no papo, né. Tas a ver?
À tarde, eram assim como que 2 e meia e directo no ponto 3. Ficas na fila. Quando chega na tua vez te sentas na frente dum simpático jovem, eles eram seis, te pode calhar masculino ou feminino. Me calhou mesmo masculino. Assim meus olhos não brilharam.
- Olhe para a câmara. fez um flash.
Ele começou a escrever no computador as coisas que tinha de escrever.
- Indicador da mão direita – apontando para um digitalizador de impressões digitais.
- Dedo médio.
- Indicador da mão esquerda.
- Dedo médio
lhe obedeci e me deu um papel para ler e se estiverem os dados todos correctos assine na última linha.
Tudo certinho e direitinho, assinei.
- Aguarde, faxavor.
Me fui sentar numa cadeira de escola, sem ar condicionado mas por causa estavam as janelas todas abertas entrava um fresquinho saboroso. Me chamaram e deram um cartão 5 estrelas que tem tudo, desde foto impressão digital, nome e coisas mais incluindo o número 32453.
Com esta ganhei coragem e afinal estamos no pelotão da frente. Se é para se fazer então se faça bem.
O dia foi ganho que fiz o que estava planeado e me sobrou tempo.
Fiz bem ter escolhido andar a pé.
Sanzalando
2 de fevereiro de 2007
Dia 1 que é 2, mas afinal é 1 (1)
Começou logo com um despertar madrugador porque o calor entrou na respiração e não dá para estar assim deitado. Há mesmo que ligar o ar condicionado, mesmo que o barulho dele não deixe mais fechar os olhos. Mas dá para respirar e pensar que assim vou sobreviver. Quem foi que me mandou a mim esperar tanto tempo assim que até desabituei como é que era.
Já com o cérebro oxigenado decidi pensar no que hoje tinha que fazer e desenhar no pensamento todo o percurso.
Vais de carro ou vais a pé.
Também a gente começar logo o dia de trabalho com um dilema é obra que não lembra nem ao diabo pelo que a decisão foi rápida.
Vais a pé que precisas fazer exercício, pensei eu cá para comigo como que a querer castigar-me.
Dois telefonemas e num deles me disseram, não vais conseguir nem fazer dois dessas coisas. Tentarei, lhe respondi na minha calma que comecei a aprender a ter.
E assim foi. Meia hora de andado cheguei no primeiro ponto da ordem de hoje. Acho mesmo estava como que debaixo do chuveiro. Todinha a roupa se colava no corpo, as gotas pingavam nos óculos parecia estava a chover, mas era salgado quando entrava na boca.
Hué! Ar condicionado. Me sentei na cadeirinha da entrada, me reconfortei e recomecei a respirar.
Me chamaram quando chegou a minha vez e com uma dedicação e delicadeza em 15 minutos dei com o assunto um como tratado, que estava mesmo.
Antes de me levantar me lembrei que ia sair daquele fresquinho e enfrentar esse bafo de lá de fora. Desmoralizei. O funcionário me olhou e perguntou:
- Quer um copo de água?
Imagino só qual foi mesmo a minha cara quando aquele pensamento me passou na frente.
Bebida a água vamos para o destino dois. 40 minutos a andar. Quer dizer, esse foi o tempo que eu demorei a chegar mas acho fiquei a saber os pontos de sombra todos onde eu podia mesmo saborear o poder respirar.
Entrei e novamente banho refrescante de ar condicionado.
Daqui não saiu mais, pensei eu comigo mesmo. Mas acho devo ter pensado alto que logo me perguntaram:
- Faxavor?
Desmoralizei porque nem deu tempo para me encontrar no meio de tanto suor.
Sanzalando
1 de fevereiro de 2007
1º dia, dia zero
Mermão me aguardava cá fora desde ainda antes do gigante pássaro lhe ter posto as rodas no chão. Vais ver ele tinha pressa para me ver.
Bem, ainda estou a aprender a respirar pelo que hoje me fico aqui, não vá eu esquecer como se lhe faz e caia roxinho aí num canto.
Lhes voltarei
Sanzalando



